segunda-feira, outubro 21, 2013

Ultra Trail das Aldeias de Xisto

Repito-me ao considerar as provas de trail como reuniões de família, onde todos se conhecem, ou se não se conhecem, facilmente se integram. Como em todas as famílias, há uma altura no ano em que a reunião é especial, uma espécie de banquete de Natal, onde todos se reúnem e celebram mais um ano, com farta mesa, onde há de tudo. O UTAX é a celebração do trail em Portugal. Com uma prova de 88 km e outra de 45 (Trail da Lousã) cuja designação é fiel ao percurso, com passagens por Aldeias de Xisto, tem a distância e a localização ideais para reunir os amantes do trail nacional, numa Serra que é um hino à natureza, com um pinhal imenso, quedas de água, rios e ribeiros, aldeias preservadas e recuperadas, e uma paz de cortar a respiração. A vontade que nos dá é de parar, contemplar e chorar para dentro o rol de sensações que só uma beleza daquelas nos induz.

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Sexta-Feira, dia de verificações técnicas e levantamento de dorsais para os atletas da Ultra, ao chegar a Castanheira de Pêra, base da prova, foi provavelmente o dia em que mais chuva, das fortes, vi cair. Estava apreensivo. Apesar da confiança que tinha nas pernas e na cabeça, as imagens da prova dos Abutres em Janeiro deste ano, onde abundaram a lama e água daquelas cercanias vieram-me à memória. Temia passar no dia seguinte o mesmo que passara então, calcorreando trilhos lamacentos e penosos, onde a difícil progressão duplicam o cansaço. Enfim, temores que felizmente não se confirmaram. Depois de uma noite dormida rapidamente, no lotado pavilhão da escola local, e já com café tomado numa pastelaria que abrira propositadamente às 5h, dirijo-me para o controlo 0. Muitas caras conhecidas, muitos bons dias com sorrisos ensonados, um flash aqui e ali das habituais fotos, um ambiente calmo, sereno e de sã convivência, como são sempre os que antecedem estas provas.

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Dada a partida, lá fomos a despertar os músculos em direcção às eólicas, cujas luzes sinalizadoras se avistavam bem lá no alto, por um pinhal onde rapidamente se dispersou o pelotão. Pouco depois, ainda no início da subida, reagrupámos todos, uns subiam, outros desciam, estávamos todos perdidos. Todos, do primeiro ao último. Esperámos pelo vassoura que nos encaminhou para o “Downhill” (feito uphill) que nos haveria de encaminhar até ao alto da Serra. As marcações, talvez devido à chuva e ao vento forte do dia anterior, eram deficientes em muitos pontos do percurso, sendo mais difícil o período nocturno. Registe-se que, a nível de percurso, só uma ou outra falha de marcação não pode diminuir o excelente trabalho de limpeza de trilhos e sua escolha. É uma prova com um percurso equilibradíssimo, onde não faltam zonas de trilhos planos ou pouco íngremes onde se corre durante quilómetros, passando por single tracks sinuosos em matas fechadas, e cujo final tem a sensatez de ser em estrada, estradão e trilhos pouco técnicos, provavelmente a pensar nos atletas mais lentos, como eu, que chegando ali já de noite, têm dificuldade duplicada pelo cansaço e ausência de luz natural.

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A partir daqui, já com o dia a raiar, o pelotão foi dispersando serra fora. Até aos 16 km, primeiro abastecimento, foi um agradável serpentear, divertido e luxuoso aquecimento. No primeiro abastecimento, primeira desilusão. Não havia nada com sal, o isotónico tinha acabado, sobravam gomas, banana, laranja e alguns biscoitos. Salve-se a simpatia dos voluntários, enchiam-se os reservatórios com água e voltámos ao trilho. Até ao segundo abastecimento, na belíssima Aldeia de Gondramaz, houve de tudo. Subidas, descidas, belas paisagens, florestas pintadas de cores e frutos de Outono, muita castanha espalhada pelo chão, enfim, trail do melhor. No abastecimento, mais do mesmo. Gomas e pouco mais, o resto tinha acabado, não havia rede de telemóvel e aguardavam por reforço do abastecimento. Daqui até ao Espinho, um trilho fantástico, que fiz sozinho, por ribeiros, pontes feitas de troncos de árvores, onde o sol chega por finas linhas douradas que embelezam a verdejante paisagem. Se há paraíso deve ser parecido com aquele percurso. No Espinho, ao passar no “Ti Patamar”, conhecido ponto de abastecimento de muitos dos que treinam por aquelas bandas, deu-me vontade de parar, mas sem companhia, segui caminho. Pouco mais à frente, na dura subida que antecedia a Lousã, encontro o “trio abutrico” que me acompanhou até ao fim, o João Lamas, José Carlos Fernandes e Tiago Santos. Ilustres “habitués” daqueles trilhos, organizadores da prova dos Abutres, tinham já “abastecido” no Ti Patamar. Por pouco perdera o melhor da festa. Lá seguimos juntos até ao Hotel Mélia, onde nos aguardava um abastecimento ultra: Canja, chá, café e todos os petiscos que lá faziam falta e que estavam em quantidade mais que suficiente. A acompanhar o aconchego do estômago, um saco previamente deixado à organização, com roupa seca e sapatilhas de reserva. Como estava confortável, nada mudei, limitando-me a meter na mochila uma camisola térmica de reserva.

Partimos de seguida em direcção à segunda parte da prova, com passagens por mais escadas infindáveis a cruzar as aldeias espalhadas pelas verdejantes encostas, fontes, castelo, uma levada belíssima onde correr era arriscado pelo perigo de cair ribanceira abaixo. Contemplação. Admirável Serra, esta bela Lousã. Espero que a conservem, há pouco em Portugal com tão assombrante beleza.

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Tinham-nos avisado no briefing, que por motivos de segurança havia sido abolido o PAC 5, passando a prova directamente do 4 para o 6. Assim foi. Um pequeno abastecimento aos 54 km de prova e a subida, tão bela quanto dura ao Trevim, ponto mais alto da Lousã, aos 1200 mt. A subida havia começado perto dos 200, com a levada a meio para “descanso”. Ali chegados, contemplámos, já na companhia do Rodolfo Rapaz e do Pedro Rodrigues (fotógrafo de ocasião), que se tinham juntado a nós na subida, a maravilhosa vista. O cansaço era pequeno perante tamanha beleza. Seguiu-se uma descida acentuada e nova ascensão, desta vez à Sra das Neves, onde entrámos no trilho que nos levou até ao PAC 7, na Aldeia do Coentral. Novo abastecimento reforçado, com canja quente, sandes de chourição e nova incursão do “trio abutrico” ao tasco local para mais uma mini.

Com a noite a cair, lá fomos juntos até final, aproveitando os cerca de 14 km finais para fazer recuperação activa. O facto de o percurso ser ali menos exigente, permitiu-nos recuperar forças sem abusar nos andamentos. Acabámos juntos, animados e com vontade de voltar, com 14h58 de prova. Previra 20h. Mesmo com 76 km registados no relógio oficial do nosso pequeno pelotão, sentimos-nos todos com dever cumprido.

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O UTAX é, como referi no início, uma excelente prova. Organização excelente, com um avançado controlo de passagens com actualização on-line, sem confusão nas entregas de dorsais e verificações técnicas, boas condições de solo duro e boa refeição final, abastecimentos excelentes a meio e ao km 75, e excelente percurso. Como em todas as famílias, quando vamos a um banquete festivo, podemos não gostar de tudo, mas não é o facto de as rabanadas estarem queimadas, ou a sopa insossa, que vamos dizer que o banquete foi um fracasso. O facto de as organizações, com esta conjuntura económica, lutarem com menos apoios, faz com que nem tudo seja perfeito. É compreensível. Talvez possam mudar o excesso de gomas para mais alguns pacotes de batatas fritas, o sal faz-nos muito mais falta. Quanto às marcações, obrigado por me fazerem dar mais umas voltas naquelas fantásticas paisagens. Não dei como perdido nem um metro do que fui fazendo a mais para encontrar o caminho. Deslumbrei-me com cada pedaço de trilho que percorri, com cada castanheiro que contemplei, com cada pássaro que chilreava nas densas florestas que cruzei. Fiquei cheio de vontade de regressar. Se não tiverem abastecimentos, por mim não há problema, levo sempre a mochila com comida, e um reservatório para água que por lá abunda. Temos que encarar os trails, cada vez mais como provas de auto-suficiência e cada vez menos como banquetes organizados. Os abastecimentos fazem parte do banquete, mas o prato principal é aquilo que nos vai fazer a todos voltar no próximo ano: A mais bela, equilibrada e brutal prova de trail que por cá se faz.

Parabéns a todos os que se aventuraram nesta epopeia, ao vencedor Armando Teixeira em masculinos e à Ester Sofia Alves no feminino, a toda a organização e voluntários, que foram inexcedíveis. No global, o saldo é amplamente positivo.

Portugal tem excelentes serras para correr. Haja mais “Go Outdoor” para as organizar. Se o circuito Ax Trail é assim, merecem apoios para o reactivarem. Fiquei “cliente”.

sexta-feira, outubro 18, 2013

Obrigado!

Ontem, ao ler e reler todas as mensagens publicadas no meu mural do Facebook, revi quase toda a minha vida. Desde colegas de banco de escola, passando pelos camaradas de tropa, até aos companheiros da vida, de trabalhos, da corrida, das simples amizades ou de algo mais, tudo está aqui agrupado. A forma que tenho de vos agradecer é a mesma caso não tivesse outra, dizer-vos que todos fazem parte de um trajecto de vida que continua, onde tudo acaba, mas nada tem validade.
Leiam este post que convosco partilho, de uma pessoa inspiradora, que se recusou a ter prazo e que, graças à atitude que demonstra, superou todas as estatísticas. Como ele diz, é preciso continuar a viver, apesar do que quer que seja. Todos tenhamos consciência, que o que queremos fazer não deve esperar por melhores dias, porque os melhores dias são estes. Temos o que vivemos e devemos viver sem ser na corda bamba do que vai terminar, mas no que há para viver. Como dizia Pessoa, "Vivo sempre no presente. O futuro não o conheço, o passado já o não tenho".
Obrigado por me darem o privilégio de serem parte da minha vida.
Beijos e abraços!

