segunda-feira, março 10, 2014

5º Dia do Caminho - Celebração

Ao chegar à Praça do Obradoiro, em frente à Catedral de Santiago de Compostela, depois de contados os quilómetros desde a "Milladoiro", que parecem ter mais que os 5 anunciados, todos se emocionaram. Não tanto pelo momento do fim deste Caminho, que como disse há um ano (e mantenho), ali chegados sabemos que não é o fim, mas pela sensação de fim que nos abraça. Pelo sentimento de término de algo que, dos 8 estreantes, apenas 1 ou 2 tinham a certeza de conseguir concretizar. Eu sabia que todos (salvo qualquer lesão) o conseguiriam. Sabia porque não admitiria outro fim. 


Hoje descobri o fim do Caminho. 
Descobri que há um fim quando temos dúvidas. Descobri que há um fim em tudo. Descobri que a miséria tem fim, que a dúvida tem fim, que a alegria tem fim, que a solidão tem fim... Tudo, mas tudo tem um fim. Faz sentido que este Caminho tenha fim. 
Quando há alguns meses lançamos o desafio de ir a correr do Porto a Santiago, depois de sabermos os integrantes do grupo, sabia que o nosso objectivo seria o de cada um deles. 
O Rui Martins nunca tinha corrido mais que 1/2 maratona. O Mário desejava fazer o Caminho, é maratonista, mas não havia corrido tanto, muito menos em dias consecutivos. O Renato, recente Iron Man, desconfiava da capacidade do corpo em aguentar dias consecutivos de esforço. A Paula. A Paula, que tanto gosta de correr, que é de uma alegria contagiante, nunca tinha retirado o verdadeiro prazer da corrida sem competição, com ela ou adversárias, até há pouco mais de um mês fazer um treino de 6h de trail connosco. Nem imaginava ser possível correr até Santiago. Mas acreditou. 
E a Ângela? Que dizer de uma pessoa que já andou a correr pelo Sahara (1/2 maratona, é certo) e que, quase sem saber o que era uma prova de estrada, se dispõe a desafiar-se e enfrentar tal desiderato?  
A Patrícia, que pouco corre, tinha a mesma ideia de tentar o impossível. Apesar de pouco treinar, lá se aplicou a mudar hábitos para poder encarar os dias seguidos a correr. 
O João Casal, que no próximo Verão vai dar a volta a Portugal em 53 etapas de 50 km por causas solidárias, veio para o Caminho para aprender, dizia, "a correr devagar". 
E o por fim a Susana. A Susana, ultra maratonista, depois de 3 ultras nos primeiros 2 meses do ano, a última das quais uma semana antes do Caminho, quando confrontada com a vaga disponibilizada por uma lesão de um dos atletas inscritos, perguntou-me: "Achas-me capaz?", "Claro que sim", afirmei, "se há alguém que é capaz de, sem prever, concluir tal desafio sem estar a contar sequer fazê-lo, és tu". 
Estes 8 bravos começaram este Caminho, quando depositaram na nossa equipa a confiança de tudo assegurarmos para que fossem capazes de o concluir, a começar por sermos os primeiros a acreditar que o fariam com sucesso. 
Hoje foi o dia em que acabaram este Caminho e em que nós concretizamos o seu fim.
A partir de hoje, todos eles têm a certeza que conseguem superar os seus próprios medos e limites, que se podem aventurar em Maratonas ou Ultra maratonas, 100 km ou 100 Milhas, que podem dar passos maiores dos que os que julgavam capazes, de abrandar ou acelerar, de se superarem sempre. 
Hoje descobri um fim no caminho. 
Talvez um dia descubra o meu "Eu interior", que de tão procurado mais parece o Santo Graal. Talvez descubra mais coisas no Caminho, como tantas outras que já descobri. 
Uma certeza tenho, que o Caminho nos faz melhores, mais fortes, torna-nos infinitos, dando-nos a sensação que temos ali um refúgio de encontro com tudo aquilo que julgamos não ter. 
Há um ano atrás quando terminei o Caminho, tive a certeza que voltaria. Tenho a certeza que todos os que lá estávamos hoje pensaram o mesmo. 
Ainda não foi desta vez que vi alguém triste ou resignado no "Caminho". Não me parece que vá ver nunca. É impossível. O Caminho é um encontro com a felicidade. 
Amanhã escrevo a crónica final, a quatro mãos, como prometido. Acho que hoje é importante realçar a celebração da alegria de, 250 km depois,  ao fim de 5 dias, celebramos em grupo a chegada a Santiago. 
Todos chegaram a este fim. Mas atribuam-lhe outro fim que não o final. 
Ultreya!  

sábado, março 08, 2014

4º Dia do Caminho - Desfrutar

Hoje foi o dia da tartaruga. 


