sexta-feira, julho 19, 2013

Salomon Agile 12

Lembro-me bem de ter comprado a minha primeira mochila para Trail. Havia pouco tempo que corria em montanha, não teria feito mais que 2 treinos e uma prova de 17 km, e cometi a loucura de me inscrever na 1ª edição do Grande Trail Serra de Arga, e como fazia parte do material obrigatório, lá fui eu a uma loja da especialidade. Como um "burro que olha para um palácio", com ar de perdido perante tanta escolha, acabei por comprar uma qualquer de uma marca branca. Durou pouco. A bolsa de água rapidamente rebentou, não tinha apito, não era impermeável, nem era fácil o acesso aos diferentes bolsos, para, em prova, poder-me abastecer sem ter que a retirar. Depois dessa comprei mais duas. Uma, que tinha bidões de água em bolsas exteriores, mas que era desconfortável para transportar mais coisas (bastões ou roupa extra) e que não tinha bolsas exteriores, e outra ainda que se revelou um massacre para as minhas expostas clavículas. Somando os investimentos, gastei mais do que se tivesse comprado uma topo de gama.

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Há pouco mais de um mês, depois de seleccionado para "Field Tester" da Salomon, recebi uma mochila para testar, da gama Agile. Claro está que, achando-me ao nível do Killian como tester, tinha esperança de receber a gama S-Lab. Sou um apaixonado das mochilas Skin. Têm aquele ar minimalista, mas são do mais completo que existe. O preço, claro está, também é compatível, disparando para perto do dobro desta Agile 12, que não deixa de cumprir em bom plano as funções para que desejamos que sirva. Com uma boa capacidade, bem distribuída pela mochila, a sensação que tive nos mais de 200 km com ela, é a de que vamos sem todo aquele invólucro às costas. Fiz questão inclusive, de fazer todos os treinos na Freita, tal como a participação no UTSF, com os bastões acoplados e bem seguros, para saber se havia eventuais estorvos ou desconforto no transporte, ou da dificuldade de os segurar ou retirar e voltar a por no lugar. Impecável. Fiz treinos à chuva inclusive, em que nada que fosse dentro da mochila se tenha molhado. Tem, como muitos pretendemos, bolsas externas para colocar garrafas ou cantis, com "presilhas" para que não se soltem quando andámos mais rápido, ou mesmo quando atravessámos cursos de água, onde não é raro ver garrafas a boiar, perdidas por estarem soltas. Com todas as exigências requeridas, como apito e a já famosa bolsa de água da Salomon (PVC free), com um sistema de abertura simples, rápido e largo, para permitir um perfeito enchimento em prova, com compartimento dedicado, (para não termos de retirar toda a tralha para a voltar a guardar), e facilitar a limpeza. 
Na UTSF, adivinhando o calor, enchi a bolsa de água, coloquei dois cantis nas bolsas exteriores, perfazendo assim um total de quase 3 litros de água. Somando a isto as 4 sandes de presunto, 10 géis, 6 barras, corta-vento, uma t-shirt extra, bastões, estojo de primeiros socorros (nada de exagerado, apenas pastilhas anti-inflamatório, repelente insectos, protector solar, pensos para bolhas, vaselina, pensos protectores para os mamilos, pastilhas isotónico), telemóvel, 2 frontais, manta de sobrevivência e um par de meias extra… Ufa! Quando a levantei para sentir o peso, lembrei-me imediatamente da anedota do avião que tinha tantos extras, que os pilotos rezavam sempre para que descolassem e voassem com aquele lastro todo. Mas como qualquer bom amador, havia ali pouca coisa que pudesse prescindir. Aliás, sendo os líquidos o que mais pesava, seria burrice prescindir de algum. Fiz toda a prova sem que sentisse sequer tudo aquilo às costas. Os meus ombros não se queixaram, não havia compressão no esterno (que normalmente leva a má respiração), e tudo estava ali. Os 12 litros de capacidade não estavam esgotados, o que demonstra que podia ter feito a prova em autonomia total, sem mais acessórios.
Enfim, uma boa mochila, que superou as minhas expectativas, e que confirma, que, quem sabe, sabe. À semelhança das grandes marcas automóveis, que tentam abranger todo o mercado, apesar de começarem por fabricar topos de gama, e com eles ganharem notoriedade, também a Salomon se dedicou a encontrar uma solução acessível à grande maioria das bolsas. 
Soubesse o que sei hoje, e não tinha feito tantas experiências. Afinal, também as grandes marcas têm produtos para pequenas carteiras.
Boas corridas!

terça-feira, julho 16, 2013

Carlos Sá vence a 100 ª Edição da Badwather

 

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Enquanto escrevo estas linhas, muitos dos 96 atletas que partiram à aventura em Death Valley, sofrem a canícula do deserto, onde as temperaturas atingem regularmente os 55º celsius. Correm por paixão, por desafio, pelo sonho de completar as 135 milhas (217 km) de uma corrida de coragem, superação, dor e inferno. Os que a concluem (60 horas de tempo limite), chegam ao céu no Mount Whitney, 2350 mt acima do nível do mar, com um acumulado positivo de quase 4.000 mts, para receberem uma medalha de finisher, ou uma fivela de cinto (se a concluírem em menos de 48 h).

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Não existem prémios monetários, como na grande maioria das ultra maratonas. O prémio é a superação pessoal.

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Esta é uma prova de resistência única. Os atletas estão entregues a si e às equipas que os acompanham e apoiam, num teste de resistência também a estes, num constante vai-vem, para que o atleta se preocupe apenas em correr, e para que o seu sofrimento seja menorizado, se é que tal é sequer possível.

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O Carlos Sá partiu à aventura com naturais aspirações. Terá sofrido como demonstra há muito ser capaz, a equipa que o acompanhou, com o Pedro Amorim, a Domitília dos Santos, o Nuno Tamagnini e o Pedro Queirós, terão feito o possível e impossível para lhe poder proporcionar as melhores condições de prova, mas não há ninguém que não tenha de se transcender para fazer uma prova destas, quanto mais para a vencer.

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O Carlos já muito tem feito por este desporto que muitos praticamos e alguns apaixonadamente. Mas, com o apoio da Berg, os passos tornaram-se maiores e este é um passo enorme na notoriedade de um desporto que, até há pouco passava ao lado da opinião pública portuguesa. Espero que tenha terminado aqui. Já não dá para ignorar, são muitas as conquistas que ele tem trazido, sempre com a bandeira na mão. Ele e muitos outros que tanto nos orgulham e que tantos de nós tentamos imitar na dedicação, no treino, na humildade, no desportivismo e na grandiosidade enquanto atletas.

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Não há muito mais para dizer, senão felicitar o Carlos e restante equipa, nesta conquista.

Lá estaremos, no Francisco Sá Carneiro, para o receber como merece.



Fotos da prova em
http://instagram.com/badwaterhq 
http://www.flickr.com/photos/adventurecorps/
http://instagram.com/chriskostman

Vídeos da prova em
http://www.youtube.com/adventurecorps

segunda-feira, julho 01, 2013

O que fica de uma Ultra

Havia um texto que se impunha. Depois da fábula que ilustra a epopeia que foi o UTSF deste ano, impunha-se um outro, um pouco mais sério, e que serve para explicar a alguns indignados, que o que fica destas aventuras, são os momentos de superação coragem, desportivismo e principalmente de camaradagem e solidariedade.

Para mim, todos os que fizeram o UTSF, fosse até que km fosse, são tão dignos como os que acabaram a prova dentro do tempo limite, porque quem lá esteve sabe o inferno que aquilo foi. Houve por parte da organização alguma tolerância relativamente à insistência de alguns atletas em quererem acabar a prova. Depois de um esforço extremo de 65 km, decidiram não obstaculizar a progressão a alguns que, querendo concluir, fosse dentro ou fora do tempo, pelo trilho, pela Mizarela, por Albergaria da Serra, não queriam fazer 5 km de carro. Foi, como relatei, o meu caso, dos que estavam comigo e de mais 13 atletas, 16 no total, que foram classificados primeiro com mais que as 18 h de tempo limite, e posteriormente desqualificados devido a reclamações de alguns. Nada contra. Eu próprio não me considerava finisher, apesar dos 72 km que trouxe nas pernas e dos mais de 6600 mt de acumulado, 3300 deles positivos. A classificação de uma corrida não faz o atleta. O que faz o atleta são atitudes como a do Albino Magalhães, que apesar de ser dos mais rápidos do pelotão, abdicou da sua prova para auxiliar um atleta que abrira a cabeça no túnel junto a Rio de Frades, apoiando-o e buscando socorro, ou como as de tantos outros que, abdicando de alguns minutos na sua prova, fizeram questão de ser o apoio essencial para quem tanto dele precisava. O que faz um ultra, é a persistência de tantos que, como o Joaquim Adelino, todos os anos treina mais e mais para concluir esta enorme prova, e mesmo não o conseguindo, tem a coragem de se apresentar à partida com a esperança de matar o borrego. O que faz um ultra, são atitudes como a do Pedro Amorim e do Luis Sousa Pires, que apesar de barrados foram concluir o trajecto em quase 20 h. O que faz um ultra, são atitudes como as que tiveram os voluntários da prova, enchendo cantis, apoiando, quase dando-nos de comer à boca. O que faz um ultra são horas à espera na meta à espera que chegue aquele último atleta, agarrado ao bastão torcido, com o maior sorriso do dia. O que faz um ultra é a persistência nos treinos, a vontade de melhorar, a paciência para evoluir e a sabedoria de aprender. Não são classificações. Essas fazem campeões, os vencedores somos nós próprios que temos que o ser.