"...dia de molhanga hoje, e grande conversa com o meu médico (um dos que me segue) que adoro (síndrome de Estocolmo - ;.) )...

...falámos do prognóstico e de tempo de vida;
...eu nunca perguntei a nenhum médico quanto tempo de vida tenho; a razão é simples, sem bens nem rendimentos, não saberia o que fazer com essa informação, a não ser tirar fotocópias e arrumar papéis; coisa que nunca faria se tivesse duas semanas de vida;
...a ética/deontologia/ escola médicas obrigam o médico à verdade, conceito não absoluto, logo porque pode ser contar tudo ou não dizer mentiras; mas acho estranho que alguém faça a pergunta e mais estranho ainda que o médico dê essa informação por várias razões:
=> não acredito que seja a regra, mas não existirão alguns muito poucos médicos que baixam a esperança de vida para parecerem génios na gestão da doença?
=> além da classe modal, cujas estatísticas estão disponíveis online, só acontecem excepções; quantas vezes não ouvimos alguém que tinha 6 meses durar cinco anos? Na vastíssima maioria dos casos o doente ultrapassa o tempo comunicado;
50% dos cancristas de pulmão morre no primeiro ano; porque normalmente este cancro é insidioso e uando o pciente chega ao hospital já está todo roto; eu já cá vou a caminho dos 5 anos....graças a Deus só soube desta estatística há pouco...
=> a fixação de um prazo de validade retira energia e motivação para o aproveitamento do tempo de vida; ou seja o tempo da morte é trabalho do médico e da medicina, o tempo da vida é do cancrista; eu não preciso de saber quanto tempo vou viver, porque alterarei a minha vida em função do meu prazo; à partida eu calculo que não viverei tanto como os outros, mas cada dia meu tem e deve ser igual a todos os outros, até ao último;
=> A teoria dos bucket lists, popularizada por um lindíssimo filme de Morgan Freeman e Jack Nicholson; tive a graça de viver o meu bucket list desde a minha adolescência, e da maioria das coisas que queria fazer na vida já as ter feito; além disso a maioria das coisas que agora me faz feliz e me energizam não custam dinheiro; mas não as aproveitarei da mesma maneira com um prazo;
Se eu tivesse dinheiro e tivesse vivido uma outra vida, não quereria aproveitar o tempo que me sobra para subir o Himalaia ou uns gang bangs em Las Vegas? Dont think so; até porque não saberia como as poderia aproveitar com o cutelo em cima da cabeça; se alguém tem cancro, não faz a pergunta e se puder e tiver recursos, corra para o seu bucket list, seja essa a opção sem necessidade de saber que são 4 semanas ou 6 meses;

=> certo que certas coisas poderão ficar melhor arrumadas e não deixadas ao descuido, como a educação dos filhos, a questão patrimonial para quem o tenha, o testamento espiritual, os nossos objectos pessoais, etc etc; mas tudo isso pode ser tratado já, sem saberem esse errado prazo!

Portantos:
1 - Não perguntem nunca qual o vosso prazo de validade;
2 - Peçam ao vosso médico para não o dizer;
3 - Organizem-se e bucketizem o que quiserem, já; não como se tivesse medo de não viver para sempre, mas porque isso vos poderá tranquilizar e energizar;
4 - Não leiam as estatísticas, por causa do frango;
5 - Quando alguém vier dramaticamente vos dizer que têm x semanas ou meses, digam-lhes que é mentira, porque eu disse que era mentira e que o prazo será maior; acertarei em mais de 90% dos casos!! nos casos em que falhar faltará decidir para quem vai a cómoda da Tia Mariazinha, o que não é muito grave...

Esqueçam este assunto. o segredo é sempre o mesmo, poderemos morrer da doença, mas a doença numa nos matará, porque viveremos todos os dias como se não a tivéssemos, como se ela não fosse um assunto! (minimizando a dor e desconforto, tentando todas as terapias, rodeando-nos de pessoas boa onda, replicando e repetindo os cassos de sucessos, etc etc etc...)"


O texto original pode ser lido aqui.

terça-feira, outubro 15, 2013

O Urban Trail é “me(u)”, disse o Porto

Foi aqui que ele nasceu, num aparente longínquo Abril. Vou reler o texto que escrevi então, e reparo que passou apenas pouco mais de um ano.

Longe vão os dias em que correr escadas acima, rampas e ruelas escuras abaixo, nas zonas históricas do Porto e Gaia, era regalia de alguns, que na ânsia de treinar desníveis como os das montanhas, que tanto apreciam e onde correm quando podem, calcorreavam-nas todas, descobrindo todos os caminhos sinuosos, cinzentos, rudes e belos, já coroados como Património da Humanidade. São cada vez mais a fazê-lo. Tudo graças à iniciativa de alguém que, afectado pelo desemprego, pôs mãos à obra e não descansou enquanto não viu o sonho concretizado, com a ajuda de alguns e o apoio de outros, que superiormente reconhece.

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O Urban Trail é um acontecimento único. Há imensas corridas, mas só esta consegue fazer desfilar pela cidade, um bonito carrossel de luz e gente bem disposta, que parece querer prolongar o privilégio de tomar a zona histórica de assalto, não forçando o passo para poder usufruir por mais tempo.

Como habitualmente, fiz a prova na cauda. “Varri” a primeira edição, (a pirata e a oficial), e o Jorge Azevedo e o Miguel Catarino, organizadores da prova, desafiaram-me a repetir a experiência. Desta vez levei uma bandeira no lugar da vassoura, o que não impediu que, por onde passasse, todos me apelidassem de “carro vassoura”. Foram 2h14 para fazer 12 km, mas já não me vejo a fazer esta prova num ritmo rápido. Logo depois da partida na Ribeira, e de percorrer a Ponte Luis I (tiraram-lhe o “Dom” por ele se ter baldado à inauguração), o primeiro grupo a passo, apesar de o terreno ser ainda plano, fazia-me adivinhar o que vinha. Seria um longo passeio. Ribeira de Gaia fora, com um belo espectáculo de cor do outro lado, com a multidão alinhada para a partida da caminhada, lá fomos ora a correr, ora a saudar quem nos saudava. Primeira subida, o grupo engrossa com alguns que sentem pela primeira vez a inclinação da zona ribeirinha nas pernas. “Ó Sr. faltam muitos?”. “Sou o último”. “Então força, que isto sobe muito”. Lá fomos em direcção à Taylor’s, por onde passámos entre pipas de história em forma de vinho, onde só faltou a prova de um vintage. Mais umas vielas e ruelas, passagem pelo Yeatman e chegada ao fantástico ponto de observação do Porto, a Serra do Pilar, com passagem pelos claustros do Mosteiro. Aqui, talvez devido à água bebida no abastecimento, um grupo de corredoras vai ao wc, e eu, claro, espero, enquanto o corrupio de caminheiros continua a ultrapassar-me. Caminheiros rápidos vs corredores lentos. Descida ao tabuleiro inferior da Ponte pela rua do Casino (é verdade, chama-se assim e o casino existiu mesmo, em tempos) e, já com a companhia do João Meixedo, subida das escadas do Codeçal, rumo à habitual passagem pela Muralha fernandina e descida à Sé Catedral. Tanta história tem o Porto, que passámos por muitos mais monumentos que os que aqui vou referindo, e que provavelmente passam despercebidos a tantos que por eles passam diariamente na azáfama da rotina. A nós, que fazemos destas ruelas e escadas pista de treinos, só as passagens que referi são novidade, todas as outras estão disponíveis no dia-a-dia.

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Depois da Sé, seguimos rumo à Vitória, onde iniciámos o abastecimento, e que durou quase até ao Palácio.

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Um serpenteado desenhado nos jardins do Palácio de Cristal, descemos à marginal, onde rumámos à meta instalada junto ao Cubo da Ribeira.

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Foi este o grupo (Iolanda Barros, Ivone Ganso, Sandra Pascoal, João Meixedo e Nuno Godinho) que nos acompanhou quase toda a prova. Pouco habituados a correr, fizeram das tripas coração, e apesar da lesão num joelho da Iolanda, acabaram com brio, a primeira das, espero, muitas provas que farão a correr. Porque tudo tem um início, tudo tem uma primeira vez, e para primeira vez, um trail urbano com mais de 500 mts de desnível positivo, é obra. E sempre bem dispostos. Virtudes do desporto, apesar das dificuldades, há sempre um sorriso de satisfação.

Parabéns ao meu amigo Luís Pereira, brilhante vencedor, num tempo que, com certeza, não o deixou apreciar a paisagem. Voou literalmente. 

Parabéns à organização, que resolveu com mestria o imbróglio que é o de separar a corrida da caminhada, apesar de partilharem parte do percurso, sem que deixasse de haver muito público sempre, e sem haver, aparentemente, qualquer desagrado por parte dos atletas. Foi uma festa, e as festas, no Porto, são sempre bonitas e animadas.