Este ano temos mais uma escritora no grupo. Roubei-lhe esta foto da rede sociopata onde todos nos encontramos assiduamente. É uma excelente caricatura do nosso Caminho. 
Todos sabemos que, nos dias de hoje, é difícil dispor de tempo para desfrutar em pleno daquilo que precisa de tão precioso e raro bem para ser apreciado. O Caminho de Santiago é percorrido por milhares de pessoas, sendo que a grande maioria o faz a pé. Em Portugal, falando com muita gente, fica-se com a sensação que, se ainda não tivessem inventado a bicicleta, seriam poucos os que o teriam feito. 
Em 2013, quando fizemos o Caminho na versão 5NC (vejam aí o histórico de Abril, está lá tudo), que coincidiu com um feriado e respectiva ponte, dividimos o Caminho com centenas deles, tendo perdido então o que agora temos: Sossego. Hoje, ao ver esta frase da lebre e da tartaruga, interroguei-me como raio duvida alguém que a correr (como nós corremos, lentos) se consegue desfrutar de todos os encantos do Caminho. Foi o que fizemos todos hoje. Quase 8 h para percorrer pouco mais de 43 km. Mas o Caminho foi quase só para nós. Fomos tartarugas que desfrutaram de tudo. Da envolvente, linda, da paz do caminho, dos imensos (inevitável com este sol) riachos e ribeiros e da alegria que é correr devagar. Só quem corre sabe o quanto conseguimos isolar-nos para podermos apreciar o que mais ninguém vê; os cheiros, as árvores que começam a florir, os animais de pastoreio pelos campos, o silêncio interrompido pelo chamamento de acasalamento de um corvo, uma queda de água que silva no meio das árvores... Quando chegar amanhã a Santiago, não me digam que correndo não se sente o Caminho. O Caminho sente-se quando o fazemos com a alma, esse eu que todos procuramos. E a alma satisfaz-se com tudo o que os olhos vêem, o nariz cheira e os ouvidos ouvem. O nosso mundo está todo no Caminho e deve ser desfrutado. Como o Corvo na floresta, também somos capazes de um grito no silêncio. O grito da Alma é o que se sente no Caminho. E esse grito, essa busca que todos sem excepção fazemos, esse é o nosso Eu. Desfrutemos. 
Amanhã será, seguramente, dia de Celebração. 



3º Dia do Caminho - A revelação

2h em Redondela. (Quase) Todos dormem. 
Depois de 2 dias intensos, onde prevaleceu a superação e celebração, hoje foi dia de revelação. Em todos os aspectos e decisões que tomamos nas nossas vidas, quando escolhemos um caminho, sabemos que, entre pontos positivos, há sempre alguns negativos. 
Hoje foi dia de todos experimentarem o reverso da superação, a provação. 
O Caminho Português de Santiago, como por aqui é conhecido, entra em Espanha por Tuy, tomando a direcção de Porriño, antes de, 36 km depois chegar a Redondela. Aquilo que em Tuy se revela agradável, com todo o carinho e atenção que Espanha dedica a um dos principais destinos mundiais de peregrinação espíritual ou religiosa, é contrariado pelo serpenteado por estradas nacionais, por terras galegas menos atraentes e minimizado pelo acumular de Km's e do consequente esforço dispendido. Isto para não aludir à lama mal cheirosa das estradas (?) do lado português junto a Valença, que, como dizia um pastor, "a Junta não arranja". 
 
Todos se têm vindo a superar. Só o Caminho que nos leva a Santiago regrediu um pouco na beleza que ontem todos admiramos no Minho, e o cansaço a sensações que apesar de duras, nos levam a concluir que nós comandámos os nossos destinos.
A vida não é só flores. Também tem espinhos.
Mesmo assim, ainda houve tempo para admirar alguns dos troços mais rurais, de desfrutar de alguns (poucos) cursos de água cristalina e refrescante num dia de sol e de calor primaveril. 

Faltam 2 dias. Pouco mais de 80 km, depois de um dia em que palmilhamos mais 57. Agora que o Caminho se aproxima do destino, vamos enfrentá-lo com a coragem de quem sabe que, apesar dos momentos menos agradáveis, há sempre pontos de apoio, de satisfação e de regozijo e um ou outro ponto de interesse. 
Transformamos o cansaço em força para que a chegada amanhã aos 200 km, seja mais uma etapa única (talvez impensável) de alguns dos que, motivando-se cada vez mais face às dificuldades, vão vencendo barreiras que nunca pensaram transpor. 
É isto o Caminho. 
Amanhã há mais. 

