A respeito deste post no Facebook de um atleta, que por acaso também é organizador de uma (excelente) prova de trail, apeteceu-me dissertar sobre a corrida, cada vez mais virada para grandes públicos e cada vez mais em moda, mas também, ainda pouco tratada como a evolução merece. Há ainda muito amadorismo nas organizações das cada vez mais lucrativas provas de corrida, sejam em montanha ou em estrada.
Desde o organizador de uma prova na Serra da Estrela, de 100 milhas, onde se perderam vários atletas por deficiente marcação, que se perde a retirar as ditas marcações e é resgatado pelas autoridades já quase em hipotermia extrema e colocando a própria vida em perigo, até à prova de estrada sem água nos abastecimentos, com temperaturas acima de 30 graus, já tivemos de tudo. Chegámos ao cúmulo de, depois de alguns atletas se enganarem num percurso numa outra prova de trail (curiosamente, ou não, do mesmo organizador da de 100 milhas) por deficiente marcação, e inclusive por marcações ainda da prova do ano anterior, culpar os atletas pelo erro, por, pasme-se, não terem assistido ao briefing. Como se as provas, pagas pelo atleta, não tivessem qualquer responsabilidade sobre aquilo que prometem, organizam e cobram. Temos agora a originalidade de chamar “espontâneo” a um termo de responsabilidade obrigatório, com cláusulas que roçam quase o ridículo, e onde só falta a obrigatoriedade de indemnizar a organização caso causemos incómodos de maior.
Podia dar-vos mais exemplos. Há muito amadorismo no tratamento dos milhares de atletas que enchem estas provas, quase tanto como a leviandade com que a grande maioria dos atletas tratam a corrida. Calçam sapatilhas, compram uma mochila, um frontal, géis e barras, um bom corta-vento, e fazem-se às provas sem sequer fazerem um exame médico que ateste a capacidade da máquina em fazer grandes esforços. Duvido que, dos mais de 700 (!!) inscritos no próximo Trail Serra D’Arga, metade saiba qual o estado do seu corpo. Gastam mais de 600€ em equipamento, sobra pouco para os cerca de 50 ou 60 que custaria um exame médico desportivo.
Mas este texto é sobretudo sobre as organizações. As provas de estrada em Portugal são organizadas por amadores. Há algumas empresas ligadas ao ramo, cujos proprietários se dedicam em exclusivo à organização destes eventos, mas que evoluíram de organizações puramente amadoras, de tempos em que a corrida era pouco expressiva em termos de adesão de amadores, e que continuam assentes no mesmo método de trabalho. Temos que lhes dar o mérito que têm, reclamam e merecem. Talvez eles devessem aceitar as críticas, não com humildade, já que o profissionalismo não pode ceder a sentimentos, mas com o profissionalismo e bom senso que é recomendável a quem dá a cara por marcas de renome. Porque quando se responde a um “cliente”, responde-se com vários fatos vestidos, o seu e o dos patrocinadores.
Sou profissional da área comercial. Lido com clientes todos os dias. Muitas vezes respiro fundo, grito para dentro e controlo os meus ímpetos (estes sim espontâneos), que me levariam a tratar com os pés aquilo que deve ser tratado com pinças. O cliente nem sempre tem razão, há imensas coisas que ele desconhece e que levam ao resultado que ele vê, mas isso é inexplicável quando o objecto de tudo o que está oculto aos seus olhos, é ele próprio. Claro que tudo isto é gerenciador de stress, de algum sentimento de frustração do nosso lado “animal”, que gosta sempre de dominar e terminar qualquer contenda com o pé em cima do adversário, mas não pode ser. Devemos, quando lidámos com clientes, manter a mão estendida disponível a um entendimento, sob pena de, sendo o resultado um cliente insatisfeito, estarmos a fazer transparecer uma ideia errada sobre todo o esforço despendido para a sua satisfação, e o malvado não o compreender.
Há no entanto uma empresa em Portugal que é quase exemplar nos eventos que organiza. Pelo menos aos meus olhos. Evoluiu pelas mãos de um homem: Jorge Teixeira.
Participei em imensas provas organizadas pela Runporto, desde a “Corrida do Homem e da Mulher”, passando por corridas solidárias, até às 1/2 maratonas e maratona (vou para a quarta participação em 10 edições), e a ideia que tenho é que a evolução tem sido muita e se nota cada vez mais profissionalismo e atenção aos pormenores, havendo sempre coisas a melhorar, como em tudo na vida. A perfeição não existe e só erra quem trabalha. E se há coisa que uma organização destas dá, é imenso trabalho. Pensa-se que se enriquece com a organização de corridas, mas não consta em nenhuma lista de milionários, qualquer homem dedicado em exclusivo a esta actividade. Tem que se ter paixão, dedicação e muito trabalho e vontade de vencer.
O dono da Runporto, é um homem dedicado à corrida e à sua divulgação, e um dos principais responsáveis pelo boom de corredores nas nossas ruas, ao organizar superiormente muitos dos eventos de corrida do Grande Porto. Conheço-o pouco. Conto pelos dedos do meu corpo, as poucas palavras que com ele troquei, uma vez na sua “Loja do Corredor”, uma ou outra vez nos aniversários do meu clube, ou num ou outro encontro ocasional. Conheci um dos seus filho na Maratona de Lisboa, esteve em alguns pontos da prova a apoiar-nos, e ainda hoje, simpaticamente me saúda quando nos cruzamos numa ou outra prova. São gente de trabalho, toda a família se dedica à Empresa. São seguramente boas pessoas porque eu olho para a equipa da Runporto e vejo os mesmos há anos a entregar dorsais, a montar as estruturas, nos controlos de provas, etc. Este é normalmente um indicador de gente satisfeita com o ambiente, método e com o resultado do trabalho que fazem. Acredito que são uma equipa consolidada porque o líder é forte, sabe o que faz e os guia aos resultados. E um líder é mesmo isso, um líder. Um bom líder faz com que a sua equipa seja simpática no seu todo, apesar de um ou outro mais antipático, eficaz no trabalho, apesar de um ou outro erro, e acima de tudo eficaz a preservar o nome da empresa, e passar essa mensagem à equipa. E o Jorge Teixeira faz isto quase na perfeição. Quase, porque ele próprio desgasta a imagem com pormenores que nada acrescentam. Enerva-se, com certeza terá alguma razão, defende a empresa como se fosse o próprio, mas a Runporto já tem uma dimensão que o Jorge Teixeira tem que deixar evoluir, não personalizando tanto as questões, que não passam de pormenores numa máquina afinada.
Numa empresa, as trocas de mensagens, têm sempre que fazer passar a imagem da empresa e nunca sentimentos ou estados de alma pessoais. Isso faço eu, aqui no meu blogue. Nas empresas, a comunicação tem de ser profissional. A Runporto organiza tão bem as suas provas que seria mais uma excelente demonstração de profissionalismo, fazer a comunicação com atletas por profissionais, e deixar estas, digamos, “altercações”, para trás. Passar à frente, tentar resolver o problema, e se não houver como, pedir compreensão e não despoletar situações como a relatada pelo Leandro, ou como outras que se podem ler nos comentários, porque eu acredito que há tanta coisa boa na Runporto que não pode ser uma má estratégia de comunicação que a possa beliscar.