Venha o próximo!

quarta-feira, outubro 02, 2013

Mudar de direcção

O meu pai foi policia 11 anos. Ainda hoje, aos 76 anos, conduz como lhe ensinaram na extinta Polícia de Viação e Trânsito. Faz pisca para sair de estacionamento, pisca para mudar de direcção, para estacionar, pisca sempre. Chega ao cúmulo de alternar os piscas enquanto faz a manobra de inversão de marcha. Exageros da boa formação. Hoje de manhã andei uns quarteirões atrás de um carro patrulha que nem um único pisca fez. 
Há pessoas que assinalam tudo, desde mudar de emprego, de passatempos, de mulher, de carro, enfim, do que quer que seja, e dizem-no ao núcleo mais próximo, sejam amigos, família ou ao merceeiro. Outros há que nos surpreendem pela mudança sem nada o prever. 
Esta sociedade que foi criada, de rotinas, de Pais, filhos, família, trabalho, amigos, tem virtudes e ainda mais defeitos. É uma sociedade rotineira, onde todos pagámos um preço pela circunstancial liberdade que todos cremos ter. Estamos agarrados à família, ao banco que antecipou o dinheiro para a casa ou para o carro, ao emprego que permite ter todos os comodismos de que não se quer prescindir, à mulher que lava a roupa, passa a ferro, faz o almoço e outras cordialidades, ao leva à escola-traz da escola-leva ao treino-deita na cama, enfim, às rotinas da sociedade urbana moderna. 
Para tudo isto vivemos em caixotes verticais que chamamos prédios, com plasmas e pc's, smartphones e tablets, por onde vemos passar sonhos que só conquistamos com uma volta pela rotina ainda naquela noite e em todos os dias que se lhe seguirão. 
Ocasionalmente somos felizes, mas no dia-a-dia somos rotineiros. Já lá vão os tempos em que tudo era novidade. 
Cada vez mais os nossos anos parecem meses, quando nos tempos em que éramos livres, os meses nos pareciam anos. Agora, em cada Segunda-Feira há um regresso à rotina. A sua ausência só é permitida para os que ainda não têm contas para pagar, filhos para tratar ou conjuge para amar. Esses mantêm a ânsia de cumprir o sonho, que se transformará naquilo que é o homem da sociedade moderna. E depois desiludem-se e vêm que, afinal, os contos de fadas são só isso, Contos de Fadas. 
Na vida como em tudo, o entusiasmo é apenas no início, quando tudo é novidade, quando queremos sentir mais e mais sensações, experiências, vivências, coisas novas! E fazemos sempre os mesmos gestos à espera de resultados diferentes... É a segurança da rotina. 
Na corrida, ao contrário do resto, tudo se sente mais intensamente. Buscamos ali o sorriso fácil, a dor que não esperávamos, ou a sua ausência quando a tínhamos como certa, a sã convivência com quem queremos conviver, o simples prazer de lutar contra muros e intempéries que nas rotinas não somos capazes de enfrentar. Na corrida somos de novo livres, e por isso corremos. Uns e outros, aqui e ali, de madrugada, sozinhos ou em grupo, às vezes em silêncio outras a conversar. Corremos apenas porque sim.
Eu não faço "Planos de treinos". Tenho para mim que fazê-lo é comprometer aquilo que a corrida trouxe de diferente para a minha vida: A liberdade de poder escolher o "Quando, onde, como e com quem", sem fazer fretes, numa espécie de relação aberta. Como no sexo com uma amizade "colorida", (o inesperado sabe sempre melhor, daí ter sempre sapatilhas no carro) se nos encontrarmos e nos apetecer, tudo bem. Até pode ser com um desconhecido ou com quem já nos havíamos cruzado, isto sim é a pureza das coisas que nos dão mais prazer e que mais significado têm, pela ausência de rotina. Por isso gostamos tanto das férias, ou de surpresas. Isso sim é viver, o resto é rotina para mantermos o "status quo". 
Apetece-me mudar de direcção e vou fazê-lo, mas sem "dar pisca". Não que os "condutores" que vêm atrás não mereçam consideração, apenas e só porque não quero rotinar a minha vida. Acontece o que tiver de acontecer, sem "Planos". "Dar pisca" e depois não "virar" é bem pior que não assinalar, porque as desilusões nascem da expectativa. 

domingo, setembro 29, 2013

3ª Edição Grande Trail Serra D’Arga

 

Mais um encontro com a paixão.

A reportagem jornalística, seria mais ou menos assim:

- Mais de 1800 inscritos nas diversas provas, desde o Trail Jovem até à distância rainha de 45 km, coloriram o horizonte cinzento da intempérie que se abateu ontem sobre a outrora verde Serra, flagelada pelos recentes incêndios. Os aventureiros atletas que desafiaram a chuva e vento fortes, provaram que também é possível correr sobre os rios, tantas eram as linhas de água que corriam sob seus pés.
Os resultados podem ser consultados aqui.

Como não sou repórter, deixo esse relato para quem estudou belíssimas formas de descrever o “onde, quando, como e porquê”.

Sou totalista das edições do GTSA. Na primeira edição ficámos pelos 21 km, na segunda conseguimos terminar em beleza toda a distância, num belíssimo dia de sol. Ontem, apesar da chuva intensa, da lama resultante dos incêndios do último verão que fustigaram a Serra, e do vento forte, tudo decorreu mais ou menos dentro da normalidade.

Não se pode esperar do trail em Portugal muita “paz”. Caso as provas não se aventurem em maiores quilometragens, o recente boom de participantes de provas em montanha vai fazer com que haja cada vez menos uma família do trail, transformando esta numa imensa comunidade. Longe vão os tempos dos pioneiros do trail em Portugal, em que os participantes e respectivas famílias enchiam uma sala de restaurante no fim das provas. Hoje em dia, com a quantidade de atletas que calcorreiam os trilhos, nem 1 porco assado servido em sandes é suficiente. Os balneários da 1ª edição desta prova, onde lamentávamos o corte da prova pelo mau tempo, foram substituídos por gigantescas tendas instaladas no campo de futebol, que, como sempre, servia de parque de estacionamento, parque esse já insuficiente para mais de 1800 atletas e famílias. Há 2 anos cheguei cedo, pelas 6h00, cruzei-me com o Carlos Sá, vi alguns atletas a acordar, e recordo-me que, pouco depois das 7h ainda se conseguia estacionar junto ao Centro Cultural de Dem, base da prova. Ontem, com o triplo dos atletas inscritos, às 7h10 já era difícil levar o carro até ao campo de futebol. O burburinho da 1ª edição passou a caos. Aqueles momentos que nos habituámos a ter antes das provas de trail, em que todos nos cumprimentávamos e que tão intimistas e únicos nos pareciam, tendem a desaparecer. Não é mau que assim seja. O sucesso que muitos atletas têm tido, o convívio com a natureza que proporciona (apesar de ainda haver muito porco a deixar lixo nos trilhos) e a paixão que estes desafios geram, faz com que sejam cada vez mais os que se aventuram nestas provas. É normal. Na Europa já há muitas provas por sorteio por isso mesmo, portanto nada de novo.

Devido às eleições autárquicas, a prova teve de ser antecipada um dia, sendo assim corrida a um Sábado, o que considero ideal, para podermos todos recuperar no Domingo, mas antecipou também as jornadas técnicas para Sexta, à noite. Às 20h50, quando saímos do Hotel em Caminha, onde decorreu também a Expo-Maratona, ainda nem tinham começado. Depois de um dia de trabalho, viagem para Caminha, prova a começar cedo, lá fomos jantar, eu, o Carlos Natividade, João Meixedo, Vítor Dias e Miguel Santos. Como íamos dormir perto de Ponte de Lima, em Lanheses, casa da família Meixedo, prescindimos de ouvir as palestras e fizemo-nos à “vida”. Num restaurante onde já estava uma bela matilha (os nossos conterrâneos Cães d’Avenida), atirámo.nos a chouriço assado, costelinhas na brasa, arroz de pato no forno (com pato), sobremesas à altura e maduro branco para não descurarmos a hidratação. Tudo como mandam as regras do trail: Conviver. Repasto concluído, lá fomos estrada fora até Lanheses, com alguma chuva, que já fazia adivinhar o banho do dia seguinte. Como habitual quando nos juntámos, deitámo-nos tarde, demasiado tarde, para lá da 1h.

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Acordámos cedo, fomos para Dem e para a linha de partida à espera do controlo 0. O Regulamento obrigava-nos a levar (com indicação de controlo de material na partida e controlos surpresa durante a prova) desde manta de sobrevivência, até ao frontal. A ausência de qualquer um dos itens obrigatórios implicaria penalizações, de 1h até à exclusão. Alguém foi controlado? Nada. Pareceu-me demasiado displicente, estando o dia que estava, querendo crer que todos levaram o material obrigatório. É normal, e estava referido no dito regulamento, que quando vamos para a montanha, aquele equipamento deve-nos sempre acompanhar. Mas numa prova que começa e acaba de dia, com tempos limite de passagem, obrigar a levar frontal…

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A corrida decorreu como seria de esperar. No meu caso, comecei como acabei, a andar nas subidas e a correr nas descidas e em plano, o que fez com que, apesar de termos saído em últimos (não resistimos a uma foto de um ou outro fã), tenhamos acabado por ter ultrapassado imensa gente até ao final.

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Esta prova é uma verdadeira prova de resistência e deve ser feita com muita cabeça. Quem abusa até aos 21 km, normalmente paga na segunda parte, muito mais exigente e onde se concentram as maiores e mais duras subidas. A beleza da serra, ontem, escondeu-se por trás de um nevoeiro que persistiu até ao fim. Talvez tenha sido melhor assim, porque o cinzento das cinzas que a cobre em grande parte, não é o melhor atrativo para voltar. Tenho quase a certeza que muitos dos que lá foram voltarão e trarão mais gente para a admirar. Já eu não sei se farei de novo uma prova que, apesar de continuar a achar a mais equilibrada em quase todos os pontos, se está a transformar em algo demasiado grande que, sem desprimor, não me atrai. Os abastecimentos ontem eram em fila. O abastecimento dos 30 km, talvez o mais importante por ser depois da longa subida desde S. Lourenço até à Sra. do Minho, onde voltaria por nova exigente subida, quando lá cheguei, já não tinha nada com sal, e tudo o resto escasseava. Salvou-se com o chá de cidreira. Mas atrás de mim vinham mais de 100 atletas, pareceu-me que seria o abastecimento mais importante da prova e no entanto era mais pobre que o dos 15. Valeu-me o hábito de contar sempre com o meu abastecimento. É assim que faço, se o da organização não falhar e o meu sobrar, melhor.

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As marcações estavam aceitáveis, não me perdi em qualquer lugar, havendo no entanto quem se tenham enganado, ou tenha sido induzido em erro por elementos afectos à organização, como foi o caso de um grupo de favoritos da prova de 21 km.
Os brindes oferecidos (camisola térmica e colete de finisher) são de excelente qualidade, as jornadas técnicas boas e os banhos excelentes.
Talvez não fosse má ideia colocarem a meta junto da zona de balneários e parque, para haver mais gente junto à chegada dos participantes. Cheguei com cerca de 8 horas (menos mais de 2h relativamente ao ano anterior) de prova e havia um silêncio ensurdecedor junto à chegada, salvo 3 ou 4 voluntários que, 200 metros antes saudavam os que concluíam a corrida.