sexta-feira, março 07, 2014

2º dia do Caminho - Superação

Saídos de Tamel, Lugar a pouco mais de 10 km (pelo Caminho) a Norte de Barcelos, foram os 11 contentes por afinal o corpo permitir aquilo que a mente mais desejava: Fazer 44 km um dia depois de correr 64. 
Dos 11, 4 nunca tinham sequer feito uma maratona, quanto mais ambicionar correr mais que a mítica distância em dias consecutivos. Havia o receio de o corpo reclamar o descanso que todos lhe dámos depois de tanto km a correr. Mas como o grande motor do corpo é a mente, todos meteram na cabeça que haviam de chegar a Rubiães. E chegaram. Pelo meio um dia fantástico onde o Minho foi Rei, com belíssimas paisagens onde desponta a Primavera, num radiante dia de sol, quente, que convidava àquilo que nenhum de nós dispensou: Mergulhos e mais mergulhos, ora das pernas, ora integrais, com direito a ameaça de "chamar a polícia" por invasão de tanque de rega alheia. 
O Caminho que percorremos ontem foi de celebração dos que nunca haviam corrido mais que um par de horas. Hoje foi dia de celebração da superação do cansaço e dos quilómetros, e pela natureza e beleza do Caminho. É sem dúvida a mais bela das etapas deste Caminho Central, esta entre Tamel e Rubiães com passagem pela bela Ponte de Lima, onde entramos por um serpenteado milenar entre casas de granito, pastos vastos e densos choupais.

Parece-me que já ninguém dispensa correr, ou caminhar, ou voltar a correr depois de comer ou de um banho numa qualquer queda de água. Já todos interiorizaram que o Caminho é para fazer com o prazer da superação, a entreajuda e animação de todos. Sem pressas, porque Santiago é já ali, mas sem desfrutar e com pressa ninguém sente o Caminho.
Amanhã já dormiremos em Espanha. Esperam-nos mais de 50 km de permanente descoberta.
Estamos todos prontos para nos surpreendermos e desfrutarmos do que podemos receber, sem hesitar em dar o melhor de nós próprios.
Ao Caminho, então. 

quinta-feira, março 06, 2014

Dia 1 do Caminho - A Catarse

Catarse: 
1. [Filosofia]  Palavra pela qual Aristóteles designa a "purificação" sentida pelos espectadores durante e após uma representação dramática.
2. Método psicanalítico que consiste em trazer à consciência recordações recalcadas.
3. Libertação de emoção ou sentimento que sofreu repressão.

Posso resumir nesta definição do termo utilizado para título desta crónica, as sensações vividas pelos vários intervenientes neste Caminho que hoje iniciamos na Sé do Porto. 
Não quero descrever o Caminho, esse está cá para ser sentido por cada um, numa espécie de catarse individual, onde o significado varia consoante o interveniente.
O Caminho é seguramente uma representação dramática transformada em purificação na primeira pessoa, pelos que hoje se estrearam em quilometragens nunca antes experimentadas. O Rui Martins, a Patrícia, a Paula e a Ângela, nunca tinham feito mais que uma vintena de km. Aquilo que seria um drama antecipado tornou-se num espectáculo almejado: Fizeram 63 entre o Porto e Tamel, onde repousamos no Albergue local. 
Trouxe-nos, aos que já fizemos o Caminho, recordações, muitas e boas, e aos que nunca o tinham feito a experiência que só aqui se vive e sente. 
A Susana, o Mário, João Casal, Meixedo, Renato, Carlos Natividade, a Naná e eu, como outrora outros fizeram, demos o conforto do apoio e da certeza de, em grupo, tudo se superar. 
O Caminho de Santiago é uma experiência única de partilha, porque apesar de individual, é sentida por cada um dos que o faz, como uma fantástica experiência de superação e conquista que todos sentem uns dos outros. 
É uma catarse individual, no Caminho mais partilhado dos últimos 20 séculos, onde nunca nos sentimos sós. 
Amanhã há mais. 


