segunda-feira, novembro 18, 2013

10ª Maratona do Porto

A minha 9ª maratona de estrada (20ª absoluta), coincidiu com a 10ª edição desta que é, há muito, a mais participada e a melhor maratona em território nacional.

Pelo 4º ano consecutivo alinhava à partida da distância rainha do atletismo, depois de em 2009 ter corrido a “Family Race”, prova de 15 km, integrada na mesma organização, e que dá um colorido especial à partida, junto ao Palácio de Cristal, fazendo com que a multidão à partida seja avassaladora e arrepiante. Tanta gente tem aderido à corrida e às diversas provas que se organizam nesta cidade, que parecem ser, a seguir à noite de S. João, as ocasiões em que mais gente se junta para uma manifestação, neste caso desportiva.

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Tinha como primeiro objectivo, como em todas as provas que alinho, terminar sem sequelas, e de preferência em condições de correr no dia seguinte. É que gosto tanto de correr, que não arrisco nada para fazer melhor. Acho que devo cerrar os dentes e contrariar as fraquezas, mas nunca contrario o corpo, só a cabeça. Talvez só assim se justifique a ausência de lesões nestes anos de corrida. O segundo objectivo era terminar abaixo das 4 horas. Tinha falhado este objectivo nas 2 anteriores edições por ridículos 4 e 2 minutos respectivamente.

O UTAX tinha deixado as suas marcas, principalmente no “motor”. Sem o gripar, deixara-o cansado, sem capacidade de exceder as 3.000 rotações. Notei na descida da Avenida da Boavista, entre os 4 e os 7 km, que aquele não era dia para grandes veleidades, atendendo ao facto de não conseguir, a descer, baixar dos 5’10/km.

Nada de grave. A experiência que acumulei em tanta prova e treino, levou-me a reflectir uma simples evidência: “Se não dá para mais, não forces”, pensei. Lá fui no meu ritmo em direcção a Matosinhos, cumprimentando entusiasticamente todos os que, já em sentido contrário seguiam em direcção à Foz.

Sabia que um ritmo entre os 5’30 e 5’40 seriam suficientes para me manter a “salvo” do balão das 4h, sendo este o objectivo interiorizado, a táctica de ataque à prova. Aprendi que, mesmo tendo no momento outras sensações, a regra de ouro é comer e beber sempre. Sem sede ia bebendo água e comendo 1 gel a cada 40 minutos de prova, que se revelaram fundamentais mais à frente.

Ao km 10, 55 minutos de prova. Houve tempos em que aceleraria feito doido para baixar aquele que era um tempo vergonhoso para uma prova de 10 km, mas como faltavam 30… e 2 (há muita gente que se esquece dos 2, e o que custam…), e como ainda estava à frente do balão das 4, não era grave, era bom. Siga. Viragem em Matosinhos, vamos lá até à Afurada. Porra, lembrei-me da minha primeira prova, que também passara ali e terminou na Praia de Matosinhos e o que tinha sofrido para não andar a passo. Que diferença…

Marginal fora, tempo formidável para correr, nada de vento como no ano anterior, nem chuva, nada a atrapalhar, nem uma desculpa para não atingir o objectivo 2. Era “só” ter juízo e não abusar. A marginal entre a Foz e a Ribeira é belíssima para correr. Fui por lá fora saudando e sendo saudado por público e outros atletas, já na companhia do Renato, dos Porto Runners, que havia feito um Ironman em Outubro, e muito perto do António Nascimento, que se prepara para dobrar a distância e que ia ali em ritmo de treino longo.

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A entrada na Ribeira foi um tónico de motivação, com muito público a saudar a passagem dos atletas horas a fio (muitos espanhóis, que são sempre animados e tanto incentivam), o que contrastava com a indiferença que imperava na margem Sul, onde os clientes habituais dos diversos cafés do antigo mercado de Gaia balbuciavam comentários de análise comparativa entre os níveis de preparação e fadiga dos diversos atletas que estendiam a passagem do pelotão por múltiplos “copos de três”. Era ali o “muro”. A ida à Afurada, com retorno ao km 26, era para muitos o flagelo dos km no corpo, ou menos preparado, ou mais fatigado, ou pouco cuidado nos primeiros km.