Parabéns aos mais de 1300 finishers, muitos deles estreantes. E que estreia. É uma excelente “prova” para quem se quiser estrear numa distância não elevada, mas com imensa exigência.

Espero voltar a conviver com muitos dos com quem lá me cruzei, e continuar a poder usufruir da amizade dos que comigo fazem o favor de partilhar largos quilómetros de treinos e aventuras. Gosto muito de correr, é um bónus que a vida me deu e que espero continuar a fazer por longos anos. Mas do que mais gosto é do espírito “Ultra”, de quem leva ao extremo a sua paixão e corre horas a fio, sem sofrimento, esse fica para os que competem. Porque apesar dos empenos, o que fica sempre, é a vontade de voltar a passar os belos momentos que passei entre Sexta e Sábado à noite. Do repasto de Sexta, até à Pizza em Portuzelo com que selámos o GTSA 2013, passaram menos de 24 horas, mas a intensidade e prazer que tirei de todos os momentos, de todas as incidências típicas da corrida, valeram muito. É isso que me faz querer continuar apesar de, aparentemente, haver coisas melhores para fazer num fim-de-semana chuvoso. Mas para nós que gostamos tanto disto, não há melhor do que partilhar esta insanidade que nos une e nos faz sentir de bem com a vida, como crianças despreocupadas com o futuro. É a paixão que nos une.

São assim as paixões, ficámos sempre à espera do próximo encontro.

terça-feira, setembro 24, 2013

A importância da comunicação

A respeito deste post no Facebook de um atleta, que por acaso também é organizador de uma (excelente) prova de trail, apeteceu-me dissertar sobre a corrida, cada vez mais virada para grandes públicos e cada vez mais em moda, mas também, ainda pouco tratada como a evolução merece. Há ainda muito amadorismo nas organizações das cada vez mais lucrativas provas de corrida, sejam em montanha ou em estrada.

Desde o organizador de uma prova na Serra da Estrela, de 100 milhas, onde se perderam vários atletas por deficiente marcação, que se perde a retirar as ditas marcações e é resgatado pelas autoridades já quase em hipotermia extrema e colocando a própria vida em perigo, até à prova de estrada sem água nos abastecimentos, com temperaturas acima de 30 graus, já tivemos de tudo. Chegámos ao cúmulo de, depois de alguns atletas se enganarem num percurso numa outra prova de trail (curiosamente, ou não, do mesmo organizador da de 100 milhas) por deficiente marcação, e inclusive por marcações ainda da prova do ano anterior, culpar os atletas pelo erro, por, pasme-se, não terem assistido ao briefing. Como se as provas, pagas pelo atleta, não tivessem qualquer responsabilidade sobre aquilo que prometem, organizam e cobram. Temos agora a originalidade de chamar “espontâneo” a um termo de responsabilidade obrigatório, com cláusulas que roçam quase o ridículo, e onde só falta a obrigatoriedade de indemnizar a organização caso causemos incómodos de maior.

Podia dar-vos mais exemplos. Há muito amadorismo no tratamento dos milhares de atletas que enchem estas provas, quase tanto como a leviandade com que a grande maioria dos atletas tratam a corrida. Calçam sapatilhas, compram uma mochila, um frontal, géis e barras, um bom corta-vento, e fazem-se às provas sem sequer fazerem um exame médico que ateste a capacidade da máquina em fazer grandes esforços. Duvido que, dos mais de 700 (!!) inscritos no próximo Trail Serra D’Arga, metade saiba qual o estado do seu corpo. Gastam mais de 600€ em equipamento, sobra pouco para os cerca de 50 ou 60 que custaria um exame médico desportivo.

Mas este texto é sobretudo sobre as organizações. As provas de estrada em Portugal são organizadas por amadores. Há algumas empresas ligadas ao ramo, cujos proprietários se dedicam em exclusivo à organização destes eventos, mas que evoluíram de organizações puramente amadoras, de tempos em que a corrida era pouco expressiva em termos de adesão de amadores, e que continuam assentes no mesmo método de trabalho. Temos que lhes dar o mérito que têm, reclamam e merecem. Talvez eles devessem aceitar as críticas, não com humildade, já que o profissionalismo não pode ceder a sentimentos, mas com o profissionalismo e bom senso que é recomendável a quem dá a cara por marcas de renome. Porque quando se responde a um “cliente”, responde-se com vários fatos vestidos, o seu e o dos patrocinadores.

Sou profissional da área comercial. Lido com clientes todos os dias. Muitas vezes respiro fundo, grito para dentro e controlo os meus ímpetos (estes sim espontâneos), que me levariam a tratar com os pés aquilo que deve ser tratado com pinças. O cliente nem sempre tem razão, há imensas coisas que ele desconhece e que levam ao resultado que ele vê, mas isso é inexplicável quando o objecto de tudo o que está oculto aos seus olhos, é ele próprio. Claro que tudo isto é gerenciador de stress, de algum sentimento de frustração do nosso lado “animal”, que gosta sempre de dominar e terminar qualquer contenda com o pé em cima do adversário, mas não pode ser. Devemos, quando lidámos com clientes, manter a mão estendida disponível a um entendimento, sob pena de, sendo o resultado um cliente insatisfeito, estarmos a fazer transparecer uma ideia errada sobre todo o esforço despendido para a sua satisfação, e o malvado não o compreender.

Há no entanto uma empresa em Portugal que é quase exemplar nos eventos que organiza. Pelo menos aos meus olhos. Evoluiu pelas mãos de um homem: Jorge Teixeira.
Participei em imensas provas organizadas pela Runporto, desde a “Corrida do Homem e da Mulher”, passando por corridas solidárias, até às 1/2 maratonas e maratona (vou para a quarta participação em 10 edições), e a ideia que tenho é que a evolução tem sido muita e se nota cada vez mais profissionalismo e atenção aos pormenores, havendo sempre coisas a melhorar, como em tudo na vida. A perfeição não existe e só erra quem trabalha. E se há coisa que uma organização destas dá, é imenso trabalho. Pensa-se que se enriquece com a organização de corridas, mas não consta em nenhuma lista de milionários, qualquer homem dedicado em exclusivo a esta actividade. Tem que se ter paixão, dedicação e muito trabalho e vontade de vencer.

O dono da Runporto, é um homem dedicado à corrida e à sua divulgação, e um dos principais responsáveis pelo boom de corredores nas nossas ruas, ao organizar superiormente muitos dos eventos de corrida do Grande Porto. Conheço-o pouco. Conto pelos dedos do meu corpo, as poucas palavras que com ele troquei, uma vez na sua “Loja do Corredor”, uma ou outra vez nos aniversários do meu clube, ou num ou outro encontro ocasional. Conheci um dos seus filho na Maratona de Lisboa, esteve em alguns pontos da prova a apoiar-nos, e ainda hoje, simpaticamente me saúda quando nos cruzamos numa ou outra prova. São gente de trabalho, toda a família se dedica à Empresa. São seguramente boas pessoas porque eu olho para a equipa da Runporto e vejo os mesmos há anos a entregar dorsais, a montar as estruturas, nos controlos de provas, etc. Este é normalmente um indicador de gente satisfeita com o ambiente, método e com o resultado do trabalho que fazem. Acredito que são uma equipa consolidada porque o líder é forte, sabe o que faz e os guia aos resultados. E um líder é mesmo isso, um líder. Um bom líder faz com que a sua equipa seja simpática no seu todo, apesar de um ou outro mais antipático, eficaz no trabalho, apesar de um ou outro erro, e acima de tudo eficaz a preservar o nome da empresa, e passar essa mensagem à equipa. E o Jorge Teixeira faz isto quase na perfeição. Quase, porque ele próprio desgasta a imagem com pormenores que nada acrescentam. Enerva-se, com certeza terá alguma razão, defende a empresa como se fosse o próprio, mas a Runporto já tem uma dimensão que o Jorge Teixeira tem que deixar evoluir, não personalizando tanto as questões, que não passam de pormenores numa máquina afinada.

Numa empresa, as trocas de mensagens, têm sempre que fazer passar a imagem da empresa e nunca sentimentos ou estados de alma pessoais. Isso faço eu, aqui no meu blogue. Nas empresas, a comunicação tem de ser profissional. A Runporto organiza tão bem as suas provas que seria mais uma excelente demonstração de profissionalismo, fazer a comunicação com atletas por profissionais, e  deixar estas, digamos, “altercações”, para trás. Passar à frente, tentar resolver o problema, e se não houver como, pedir compreensão e não despoletar situações como a relatada pelo Leandro, ou como outras que se podem ler nos comentários, porque eu acredito que há tanta coisa boa na Runporto que não pode ser uma má estratégia de comunicação que a possa beliscar.

quarta-feira, setembro 04, 2013

Salomon Hydro Sense

 

Testar equipamento é das coisas mais gratificantes que nos podem pedir, a nós, corredores de pelotão, daqueles que o fecham, com a expectativa de vir daqui alguma conclusão a que ainda não tenha chegado a “fina flor” da equipa de desenvolvimento de produtos desta prestigiada marca. A Salomon faz desenvolvimento e teste de novos produtos com a sua equipa de atletas profissionais, que aferem as capacidades dos acessórios e equipamentos, e onde experimentam artigos que satisfaçam necessidades específicas de alguns deles, saindo daqui a gama S-Lab. No fundo, a gama S-Lab é um conjunto de produtos desenvolvidos para necessidades de atletas de topo. Nos “Laboratórios Salomon”, reúnem os atletas, experimentam soluções e propõem outras. É a gama mais desejada pelo atleta anónimo. Como dizia um amigo meu “fraco atleta, mas bem equipado”.
Podem ver neste pequeno filme, um resumo  de um destes “S-Lab”, onde foi testado este equipamento pela primeira vez.