domingo, fevereiro 16, 2014

Trail do Jesuíta

Devia chamar-se dos beneditinos, já que a peregrinação pelo Monte Córdova acima, era mais hábito dos monges de Singeverga, do que dos pasteleiros da iguaria típica de St. Tirso.
Conheci em tempos um beneditino que havia passado grande parte da sua vida no Mosteiro de Singeverga. Era uma daquelas pessoas que emana santidade, pela postura, calma e simplicidade que o caracterizavam. O "Dom Gabriel", como se chamava, tinha nos montes que circundam a cidade dos jesuítas, o seu local de culto mundano. Admirava e fazia passar a admiração pela beleza de toda a envolvente natural, e relatava-nos as longas caminhadas que fazia nos percursos, alguns que hoje tive o prazer de percorrer, que ligavam as freguesias então rurais, do Concelho Tirsense.
A Cidade é conhecida por pouco mais que a sua famosa gastronomia e pelo Mosteiro de S. Bento, embora tenha uma história rica, que remonta ao Séc IX a.c., mas desde hoje, para umas centenas de atletas, passou também a ser destino de uma belíssima e dura prova de trail.
Foram muitos os que a escolheram para estreia nestes terrenos, e provaram de tudo, desde single-tracks fantasticamente desenhados, a descidas quase de rapel, quedas de água, e subidas duras, extensas, como as que só experimentamos em provas de maior quilometragem.
De uma coisa tenho a certeza, há mais uma prova que veio para ficar. Este Trail do Jesuíta, superiormente organizado, com segurança nos pontos mais críticos, abastecimentos excelentes e banhos de luxo no Pavilhão Municipal, que serviu de base à prova, é um excelente exemplo de como desenhar e erguer provas simples, duras q.b., sem inventar sobre o que lá há. De enaltecer ainda, o envolvimento das autoridades locais, na divulgação e realização do evento, bem como da famosa Pastelaria Moura, que nos deliciou com jesuítas acabados de fazer.
O trail tem destas coisas, leva-nos sempre a algum ponto que desconhecíamos existir, a algum lugar de que tínhamos ouvido falar, mas que de nenhuma outra forma íamos visitar. Monte acima, monte abaixo, muitas vezes sós a divagar em bons pensamentos, experimentamos a liberdade que todos temos, a que nos permite escolher um pouco de sofrimento em troca do que nos realiza. Era assim que viviam os beneditinos de Singeverga. "Ora et labora", era a regra do fundador da Ordem. Baseava-se na reflexão pelo silêncio, recolhimento e leitura, bem como no trabalho agrícola, pastoral e na contemplação.
A envolvente daquele Concelho parece que foi desenhada para eles. Campos agrícolas, silêncio e muito para contemplar. Guardo na memória a excelente vista do alto do Monte Córdova, e as fantásticas quedas de água a jusante da nascente do Rio Leça (ali límpido como gostaríamos de ver até à foz, em Leça). 
Os 27 km passaram num instante, literalmente a correr, num belo dia de sol, onde nada faltou para uma excelente prova de trail.

Mergulhado no Rio Leça

Verde do princípio ao fim. Bonito.


sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Dia do Padre Costa


"Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado, o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi argüido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido:
- com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos;
- de cinco irmãs teve dezoito filhas;
- de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas;
- de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas;
- de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas;
- dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas,
- da própria mãe teve dois filhos.
Total: "duzentos e setenta e cinco, sendo cento e quarenta e oito do sexo feminino e cento e vinte e sete do sexo masculino, tendo concebido em cinqüenta e quatro mulheres",

Esta é a sentença que condenou o grande conquistador, amante, o Dom Juan do Concelho de Trancoso. Se fosse nos dias de hoje, podia viver de apoio social. Então, no Séc. XV, durante o reinado do Príncipe Perfeito, D. João II, que tinha apenas um filho (e que viria a morrer misteriosamente 4 anos depois), foi perdoado pelo Rei, por ter tido importante papel de "povoador da Beira Alta". 
Ora, em dia dos namorados, ninguém consegue negar o facto que este foi talvez, o maior namoradeiro de todos os tempos. 
Mas hoje não é dia de Padre Costa, é dia do Santo, que era Bispo e se apaixonou pela filha do carcereiro.
Vá lá alguém perceber isto...

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Ler e escrever, ou sonhar e viver.

"Ler é sonhar pela mão de outrem." - Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego 
Os génios da escrita dizem evidências que todos nós sentimos, concordámos e nunca fomos capazes de dizer. 
Ontem, li este texto de Miguel Torga, um escritor triste e amargurado, que colocava na pena o que não era capaz de fazer ou admitir na vida. E revi-me no texto. Revi-me e revi muitos dos que gosto de ler, e muitas das leituras compreendi e senti como estados de alma que não são mais que desabafos pelo que somos incapazes de concretizar, neste mundo estereotipado e preconceituoso, onde tudo tem norma, até a felicidade. 

Que tristeza isto de a gente escrever! 
Secos como paus na vida, e sai-nos depois a ternura pelo bico da pena! Comigo é assim. E como ninguém me lê—ninguém dos que eu mais desejava que recebessem ternura de mim (minha Mãe, meu Pai, minha Irmã, uns pobres amigos rudes que tenho na minha terra e uns infelizes que encontro por este mundo) —, fica tudo em letra morta. Hoje todo eu fui uma sede ardente de abraçar um infeliz que calcorreava às apalpadelas as ruas escaroladas da Nazaré. Um dia como uma estrela, aquela maravilha ali para se ver, e o desgraçado cego de nascença! Mas o abraço saiu-me aqui, a tinta.

Miguel Torga, in "Diário (1938)"


domingo, fevereiro 09, 2014

O Adamastor no Trail de Sta Luzia

O Minho é lindíssimo. O verde das serras, os rios, os cavalos selvagens, a envolvente natural cativa-nos e faz com que ali regressemos sempre que haja uma prova de montanha. Pena é que o S. Pedro, muito possivelmente por ciúme, não dê tréguas a quem o visita para provas de trail, e impossibilita quase sempre que se vejam todos estes predicados.
Quase no início, já completamente encharcado. Épico.