Não quero deixar de agradecer aos que proporcionaram e aos que me acompanharam nesta enorme aventura:
Ao João Meixedo, que vou aturar até velhinho, por nunca me deixar desistir e pela companhia permanente. Ao Carlos Natividade e à Naná, que como já referi, são uma referência enquanto pessoas solidárias, líderes e inexcedíveis; a Naná no apoio logístico e na amizade, o Carlos como mestre que pacientemente nos ensina a respeitar a montanha e a superar as dificuldades que ela nos impõem. Ao João Lamas pela companhia nos primeiros 30 km, onde pusemos a conversa em dia, e nos permitiu queixarmo-nos da dureza dos Trilhos dos Abutres, que superiormente coorganiza. Ao Pedro Amorim e ao Luis Sousa Pires, que nos fizeram companhia entre os 20 e os 50 km, sempre animados, numa tertúlia permanente que mais parecia estarmos numa conversa de esplanada, não fossem as dores nas pernas. Por último à Célia Azenha, renomada ultra maratonista (de estrada tem 42, de montanha já lhes perdeu a conta), que conta no curriculum, por exemplo, com 4 ultras de 100 km em 4 semanas (Maio de 2012) e que é uma alegre companhia para uma qualquer epopeia; sem dúvida uma força da natureza, uma destemida e determinada atleta.
Aos organizadores, não me canso de os elogiar. Desde o Moutinho, que nos faz todas aquelas maldades, todos os Leões do Veneza, que à imagem da Flor e do Carlos Madureira são inexcedíveis sempre no apoio aos atletas, passando pelos voluntários recrutados especialmente para esta prova, todos foram espectaculares. Não posso também deixar de referir que não é à toa que quase todos os confrades da Confraria Trota Montes estão integrados na organização, sendo determinantes no apoio operacional aos atletas, demonstrado por exemplo, nas “fontes” que o Asdrúbal Freitas inventou entre Drave e o início da subida para os 3 Pinheiros, fundamentais para quem, como eu, ali passou no pico do calor, ou na preciosa ajuda do Marco Silva no Rio Paivô, para contornar uma enorme rocha, e mesmo nos imensos quilómetros que terá feito o António Santos no abastecimento de Drave, para ir encher os garrafões com água fresca.

Parabéns aos vencedores, Luis Mota, que é uma certeza do nosso pelotão, à Ester Sofia Alves, que se revela cada vez mais uma exímia e eclética atleta, e que deu uma demonstração de inteligência, respeitou a Serra, conseguindo assim vencer uma exigente prova, pouco mais de 1 mês depois da exigente Ultra da Madeira, e apenas um par de semanas após a vitória no Gerês Grandfondo em ciclismo. À semelhança do Luis Mota, consegue vencer em várias vertentes. É bom ver novas caras a triunfarem no trail, e foi óptimo vê-la no final, fresca como se tivesse estado nas termas.

É isto tudo que fica de uma prova como a Freita. A placa de Lousa no fim, ou “Google Doc” com as classificações, pelo menos para mim, que há pouco tempo não sonhava sequer em me inscrever em coisas destas, são apenas símbolos e letras.

Ficam as amizades, as recordações, a superação, o esforço, e fica principalmente a vontade de fazer muitas loucuras destas. Cada vez mais.

Façam o favor de serem felizes. Como diz esta música, só temos uma vida, vamos vivê-la o melhor possível.

domingo, junho 30, 2013

Ultra Trail Serra da Freita 2013

Na versão original dos irmãos Grimm da fábula “A Branca de Neve e os 7 anões”, a Rainha má tenta matar a protegida dos anões uma série de vezes. O conto não atribuía nome aos anões, apesar de lhes atribuir personalidades diferentes. Já a versão de Walt Disney conta a história dando nomes coincidentes com a personalidade dos personagens.

A UTSF deste ano foi uma espécie de A Branca de Neve e os 7 Anões revisitado. Nos outros anos tentam-nos “matar”, como na versão animada, apenas uma vez. Este ano, cada dezena de quilómetros parecia ter uma personalidade própria. Desde o “Sabichão” que são os primeiros 10, que nos aconselha sensatez e calma, para não pagarmos mais à frente o esforço, até ao “Feliz” final, passando pelos 10 km do “Zangado”, algures entre o km 50 e o 60, todas as parcelas, ontem, de prova, pareciam ter uma personalidade tão própria e óbvia, que o desenho se anima à medida que vos passar os traços de mais uma loucura, que sempre se anuncia dura, bela e nos proporciona a ansiedade do regresso.

Começar a prova é um desafio já de si enorme para qualquer um, mas incomparavelmente superior para quem já a fez, total ou parcialmente, e isso nota-se na abordagem dos atletas nos quilómetros iniciais, onde alguns fazem autênticos sprints pelos trilhos fora, sem saberem o que aí vinha, e outros, avisados, se contêm. Com início às 5h30, havia que aproveitar ao máximo a temperatura ainda amena e a ausência do sol que nos havia de castigar incessantemente até depois das 21h, para tentar progredir o máximo possível. Mas quem repete esta prova, adivinhando o que o espera depois dos 40 km, tem normalmente algum receio de gastar a descer, aquilo que lhe vai fazer falta mais à frente. E, apesar de nos gráficos de altimetria da prova não parecer, os primeiros 20 km têm a função arreliadora de nos moer as articulações, seja no trilho do Carteiro, seja no rio onde cada pedra é um desafio para contornar. Este ano, com a ausência de chuva na última semana, o rio foi um desafio que contornámos com menor dificuldade, mas com a progressão igualmente lenta.
De Covelo de Paivô (km 20), até ao abastecimento de Drave (km 30), passando por Regoufe, foi um agradável passeio de trail, com as fantásticas vistas que toda aquela cordilheira nos proporciona, onde deu inclusive para fazer uma ou outra foto, e para gritar incentivos aos que, 200 ou 300 metros abaixo (1h, 1h30 à frente), abordavam já o trilho que os havia de levar ao dos Aztecas. A chegada a Drave é sempre surpreendente. Aquele aglomerado de casas de xisto faz-nos viajar no tempo e certifica a máxima de que o homem consegue contornar a maior das adversidades.

No abastecimento dos 30 km não há sólidos. É compreensível. Para se estar naquele abastecimento já tem que se ser atleta. O acesso é feito por trilho, a pé, carregando tudo o que é necessário dar aos atletas. Quem quiser fazer esta prova, deve a partir daqui planear muito bem a alimentação. Os primeiros 3 ou 4 km são feitos por um ribeiro (este ano quase seco), muito exigente para as articulações, e por saídas por trilhos íngremes e exigentes que ladeiam as encostas. São de progressão lenta, este ano dificultados pelo calor e pela ausência de vento. Não quero exagerar, mas não deviam estar menos de 36º naquela zona. A hidratação foi fundamental. O Asdrúbal Freitas grande atleta de trail e excelente desenhador de trilhos, (não fosse um dos braços direitos do Moutinho) “inventou” duas fontes, entubando primorosamente o  precioso líquido, que salvou seguramente muitos de nós da desidratação. Muitos dos que não quiseram perder (ou ganhar) 3 ou 4 minutos naquelas fontes para beberem e encherem os reservatórios com água fresca, arrependeram-se na dura subida até aos 3 pinheiros. Aquele monte, completamente exposto ao sol, foi o “estalo” da prova de ontem. O trilho dos Incas, que nos levaria até ao abastecimento dos 40 km, estava cheio de atletas exaustos e espalhados nas poucas zonas de sombra. Alguns só sairiam dali com apoio. O abastecimento na Póvoa das Leiras, habitualmente de festa (não fosse o da cerveja fresca e do chouriço assado), parecia um cenário tirado da maratona das areias. Não havia muita gente com aspecto fresco e a carrinha da organização começava a enésima viagem, com desistentes, até ao Merujal. A médica da organização saía a correr trilho fora para apoiar um dos muitos desidratados. Eu e o Meixedo, companheiro desta e outras muitas aventuras, frescos, fugimos dali depois de encher os cantis. Apressados, cometíamos o primeiro e único erro que quase nos custava a prova: Quase não comemos.
Enfrentámos a “Besta”, trilho desenhado numa escombreira de uma antiga mina de exploração de volfrâmio, em pedra solta, com mais de 100 mt de corda no seu ponto mais inclinado, e onde eu já sentia a falta de alguma coisa. Estava quase desidratado (sem sede, como todos os desidratados) e sentia-o. Um gel, uma barra energética, alguma água não eram suficientes para repor o sal que tinha perdido na transpiração e que jazia nos meus calções, fazendo-os parecer como se fossem de pladur e a minha mochila preta parecesse ter sido caiada. Já no parque eólico e antes da descida para Manhouce (abastecimento 50 km), senti enjoos e fraqueza, que juntos com o imenso calor do meio da tarde me fustigavam de frustração por sentir as pernas frescas e o corpo cansado. Descemos a passo, eu e o Meixedo, fomos-nos sentando aqui e ali, bebi água em todas as bicas da Aldeia de Muro, mas continuava com a falta de sal. Chagado pelo sol, amolecido pelo calor, abatido pela desidratação, pensei que ficaria ali, à espera de boleia para o destino. Como sempre, há alguém que acredita mais em nós, que nós próprios. Que nos incentiva e nos tenta demonstrar que temos mais do que pensámos, que há sempre um renascido em cada derrotado. Fundamental o apoio do Luis Pereira, atleta de topo de trail, que teve o juízo de não se meter a correr debaixo daquele calor, a paciência do casal Fernando e Fátima Rocha, que estão sempre ali, ao km 50, a dar mais do que apoio, são uma simpatia, e o Fernando, sempre com um incentivo sensato. O Meixedo deitou-se à sombra a dormir. Eu, enquanto comia melancia, batatas fritas, fatias de presunto tiradas do meio de um pão, rejuvenescia. Só me vinha à cabeça a expressão “sal da vida”. Neste caso foi mais o sal DÁ vida.
Como quase não me calo, o Meixedo acordou. Já tinha demonstrado que não estava na disposição de desistir, não fosse ele um teimoso de primeira água, e que também não aceitaria que eu desistisse sem antes descansar, comer, hidratar-me e ver se estava ou não em condições de prosseguir. Acordado e rezingão, fez-se ao trilho de dedo em riste, apontando o caminho a pé até ao Merujal. Lá fomos. Estava rejuvenescido. Até ao final não tive mais nenhum episódio do género. Fomos dali até ao km 60 a “comer regueifa”, como diz o nosso mestre e grande amigo Carlos Natividade, e apesar da exigência das subidas e da exigente descida para a Aldeia das Porqueiras, acabei quase a correr a subida até ao abastecimento. Colocado o frontal, aconchegado o estômago com uma salgada canja e tomate com sal, arrancámos rumo ao destino, apesar do tempo já apertado. Poucos metros à frente estava a Célia Azenha, experimentada ultra maratonista, no meio do monte a perguntar por onde era o caminho. As fitas, algumas enroladas pelo vento nocturno de leste, não eram totalmente visíveis, e ela optara por esperar por mim e pelo João. Ali formámos o trio que havia de, algumas horas depois cortar a meta. Juntos fomos subindo, passando por um ou outro atleta, o interminável trilho da Lomba. São 5 km penosos, que à noite se transformam numa lenta caminhada com impropérios para quem nos fez ir por ali, e por elogios deslumbrantes pela magnífica vista nocturna que se desenhava no horizonte. É raro ter tanta visibilidade na Freita e poder ver ao longe as terras que circundam o vale do Vouga, com as suas cintilantes luzes amarelas que mais parecem um imenso carrossel de velas. Maravilhados com as vistas, abismados com a dureza da prova, já só ansiávamos ser barrados aos 65 km por excesso de tempo. Os 300 mt de desnível do PR 7 e da Mizarela pareciam-nos um muro intransponível, fosse pela noite, fosse pelo esforço dos mais de 3000 mt de desnível positivo que já trazíamos acumulados. A Célia, que já fez o mítico Tour de Geants, Mont Blanc, Trans Gran Canaria, Andorra Ultra Trail e outras, dizia que esta era a prova mais dura que tinha feito, não pelo desnível, mas principalmente pela exigência técnica que tanto dificulta a progressão. Chegados ao topo da subida da Lomba, aparece um carro, num cruzamento do trilho com a estrada, com elementos da organização. Pelo rádio, o Moutinho, director da prova, dizia que estava a barrar a passagem no acesso ao PR7. Era já tarde, todos conhecemos os perigos para quem para ali vai depois de 16, 17 ou 18h de prova, e da dificuldade de um eventual resgate. Sensatamente decidimos continuar até ao final, mas sem colocar em perigo a nossa integridade física. Iriamos pela estrada. Recusámos a tentadora boleia e fomos estrada fora, prometendo aos membros da organização que não nos meteríamos no trilho. Uns km à frente, cansados e algo desorientados, uma simples má escolha de direcção num cruzamento levou-nos a perder mais de 1h no meio de um imenso vale, sem noção do local onde estávamos, ou sequer hipótese de voltar para trás. A Célia tinha ficado sem frontal, víamos umas luzes ao longe, que nos parecia ser a casa do Guarda, perto do parque do Merujal, mas não tínhamos noção ou ideia de como lá chegar. O Meixedo decide ir vale fora, eu parado ia-lhe dando indicações da direcção das luzes, e de repente, desapareceu. Fiquei com a Célia, um frontal para dividir, tojos até à cintura, cansados e já a pensar que a Mizarela teria sido o melhor que nos podia ter acontecido. No meio do breu, já a tentar ir na mesma direcção que o João havia tomado, de repente, aparece ele. Estávamos perto do PR7, junto à saída da Mizarela, e que nos levaria até ao final. Acabámos aquela imensa e intensa aventura com mais de 72 km, e um sentimento de superação, camaradagem, solidariedade e desportivismo que tanto caracterizam o ultra maratonismo e o trail em particular.