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Em cada viragem via os balões das 3h45 e das 4h à mesma distância, o que revelava coerência no ritmo e esforço. Ao chegar de novo ao Cais de Gaia e ao abastecimento dos 30 km, começo a ver caras conhecidas a fraquejar. A tentação de parar para beber é sempre maior que a força de seguir, temos que a contrariar. Foi o que fiz. Peguei em 2 garrafas de água e segui. Chegada à Ponte Luiz I, subida que parece sempre ter inclinação e distância superiores aos 100 m que tem, e alívio por saber que era “só” acabar, depois de uma pequena incursão à marginal Este, outrora a gigante ida ao Freixo. Alívio e cansaço. Começavam a pesar os km. A entrada no Túnel da Ribeira e aquele paralelo para calcorrear é sempre um momento de superação, temos que meter na cabeça que aquilo não é assim tanto e não caminhar, como muitos já faziam. Siga.

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Depois da Igreja de S. Francisco e da chegada ao alcatrão baixei ligeiramente o ritmo. Sentia-me cansado, chegara o momento de apelar mais um pouco à lucidez. Deixei seguir o Renato, que ia mais fresco e abrandei. Fiz um descanso activo até ao abastecimento dos 35 km, na Arrábida, com passagem pela Alfândega e o apoio do Miguel Santos, fundamental, como sempre, não parando e resistindo à tentação de acelerar. Mais 2 garrafas de água, mais um gel, sempre a trote. No Fluvial fiz contas de cabeça. “Rui, falta um trote de recuperação até ao Parque”. Fui passando “caminheiros”, muitos deles tinha visto junto ao balão das 3h30 e das 3h45, nem falava com os conhecidos, tal era o medo de contágio (naquelas alturas, só nos lamentámos, acabando por influenciar quem vai, como eu ia “nos arames”). Mais um pouco de paralelo junto ao Castelo da Foz, a subir ligeiramente, onde quase todos caminhavam e eu parecia sprintar. Nova recta conhecida, a Foz à esquerda e o abastecimento dos 40 ali tão perto. De repente passa por mim um “balão” que dizia “4h00”. Era a Conceição Grare a portadora das más notícias. “Anda Rui”, dizia, “anda que vamos para baixo das 4h00”. “Para baixo das 4?”, perguntei, “és tu o balão e vais muito rápido”. Felizmente o balão “oficial” vinha um pouco mais atrás, a Conceição estava a terminar a prova e esquecera-se de tirar o balão cujo ritmo tinha sido por ela orientado até a um determinado ponto, onde passara a responsabilidade.

Há alturas numa maratona em que parecemos adormecer. Aquele momento do susto que me pregou a Conceição foi o momento de despertar. Pouco depois da placa dos 40 km, mais caras conhecidas. O Professor Ascensão e a Marisa Barros ainda lá estavam, depois de os ter saudado mais de 2 horas antes, à passagem do km 15. A Marisa coloca-se ao meu lado a correr, peço-lhe encarecidamente para não fazer de lebre que me matava. Ela sorri, dá-me os parabéns “por mais uma”, e diz a sorrir “agora é só subires, já acabaste”. Que rico tónico. Olho para a frente e vejo o Castelo do Queijo e a bela da rotunda com que vinha a “sonhar” acordado. Entro na Avenida e de repente vejo um mar imenso de cabeças e corpos a batalhar contra o cansaço.

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Senti-me tão bem na Avenida que desatei a acelerar. As cãibras quiseram começar-me a lembrar da quantidade de km, mas eu fiz-lhes um “manguito”. Cerrei os dentes, levantei a cabeça e desatei a sprintar (pensava eu) Avenida fora. Vejo ao longe camisolas do Gaia Running, equipa de amigos que treina ao lado de minha casa, e reconheço uma cabeça coberta por cabelos brancos. Era o Lopes. Vamos lá apanhar o Lopes. Apanhei o Lopes, saúdo-o a ele, ao Luis Duarte que brilhantemente se estreava, e a mais um outro elemento da equipa, e de repente entrámos num “túnel” de gente: Atletas, público e familiares de atletas, que deram um final único, emocionante e que me levaram “ao colo” literalmente até à meta e ao objectivo cumprido. Olho para o relógio ao entrar na Avenida do Parque e vejo 3h58’58. Acabei com o cronómetro oficial nas 3h59’12, o que quer dizer que devo ter batido o meu record dos 200 mt Piscar de olho

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Baixei das 4h na maratona da minha cidade, depois de o ter conseguido já em Sevilha, Sevilha, que será seguramente a minha próxima incursão à distância rainha do atletismo.