Já se sabe que o Minho é chamado de "penico de portugal", tal é a quantidade vertiginosa de água que por lá cai durante todo o ano. Hoje tivemos a confirmação (como se fosse preciso) que, no Inverno, é um imenso chuveiro com excesso de pressão, que se abate sobre quem se atreve a meter os pés de fora. 
Sabem o Adamastor, aquele monstro que Camões usou para descrever o Cabo das Tormentas? Pois bem, o Adamastor mudou-se para a Sta. Luzia, tendo-a tomado como sua, e atormentando todos os que se aventuraram na 2ª Edição do "seu" Trail. Quais navegadores, os atletas, hoje gladiavam-se contra os seus ventos ciclónicos e a sua chuva diluviana. Nem à vela, muito menos à bolina se podia arriscar. Só depois de mergulhados no belíssimo rio com envolvente de selva que nos levava à meta, pudemos esquecer a tormenta e desfrutar das prometidas belas paisagens que abundam naquelas bandas. 
Não fosse o mítico monstro soprar violentamente, com rajadas capazes de nos fazer parar em descida, frias, acompanhadas por uma chuva gélida e torrencial, e toda a nossa memória estaria agora dirigida para as paisagens que envolvem Viana do Castelo. Houve de tudo nestes 35 km, com cada vez menos estradão e mais puro trail. De trilhos sinuosos envoltos por verde, passando por quedas de água lindíssimas com o mar como pano de fundo, e a terminar no referido rio, que nos acalmava os músculos para o sprint final na pista do Estádio Municipal, que serviu de base a todo o evento, foi um cenário perfeito. O Adamastor deu-lhe um ar de evento épico e fez sentir em todos um herói, que, quais navegadores de outrora, conseguiram dobrar tal tormenta. A organização, talvez prevendo esta crónica inspirada nos navegadores do Séc. XV e XVI, inundou literalmente os abastecimentos de laranja, não fosse algum marujo morrer de escorbuto. Mas no essencial esteve à altura.
Não havia necessidade, S. Pedro, de nos mandares tal guardião. Foi uma afronta à Sta. Luzia, anfitriã de tanto forasteiro. Passamos todas as provações.
Parabéns aos que chegaram a bom porto e aos que, não resistindo à hipotermia que tantos sentiram, se aventuraram com tais condições. 

terça-feira, janeiro 28, 2014

Trilhos dos Abutres 2014

O Trail é uma religião!

Como em todas as religiões, há santuários, lugares míticos, que pelo seu ambiente particular, os tornam destino de peregrinação de todos os seus fiéis.
No trail português, com tanta celebração que por aí há, já podemos inclusive separar as épocas exactamente pelos tempos. Por exemplo, na religião católica, temos o Advento, o Natal, o Tempo comum, Quaresma, Pascal e de novo o Comum, que é o único que repete. Digamos que. em termos comparativos, teremos uma nova celebração na Serra da Lousã, lá para Outubro, com a realização do Utax, fazendo desta Serra um dos principais destinos dos fiéis deste apaixonante desporto, cada vez com mais crentes desejosos de baptismo.
Como na religião comparada, há também no trail algumas seitas, imensas paróquias, beatas, cardeais, bispos e papado. Eu devo ser beata, que não saio de lá, mas vou pouco ao altar (leia-se pódio), e não consigo sequer aceder à cúpula da minha Capela, muito menos ao presbitério. Sou crente, porque acredito, insisto, e levo com cada homilia (leia-se empeno), que sabe Deus...  
Este texto é alusivo aos Abutres, conhecida Congregação desta fé que processámos, que, dizem, tem costumes ancestrais ligados às punições de heresias e bruxarias, com autênticos calvários desenhados nas bordas das ribeiras, fazendo inclusive brotar da terra imensos mares de lava gelada, onde os menos crentes se enterravam quase até à cintura, de onde partiam em retiro, mirando os pés, rumo ao ponto mais alto da Serra, onde, em purgatório, eram fustigados com fortes nevoeiros e ventos cortantes. Imponentes guardiões, homens e mulheres de vermelho rasgavam o verde envolvente indicando o caminho para a salvação.
De novo mergulhados nas profundezas dos ribeiros, com os corpos chicoteados contra o castanho lamacento, quedas de água gigantescas, adamastores espalhados por todas as encostas, obrigavam os fieis a contorná-las impiedosamente, sem fuga possível, rumo à ancestral terra dos guardiões da sabedoria da Congregação, o Corvo.
Claro está, que para além dos mártires que foram engolidos pela imponência de atroz penitência, houve alguns santificados pela gloriosa natureza, que planaram sobre todos estes castigos, fazendo da provação questão de fé, entrando assim na restrita congregação dos "Illuminati", gente misteriosa que, em metade da punição, alcança a glória.
Imensas paróquias estiveram presentes, umas mais conhecidas que outras. Há congregações para todos os gostos. Desde a Opus Dei, restrita, com celebrações próprias, onde só se entra com convite, até aos franciscanos dos pés descalços, equipa que com muito orgulho, eu e o Meixedo representámos, e que apelidámos "De Norte Feisse", para que os homens de pouca fé nos reconheçam. Os Vicentinos de Fora, que de lá vieram, eram quase mais que muitos. Havia até representantes de outras seitas, uns marcados, a observar, outros a tentarem passar despercebidos. Do resto reza a história, no sítio lá daquela Paróquia.