 

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Com a mochila Agile 12, enviaram-me também para testar, um par destas pegas que se adaptam facilmente à mão, que vem já com um cantil de cerca de 1/4 de litro de capacidade. Ora, quem me conhece e já treinou comigo, sabe que eu transpiro imenso, o que faz com que a minha necessidade de hidratação seja superior ao normal, e ainda para mais num verão como este, de calor acentuado. Fiz um primeiro teste, apenas com uma das pegas e respectivo “hydrapack”. O transporte é quase imperceptível, o peso mínimo, e nada incómodo, mas a quantidade apresentava-se insuficiente para as minhas necessidades. Como me tinham enviado um par, resolvi testa-lo. Coloquei nas duas uma garrafa de 0,20 cl, tendo resultado numa excelente descoberta de eficácia do produto. Rapidamente cheguei à conclusão que, nas maratonas, onde não prescindo de andar sempre com uma garrafa na mão para me ir hidratando, esta é a solução ideal, bem como para treinos até 2 horas, onde, até agora, no máximo levava uma garrafa pequena de água na mão, mas que se revelava quase sempre incómoda ao fim de algum tempo.
De realçar que a pega S-Lab Hydro Sense não aquece a mão, é adaptável a diversos tamanhos e volumes (até 500 ml), podendo assim responder às diversas necessidades. O transporte da hidratação torna-se simples e quase imperceptível, sendo uma excelente forma de a transportar nos treinos mais curtos.
Bons treinos!

quinta-feira, agosto 08, 2013

Ultra Trail Nocturno Lagoa de Óbidos 2013

 

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- “Veja lá, enfiaram-nos no lodo da Lagoa, andámos por umas poças de água espalhadas por canaviais, isto depois de quase 9 km em areia, pelas dunas e arribas entre a Praia d’El Rey e a Foz do Arelho. Como se não bastasse, antes de chegarmos à subida final, enfiaram-nos dentro de um túnel, onde a água lamacenta das últimas chuvas, repousava à espera de novas enxurradas que a levem. Era mal cheirosa, claro, como mal cheirosos ficámos todos.”

- “Antes do fim como?”

- “No km final.”

- “Sois uma cambada de coninhas!”

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Um bom resumo daquilo que leio por aí e que já discuti com alguns.
A mim sinceramente, o que me fica na memória, são os 51 kms em amena cavaqueira com o Meixedo, a paz que rodeia Óbidos durante a noite, os pescadores em silêncio, os coelhos a fugir, o céu estrelado, o cheiro a maresia nos kms de praia, a simpatia dos organizadores (que falham, como podem falhar todos os que se preocupam em fazer seja o que for) bem espelhada na figura do Jorge Serrazina com o Camel Back colocado, preparado para correr se fosse necessário, e a enorme alegria que sinto em me misturar num excelente ambiente que sempre são as provas de ultra trail. Sem esquecer claro, a excelente companhia do Natividade e da Naná na viagem ao Sul.

O resto, meus amigos, não passam de exaltações do que é o trail.

Deixemo-nos de “conices” (ou paneleirices, ou mesmo de merdas), no próximo ano estaremos lá de novo. A prova vale mesmo a pena.

sexta-feira, julho 19, 2013

Salomon Agile 12

Lembro-me bem de ter comprado a minha primeira mochila para Trail. Havia pouco tempo que corria em montanha, não teria feito mais que 2 treinos e uma prova de 17 km, e cometi a loucura de me inscrever na 1ª edição do Grande Trail Serra de Arga, e como fazia parte do material obrigatório, lá fui eu a uma loja da especialidade. Como um "burro que olha para um palácio", com ar de perdido perante tanta escolha, acabei por comprar uma qualquer de uma marca branca. Durou pouco. A bolsa de água rapidamente rebentou, não tinha apito, não era impermeável, nem era fácil o acesso aos diferentes bolsos, para, em prova, poder-me abastecer sem ter que a retirar. Depois dessa comprei mais duas. Uma, que tinha bidões de água em bolsas exteriores, mas que era desconfortável para transportar mais coisas (bastões ou roupa extra) e que não tinha bolsas exteriores, e outra ainda que se revelou um massacre para as minhas expostas clavículas. Somando os investimentos, gastei mais do que se tivesse comprado uma topo de gama.

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Há pouco mais de um mês, depois de seleccionado para "Field Tester" da Salomon, recebi uma mochila para testar, da gama Agile. Claro está que, achando-me ao nível do Killian como tester, tinha esperança de receber a gama S-Lab. Sou um apaixonado das mochilas Skin. Têm aquele ar minimalista, mas são do mais completo que existe. O preço, claro está, também é compatível, disparando para perto do dobro desta Agile 12, que não deixa de cumprir em bom plano as funções para que desejamos que sirva. Com uma boa capacidade, bem distribuída pela mochila, a sensação que tive nos mais de 200 km com ela, é a de que vamos sem todo aquele invólucro às costas. Fiz questão inclusive, de fazer todos os treinos na Freita, tal como a participação no UTSF, com os bastões acoplados e bem seguros, para saber se havia eventuais estorvos ou desconforto no transporte, ou da dificuldade de os segurar ou retirar e voltar a por no lugar. Impecável. Fiz treinos à chuva inclusive, em que nada que fosse dentro da mochila se tenha molhado. Tem, como muitos pretendemos, bolsas externas para colocar garrafas ou cantis, com "presilhas" para que não se soltem quando andámos mais rápido, ou mesmo quando atravessámos cursos de água, onde não é raro ver garrafas a boiar, perdidas por estarem soltas. Com todas as exigências requeridas, como apito e a já famosa bolsa de água da Salomon (PVC free), com um sistema de abertura simples, rápido e largo, para permitir um perfeito enchimento em prova, com compartimento dedicado, (para não termos de retirar toda a tralha para a voltar a guardar), e facilitar a limpeza. 
Na UTSF, adivinhando o calor, enchi a bolsa de água, coloquei dois cantis nas bolsas exteriores, perfazendo assim um total de quase 3 litros de água. Somando a isto as 4 sandes de presunto, 10 géis, 6 barras, corta-vento, uma t-shirt extra, bastões, estojo de primeiros socorros (nada de exagerado, apenas pastilhas anti-inflamatório, repelente insectos, protector solar, pensos para bolhas, vaselina, pensos protectores para os mamilos, pastilhas isotónico), telemóvel, 2 frontais, manta de sobrevivência e um par de meias extra… Ufa! Quando a levantei para sentir o peso, lembrei-me imediatamente da anedota do avião que tinha tantos extras, que os pilotos rezavam sempre para que descolassem e voassem com aquele lastro todo. Mas como qualquer bom amador, havia ali pouca coisa que pudesse prescindir. Aliás, sendo os líquidos o que mais pesava, seria burrice prescindir de algum. Fiz toda a prova sem que sentisse sequer tudo aquilo às costas. Os meus ombros não se queixaram, não havia compressão no esterno (que normalmente leva a má respiração), e tudo estava ali. Os 12 litros de capacidade não estavam esgotados, o que demonstra que podia ter feito a prova em autonomia total, sem mais acessórios.
Enfim, uma boa mochila, que superou as minhas expectativas, e que confirma, que, quem sabe, sabe. À semelhança das grandes marcas automóveis, que tentam abranger todo o mercado, apesar de começarem por fabricar topos de gama, e com eles ganharem notoriedade, também a Salomon se dedicou a encontrar uma solução acessível à grande maioria das bolsas. 
Soubesse o que sei hoje, e não tinha feito tantas experiências. Afinal, também as grandes marcas têm produtos para pequenas carteiras.
Boas corridas!

terça-feira, julho 16, 2013

Carlos Sá vence a 100 ª Edição da Badwather

 

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Enquanto escrevo estas linhas, muitos dos 96 atletas que partiram à aventura em Death Valley, sofrem a canícula do deserto, onde as temperaturas atingem regularmente os 55º celsius. Correm por paixão, por desafio, pelo sonho de completar as 135 milhas (217 km) de uma corrida de coragem, superação, dor e inferno. Os que a concluem (60 horas de tempo limite), chegam ao céu no Mount Whitney, 2350 mt acima do nível do mar, com um acumulado positivo de quase 4.000 mts, para receberem uma medalha de finisher, ou uma fivela de cinto (se a concluírem em menos de 48 h).

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Não existem prémios monetários, como na grande maioria das ultra maratonas. O prémio é a superação pessoal.

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Esta é uma prova de resistência única. Os atletas estão entregues a si e às equipas que os acompanham e apoiam, num teste de resistência também a estes, num constante vai-vem, para que o atleta se preocupe apenas em correr, e para que o seu sofrimento seja menorizado, se é que tal é sequer possível.

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O Carlos Sá partiu à aventura com naturais aspirações. Terá sofrido como demonstra há muito ser capaz, a equipa que o acompanhou, com o Pedro Amorim, a Domitília dos Santos, o Nuno Tamagnini e o Pedro Queirós, terão feito o possível e impossível para lhe poder proporcionar as melhores condições de prova, mas não há ninguém que não tenha de se transcender para fazer uma prova destas, quanto mais para a vencer.

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O Carlos já muito tem feito por este desporto que muitos praticamos e alguns apaixonadamente. Mas, com o apoio da Berg, os passos tornaram-se maiores e este é um passo enorme na notoriedade de um desporto que, até há pouco passava ao lado da opinião pública portuguesa. Espero que tenha terminado aqui. Já não dá para ignorar, são muitas as conquistas que ele tem trazido, sempre com a bandeira na mão. Ele e muitos outros que tanto nos orgulham e que tantos de nós tentamos imitar na dedicação, no treino, na humildade, no desportivismo e na grandiosidade enquanto atletas.

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Não há muito mais para dizer, senão felicitar o Carlos e restante equipa, nesta conquista.

Lá estaremos, no Francisco Sá Carneiro, para o receber como merece.



Fotos da prova em
http://instagram.com/badwaterhq 
http://www.flickr.com/photos/adventurecorps/
http://instagram.com/chriskostman

Vídeos da prova em
http://www.youtube.com/adventurecorps

segunda-feira, julho 01, 2013

O que fica de uma Ultra

Havia um texto que se impunha. Depois da fábula que ilustra a epopeia que foi o UTSF deste ano, impunha-se um outro, um pouco mais sério, e que serve para explicar a alguns indignados, que o que fica destas aventuras, são os momentos de superação coragem, desportivismo e principalmente de camaradagem e solidariedade.