As maratonas de estrada são para quem gosta de correr, como o balneário para quem gosta de futebol. É aqui que se sente a corrida na sua plenitude. Não há espaço para descanso, abastecimentos prolongados ou outros sossegos. Tudo aqui é intenso, das emoções à gestão do esforço, à velocidade, ao juízo. E tudo se revela fundamental para o sucesso, seja para os que terminam abaixo das 3h, 3h15, 3h30, 3h45, 4h ou que se limitam a chegar. Porque meus amigos, quando chegámos ao muro, que todos queremos adiar, seja aos 30, 32 ou aos 36, a distância que resta varia entre os 30 e os mais de 60 minutos a concluir, e se correr um minuto que seja com um empeno valente é duro…

É por isso que considero todos os que correm uma maratona verdadeiros campeões. Sofre-se muito. Sofre-se o que só nós, os que as corremos compreendemos.

Os que como eu tanto gostam de trail e tão pouco apreciam alcatrão, sabem do que falo. A experiência da maratona é o clímax da corrida de resistência à velocidade. E o ambiente de superação que se vive numa maratona é mesmo único.

Parabéns a todos!

Venha a próxima!

 

P.S. – Créditos das fotos aos sempre presentes: Lina Branco Batista, Miguel Martins, Paulo Rodrigues e Clinica Médica da Foz. Obrigado!

21 comentários:

  1. Muitos Parabéns Rui, por mais uma concluída com êxito e por mais este texto magnifico, transmitindo ao pormenor o que foi a tua corrida...ao ler, parece que sinto a tua corrida...a Maratona é tudo isso que escreves, e a do Porto é fantástica e acredito que vai crescer ainda mais. Foi uma "festa" lindíssima e tive muito orgulho em fazer parte.
    Grande abraço e até domingo....não sei o que me espera, estou um pouco ansioso (não receoso), mas estou a encarar a "coisa" com respeito,...só quero "curtir" a viagem e chegar ao fim.

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    1. Obrigado Carlos, Parabéns também pela tua excelente prova.
      E obrigado pela atenção que dispensas a este meu cantinho.
      Quanto ao próximo Domingo, deixa-te levar pelo prazer do passeio e compete apenas depois dos 50 km. Vais ver que custa menos do que parece. Não marques é nada para o dia todo.
      Lá nos encontraremos ;)

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  2. Demorou, mas cá está ela e bem merecida "reportagens" da tua 9ª maratona, onde graças ao "Lopes" que nunca espera por ninguém ;) conseguiste chegaste abaixo das 4 horas, Parabéns Rui !!!
    Abraço e agora até Paranhos

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    1. Não só graças ao Lopes. O Lopes foi a cereja no topo do bolo, uma excelente companhia, ele e o Luis Duarte, para acabar a prova.
      Obrigado, grande abraço!

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  3. Parabéns Rui
    Obrigado pelo conselho que me deste antes da maratona, (corre o 1º km como queres correr o ultimo) quem faz uma maratona sabe o que significa, foi para mim a prova mais expetacular que fiz, nenhuma distancia se compara aos 42,195 km. Parafraseando o nosso amigo José Manuel, acabar a maratona é como ir ao inferno e voltar.
    Até a 11ª Maratona do Porto.
    Abraço

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    1. Ora nem mais! E o final é o Céu ;)
      Abraço!