Ainda não sei muito bem o que fazer com a Branca de Neve nesta história toda, talvez a reserve para personificar a beleza da Serra da Freita e toda a sua arrebatadora imponência.
O papel de madrasta má, que com um sorriso malvado nos prega sempre mais uma partida, fica bem entregue ao José Moutinho. É um mestre a por-nos em dificuldades. Quando achámos que a Freita já era dura como era, ele brinda-nos com trilhos como o “Run Sintra”, ou a “Besta”, ou mesmo a descida à Aldeia das Porqueiras, para que saibamos que pode ser pior ainda. Acho que lhe devo também deixar o papel de Rei, o pai bondoso da Branca de Neve, porque consegue amansar-nos com um abraço no final. A todos sem excepção.
A personagem do Príncipe que nos ressuscita fica na perfeição para todo o Staff da prova. Incansáveis, quase todos eles também atletas, são inexcedíveis. Exemplares. Desde a entrega de dorsais, aos abastecimentos, apoio, tudo. Foram o beijo essencial para anular o veneno da maçã da bruxa.
Os anões esses são muito bem distribuídos, um por cada dez km da UTSF. O Moutinho batizou (e bem) alguns trilhos com nomes de emblemáticas provas de trail. Eu batizo as fases da prova assim:
10 km – O Sabichão. Onde devemos apelar à razoabilidade e conhecimento de quem conhece a prova, e nos avisa para não exagerarmos. 
20 km – O Dunga. Como no conto, o único que não falava. Porque parece difícil mas não diz nada do que vem depois.
30 Km – O Envergonhado. Há trilhos já inclinados, há mais dificuldade, mas ainda não mostra muito.
40 km – O Atchim. Um espirro, um estalo, uma chapada chamada trilho dos Aztecas, onde uma subida interminável nos traz à realidade.
50 km – O Soneca. Depois da “Besta”, depois da desidratação no meu caso que quase me adormecia, uma acalmia de 5 km até Manhouce e ao Rio menos poluído da Europa, o Rio Teixeira, onde apetece mergulhar e dormir a sesta.
60 km – O Rezingão ou Zangado. Aqui, algures entre os km 54 e 65, fartámo-nos de dizer palavrões e de bater no tipo que fez aqueles trilhos massacrantes.
70 Km – O Feliz. Seja pelo final, pelos 4 ou 5 que esperam por nós junto à meta (obrigado família Batista), seja pelo sentimento de superação. Ou seja mesmo pelo que conseguimos naquelas 10, 12, 16 ou 20h anteriores: Sermos felizes apesar das contrariedades. Não há como isto. Montanha, natureza, dureza, sofrimento, superação, camaradagem e solidariedade. Feliz.

Ainda não sei as classificações, mas essas até me parecem o menos importante em tudo isto. Ganhou o fantástico Luís Mota, com pouco mais de 9h30 e a Ester Alves (que se estreou na Freita) venceu no feminino. Parabéns aos dois.
Parabéns a todos os que tentaram e a todos os que se superaram. Espero que ninguém tenha sequelas graves do dia de ontem.
Não desistamos nunca. Se não terminámos hoje, tentámos amanhã. No fundo, o que levámos do Trail e dos Ultra em particular, são os momentos e a aprendizagem. A natureza, a serra, toda aquela beleza fica lá, espera-nos. A mim, em particular, atrai-me. No próximo ano não faltarei. Só espero conseguir convencer o João Paulo Meixedo (o verdadeiro Rezingão) a juntar-se a mim, naquela que é já a prova que prova que ele é um amigo e excelente companheiro. Já é o segundo ano consecutivo em que ele me “empurra”.
Não podia fechar os agradecimentos sem me referir ao Carlos Natividade, meu grande mestre, que me fez o favor de esperar por mim nos treinos que fizemos na Freita, e à incansável Naná, sua paciente esposa, de uma simpatia e pachorra extremosa, sempre disponível para aturar as nossas longas maluqueiras no monte. Obrigado.

Lá estaremos em 2014.

sábado, junho 22, 2013

Hematomas subungueais, trilhos e copos de branco

Não se assustem com o título. Não é mais que uma breve descrição do que pode ser um treino em montanha, com um grupo de amigos, onde as horas passam a voar. Como ocupamos o tempo? Com conversas úteis.

996158_623418841001676_1687765458_nProva de vinho branco em Muro (Sr. António Alfaiate)

Com a aproximação da Ultra da Serra da Freita, havia que treinar, e muito. Assim fizemos quase todos os que nos inscrevemos naquela loucura. Nós, os privilegiados por morarmos tão perto de um local de uma beleza e dureza únicas, aproveitamos e treinamos no local da prova. Evitámos os percursos dentro do rio (deixámos as partes divertidas para o dia da prova) e percorremos trilhos, estradões e montes que, na sua maioria, não fazem parte do tracking da UTSF. Foi assim que, eu, o Carlos Natividade Silva (Mestre, grande Mestre) e o Meixedo fizemos 40 km na semana passada, e 40 na anterior (sem a companhia do Meixedo), culminando com um treino de 23 km na companhia do Miguel Santos. Mais de 100 km, 3 treinos na Freita em 2 semanas, com um acumulado superior a 12.000 mt. Treinámos tudo, desde subidas a descidas, em pedra solta ou molhada, em escombreiras, escalámos, saltámos, corremos e andámos. Treinámos também a alimentação em prova (essencialmente sandes de presunto, cachorros e panados), bebidas indicadas para regular os níveis necessários ao equilíbrio químico do organismo (cerveja branca ou preta, verde branco e alguma água), e convivemos com os (poucos) habitantes das aldeias por onde passará o UTSF.

1010898_623418651001695_477470156_nAbastecimento em Manhouce

A somar ao treino específico na Cordilheira da Gralheira, fizemos também assunto de tudo e mais alguma coisa. Dissertamos acerca da vida dos antigos mineiros (que, com a ajuda do “expert” que é o Meixedo, nos colocava na época), discutimos os rumos a dar ao País político, a necessidade de prevenir incêndios, a impossibilidade de cortar caminho na prova (ups), o excesso de bosta de animais dentro das aldeias e, como podem ver no título, os hematomas subungueais que adivinhávamos em cada pontapé numa ou outra pedra.

É o que o trail tem de melhor, o convívio entre amigos num ambiente de imenso verde, onde o final de cada dura subida nos proporciona imagens arrebatadoras, como a que podemos ver do alto da Coelheira, antes de entrarmos no Triho dos Incas. Faz-nos sentir pequeninos perante a natureza, percebendo melhor porque queremos sempre subir mais alto neste desporto apaixonante.

1003647_623437914333102_432010209_nPóvoa das Leiras (40 km) vista do Trilho “A Besta”

Sábado haverá empeno garantido sob um sol abrasador. Mas assim uma coisa também é garantida: As vistas serão formidáveis!
Aproveitem bem o fantástico desenho feito pelo Moutinho e pela sua equipa (a “Besta” é um hino ao trail) e respeitem a montanha.

Até à Freita!

sexta-feira, junho 07, 2013

Ciclovias ou Ecovias?


Espero não ser levado a mal pelo que vou escrever. Também já fui ciclista de ocasião, cicloturista barrigudo e essencialmente de Domingo. Todos têm direito à existência e é óptimo quando vemos as nossas ecovias (como se deviam chamar) cada vez com mais frequentadores. É sinal que o exercício físico é encarado como algo necessário e que melhora a saúde dos portugueses.