Para mim, todos os que fizeram o UTSF, fosse até que km fosse, são tão dignos como os que acabaram a prova dentro do tempo limite, porque quem lá esteve sabe o inferno que aquilo foi. Houve por parte da organização alguma tolerância relativamente à insistência de alguns atletas em quererem acabar a prova. Depois de um esforço extremo de 65 km, decidiram não obstaculizar a progressão a alguns que, querendo concluir, fosse dentro ou fora do tempo, pelo trilho, pela Mizarela, por Albergaria da Serra, não queriam fazer 5 km de carro. Foi, como relatei, o meu caso, dos que estavam comigo e de mais 13 atletas, 16 no total, que foram classificados primeiro com mais que as 18 h de tempo limite, e posteriormente desqualificados devido a reclamações de alguns. Nada contra. Eu próprio não me considerava finisher, apesar dos 72 km que trouxe nas pernas e dos mais de 6600 mt de acumulado, 3300 deles positivos. A classificação de uma corrida não faz o atleta. O que faz o atleta são atitudes como a do Albino Magalhães, que apesar de ser dos mais rápidos do pelotão, abdicou da sua prova para auxiliar um atleta que abrira a cabeça no túnel junto a Rio de Frades, apoiando-o e buscando socorro, ou como as de tantos outros que, abdicando de alguns minutos na sua prova, fizeram questão de ser o apoio essencial para quem tanto dele precisava. O que faz um ultra, é a persistência de tantos que, como o Joaquim Adelino, todos os anos treina mais e mais para concluir esta enorme prova, e mesmo não o conseguindo, tem a coragem de se apresentar à partida com a esperança de matar o borrego. O que faz um ultra, são atitudes como a do Pedro Amorim e do Luis Sousa Pires, que apesar de barrados foram concluir o trajecto em quase 20 h. O que faz um ultra, são atitudes como as que tiveram os voluntários da prova, enchendo cantis, apoiando, quase dando-nos de comer à boca. O que faz um ultra são horas à espera na meta à espera que chegue aquele último atleta, agarrado ao bastão torcido, com o maior sorriso do dia. O que faz um ultra é a persistência nos treinos, a vontade de melhorar, a paciência para evoluir e a sabedoria de aprender. Não são classificações. Essas fazem campeões, os vencedores somos nós próprios que temos que o ser.

Não quero deixar de agradecer aos que proporcionaram e aos que me acompanharam nesta enorme aventura:
Ao João Meixedo, que vou aturar até velhinho, por nunca me deixar desistir e pela companhia permanente. Ao Carlos Natividade e à Naná, que como já referi, são uma referência enquanto pessoas solidárias, líderes e inexcedíveis; a Naná no apoio logístico e na amizade, o Carlos como mestre que pacientemente nos ensina a respeitar a montanha e a superar as dificuldades que ela nos impõem. Ao João Lamas pela companhia nos primeiros 30 km, onde pusemos a conversa em dia, e nos permitiu queixarmo-nos da dureza dos Trilhos dos Abutres, que superiormente coorganiza. Ao Pedro Amorim e ao Luis Sousa Pires, que nos fizeram companhia entre os 20 e os 50 km, sempre animados, numa tertúlia permanente que mais parecia estarmos numa conversa de esplanada, não fossem as dores nas pernas. Por último à Célia Azenha, renomada ultra maratonista (de estrada tem 42, de montanha já lhes perdeu a conta), que conta no curriculum, por exemplo, com 4 ultras de 100 km em 4 semanas (Maio de 2012) e que é uma alegre companhia para uma qualquer epopeia; sem dúvida uma força da natureza, uma destemida e determinada atleta.
Aos organizadores, não me canso de os elogiar. Desde o Moutinho, que nos faz todas aquelas maldades, todos os Leões do Veneza, que à imagem da Flor e do Carlos Madureira são inexcedíveis sempre no apoio aos atletas, passando pelos voluntários recrutados especialmente para esta prova, todos foram espectaculares. Não posso também deixar de referir que não é à toa que quase todos os confrades da Confraria Trota Montes estão integrados na organização, sendo determinantes no apoio operacional aos atletas, demonstrado por exemplo, nas “fontes” que o Asdrúbal Freitas inventou entre Drave e o início da subida para os 3 Pinheiros, fundamentais para quem, como eu, ali passou no pico do calor, ou na preciosa ajuda do Marco Silva no Rio Paivô, para contornar uma enorme rocha, e mesmo nos imensos quilómetros que terá feito o António Santos no abastecimento de Drave, para ir encher os garrafões com água fresca.

Parabéns aos vencedores, Luis Mota, que é uma certeza do nosso pelotão, à Ester Sofia Alves, que se revela cada vez mais uma exímia e eclética atleta, e que deu uma demonstração de inteligência, respeitou a Serra, conseguindo assim vencer uma exigente prova, pouco mais de 1 mês depois da exigente Ultra da Madeira, e apenas um par de semanas após a vitória no Gerês Grandfondo em ciclismo. À semelhança do Luis Mota, consegue vencer em várias vertentes. É bom ver novas caras a triunfarem no trail, e foi óptimo vê-la no final, fresca como se tivesse estado nas termas.

É isto tudo que fica de uma prova como a Freita. A placa de Lousa no fim, ou “Google Doc” com as classificações, pelo menos para mim, que há pouco tempo não sonhava sequer em me inscrever em coisas destas, são apenas símbolos e letras.

Ficam as amizades, as recordações, a superação, o esforço, e fica principalmente a vontade de fazer muitas loucuras destas. Cada vez mais.

Façam o favor de serem felizes. Como diz esta música, só temos uma vida, vamos vivê-la o melhor possível.

domingo, junho 30, 2013

Ultra Trail Serra da Freita 2013

Na versão original dos irmãos Grimm da fábula “A Branca de Neve e os 7 anões”, a Rainha má tenta matar a protegida dos anões uma série de vezes. O conto não atribuía nome aos anões, apesar de lhes atribuir personalidades diferentes. Já a versão de Walt Disney conta a história dando nomes coincidentes com a personalidade dos personagens.

A UTSF deste ano foi uma espécie de A Branca de Neve e os 7 Anões revisitado. Nos outros anos tentam-nos “matar”, como na versão animada, apenas uma vez. Este ano, cada dezena de quilómetros parecia ter uma personalidade própria. Desde o “Sabichão” que são os primeiros 10, que nos aconselha sensatez e calma, para não pagarmos mais à frente o esforço, até ao “Feliz” final, passando pelos 10 km do “Zangado”, algures entre o km 50 e o 60, todas as parcelas, ontem, de prova, pareciam ter uma personalidade tão própria e óbvia, que o desenho se anima à medida que vos passar os traços de mais uma loucura, que sempre se anuncia dura, bela e nos proporciona a ansiedade do regresso.

Começar a prova é um desafio já de si enorme para qualquer um, mas incomparavelmente superior para quem já a fez, total ou parcialmente, e isso nota-se na abordagem dos atletas nos quilómetros iniciais, onde alguns fazem autênticos sprints pelos trilhos fora, sem saberem o que aí vinha, e outros, avisados, se contêm. Com início às 5h30, havia que aproveitar ao máximo a temperatura ainda amena e a ausência do sol que nos havia de castigar incessantemente até depois das 21h, para tentar progredir o máximo possível. Mas quem repete esta prova, adivinhando o que o espera depois dos 40 km, tem normalmente algum receio de gastar a descer, aquilo que lhe vai fazer falta mais à frente. E, apesar de nos gráficos de altimetria da prova não parecer, os primeiros 20 km têm a função arreliadora de nos moer as articulações, seja no trilho do Carteiro, seja no rio onde cada pedra é um desafio para contornar. Este ano, com a ausência de chuva na última semana, o rio foi um desafio que contornámos com menor dificuldade, mas com a progressão igualmente lenta.
De Covelo de Paivô (km 20), até ao abastecimento de Drave (km 30), passando por Regoufe, foi um agradável passeio de trail, com as fantásticas vistas que toda aquela cordilheira nos proporciona, onde deu inclusive para fazer uma ou outra foto, e para gritar incentivos aos que, 200 ou 300 metros abaixo (1h, 1h30 à frente), abordavam já o trilho que os havia de levar ao dos Aztecas. A chegada a Drave é sempre surpreendente. Aquele aglomerado de casas de xisto faz-nos viajar no tempo e certifica a máxima de que o homem consegue contornar a maior das adversidades.