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  4. Parabéns. O Álvaro de Campos, perdão, o Rui Pinho "transfere" emotivamente em texto, as sensações de quem, endorfinado, consegue transpor as dificuldades e transformá-las em sucesso.O país precisa de ouvir os maratonistas..., talvez a realização de workshop no parque pudesse ajudar a mudar mentalidades.1 abraço e kilometros de amizade

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    1. Obrigado, amigo!
      Workshops, tertúlias, palestras... Ouvissem mais os maratonistas e revolucionávamos mentalidades.
      Abraço!

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  5. Mais uma Crónica fantástica!!! Não há a mt acrescentar aos elogios feitos!!! Mts Parabéns e obrigado pela partilha.

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    1. Obrigado Mauro e até Domingo, nos Amigos da Montanha. Parabéns pela tua maratona!

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  6. És grande, caraças. (Literal e metaforicamente)

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    1. E tu és uma querida. Beijo grande ;)

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  7. Parabéns campeão, gostei de ler a tua história na Maratona do Porto, com tantos pormenores acredito que aquilo não te foi fácil porque apenas pensavas no que estava para vir e não no que estava para trás, e numa cidade que conheces bem isso ajuda mas os metros e os kms custam muito mais a passar. O Trail é diferente, mesmo que a distância seja maior, aliás a referência que fazes percebo-a muito bem. Abraço e se fores a Barcelos boa sorte, porque eu se chegar só cortarei a meta pela calada da noite. Abraço

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    1. Obrigado Adelino. Lá nos encontramos, seguramente ;)
      Grande abraço!

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  8. Bom dia Rui,
    O meu nome é Miguel Alves, fiz este ano a minha primeira maratona (Porto); estou habituado a fazer 10, 15 e 21 Km e este ano aventurei-me nos 42Km. Após ler a Sua história verifico muitas semelhanças nos estados de espírito, mas tenho 37 anos e só participo em provas à 2 anos... tenho pouca experiência.
    Aos 33 km, quando saí do túnel da ribeira, uma forte caibra na coxa direita, deitou o meu ritmo "por água a baixo"; estava na casa dos 5.3 / 5.4. Terminei com 4H06m, mas dos 33 aos 42km foi PURO SACRIFICIO.
    Parabéns pela sua prova e pela descrição da mesma.
    Cumprimentos
    Miguel Alves

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    1. Parabéns pela coragem, Miguel. As maratonas são sempre sinónimo de sofrimento. É isso que nos faz voltar à estrada.
      A experiência tem que começar em algum lado. Força nos objectivos e nunca desistas.
      Abraço!

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  9. Boa tarde Rui,
    Muito parabéns pela 9 maratona percorrida, este ano fiz a estreia na maratona; este ano ja tinha feito 5 meia maratonas ( na casa das 2 h 15; 2 h 25min). O meu ritmo é lentinho, mas o objectivo era tentar chegar a meta a rondar as 5 h e num estado fisico aceitavel, a meia maratona passei em 2 h 25 dentro do que estava planeado, so q ue ao chegar aos 28 km o gemeo direito sai do "sitio", tive que parar por breves momentos e esticar a perna, escusado sera dizer que ate ao fim foi a andar e a correr, mas consegui terminar a prova em 5h 32 minut e 55 seg.Mas a alegria de acabar foi tanta que as dores desapareceram
    Gostei tanto que estou a ponderar em participar na maratona de sevilha, mas até la terei que perder peso ( porque os 96 kg que tenho atrapalham um pouco. Para esta maratona tinha conseguido perder uns 7 kgs.
    Muitas felicidades e até a proxima corrida
    Cumprimentos
    Marco Lopes

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    1. Marco, nunca desistir é o segredo. Fiz a minha primeira maratona com cerca de 100 kg e 6 meses depois a 2ª com 95. Daí para cá perdi mais de 10 kg. Também comecei lento, com uma 1/2 maratona em 2h20.
      Força, continua a treinar e até Sevilha!
      Abraço!

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  10. A próxima vens comigo, mas não te leve ao colo!!!

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  11. Este comentário foi removido pelo autor.

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  12. Fazes-me sempre arrepiar com as tuas crónicas!!
    Parabéns pela prova, pelo percurso até aqui, e por nos fazeres sonhar e reviver as tuas aventuras!
    Até Sevilha ;)

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