No entanto, nem tudo são rosas.
Tem havido movimentos vários de apelo dos ciclistas aos condutores de automóveis para que tenham cuidado quando partilham a mesma via, visto que, ao calcular mal uma ultrapassagem, podem colocar em risco a integridade física daqueles. Também eu sou automobilista. Farto-me de cruzar-me com ciclistas que, ao sentirem a aproximação de um carro, rapidamente se colocam em fila (como manda o código da estrada), e facilitam a ultrapassagem, não pondo em perigo os próprios nem outros. Esses vejo-os à semana, normalmente. Ao fim-de-semana, e principalmente ao Domingo, é vê-los em grupo, 4 ou 5 lado a lado, marginal fora, como se fosse uma imensa pista de ciclismo. Pior, chegam às ciclovias partilhadas (por exemplo entre o Cabedelo e a Casa Branca, onde não há marcação separada para peões, ou na marginal do Porto, entre o Passeio Alegre e Massarelos) e é vê-los a acelerar e a serpentear os peões. Alguns andam mais rápido que os carros na rua. Fazem da ciclovia uma pista. E reclamam exclusividade de uso.
Devo dizer que o código da estrada diz que a ciclovia é para uso exclusivo de bicicletas, mas isso é enquanto veículo. Sim, porque há muitos ciclistas que esquecem que a bicicleta é um veículo.
Em Portugal, erradamente, colocaram as ciclovias em cima de passeios, mas na Europa Central, onde são mais comuns, estão nas estradas, com os carros, que convivem perfeitamente com elas.
Aqui não. Na ânsia de captar frequentadores das marginais, pintaram passeios, chamaram-lhes ciclovias, e é ver um sem número de inconscientes a fazer daquilo uma pista exclusiva. Claro que há excepções. Os verdadeiros ciclistas fogem das marginais e destas ciclovias. Fazem os treinos na estrada, onde mais facilmente se deslocam. É que nos passeios, os peões estão menos atentos, não contam que lhes apareça um veiculo a mais de 30 ou 40 km/h.
Corro pouco à beira-mar ao domingo. Quando há sol prefiro ir para longe dos domingueiros. Há algumas semanas fui até à Barragem de Crestuma pela marginal e regressei pela EN 222; curiosamente, (há poucas zonas com passeios em todos os mais de 40 km do percurso, e as bermas são também escassas), quase fui atropelado 3 vezes, por... Ciclistas. Um deles ia a mandar SMS's alegremente.
Em jeito de conclusão, este post serve, não para dizer mal dos ciclistas em geral, mas para lhes pedir o mesmo respeito por quem corre, como eles desejam para os próprios da parte de quem conduz um veiculo automóvel. Lembrem-se que uma criança num triciclo movimenta-se erroneamente e pode fazer um gesto brusco e provocar um acidente. Quando quiserem acelerar muito, optem por estradas menos movimentadas e quando virem um corredor na ciclovia, não o obriguem a saltar para a rua, como tantas vezes fazem. Aprendam a partilhar aquilo que é de todos, antes que haja alguma desgraça. Problemas já houve que chegue. Nem a estrada é exclusiva para veículos automóveis, nem as ciclovias são espaços fechados a peões.
E já agora, deviam mudar o nome para Ecovias. Talvez assim percebessem que a ideia é proporcionar um espaço agradável a todos e não uma pista exclusiva a quem quer que seja.
Bons treinos!
 
 

segunda-feira, maio 20, 2013

VI Ultra Trail da Geira

"Correr sem vergonha". 
Era isto que eu ia dizendo aos que ia passando trilho fora. Não se pode ter vergonha de correr devagar.
Esta prova é muito boa para quem se quer iniciar em distâncias mais longas, já o disse e reitero. A par da Ultra de Óbidos, é talvez a que me dá mais prazer e que me proporciona aquilo que procurámos todos (ou quase todos) na corrida, um trajecto que nos faça abstrair do reboliço do dia-a-dia, que nos brinde com fantásticas paisagens e, acima de tudo, nos faça tirar prazer de algumas horas a palmilhar km. A Geira consegue ter tudo isto. Desde a descontração da partida, com espantados turistas termais a apreciarem o discurso de um "louco" romano, para umas centenas de imitadores de legionários, que depois de gritarem "Avés" a César, desatam a correr trilho fora, até às paisagens de cortar a respiração em que o Gerês é fértil. A partida e chegada são num manto verde, de terras termais, que há séculos proporcionam terapias pela água. Nós ali só buscamos terapia pela corrida. E vá, uma crioterapia no final, com um trilho aquático. 
E digo nós, os que andámos nestas coisas para desfrutar de tudo o que nos proporcionam estas corridas, os que não lutámos pelo pódio, os que correm apenas por deleite pessoal. E para acabarmos bem aqueles 52 km, sem esgotamentos desnecessários, devemos correr sem vergonha, ouvindo o corpo, tentando gerir o ritmo de forma a que, nos km finais, não nos falte a força para acabarmos com a saúde intacta, apesar dos empenos. Nós somos como um carro com o depósito cheio, se não carregarmos muito no pedal nos primeiros km, a gasolina dá para mais uns quantos. Foi o que fiz ontem. Comecei, sem vergonha nenhuma, num ritmo muito calmo, ao atacar a subida até à Portela do Homem, este ano totalmente feita em trilho, belíssimo, e assim fui até ao fim. Tirei mais de 40 minutos ao tempo do ano passado, tendo terminado com uma média de 7'45/km (paragens incluídas), em 6h32. Envergonhado, e ainda bem, esteve o tempo, com uma temperatura excelente para correr, algumas aparições da chuva (mais intensa para quem acabou mais tarde), e com o sol a espreitar amiúde. Foi o Minho no seu melhor. 
De realçar o excelente apoio da Cruz Vermelha, sempre muito visível, sempre presente nos abastecimentos, socorristas em bicicleta, dos voluntários e da pouca população com que nos cruzámos. À organização, reiterados parabéns. Provam que o menos importante numa prova destas é a qualidade das camisolas, desde que os abastecimentos sejam adequados e não falte o apoio. Não podendo haver perfeição em tudo, que o melhor de uma prova esteja naquilo que é determinante para o atleta. Um aspecto a melhorar: As marcações. Continuam a ser suficientes para quem já está habituado a fazer estas provas, mas são poucas para os que estão menos. 
Parabéns a todos, desde o Albino Magalhães, que voou e fez pouco menos de 4 horas, até ao último resistente, que, sabe Deus como, terá lutado como um ultra para alcançar a meta. 
No próximo ano, provavelmente, lá estarei, de novo, pronto para mais umas saudações a César e uns km de prazer na bela Serra do Gerês. 
Boas corridas!

domingo, maio 05, 2013

Technical Review de um amador

Vou-vos contar um segredo. Deram-me um par de sapatilhas.
Não que isso seja um acontecimento inédito, mas há muitos anos que ninguém, para além dos meus pais, me oferecia calçado desportivo.

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Há sapatilhas para todos os gostos. Normalmente, se o preço é alto, têm algum tipo de desenvolvimento técnico, feito por gente que analisa pés… De atletas de elite. Os atletas de elite têm sapatilhas feitas especificamente para a sua passada, qual fato de alfaiate, que depois publicitam e apoiam, a troco de… sapatilhas (ou ténis) e algum apoio financeiro, maior ou menor, consoante a notoriedade e influencia no público alvo. Ora, isto nada tem de mal, funciona bem e chama-se marketing. Nós, que corremos por “amor à causa”, porque gostamos de correr, todos gostamos de imitar os nossos ídolos, seja em treinos, em esforço, na alimentação, entrega, participação em provas e, principalmente, e porque é o mais acessível, no equipamento. As marcas sabem-no e usam-no bem. Quanto maior o marketing, maior a hipótese de venda. O problema é que, um atleta de 60 kg pronador, não tem a mesma sensação com umas sapatilhas, que um atleta de 90. Assim como, um atleta que corre com uma passada tecnicamente mais correcta, não tem a mesma opinião sobre a mesma sapatilha, que um atleta que, tecnicamente, tem uma passada mais, digamos, “futeboleira”. Tudo isto são variáveis que fazem com que, ao longo das nossas vidas, usemos algumas marcas mas nos fixemos numa em específico. Porque depois de encontrarmos aquele modelo que não nos incomoda, normalmente, repetimos a compra. Aí somos mais uma arma de marketing. Corremos a dizer aos amigos que aquela sim, é a sapatilha 5 estrelas. Mas não é assim. As sapatilhas não são carros. Só assim se explica, que sapatilhas que muitos de nós usam como chinelos de sala, sejam para outros o modelo que usaram em todas as provas que fizeram.

Eu tenho alguma experiência de calçado de corrida. Comecei a correr gordo, quando o ideal seria usar, sei lá, botas da tropa, e já comprei e usei quase todas as marcas que qualquer um de nós citaria de cor quando começou a correr.
A primeira pessoa que me explicou que, quando comprámos devemos comprar bom e adequado, para comprar poucas vezes, foi o António Leitão. Medalhado olímpico, disse-me que, um amador, deve comprar sapatilhas duradouras e pôr de lado o mito do limite de km para cada par. Dizia que isso são bons costumes para os patrocinados, para os que trabalham no atletismo e têm calçado grátis.
É quase como os pneus dos carros. Os de Fórmula 1 ou do WRC trocam algumas vezes de pneus ao dia, enquanto que nós, os condutores do dia-a-dia, fazemos 40, 50 ou mesmo 60 ou 70 mil km com um bom pneu. Mas o laboratório, onde os desenvolvem, é na competição.

Toda esta ladainha para vos dizer que experimentei umas novas sapatilhas. E as condições em que as experimentei dão-me a certeza de ser um calçado de eleição, adequado a todos os pisos e a todas as quilometragens.