No abastecimento dos 30 km não há sólidos. É compreensível. Para se estar naquele abastecimento já tem que se ser atleta. O acesso é feito por trilho, a pé, carregando tudo o que é necessário dar aos atletas. Quem quiser fazer esta prova, deve a partir daqui planear muito bem a alimentação. Os primeiros 3 ou 4 km são feitos por um ribeiro (este ano quase seco), muito exigente para as articulações, e por saídas por trilhos íngremes e exigentes que ladeiam as encostas. São de progressão lenta, este ano dificultados pelo calor e pela ausência de vento. Não quero exagerar, mas não deviam estar menos de 36º naquela zona. A hidratação foi fundamental. O Asdrúbal Freitas grande atleta de trail e excelente desenhador de trilhos, (não fosse um dos braços direitos do Moutinho) “inventou” duas fontes, entubando primorosamente o  precioso líquido, que salvou seguramente muitos de nós da desidratação. Muitos dos que não quiseram perder (ou ganhar) 3 ou 4 minutos naquelas fontes para beberem e encherem os reservatórios com água fresca, arrependeram-se na dura subida até aos 3 pinheiros. Aquele monte, completamente exposto ao sol, foi o “estalo” da prova de ontem. O trilho dos Incas, que nos levaria até ao abastecimento dos 40 km, estava cheio de atletas exaustos e espalhados nas poucas zonas de sombra. Alguns só sairiam dali com apoio. O abastecimento na Póvoa das Leiras, habitualmente de festa (não fosse o da cerveja fresca e do chouriço assado), parecia um cenário tirado da maratona das areias. Não havia muita gente com aspecto fresco e a carrinha da organização começava a enésima viagem, com desistentes, até ao Merujal. A médica da organização saía a correr trilho fora para apoiar um dos muitos desidratados. Eu e o Meixedo, companheiro desta e outras muitas aventuras, frescos, fugimos dali depois de encher os cantis. Apressados, cometíamos o primeiro e único erro que quase nos custava a prova: Quase não comemos.
Enfrentámos a “Besta”, trilho desenhado numa escombreira de uma antiga mina de exploração de volfrâmio, em pedra solta, com mais de 100 mt de corda no seu ponto mais inclinado, e onde eu já sentia a falta de alguma coisa. Estava quase desidratado (sem sede, como todos os desidratados) e sentia-o. Um gel, uma barra energética, alguma água não eram suficientes para repor o sal que tinha perdido na transpiração e que jazia nos meus calções, fazendo-os parecer como se fossem de pladur e a minha mochila preta parecesse ter sido caiada. Já no parque eólico e antes da descida para Manhouce (abastecimento 50 km), senti enjoos e fraqueza, que juntos com o imenso calor do meio da tarde me fustigavam de frustração por sentir as pernas frescas e o corpo cansado. Descemos a passo, eu e o Meixedo, fomos-nos sentando aqui e ali, bebi água em todas as bicas da Aldeia de Muro, mas continuava com a falta de sal. Chagado pelo sol, amolecido pelo calor, abatido pela desidratação, pensei que ficaria ali, à espera de boleia para o destino. Como sempre, há alguém que acredita mais em nós, que nós próprios. Que nos incentiva e nos tenta demonstrar que temos mais do que pensámos, que há sempre um renascido em cada derrotado. Fundamental o apoio do Luis Pereira, atleta de topo de trail, que teve o juízo de não se meter a correr debaixo daquele calor, a paciência do casal Fernando e Fátima Rocha, que estão sempre ali, ao km 50, a dar mais do que apoio, são uma simpatia, e o Fernando, sempre com um incentivo sensato. O Meixedo deitou-se à sombra a dormir. Eu, enquanto comia melancia, batatas fritas, fatias de presunto tiradas do meio de um pão, rejuvenescia. Só me vinha à cabeça a expressão “sal da vida”. Neste caso foi mais o sal DÁ vida.
Como quase não me calo, o Meixedo acordou. Já tinha demonstrado que não estava na disposição de desistir, não fosse ele um teimoso de primeira água, e que também não aceitaria que eu desistisse sem antes descansar, comer, hidratar-me e ver se estava ou não em condições de prosseguir. Acordado e rezingão, fez-se ao trilho de dedo em riste, apontando o caminho a pé até ao Merujal. Lá fomos. Estava rejuvenescido. Até ao final não tive mais nenhum episódio do género. Fomos dali até ao km 60 a “comer regueifa”, como diz o nosso mestre e grande amigo Carlos Natividade, e apesar da exigência das subidas e da exigente descida para a Aldeia das Porqueiras, acabei quase a correr a subida até ao abastecimento. Colocado o frontal, aconchegado o estômago com uma salgada canja e tomate com sal, arrancámos rumo ao destino, apesar do tempo já apertado. Poucos metros à frente estava a Célia Azenha, experimentada ultra maratonista, no meio do monte a perguntar por onde era o caminho. As fitas, algumas enroladas pelo vento nocturno de leste, não eram totalmente visíveis, e ela optara por esperar por mim e pelo João. Ali formámos o trio que havia de, algumas horas depois cortar a meta. Juntos fomos subindo, passando por um ou outro atleta, o interminável trilho da Lomba. São 5 km penosos, que à noite se transformam numa lenta caminhada com impropérios para quem nos fez ir por ali, e por elogios deslumbrantes pela magnífica vista nocturna que se desenhava no horizonte. É raro ter tanta visibilidade na Freita e poder ver ao longe as terras que circundam o vale do Vouga, com as suas cintilantes luzes amarelas que mais parecem um imenso carrossel de velas. Maravilhados com as vistas, abismados com a dureza da prova, já só ansiávamos ser barrados aos 65 km por excesso de tempo. Os 300 mt de desnível do PR 7 e da Mizarela pareciam-nos um muro intransponível, fosse pela noite, fosse pelo esforço dos mais de 3000 mt de desnível positivo que já trazíamos acumulados. A Célia, que já fez o mítico Tour de Geants, Mont Blanc, Trans Gran Canaria, Andorra Ultra Trail e outras, dizia que esta era a prova mais dura que tinha feito, não pelo desnível, mas principalmente pela exigência técnica que tanto dificulta a progressão. Chegados ao topo da subida da Lomba, aparece um carro, num cruzamento do trilho com a estrada, com elementos da organização. Pelo rádio, o Moutinho, director da prova, dizia que estava a barrar a passagem no acesso ao PR7. Era já tarde, todos conhecemos os perigos para quem para ali vai depois de 16, 17 ou 18h de prova, e da dificuldade de um eventual resgate. Sensatamente decidimos continuar até ao final, mas sem colocar em perigo a nossa integridade física. Iriamos pela estrada. Recusámos a tentadora boleia e fomos estrada fora, prometendo aos membros da organização que não nos meteríamos no trilho. Uns km à frente, cansados e algo desorientados, uma simples má escolha de direcção num cruzamento levou-nos a perder mais de 1h no meio de um imenso vale, sem noção do local onde estávamos, ou sequer hipótese de voltar para trás. A Célia tinha ficado sem frontal, víamos umas luzes ao longe, que nos parecia ser a casa do Guarda, perto do parque do Merujal, mas não tínhamos noção ou ideia de como lá chegar. O Meixedo decide ir vale fora, eu parado ia-lhe dando indicações da direcção das luzes, e de repente, desapareceu. Fiquei com a Célia, um frontal para dividir, tojos até à cintura, cansados e já a pensar que a Mizarela teria sido o melhor que nos podia ter acontecido. No meio do breu, já a tentar ir na mesma direcção que o João havia tomado, de repente, aparece ele. Estávamos perto do PR7, junto à saída da Mizarela, e que nos levaria até ao final. Acabámos aquela imensa e intensa aventura com mais de 72 km, e um sentimento de superação, camaradagem, solidariedade e desportivismo que tanto caracterizam o ultra maratonismo e o trail em particular.

Ainda não sei muito bem o que fazer com a Branca de Neve nesta história toda, talvez a reserve para personificar a beleza da Serra da Freita e toda a sua arrebatadora imponência.
O papel de madrasta má, que com um sorriso malvado nos prega sempre mais uma partida, fica bem entregue ao José Moutinho. É um mestre a por-nos em dificuldades. Quando achámos que a Freita já era dura como era, ele brinda-nos com trilhos como o “Run Sintra”, ou a “Besta”, ou mesmo a descida à Aldeia das Porqueiras, para que saibamos que pode ser pior ainda. Acho que lhe devo também deixar o papel de Rei, o pai bondoso da Branca de Neve, porque consegue amansar-nos com um abraço no final. A todos sem excepção.
A personagem do Príncipe que nos ressuscita fica na perfeição para todo o Staff da prova. Incansáveis, quase todos eles também atletas, são inexcedíveis. Exemplares. Desde a entrega de dorsais, aos abastecimentos, apoio, tudo. Foram o beijo essencial para anular o veneno da maçã da bruxa.
Os anões esses são muito bem distribuídos, um por cada dez km da UTSF. O Moutinho batizou (e bem) alguns trilhos com nomes de emblemáticas provas de trail. Eu batizo as fases da prova assim:
10 km – O Sabichão. Onde devemos apelar à razoabilidade e conhecimento de quem conhece a prova, e nos avisa para não exagerarmos. 
20 km – O Dunga. Como no conto, o único que não falava. Porque parece difícil mas não diz nada do que vem depois.
30 Km – O Envergonhado. Há trilhos já inclinados, há mais dificuldade, mas ainda não mostra muito.
40 km – O Atchim. Um espirro, um estalo, uma chapada chamada trilho dos Aztecas, onde uma subida interminável nos traz à realidade.
50 km – O Soneca. Depois da “Besta”, depois da desidratação no meu caso que quase me adormecia, uma acalmia de 5 km até Manhouce e ao Rio menos poluído da Europa, o Rio Teixeira, onde apetece mergulhar e dormir a sesta.
60 km – O Rezingão ou Zangado. Aqui, algures entre os km 54 e 65, fartámo-nos de dizer palavrões e de bater no tipo que fez aqueles trilhos massacrantes.
70 Km – O Feliz. Seja pelo final, pelos 4 ou 5 que esperam por nós junto à meta (obrigado família Batista), seja pelo sentimento de superação. Ou seja mesmo pelo que conseguimos naquelas 10, 12, 16 ou 20h anteriores: Sermos felizes apesar das contrariedades. Não há como isto. Montanha, natureza, dureza, sofrimento, superação, camaradagem e solidariedade. Feliz.

Ainda não sei as classificações, mas essas até me parecem o menos importante em tudo isto. Ganhou o fantástico Luís Mota, com pouco mais de 9h30 e a Ester Alves (que se estreou na Freita) venceu no feminino. Parabéns aos dois.
Parabéns a todos os que tentaram e a todos os que se superaram. Espero que ninguém tenha sequelas graves do dia de ontem.
Não desistamos nunca. Se não terminámos hoje, tentámos amanhã. No fundo, o que levámos do Trail e dos Ultra em particular, são os momentos e a aprendizagem. A natureza, a serra, toda aquela beleza fica lá, espera-nos. A mim, em particular, atrai-me. No próximo ano não faltarei. Só espero conseguir convencer o João Paulo Meixedo (o verdadeiro Rezingão) a juntar-se a mim, naquela que é já a prova que prova que ele é um amigo e excelente companheiro. Já é o segundo ano consecutivo em que ele me “empurra”.
Não podia fechar os agradecimentos sem me referir ao Carlos Natividade, meu grande mestre, que me fez o favor de esperar por mim nos treinos que fizemos na Freita, e à incansável Naná, sua paciente esposa, de uma simpatia e pachorra extremosa, sempre disponível para aturar as nossas longas maluqueiras no monte. Obrigado.