Houve festa bonita nesta religião que professámos.

Honra aos vencedores, glória aos vencidos, enorme respeito por todos os que ali participaram. Obrigado à Célia Azenha, que assistiu a um tombo meu, épico (que me custou o frontal e o GPS), de mais de 3 metros por uma ribanceira  abaixo, e que nunca mais me largou, quando respirar já era penoso, das dores nas costelas, quanto mais correr. Uma palavra para os que me acompanharam neste fim-de-semana, tertúlia incluída, José Moutinho, Flor Madureira, Carlos Madureira e João Paulo Meixedo. É sempre um prazer.

Parabéns aos Abutres. Fizeram um Calvário à maneira, com centuriões a guardá-lo e com tudo ao pormenor cuidado e previsto.

Em 2015 lá estarei. Não posso faltar à autêntica Vigília do Trail.


A terminar, junto com a enorme Srª e atleta exemplar Célia Azenha.

Antes de começar com o estratosférico Luis Mota, e o sempre presente João Meixedo

segunda-feira, janeiro 20, 2014

Viver é o tempo que passamos a construir os nossos sonhos

Este não é (mais) um texto de corrida. É pura dissertação filosófica de pensamentos, que normalmente fluem enquanto corro.
Noutro dia falava com um amigo, que me dizia para experimentar a meditação. Dizia-me que enquanto meditava, coisa que aprendera com mestres, a mente se soltava pelo seu universo, fazendo com que os pensamentos e sensações fossem de satisfação real, apesar de sonhos.
Eu, enquanto corro, sonho.
Sonho com os meus sonhos. Li há dias que, "a vida, é a definição do tempo que gastámos a construir sonhos", e concordo. Digo mais, vivemos pelos nossos sonhos. Sem sonhos nada faz sentido, ou faz pouco.
Sonhámos, enquanto crianças, enquanto imortais, com coisas que se tornaram fúteis agora que somos adultos. Lembro-me de sonhar com bicicletas, com bandeiras, com férias, com raparigas, com futebol, carros, brincadeiras. Lembro-me de sonhar acordado enquanto adolescente, com quase tudo o que é fútil e de racionalizar pouco, fosse o que fosse (para isso existem os Pais, ou os nossos educadores, que nos guiam e nos alertam para as nossas escolhas e decisões).
Já na idade adulta, e ainda imortais, quando tudo é eterno, quando os meses nos parecerem anos, vivi as experiências próprias da idade. Os namoros, as viagens, as férias, os primeiros empregos em bares, restaurantes, o serviço militar, os estudos...
Agora, quando os anos já parecem meses, quando as rotinas nos envolvem, os mais novos nos fazem sentir mais velhos. Agora, que já não somos imortais, continuámos a sonhar. Muitos ainda com os príncipes e princesas, outros com a felicidade num trabalho que seja compensador mais para a alma, outros para a carteira para que possam ir em busca da felicidade nos períodos de férias, ou na casa... Todos a sonhar com o mundo perfeito, seja para os filhos, irmãos, pais, famílias. Todos sonhámos.
Faz-me imensa confusão quando alguém me diz que não sonha, muito menos acordado. Eu sonho a correr. Se o meu amigo soubesse dava cursos de meditação com sapatilhas calçadas.
Nós somos todos o resultado dos nossos sonhos. A forma como os tentámos concretizar, iludidos por uma realidade projectada em sonhos, é que definiu a nossa maior ou menor realização. Mas a felicidade não vem daí, vem da capacidade de continuarmos a sonhar e acreditarmos num futuro melhor.
Quando nos resignarmos ao nosso destino, quando deixarmos de sonhar, passamos a somar dias à nossa existência.
Os dias mais felizes, aqueles que nos ficaram na memória, pelo menos na minha, há uma coisa de que nunca me recordo: Quanto dinheiro tinha no bolso ou na conta. É que para sermos felizes bastam-nos os sonhos. Por muito extravagantes que sejam não se pagam. Procurem-os, sonhem, ousem ser a personagem feliz que um dia sonharam.
Não esqueçam, viver é construir sonhos.