A Dmaker, representante em Portugal, entre outras marcas, da La Sportiva, ofereceu a cada um dos participantes do 5NC (Os 5 no Caminho de Santiago), um par de sapatilhas. A uma semana da partida, o Vítor entregou-me o par correspondente. Até aí, andava tipo tolo no meio da ponte, a tentar acertar na sapatilha própria para o Caminho. Esperava-nos um misto de pisos, do alcatrão à terra, passando pela pedra solta, e a meteorologia previa calor para os primeiros dias e chuva para os últimos. Levar e usar mais que um par era o mais aconselhado. Mas, depois de experimentar, em estrada as La Sportiva Raptor, fiquei com a sensação que as podia levar para quase todos os dias.

Meus amigos, fiz 245 km em 5 dias. Andei sob sol intenso, apanhei escaldões, corri contra vento forte e com frio, alguma chuva, passei por lama, calhaus, alcatrão, terra e relva. Tudo com as mesmas sapatilhas, as Raptor. O mais incrível, é que acabei a aventura com a mesma sensação do primeiro dia. Os pés estavam como antes de começar.

Agora vem o review, ou testemunho nada técnico. São leves mas duras, sem o serem demasiado, dando a sensação de robustez e não de dureza excessiva. A palmilha original dá um conforto, ou protecção ao pé, não deixando passar qualquer sensação de “pé descalço”, como acontece quando levamos sapatilhas de estrada para caminhos de pedra pequena e solta, e como acontece quando a sapatilha tem sola demasiado dura. Têm uma aderência fora do normal em pedra molhada. A parte da frente tem um reforço, quase semelhante ao calçado de obra, parecendo que, se tivessem biqueira de aço, seriam homologadas como tal. Mas a melhor característica é mesmo o conforto, segurança e adaptabilidade aos diversos pisos. São excelentes. Encontrei uma sapatilha de eleição.

terça-feira, abril 30, 2013

Um Caminho de Vida

Quando acabámos a subida até à entrada na zona histórica de Santiago de Compostela, de um imenso e estranho silêncio, surgiu uma espontânea salva de palmas dos que, já no destino, descansavam nas esplanadas dos cafés. O Caminho é assim, feito de espontaneidade, solidariedade e partilha.

Não esperava, muito sinceramente, que ainda houvesse no Mundo ocidental, tão cheio de egoísmo, inveja, medo e com tantas “trancas” em tudo, um imenso caminho de confiança. É normal encontrarmos nos imensos recantos do Caminho, desde os Albergues aos cafés, trilhos, estradas, templos religiosos ou mesmo campos de cultivo, um peregrino que nos saúda e com quem trocámos palavras de apreço, admiração e incentivo. Nos albergues, tudo ainda é como devia ser. As portas estão abertas, as coisas de cada um permanecem onde as deixámos, o silêncio e o respeito imperam, a partilha é o mote de todos, apesar de cada peregrino se manter numa espécie de limbo individual, onde é normal grupos separarem-se e encontrarem-se pelo Caminho, sem dramas, porque cada um vai caminhando como quer, sem sacrifícios extremos, sinónimos de outras peregrinações, parando onde lhe apetece, sabendo que seguindo as silenciosas vieiras e setas do Caminho há-de encontrar o seu meio, o conforto de quem o acompanha.

Saímos na Quarta-Feira, dia 24 às 8h30, da Sé Catedral do Porto. Entrámos às 17h no Albergue de Barcelos. Foi assim, com esta regularidade de horários até ao último dia. Curiosamente, sem o prevermos e sem fazermos nada para que assim fosse. Foi assim que calhou, e foi assim, mesmo tendo o grupo feito todo o Caminho sem pressão para partir, parar, acelerar ou abrandar o passo, ou sequer olhar para as horas. Fizemos o Caminho sem saber o que vinha, mas obtendo o que nos fazia falta, como no segundo dia, quando, chegados ao Albergue de Rubiães, restavam ocupar… 6 camas, exactamente o número de camas que precisávamos. Ou no terceiro, em que, chegados a Redondela, com o Albergue lotado, tivemos a sorte da presença do inexcedível amigo Ramiro Alvarez, que combinara correr alguns quilómetros connosco, e que, com a sua esposa, fizeram questão de nos albergar em sua casa, com tamanha mordomia, que penso que foi a melhor noite que todos dormimos desde há muito tempo.

Tanta paz nos dá o Caminho. Dá-nos vontade de partilhar, de sorrir, rir, correr, saltar, abraçar o Mundo, o nosso Mundo que tanto destruímos sem razão. O Carlos Natividade tinha-nos dito que o Caminho nos agarrava e nos chamava. Agora entendo na perfeição o que ele, na sua imensa sabedoria, dizia. É arrepiante, mas ao mesmo tempo enternecedor e calmo o que nos dá o Caminho. É a soma das bondades do ser humano, que convergem numa Catedral que é sinónimo de paz e acolhe todos, sem olhar a cores, credos ou estatutos. Ali, aliás como na corrida, somos todos iguais.

É quase impossível fazer uma crónica factual de um Caminho que, apesar de feito com mais 5 pessoas, foi das coisas mais introspectivas que fiz. E introspectiva, apesar de partilhada com 4 companheiros de corrida espectaculares, e uma fabulosa protectora que nos apoiou na rectaguarda, a Naná, esposa do Carlos Natividade, e que nos proporcionou uma fabulosa demonstração de altruísmo em toda a logística necessária para que nós nos preocupássemos apenas em correr.

Não podíamos ter escolhido melhor termo de comparação com a corrida do que o Caminho de Santiago. A melhor definição que eu tenho para a corrida, para a corrida que quase todos nós fazemos, por prazer, por recriação pessoal, é que correr é liberdade, é solidariedade, é a forma de nos mantermos crianças alegres e traquinas, de podermos ser livres e despreocupados, exactamente como as crianças, coisa que já ninguém compreenderia em qualquer outra situação da nossa vida adulta. A corrida liberta-nos da rotina diária, do trabalho, do “politicamente correcto”, da azáfama do dia-a-dia, como mais nenhuma actividade. Não precisámos de tapar os ouvidos para nos ouvirmos apenas a nós próprios quando corremos, não precisámos de marcar hora de correr, de meteorologia favorável, dependemos apenas da nossa vontade. Sabemos que vamos gostar. Não há um dia em que cheguemos ao fim de uma corrida tristes porque estivemos a correr. É a nossa pílula de aconchego. Agora sei que encontrei um destino onde encontrarei tudo isso. Santiago é para o Caminho como a meta para uma qualquer corrida, é o destino mas não é o fim. E no entanto deixou-me a mesma sensação de vontade de voltar como no fim de qualquer corrida voltar a calçar as sapatilhas.

Fico para sempre com imagens flash de 5 amigos a rir, saltar, brincar por imensos 245 km, desde os primeiros 2 dias, onde se enfiavam em tudo o que eram tanques e cursos de água para refrescar os músculos, até ao serpentear de ruas escurecidas pelas antigas casas graníticas, até ao emocionante e sentido abraço na solarenga Praça do Obradoiro.

Sobra a pena de não ter podido ir com todos aqueles que também queriam juntar-se ao grupo, mas fica o orgulho de ter ido com os 5 com quem fui. Foi uma enorme honra partilhar 5 ultra maratonas em 5 dias. 55 km no primeiro dia, do Porto a Barcelos, onde ficámos no Albergue local, 52 no segundo, que acabámos em Rubiães. No terceiro dia, entrada em Espanha com repetição da quilometragem do dia anterior, mas com o conforto e amparo do amigo Ramiro e restante família Alvarez, que nos proporcionou uma noite de reis. Os dois últimos dias foram de 43 km até Caldas de Rei, onde, na entrada da localidade, festejámos o 200º quilómetro, e de 44 na última etapa até Santiago de Compostela. 

Se servir de alguma coisa a experiência destes 5 dias, podem sempre contactar-nos, mas fica a dica da importância da hidratação, alimentação e principalmente um bom espírito de sacrifício e uma gestão inteligente do esforço. Ouçam o corpo, a mente e convençam-se que nós só não conseguimos fazer o que não nos dispomos a tentar. É este um dos grandes ensinamentos do Caminho.

Obrigado Carlos Natividade, Luis Sousa Pires, João Paulo Meixedo, Vitor Dias pela vossa paciência em me aturarem todos aqueles quilómetros. Não faço aqui juras de “amor eterno” porque não tenho jeito para declarações, mas garanto-vos que, convosco, corria até ao fim do mundo. À Naná fica um agradecimento especial, pela dedicação e pela incrível paciência e calma. Obrigado.

A todos os que leem estas coisas que escrevo, obrigado por partilharem comigo este Caminho. Os que comentam, os que não comentam, os que me conhecem, os anónimos, todos vós sois peregrinos com quem partilho o meu Caminho de vida. A todos o meu obrigado por todo o apoio que sei que nos deram.

Vou continuar a tentar fazer o Caminho da vida como até aqui, mas enriquecido com esta brutal experiência de humildade, partilha e solidariedade.

Vamos então:

Ao Caminho!

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sábado, abril 27, 2013

200 km

Número redondo atingido hoje. A etapa ligou Redondela a Caldas de Reis, com passagem por Pontevedra. 43 km que se revelaram um verdadeiro "parte-pernas", e que me levam a pensar que a Serra da Labruja, entre Ponte de Lima e Rubiães, é uma "brincadeira de meninos".
Lindas paisagens, muito verde, num serpenteado montanhoso em terreno de pedra, calçada romana e pouca estrada, apenas com passagens pelas localidades atravessadas, quase todas muito bem conservadas e muito ligadas ao Caminho, como é normal.
O dia foi frio e ventoso, o que dificultou ainda mais a nossa progressão e disposição. Foi um "bate dente".
O Caminho é uma via única, mas dá a possibilidade ao peregrino de o fazer como bem entender. Há os (muitos) que fazem de bicicleta, em grandes ou pequenos grupos, mas há muitos também de caminheiros. Estes são os originais, os que fazem o "Caminho" como ele deve ser feito, em convívio com a lindíssima envolvente natural, e principalmente, enfrentando quando decide enfrentar qualquer dificuldade que se lhe depara, seja uma subida íngreme, um aguaceiro, uma qualquer lesão, fraqueza ou mesmo a vontade de esperar. É um caminho de paciência, e é uma dinâmica muito pessoal, como a vida.
Foi escolha nossa fazê-lo assim: Os 5 e a correr. O nosso objectivo, chegar à Catedral, está a pouco mais de 40 km, e tem já uma enorme carga de kms. Mas o que levámos do Caminho, é uma forma mais solidária de encarar as dificuldades, uma visão sobre o esforço das pessoas nas suas mais pequenas coisas, a que às vezes não tributamos o verdadeiro valor, uma linha de tinta sobre o livro branco do "outro". É que às vezes, é muito difícil explicar as diferenças, mas mais difícil ainda é encontrarmos semelhanças entre nós. E no nosso âmago, no nosso caminho, em última instância buscámos num imaginário diferente aquilo que muitas vezes está em nós próprios, e o Caminho leva-nos a descobrir respostas em nós.
Quando completámos o km 200 deste nosso caminho, juntámo-nos num momento simbólico. Demos as mãos e sentimo-nos um só. Descobrimos nestes 4 dias já várias particularidades de uns e outros, mas acima de tudo, confirmamos o que nos une: O prazer de correr, o prazer de partilharmos estes momentos, que mais não são do que realizações pessoais, que nunca alcançaríamos sem o apoio dos que nos acompanham, junto ou à distância.
Boa disposição constante, liberdade para irmos fazendo a progressão à maneira de cada um, mas acima de tudo temos sido um grupo que, na boa tradição do Caminho, tem uma peculiar forma de o abordar. Correndo. E isso, meus amigos, é das melhores formas que conheci de nos conhecermos a nós próprios e de entender o próximo.
Amanhã faremos a última etapa, juntos, como até aqui, com o apoio da Naná que se revela um anjo no Caminho, e com a sensação única de conseguir um feito único para cada um de nós.
Ao Caminho!