Lá estaremos em 2014.

sábado, junho 22, 2013

Hematomas subungueais, trilhos e copos de branco

Não se assustem com o título. Não é mais que uma breve descrição do que pode ser um treino em montanha, com um grupo de amigos, onde as horas passam a voar. Como ocupamos o tempo? Com conversas úteis.

996158_623418841001676_1687765458_nProva de vinho branco em Muro (Sr. António Alfaiate)

Com a aproximação da Ultra da Serra da Freita, havia que treinar, e muito. Assim fizemos quase todos os que nos inscrevemos naquela loucura. Nós, os privilegiados por morarmos tão perto de um local de uma beleza e dureza únicas, aproveitamos e treinamos no local da prova. Evitámos os percursos dentro do rio (deixámos as partes divertidas para o dia da prova) e percorremos trilhos, estradões e montes que, na sua maioria, não fazem parte do tracking da UTSF. Foi assim que, eu, o Carlos Natividade Silva (Mestre, grande Mestre) e o Meixedo fizemos 40 km na semana passada, e 40 na anterior (sem a companhia do Meixedo), culminando com um treino de 23 km na companhia do Miguel Santos. Mais de 100 km, 3 treinos na Freita em 2 semanas, com um acumulado superior a 12.000 mt. Treinámos tudo, desde subidas a descidas, em pedra solta ou molhada, em escombreiras, escalámos, saltámos, corremos e andámos. Treinámos também a alimentação em prova (essencialmente sandes de presunto, cachorros e panados), bebidas indicadas para regular os níveis necessários ao equilíbrio químico do organismo (cerveja branca ou preta, verde branco e alguma água), e convivemos com os (poucos) habitantes das aldeias por onde passará o UTSF.

1010898_623418651001695_477470156_nAbastecimento em Manhouce

A somar ao treino específico na Cordilheira da Gralheira, fizemos também assunto de tudo e mais alguma coisa. Dissertamos acerca da vida dos antigos mineiros (que, com a ajuda do “expert” que é o Meixedo, nos colocava na época), discutimos os rumos a dar ao País político, a necessidade de prevenir incêndios, a impossibilidade de cortar caminho na prova (ups), o excesso de bosta de animais dentro das aldeias e, como podem ver no título, os hematomas subungueais que adivinhávamos em cada pontapé numa ou outra pedra.

É o que o trail tem de melhor, o convívio entre amigos num ambiente de imenso verde, onde o final de cada dura subida nos proporciona imagens arrebatadoras, como a que podemos ver do alto da Coelheira, antes de entrarmos no Triho dos Incas. Faz-nos sentir pequeninos perante a natureza, percebendo melhor porque queremos sempre subir mais alto neste desporto apaixonante.

1003647_623437914333102_432010209_nPóvoa das Leiras (40 km) vista do Trilho “A Besta”

Sábado haverá empeno garantido sob um sol abrasador. Mas assim uma coisa também é garantida: As vistas serão formidáveis!
Aproveitem bem o fantástico desenho feito pelo Moutinho e pela sua equipa (a “Besta” é um hino ao trail) e respeitem a montanha.

Até à Freita!

sexta-feira, junho 07, 2013

Ciclovias ou Ecovias?


Espero não ser levado a mal pelo que vou escrever. Também já fui ciclista de ocasião, cicloturista barrigudo e essencialmente de Domingo. Todos têm direito à existência e é óptimo quando vemos as nossas ecovias (como se deviam chamar) cada vez com mais frequentadores. É sinal que o exercício físico é encarado como algo necessário e que melhora a saúde dos portugueses.

No entanto, nem tudo são rosas.
Tem havido movimentos vários de apelo dos ciclistas aos condutores de automóveis para que tenham cuidado quando partilham a mesma via, visto que, ao calcular mal uma ultrapassagem, podem colocar em risco a integridade física daqueles. Também eu sou automobilista. Farto-me de cruzar-me com ciclistas que, ao sentirem a aproximação de um carro, rapidamente se colocam em fila (como manda o código da estrada), e facilitam a ultrapassagem, não pondo em perigo os próprios nem outros. Esses vejo-os à semana, normalmente. Ao fim-de-semana, e principalmente ao Domingo, é vê-los em grupo, 4 ou 5 lado a lado, marginal fora, como se fosse uma imensa pista de ciclismo. Pior, chegam às ciclovias partilhadas (por exemplo entre o Cabedelo e a Casa Branca, onde não há marcação separada para peões, ou na marginal do Porto, entre o Passeio Alegre e Massarelos) e é vê-los a acelerar e a serpentear os peões. Alguns andam mais rápido que os carros na rua. Fazem da ciclovia uma pista. E reclamam exclusividade de uso.
Devo dizer que o código da estrada diz que a ciclovia é para uso exclusivo de bicicletas, mas isso é enquanto veículo. Sim, porque há muitos ciclistas que esquecem que a bicicleta é um veículo.
Em Portugal, erradamente, colocaram as ciclovias em cima de passeios, mas na Europa Central, onde são mais comuns, estão nas estradas, com os carros, que convivem perfeitamente com elas.
Aqui não. Na ânsia de captar frequentadores das marginais, pintaram passeios, chamaram-lhes ciclovias, e é ver um sem número de inconscientes a fazer daquilo uma pista exclusiva. Claro que há excepções. Os verdadeiros ciclistas fogem das marginais e destas ciclovias. Fazem os treinos na estrada, onde mais facilmente se deslocam. É que nos passeios, os peões estão menos atentos, não contam que lhes apareça um veiculo a mais de 30 ou 40 km/h.
Corro pouco à beira-mar ao domingo. Quando há sol prefiro ir para longe dos domingueiros. Há algumas semanas fui até à Barragem de Crestuma pela marginal e regressei pela EN 222; curiosamente, (há poucas zonas com passeios em todos os mais de 40 km do percurso, e as bermas são também escassas), quase fui atropelado 3 vezes, por... Ciclistas. Um deles ia a mandar SMS's alegremente.
Em jeito de conclusão, este post serve, não para dizer mal dos ciclistas em geral, mas para lhes pedir o mesmo respeito por quem corre, como eles desejam para os próprios da parte de quem conduz um veiculo automóvel. Lembrem-se que uma criança num triciclo movimenta-se erroneamente e pode fazer um gesto brusco e provocar um acidente. Quando quiserem acelerar muito, optem por estradas menos movimentadas e quando virem um corredor na ciclovia, não o obriguem a saltar para a rua, como tantas vezes fazem. Aprendam a partilhar aquilo que é de todos, antes que haja alguma desgraça. Problemas já houve que chegue. Nem a estrada é exclusiva para veículos automóveis, nem as ciclovias são espaços fechados a peões.
E já agora, deviam mudar o nome para Ecovias. Talvez assim percebessem que a ideia é proporcionar um espaço agradável a todos e não uma pista exclusiva a quem quer que seja.
Bons treinos!
 
 

segunda-feira, maio 20, 2013

VI Ultra Trail da Geira

"Correr sem vergonha". 
Era isto que eu ia dizendo aos que ia passando trilho fora. Não se pode ter vergonha de correr devagar.
Esta prova é muito boa para quem se quer iniciar em distâncias mais longas, já o disse e reitero. A par da Ultra de Óbidos, é talvez a que me dá mais prazer e que me proporciona aquilo que procurámos todos (ou quase todos) na corrida, um trajecto que nos faça abstrair do reboliço do dia-a-dia, que nos brinde com fantásticas paisagens e, acima de tudo, nos faça tirar prazer de algumas horas a palmilhar km. A Geira consegue ter tudo isto. Desde a descontração da partida, com espantados turistas termais a apreciarem o discurso de um "louco" romano, para umas centenas de imitadores de legionários, que depois de gritarem "Avés" a César, desatam a correr trilho fora, até às paisagens de cortar a respiração em que o Gerês é fértil. A partida e chegada são num manto verde, de terras termais, que há séculos proporcionam terapias pela água. Nós ali só buscamos terapia pela corrida. E vá, uma crioterapia no final, com um trilho aquático. 
E digo nós, os que andámos nestas coisas para desfrutar de tudo o que nos proporcionam estas corridas, os que não lutámos pelo pódio, os que correm apenas por deleite pessoal. E para acabarmos bem aqueles 52 km, sem esgotamentos desnecessários, devemos correr sem vergonha, ouvindo o corpo, tentando gerir o ritmo de forma a que, nos km finais, não nos falte a força para acabarmos com a saúde intacta, apesar dos empenos. Nós somos como um carro com o depósito cheio, se não carregarmos muito no pedal nos primeiros km, a gasolina dá para mais uns quantos. Foi o que fiz ontem. Comecei, sem vergonha nenhuma, num ritmo muito calmo, ao atacar a subida até à Portela do Homem, este ano totalmente feita em trilho, belíssimo, e assim fui até ao fim. Tirei mais de 40 minutos ao tempo do ano passado, tendo terminado com uma média de 7'45/km (paragens incluídas), em 6h32. Envergonhado, e ainda bem, esteve o tempo, com uma temperatura excelente para correr, algumas aparições da chuva (mais intensa para quem acabou mais tarde), e com o sol a espreitar amiúde. Foi o Minho no seu melhor. 
De realçar o excelente apoio da Cruz Vermelha, sempre muito visível, sempre presente nos abastecimentos, socorristas em bicicleta, dos voluntários e da pouca população com que nos cruzámos. À organização, reiterados parabéns. Provam que o menos importante numa prova destas é a qualidade das camisolas, desde que os abastecimentos sejam adequados e não falte o apoio. Não podendo haver perfeição em tudo, que o melhor de uma prova esteja naquilo que é determinante para o atleta. Um aspecto a melhorar: As marcações. Continuam a ser suficientes para quem já está habituado a fazer estas provas, mas são poucas para os que estão menos. 
Parabéns a todos, desde o Albino Magalhães, que voou e fez pouco menos de 4 horas, até ao último resistente, que, sabe Deus como, terá lutado como um ultra para alcançar a meta. 
No próximo ano, provavelmente, lá estarei, de novo, pronto para mais umas saudações a César e uns km de prazer na bela Serra do Gerês. 
Boas corridas!