terça-feira, dezembro 31, 2013

2013 Ano Ultra

Há premissas essenciais para quem quer ser um atleta. Disciplina no cumprimento dos planos de treinos, nutrição e não só alimentação, suplementação para cobrir défices disto e daquilo, batidos de proteína para recuperação muscular, massagens, reforço muscular localizado, planeamento, calendário... Enfim, já estou a ficar cansado de nomear tanto factor que pode influenciar a evolução e performance de um atleta. São realmente muitas preocupações.
Há uma razão para nunca ter sido grande atleta. Detesto rotinas no desporto. Se fizer um plano de treinos, só de olhar para ele fico desmotivado. Fiz um, que cumpri na íntegra, para a minha primeira maratona, pescado na blogosfera. Chegou-me. Desde então dedico-me apenas a correr. Não faço todos os dias a mesma coisa, faço o que me apetece. Ainda hoje saí de casa com a ideia de rolar 14, 15 km e acabei por fazer um treino de rampas e escadarias de 18. 
Neste ano que finda fartei-me de treinar sem relógio, o meu Garmin já não é novo e bloqueia amiúde. Levo-o na maior parte dos treinos, mas ele só regista alguns. Optei por, nos treinos longos, levar um vulgar GPS de telemóvel, metido na mochila, mas sem lhe ligar nenhum. Não me interessa muito a quanto vou, quantos km, quanto tempo... Treino longo é isso mesmo, longo. É sair de casa sem destino, apenas com a vontade de correr. E este foi o ano dos treinos muito longos. Fiz treinos de 30, 40 e 45 km. Uns em montanha outros em estrada, de 3 e mais horas, tendo alguns durado mais de 8. Foi ano de fazer o Caminho de Santiago com mais 4 amigos, onde sentimos tudo menos os 50 km por dia em 5 dias. Foi um ano de imensas provas, mas acima de tudo de muito convívio com corrida.
Sinto-me um Ultra. Não porque faça muitos km, há quem faça muitos mais, mas porque corro quando me apetece, como me apetece, sem pressões, sem pressa, sem sprints finais para recuperar alguns segundos no PB, mas com muitos abraços, tertúlias durante provas, convívios em abastecimentos em lugar de apenas abastecer, amizades saídas de subidas intermináveis onde todos nos reduzimos ao humano frágil e volátil conforme o dia de mais ou menos força, ou à forma do momento, e acima de tudo com a certeza que continuarei a correr. Ser ultra é mesmo isto, é viver com a corrida e não para a corrida. É a mente a mostrar ao corpo forças que ele desconhece. É a vontade contra a preguiça. É viver. 
No livro "Nascidos para correr", há alguns indivíduos que se juntam para uma prova única, onde a única coisa que os unia era a corrida. Nos personagens encontrámos tipos que correm descalços, outros que correm com ressaca, outros que vivem a correr, ou para correr, e outros que correm porque não têm outro meio de transporte. Não há ali nenhuma descrição de dietas para corredores, sapatilhas ideais, suplementos aconselhados ou tipo de provas e patamares de competição até se chegar a algum objectivo. Foi isto tudo que me atraiu na corrida, poder correr onde me apeteça, como me apetecer e (e para isto foi preciso tempo) pelos km que me apetecer. Sabem que mais? Ainda por cima, todos somos capazes de o fazer, basta querer. 
Ser ultra, ao contrário do que muitos temem, não é viver a correr, é viver com a corrida. 
Fundamental é querer. Só não é ultra corredor quem não quer. Já atleta, ou ser ultra e lutar para vencer provas, ou ficar um pouco mais acima nas classificações, requer pressupostos que eu não estou disposto a abraçar. Prefiro manter-me assim, um ultra que corre, que adora correr, que gosta de desafios, que acredita que a mente manda mais que o corpo, mas que tem a certeza que a corrida é compatível com presunto, tainadas na véspera de uma prova, minis a meio de treinos de 6 horas, churrascadas depois de algumas horas num monte, ou com bolas de berlim ao pequeno almoço. Os tempos, as performances ou os PB's vão surgindo, porque se há uma coisa inevitável para quem corre respeitando os sinais do corpo, é a evolução. É inevitável. 
Foi um bom ano. Um ano ultra, mais um sem lesões, felizmente, e com mais de 5.000 km registados. Venha 2014. Vou continuar a viver com a corrida.
Feliz ano novo!

domingo, dezembro 15, 2013

Apaixonados pela corrida, os doidos

Tive um fim-de-semana em cheio. 
Ontem o Fell Race na Freita, prova a que muito dificilmente deixarei de ir. Com menos suspense que no ano passado, quando fomos lançados no meio do nevoeiro, ontem o dia estava frio mas com sol e céu azul, fazendo com que, da partida conseguissemos visualizar o ponto de destino e idealizar o percurso, para rapidamente o atingir e assim sucessivamente até ao segundo e até regressarmos ao ponto de partida. 
Numa prova onde quase todos correram entre 10 e 11 km, eu fiz 14, o que demonstra a variedade de percursos possíveis (ou a minha pouca vontade em andar pelo meio dos tojos).
A prova é seguida de um excelente convívio com a Confraria Trotamontes, com a entronização de confrades e entrega de prémios, com a particularidade de todos, repito, todos os participantes serem premiados de igual forma: Levam Cd's de música e/ou livros. O José Moutinho, que dinamiza o trail há muitos anos, faz isto pelo prazer de abrir mentes ao gozo da corrida pela corrida, ao respeito pela natureza e pela serra da Freita que tanto o apaixona, e pelo espírito altruísta que emprega em todas estas ocasiões onde junta algumas dezenas dos que o gostamos de ouvir, e que admirámos a sua postura na corrida, sempre disposto a mostrar o trail a mais alguns e aos benefícios que podemos tirar desta modalidade tão apaixonante e tão dada ao espírito de entreajuda e camaradagem.
Foi um excelente dia, com excelente companhia. 