Dia 3 e Santiago aqui tão perto...

Nunca fiz uma prova de 80 km, mas tinha "ganas" de amanhã correr o que resta do Caminho. Vamos na terceira etapa, e sinto-me o maior ultramaratonista do Mundo. São já duas etapas de 52 km depois de uma primeira de 54. Não, não têm grande diferença, mas contava já com etapas inferiores à meia centena. Nem imaginam quanto custa o km a mais em cima dos vários que tanto custam a correr...
Mas nesta aventura, parece que o próximo km é o melhor. É provavelmente a grande ilação que tiro destes dias. Quanto mais devagar, melhor a resistência e melhor a progressão. Mesmo em km com desníveis acentuados, consegui manter passo de corrida. Mais uma vez fartámo-nos de passar peregrinos em bicicleta, em rampas, que se aventuram no Caminho sem grande treino. O treino revela-se o ensinamento mais importante até aqui. Os treinos lentos e longos ensinaram-me a suportar e lidar com o cansaço que se vai acumulando, facilitando também a recuperação entre etapas.
Hoje, etapa entre Rubiães e Redondela, já na Galiza, com longos troços feios e mesmo penosos, em zonas industriais, mas também já com incursões pela milenar Via Romana XIX, que ligava Bracara Augusta a Lucus Augusti (Lugo), e que tem passagem por Santiago, o agora destino de quase todos os que a cruzam. Zonas verdes, com imensos pinhais, que cruzamos em ambiente sereno já trazido do primeiro dia, e que nos levou até Redondela. Ali chegados, ao Albergue da Cidade, lotação esgotada. O Ramiro Alvarez, atleta galego nosso conhecido dos imensos trails que normalmente faz em Portugal, colaborador de algumas organizações, disponibilizou-se imediatamente para nos albergar em sua casa. Ele e a esposa, muito simpaticamente cederam-nos o conforto que tão bem nos faz e que nos ajudará a recuperar forças para os mais de 40 km de amanhã até Caldas de Reis.
Esperemos que o corpo corresponda, porque a animação e espírito de grupo mantêm-se desde a primeira hora, em todos os 5, que somos 6, já que a nossa preciosa "Anjo", a Naná, aparece sempre quando é precisa. O apoio para uma coisa destas é fundamental, e a esposa do Natividade, com a longa experiência do Caminho e com a simpatia e disponibilidade que sempre mostra, com um imenso sorriso sempre a acompanhar, faz com que o esforço seja recompensado. Foi mais um dia de superação, partilha e solidariedade. No fundo, o que nos dá o Caminho: A noção de que somos pequenos na imensidão das nossas fraquezas, e que quando menos esperamos aparece alguém que nos dá um apoio indispensável e inestimável. Quando ajudámos e partilhamos altruisticamente, a retribuição vem quando mais precisámos e não contávamos.
Rumo a Santiago.
Ao Caminho!

quinta-feira, abril 25, 2013

Não havia cerveja no tempo de Napoleão?

Dia 2 no Caminho.
Saímos bem cedo de Barcelos. O Caminho de Barcelos a Ponte de Lima, embora rural, é um pouco cansativo. Os atractivos não são muitos e a vista é muito "aberta", sendo os percursos pouco banhados de sombras e o sol escaldava. Foram 33 km a um ritmo de quem não se quer cansar, mas que também não quer perder tempo a bronzear. Digna de registo foi a paragem para carimbar a Credencial do Peregrino, onde os locais atestam a passagem a caminho de Santiago (antigamente as paróquias, agora maioritariamente nos cafés, minimercados e Albergues) em Vitorino dos Piães. Chegámos ali com pouco mais de 2h30 e 21 km. O sol queimava, o abastecimento imperava. Fomos ao Talho Viana pedir o carimbo, tinha um café ao lado. Bebemos umas cervejas, descansadamente, enquanto esperávamos a nossa Anjo da Guarda, a Naná, que trazia ainda bola de presunto do primeiro dia. Como devem imaginar, os 12 km até Ponte de Lima foram feitos num ritmo bem mais agradável. Inevitavelmente bebemos mais algumas ao almoço (sandes, que a tarde prometia a Serra da Labruja, com as suas temidas subidas) nas sombras dos plátanos da beira rio da mais antiga Vila de Portugal. Outra inevitabilidade foi a de mergulhar as pernas em quase todos os cursos de água, para a obrigatória crioterapia.
Ora, não sei se os franceses, aquando das invasões napoleónicas bebiam cerveja, mas a temida subida da "Cruz dos Franceses", que sobe muito sobre pedras desniveladas, fizemo-la toda a correr. Inclusive, ainda fiz os últimos 100 mts a ajudar a empurrar trilho acima a bicicleta de um ciclista, que tinha alforges laterais que o desequilibravam.
Calculo que os franceses, para terem ali uma "cruz", terão falhado os abastecimentos, ou estes não eram adequados.
Hoje sim. Cheirámos e sentimos o caminho. Imensos ciclistas em dia feriado, que se espantavam quando passavam por nós e muitos caminheiros que nos desejavam bom treino.
Espero poder continuar com esta vontade, e que Santiago me ajude a manter as pernas com força suficiente para lá chegar. Os meus companheiros têm sido inexcedíveis no apoio. E são uma excelente companhia para o "Caminho". Os km não se notam com tão boa harmonia entre todos, com animação e festa constante.
Amanhã serão 49 km. Chegaremos, se tudo correr bem, a Redondela, já na Galiza e mais perto do objectivo.
Obrigado a todos que nos apoiam.
Ao Caminho!

quarta-feira, abril 24, 2013

Folha de couve é tão boa como vaselina

Não esperava tamanho ensinamento, logo no primeiro dia do Caminho de Santiago.
O Caminho está a correr lindamente. 37 km na etapa da manhã, 18 de tarde. Optámos por ficar em Barcelos, ao contrário do programado, Tamel, por termos tido vaga num excelente Albergue, com lotação de 10 pessoas. Ocupámos uma camarata com 3 beliches (6 camas) e, em dia de começo das Festas da Cidade, vamos tentar repousar para o dia de amanhã. Serão 49 km, 30 até Ponte de Lima onde almoçaremos.
Começamos bem cedo, na Sé do Porto, com o conforto da presença do Pedro Marques e do José Mimoso, que quiseram despedir-se e apoiar na hora de saída. Fizemos calmamente a etapa até S. Pedro de Rates, serpenteando as bermas tentando não acertar nos imensos carros que cortavam as curvas do Caminho, que também é Estrada Nacional. Da Maia até pouco depois de Rates, um imenso cheiro... Como dizer sem chocar... A merda! Entrámos no caminho em período de fertilização dos campos, nada agradável em comparação com o imenso cheiro floral nos km de aproximação a Barcelos.
Cruzamo-nos já com imensos peregrinos, desde 2 ciclistas brasileiros que compraram os veículos à chegada a Lisboa, ou 3 dinamarqueses que saíram de Lisboa, a correr (50 minutos/hora e 10 de descanso) há 13 dias, e que vão para Pamplona via Santiago. Há gente feliz (ou doida).
Quanto à couve, serviu como protecção das virilhas, à falta de vaselina. Impressionante como o Caminho nos dá o que precisamos. Está lá tudo, é só ter atenção e aproveitar.
Amanhã há mais!

terça-feira, abril 16, 2013

Boston Marathon

É a Maratona popular mais antiga do mundo. Decorre na cidade de Boston, ininterruptamente, desde 1897. Todos os anos são dezenas de milhar que tentam a inscrição na prova. Sendo uma das chamadas "Big Five", é sem dúvida a mais emblemática, por ir já na 117 edição.
Já corri algumas maratonas, mas ainda não corri nenhuma das ditas "grandes". Esse é um acontecimento que deixo para mais tarde. É um daqueles projectos de vida de um corredor, fazer uma maratona mítica, com história, onde somos grandes entre milhares de anónimos. E num projecto de vida, as pessoas empenham-se. Gastam muitas horas a preparar o momento de cruzar a 26 milha, ou o km 42, quando olha para o marcador do tempo e vê em quanto se resumiu todo um trabalho de preparação de tão grande e nobre desafio. Conseguir fazer uma maratona é digno de coragem, determinação e paz. Ninguém corre uma maratona com espírito de vingança, com preocupações na mente ou pressa para ir fazer uma outra coisa qualquer. Numa maratona, tudo se potencia. As emoções são redobradas, a força vem de onde menos se espera e a vontade de acabar supera normalmente todas as fraquezas. São inúmeras as imagens de atletas a acabar as provas com crianças ao colo, ou pela mão, abraçados a alguém que os espera na meta, ou a acenar para aquela pessoa especial que, na bancada, aguardou todas aquelas horas, esperando o concretizar de um sonho, de um culminar de tanto treino e sofrimento, com tempo roubado a quem tanto apoia.
Foram estes os momentos que aquelas explosões roubaram.
Roubaram momentos, vidas, pedaços de corpos, sonhos e futuros. A imagem de um jovem com a perna desfeita numa cadeira de rodas é impressionante.
Porquê?
Perdoem-me a pouca vontade de rir com o humor negro de alguns idiotas, e a imensa vontade de lhes dar umas valentes chapadas, mas aquilo é o que de mais vil e cobarde se pode perpetrar.
E quando me dizem que o Mundo é insensível ao sofrimento que se vive na Síria, às guerras no Iraque ou Afeganistão, ou à fome na Índia, eu respondo que, ninguém busca o inferno para entrar num paraíso. Mas numa maratona, muitas vezes se passa um inferno para atingir o paraíso (meta). E foi isso que roubaram ontem.
Hoje continuamos a correr. É essa a lição que damos aos que querem vencer-nos pelo terror.





quarta-feira, abril 03, 2013

Juras de Amor

Chegado a Madrid por afazeres profissionais, enquanto espero, apraz-me contar-vos uma breve história.
Tinha ela pouco mais de 20 anos. De cabelos longos, tão longos como mantos de princesa, negros e brilhantes, atraía a atenção de muitos, despertava até a paixão em alguns. Ele, um pouco mais maduro (fazem 4 anos de diferença), rapaz do campo que se ia adaptando à vida da cidade, reparou nela mal a viu. Cortejou-a. Aproveitando o facto de seu pai fazer jardinagem onde ela vivia, um dia, sabendo-a por lá, sorriu-lhe, enquanto trocavam atenções matinais e cuidados de alerta. Buscava seu pai, como desculpa, com a intenção de ver sua amada.
Podia ser uma grande história, cheia de floreados e quadros coloridos. E foi. Ou melhor, é, porque fazem hoje 48 anos de casados. Um dia conto-vos a história completa. Para já, deixo-vos apenas a dedicatória do maior troféu que um homem desejava da mulher amada: A foto da própria com dedicatória que atestava o amor correspondido.
Artur e Maria José, vocês são um belíssimo casal, patriarcas de uma bela família (7 filhos, 7netos e tantos outros que se sentem como tais) onde todos se dão bem, como foi vosso desejo.
Parabéns Pai e Mãe.






quarta-feira, março 27, 2013

Correr por prazer nos Caminhos de Santiago

Como alguns de vocês já sabem, vou em breve aventurar-me no Caminho português de Santiago.
Será uma aventura com mais 4 amigos, em que vamos fazer 5 maratonas em 5 dias, de 24 a 28 de Abril. Chamamos-lhe “Os 5 no caminho”.

5NC

Escrevo este texto para que compreendam a enorme honra que foi para mim receber tão grande distinção, entre tantos que podiam ser escolhidos, e para poder partilhar do porquê, embora sendo imensa a vontade, infelizmente irrealizável, de vos poder levar a todos connosco.

A ideia surgiu já há mais de um ano, no seguimento do desejo manifestado por alguns, em fazer o caminho. Logo na altura aflorámos a possibilidade de o fazermos em conjunto, com familiares e amigos, no fundo, a quem quisesse juntar-se à aventura, a caminhar, de bicicleta ou a correr. Rapidamente chegámos à conclusão que seria inviável juntar grupos tão dispares e com ritmos tão distintos, e que a logística inerente à realização de tal empreitada seria muito complicada de gerir. Assim, e por decisão comum dos intervenientes, ficou decidido restringir o grupo aos 5 que vamos correr e a um elemento do apoio logístico. É mais fácil de coadunar vontades e mais fácil o acesso aos albergues dos peregrinos, que como sabem, têm lotação limitada, bem como mais simples o apoio aos atletas.

Foi para mim uma honra enorme, a irrecusável proposta para acompanhar o Luís Pires, Carlos Natividade, João Paulo Meixedo e Vítor Dias em tão nobre e marcante epopeia.

Fui escuteiro e militar, ou melhor, sou as duas coisas, porque, uma vez feita a promessa de escuteiro, torna-se eterna, e porque quando passei à disponibilidade na Força Aérea, parece que ingressei num contingente de reserva até aos 45 anos e tenho alguma experiência em coisas que custam a fazer, mas que nos dão um prazer enorme em conseguir realizar. Tenho um historial de conquistas individuais que seriam inalcançáveis sem o apoio de muitos, mas sei que fazer “o caminho” sozinho seria praticamente impossível. Era um objectivo de há muito, mas queria fazê.lo com um grupo que me proporcionasse um sentimento de partilha muito forte. “O Caminho”, tal como a nossa caminhada na vida, apesar de poder ser penoso, ser propício a percalços, deve ser um caminho de partilha, introspecção, desfruto da natureza envolvente, uma espécie de resumo espiritual em pouco mais de 240 km. Quase todos os que o fazem, fazem-no com uma intenção forte, como os que peregrinam para outros destinos. Será seguramente uma das mais ancestrais peregrinações, oriunda de vários pontos do velho Continente, que desperta em crentes e não crentes, uma atracção que não se explica apenas na fé, mas numa vontade de conseguir chegar onde a humildade tem significado. Fazer tamanho caminho, se não for imbuído de um espírito de partilha, de resumo à condição de errante neste mundo cada vez mais orgulhoso e egoísta, perde significado. Ir a um local com tamanho significado espiritual, com estes quatro inspiradores amigos, é de uma honra e prazer que não vos posso, ou não sou capaz de descrever.

Senão vejam:

Luís Pires - 56 anos, tem quase 100 (!) maratonas, número que deve atingir este ano, tendo começado a correr aos 46.
Conheço o Luís desde que me inscrevi nos Porto Runners, há cerca de 3 anos. Já “fiz” com ele mais de uma dezena de maratonas e ultra maratonas. Por muito mau tempo que alguém faça, é o primeiro a valorizar o esforço, o primeiro a disponibilizar-se para ajudar alguém a fazer melhoria de tempos, a apadrinhar estreias, ou a incentivar para novos desafios. Para o Luís não há impossíveis.

Carlos Natividade – O Carlos quase dispensa apresentações. É um exemplar atleta e uma pessoa inspiradora. Há muitos anos neste mundo das corridas, tem maratonas feitas no tempo em que os que as corriam, não chegavam à meia centena. Tem um historial longo de corridas embrionárias das (imensas) actuais provas de trail. É contemporâneo do malogrado Sálvio Nora, pioneiro, com o José Moutinho, das provas de resistência em montanha.
O Carlos tem já 8 “Caminhos” realizados, ora de bicicleta, ora a pé, tanto no português como no francês e inglês. É escuteiro, mostra-o permanentemente num espírito de constante partilha e entreajuda. Faz a simbiose perfeita com a sua esposa, a quem carinhosamente trata por “Náná” (Fernanda) e que vai fazer o trabalho herculeano de apoio logístico. 

João MeixedoComo ele costuma dizer, um “aprendiz de feiticeiro” nestas coisas das corridas, mas que é já um experimentado maratonista. Com participações em Boston, Paris ou Adelaide, leva as sapatilhas para os sítios mais recônditos para onde vá. Já fez, sozinho, a travessia da Ilha de S Jorge, a meio de umas férias em família. É um apaixonado das corridas. Meu companheiro na mais apaixonante prova que fiz, a Ultra da Freita do ano passado, e que me acompanhou em muitas outras provas. Foi o homem do abraço em Sevilha. E aquele abraço significou muito, tanto quanto ele sabia que significava aquele tempo, apesar de pouco importar. 
Ateu, tem mais espiritualidade do que muitos apaixonados crentes. A racionalidade que emprega em tudo o que projecta e faz, é quase sempre traída pelo enorme coração e espírito de entreajuda que revela em cada atitude. Sempre disponível para todos, conseguindo ter, entre os inúmeros compromissos, o tempo que lhe é indispensável para a amizade. Incrível como consegue ter mais do que muitos apregoam, sem ter a necessidade de o mostrar. É a prova que a simplicidade só é possível nos que fazem simples, aquilo que complicadamente conseguem.

Vítor Dias – Padrinho de muitos nas corridas, também é o meu. É o principal responsável pelo que eu consegui fazer nestes últimos anos. Foi no seu site que me inspirei e suportei para dar o “passo seguinte” na corrida. Já sei que há muitos sites de corrida, mas só neste é que me foram incentivando e apoiando. O Vítor, desde o primeiro contacto disponibilizou-se para me acompanhar em treinos, prontificou-se a ajudar no planeamento da minha primeira maratona, levou-me para os Porto Runners (onde conheci tantos outros enormes atletas, enquanto seres humanos), fez questão de me acompanhar em muitos treinos e faz questão de o continuar a fazer. É um dinâmico companheiro, sempre disposto a apoiar o atleta de pelotão. Não há outra homenagem que seja mais justa fazer-lhe, senão dar-lhe este lugar de padrinho. Foi ele o responsável pelo meu salto, ao acreditar e fazer-me crer que tudo era possível com empenho e trabalho.

Como já referi, é uma honra enorme tentar acompanhar tão ilustres companheiros nesta nobre empreitada. Só espero ser digno de tamanha distinção.

Vamos então, ao “Caminho”!

sexta-feira, março 22, 2013

O outro lado dos Trilhos do Paleozoico

Agora, quase uma semana depois do evento, já com as pernas recuperadas de mais um empeno, resta a recordação de 5 dias preenchidos na ultimação dos trilhos que foram percorridos por largas centenas de atletas e caminheiros. Coube-me desta vez experimentar o outro lado das provas, o lado do frenesim constante para que nada falhe, o lado do stress estampado na cara do Director da prova, o lado das reclamações de quem participa e o lado da impotência perante factos consumados que não se conseguiram evitar, como a desagradável notícia de uma atleta que, infelizmente partiu a tíbia.

É digno de louvar o trabalho de quem se decide a montar tamanho “circo” quase sem apoios. Já o disse, volto a referir, o Luis Pereira e o Asdrúbal Freitas fizeram o milagre de, numa Serra que todos pensávamos conhecer, nos surpreender com trilhos fantásticos, abertos por eles, à mão, como pude testemunhar, quase sempre com uma tesoura de podar e uma sachola. Não se limitaram a marcar um percurso em estradões e trilhos existentes. Procuraram beleza que todos pensávamos não existir, e proporcionaram-nos uma nova prova que, esperemos, subsista por muitos anos. E pelo que vi, ainda há muito para mostrar.

Desde há uns meses, quando começaram os preparativos para a prova, organizaram treinos nos trilhos para que, quem se quisesse ir ambientando aos percursos, à dureza de algumas subidas, e também para ajudar a manter limpos e calcorreados os trilhos abertos, o pudesse fazer.

Disse na altura ao Luis Pereira que, ou me inscrevia e fazia a prova, ou lhe dava apoio no que fosse necessário. Claro está que tive de lhe ligar na véspera de começar a marcar os trilhos. O Luis é assim, reservado, sempre disposto a dar, mas pouco disposto a pedir. Andou até à última para apelar por voluntários para os abastecimentos, depois de lhe roerem a corda os que se tinham comprometido a fazê-lo.
Mesmo depois de começarmos a marcar trilhos, teve sempre alguma relutância em colocar nos ombros de outros a árdua tarefa de se certificar que nada falharia. Nada falhou, graças a todos os que colaboraram, e também graças a ele, que quando via um troço mal marcado, desmarcava e marcava sem o referir.

Na véspera da prova, depois de colocarmos marcações nos trilhos mais próximos de zonas habitacionais, eles voltavam a desaparecer. No dia da prova, o Marco Silva, Asdrúbal Freitas e o Miguel Catarino, foram para os três terços da prova para se certificarem que tudo estava marcado em condições. Os diversos voluntários, quase todos ligados à corrida, espalharam-se pelos diversos abastecimentos para assegurar o bom funcionamento de todos no apoio aos atletas. Nada faltou. Quando o Luis se apercebeu que podia faltar abastecimento em Couce, foi a um hipermercado nas redondezas e rematou literalmente tudo o que eram bananas, laranjas, água e coca cola. Rapidamente, e sem que ninguém chegasse a sentir falta de alguma coisa, chegaram os víveres aos abastecimentos.

Houve falhas? Claro que sim. Só não erra quem não trabalha. Mas ficou a sensação de dever cumprido, a sensação de que, tudo o que podia ser antecipado o foi e correu bem.

Na análise à participação de todos, depois de 2 dias a tirar fitas nos trilhos, devo enaltecer o civismo e urbanidade com que todos trataram a natureza. Foram poucos os invólucros de géis e outros lixos habituais que encontrámos.
Houve colaboração de todos com os membros da organização e houve bom senso e paciência de todos os que colaboraram.

Fica a vontade de voltar a participar, seja na organização, limpeza de trilhos, marcação ou a fazer vassoura, como fiz em metade da prova, tendo-a deixado ao Rui Barbosa para dar apoio em Couce.

Parece-me que os Trilhos do Paleozoico são já a prova de referência no Porto para quem se quiser aventurar em provas de trail em distâncias ultra. Uma prova de 43 km que passa por três serras (Sta Justa, Pias e Castiçal), com desnível acumulado de mais de 4000 mt, com passagens por linhas de água, single tracks, enormes paredes e descidas menos íngremes e mais longas. Quem não teve oportunidade de fazer a prova, aproveite e apareça num dos muitos treinos que se organizam ao longo do ano.

Obrigado ao Luís por me proporcionar a oportunidade de viver por dentro o reboliço da organização de uma prova, até ao descomprimir do “arrumar da casa”. Fiquei com a bela sensação que ganhei mais respeito por todos os que se esforçam por pôr uma prova de pé. E ganhei uma admiração especial pelo espírito altruísta de muitos atletas do trail, que abdicam de competir para apoiar. É como na montanha, um amigo que precisa da nossa ajuda, e que a tem antes mesmo de a pedir. Assim é que é bonito. Este é o nosso espírito, dos que fazemos trail. Estamos lá para proveito próprio, mas sem passar por cima de ninguém, e abdicámos do melhor para nós, pelo bem de mais alguns.

Bem hajam!

sexta-feira, março 15, 2013

Trilhos, placas e fitas

 

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“Ninguém te encomendou sermão”, dizia a minha avó, transmontana de palavra fácil e directa e que habitualmente me colocava assim no lugar, quando me atrevia a falar sem que nada me perguntassem. 

Vem isto a respeito do que andei a fazer nos últimos dias, com o Luís Pereira, Asdrúbal Freitas e Marco Silva. O Luís, que com o Asdrúbal e ajudas pontuais de algumas pessoas, tem desbravado mato e traçado trilhos nas belas Serras de Pias, Sta. Justa e Castiçal, (que juntas formam a popular Serra de Valongo), para poder proporcionar aos mais de 1000 atletas que se vão aventurar na 1ª Edição dos Trilhos do Paleozoico, excelentes momentos de divertimento e aventura na natureza. Temos aqui um excelente espaço, com potencial para o trail, muito próximo do Porto, com excelente oferta de transportes, que provam que para fazer trail, não é necessário ir para recônditas serras do País, nem gastar muito mais que uma mera viagem de autocarro.

Os trilhos estão a ser marcados desde há alguns dias com placas indicativas, sinalização pintada em estrada, placas de alerta e com as habituais fitas de marcação de percurso. 
Todas as provas fazem alertas de segurança sobre os trajectos, (esta também o faz, leiam o regulamento), especialmente as provas de trail, e particularmente as que se desenrolam em ambientes onde os perigos espreitam onde menos se espera. Diz-nos a experiência, que nestas provas junto às grandes cidades, há sempre alguém que se aventura para experimentar uma nova vertente de corrida. Devem ter em atenção que a Serra de Valongo é constituída por escarpas, fragas (com enormes poços) e trilhos com inclinações às vezes superiores a 20%. É muito provável que chova, por isso devem usar calçado adequado e irem munidos de um impermeável, ter uma manta térmica na mochila de hidratação e algumas barras energéticas. Apesar de não fazerem parte do material obrigatório (telemóvel e reservatório de hidratação), estes artigos que referi podem fazer a diferença, caso haja algum imprevisto num trilho onde o acesso dos meios de apoio sejam mais demorados, ou mesmo serem fundamentais no caso de encontrarmos algum participante em dificuldade. Na montanha os cuidados nunca são demais.

Apesar destes meus alertas, fica o meu testemunho de que tudo está a ser acautelado, para que nada falhe.

Assim, e para vos poder passar a imagem do que vão encontrar na prova, deixo-vos algumas imagens da sinalização dos percursos.

 

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Fitas que marcam o percurso

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Quando vires esta placa, volta para trás. Indica trilho errado.

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Placa que indica trajecto para os 43 km. Existe outra para os 16 km.

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Placa indicativa do percurso

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Fita na horizontal para alertar para percurso.

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Esta sinalização não é da nossa prova.

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Setas que ficaram, indicam o mesmo trilho, mas não pertencem à prova.

 

Não olhem só para o chão, há perigos que espreitam ao nível da cabeça. Apesar do cuidado que o Asdrúbal e o Luís tiveram na limpeza dos trilhos, há sempre obstáculos mais difíceis de transpor, se assim não fosse perdia a piada.

A organização, que embora pareça de muita gente, é uma empreitada digna de louvor do Luís Pereira e do Asdrúbal. São dois enormes campeões, que correm muito e são dos melhores a nível nacional, e que conseguiram transpor para esta organização o nível de excelência que têm como atletas.

Parabéns a todos os que colaboraram com eles, patrocinadores à cabeça. A vossa aposta foi acertada.

Boa prova a todos!

segunda-feira, março 11, 2013

Vontade de correr

Não que ainda não tenha corrido hoje, nada disso. Já fiz um treino de pouco mais de uma hora, 13 km para recuperar activamente da porrada literal que levei no Sábado, num louco treino de 30 km, entre a Póvoa de Varzim e Matosinhos, num desafio ao vento que soprava de frente a mais de 60 km/h. Ali para os lados do Cabo do Mundo, começou a dar-me mais vontade de andar do que de correr. O paciente Kim Lopes, lá me acompanhou até ao fim, ao meu ritmo. É fantástico como há quem faça maratonas abaixo das 2h50, e mesmo assim tenha paciência para aturar tartarugas... Fantástico!Entretanto, hoje, vejo este vídeo e dá-me uma vontade louca de voltar a calçar as sapatilhas, sair porta fora e correr sem que nada se transforme em obstáculo.É este o espírito do trail. Nada, mas mesmo nada nos detém. Há monte? Sobe-se!Há rio? Atravessa-se nem que seja a nado!Há coração? Corre! Corre! Corre! Serra os dentes e corre!Livre, tu e a natureza. A simbiose perfeita!

sexta-feira, março 01, 2013

Ultra Trail “Ad Hoc”

O termo “ad hoc”, do latim, é normalmente utilizado para justificar uma especificidade que varia do significado normal do acto, ou experiência. Neste caso, será um Ultra Trail, que se distingue dos demais por não ter, nem partida em conjunto, nem chegadas ao sprint, sob pressão de tempos cronometrados para a geral, sem aglomeração de atletas, e sem sequer um trajecto para percorrer. O que a distingue das demais corridas é precisamente o facto de os atletas escolherem além do trajecto, tempos de descanso, paragem e abastecimentos, escolherem também a hora de saída, tendo uma janela para o fazer de 12 horas na Ultra, ou de 3 na distância mais curta, desde que respeitem o tempo limite de prova. Claro está que o tempo de prova só começa a contabilizar a partir da saída.

refúgio

Estou a falar da Ultra Trail Picos da Europa que se vai realizar no final de Julho, nas distâncias de 120 ou 50 km, e cujo tempo limite será de 50 horas para a distância mais longa, ou de 25 para a mais curta. A corrida é feita em par, em regime de autonomia total, com possibilidade de ter nos pontos de controlo (refúgios de montanha) outros elementos ligados à equipa, que possam fornecer equipamento, abastecimento ou outros apoios que sejam necessários. Podem-se utilizar mapas, gps, bússolas, ou outros elementos de apoio à orientação no terreno da prova.

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Será com certeza uma prova de sonho, com imagens e momentos espectaculares, num ambiente único, diria mesmo de sonho, para se fazer uma prova extrema, em que o apoio é o companheiro de equipa.

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Arrisco-me desde já a organizar uma equipa de apoio para quem se atrever a inscrever-se na prova.

Quem se atreve?