Hoje pela manhã fui fazer o reconhecimento dos 15 km do Xtmas Trail, prova de que orgulhosamente sou Rei Mago (junto com o Carlos Natividade e o José Capela).
Na companhia do inspirador Sérgio Moreira, responsável desta organização com o Ricardo Bomtempo, que corre muito e bem, apesar de ser diabético tipo 1, e que durante o treino de quase 2 horas foi fazendo medições da glicose, sem parar de correr. Há verdadeiros heróis na corrida, que fazem o favor de nos dar "chapadas" constantes de humildade, e que nos mostram que o único obstáculo para o que podemos fazer somos nós próprios. Quem quer arranja maneira, quem não quer arranja desculpa. 
Ora o Sérgio, junto com outros elementos da organização, mostrou-nos um verdadeiro circuito de diversão para quem gosta de trail. Numa surpreendente Serra de Negrelos/Canelas, sentimo-nos por vezes na Sherwood britânica, envolvidos por densa vegetação onde só falta um ou outro curso de água para parecer o paraíso. Surpreendentemente arranjaram ali o que muitos dos que conhecemos a Serra, 12, 13 km de single tracks, subidas íngremes e descidas divertidas.
Os que se inscreveram vão-se surpreender, aos que não conseguiram inscrição, aconselho que peçam o track e descubram um novo "campo de treino" de trail. 

Não são desconhecidos para nós que por aqui andámos, mas fazem muito pela divulgação da corrida e pela promoção de hábitos saudáveis. São estes imensos anónimos por trás das organizações de provas (que não enriquecem ninguém ao contrário do que muitos pensam), free runnings, eventos desportivos vários, que fazem com que as nossas serras deixem de ser depósitos de lixo e passem a ser frequentadas por centenas de anónimos que depois de os descobrirem nas provas desfrutam destes pulmões verdes, aqui tão perto da nossa poluída rotina.
Bem hajam. 
O resultado é este. o de cada vez haver mais doidos pela corrida. Eu sou um deles e hoje com destaque. 

domingo, dezembro 01, 2013

Novo ciclo

Hoje enviei uma comunicação ao Presidente dos Porto Runners, Fernando Leite, a comunicar a minha decisão de cancelar o meu vínculo ao clube enquanto associado.

Em Outubro de 2010, depois de algumas trocas de mensagens com o Vítor Dias, e após a sua insistência para me juntar aos treinos do clube ao fim-de-semana, aderi, por sua proposta e do Luís Pires, aos Porto Runners.

Recordarei para sempre, o orgulho que foi terminar a minha primeira Maratona, envergando a camisola do clube, na minha cidade. Foi com imenso orgulho, carregado também pelo espírito de equipa (é tradição os sócios que não correm a Maratona irem apoiando pelo trajecto todos os que nela participam), que cruzei a linha de chegada, depois de todo um esforço que me trazia de volta à vida desportiva e, definitivamente, à corrida. Depois dessa, mais 20 maratonas, de estrada e ultras de montanha, e dezenas de corridas de distâncias inferiores. Em todas representei condignamente o clube, honrando-o e dignificando-o.

Fui atleta de alguns clubes, tendo mantido alguma afinidade aos ditos. Mas será sempre especial esta ligação aos Porto Runners, por me ter proporcionado a entrada no mundo da corrida, não sendo eu nenhuma mais valia enquanto resultado desportivo. E é aqui que reside a diferença deste clube. Segundo sei, a fundação dos Porto Runners, vem na sequência de outros clubes de maratonistas amadores existentes nas grandes cidades pelo mundo fora, cujo objectivo é o de proporcionar treinos em conjunto, e algumas condições preferenciais para que todos consigam correr uma ou mais maratonas. A maratona do Porto é, como se compreende, o objectivo anual de quase todos, havendo incursões a outros destinos de numerosas delegações de atletas do clube. Em Milão, a minha 2ª Maratona de estrada, fomos a maior delegação estrangeira, tendo sido mesmo o clube com mais participantes. Digamos que este é um verdadeiro clube formador de maratonistas amadores. E cumpre o objectivo na perfeição, por isso o aconselhei a alguns. Saio precisamente porque já passei a fase de afirmação enquanto maratonista. Já atingi o objectivo, e não vejo quaisquer vantagens que a minha manutenção possa ter.
Outras razões que também pesam nesta decisão, e que não abdiquei de apresentar à direcção do clube, estão explanadas na carta de desvinculação.

No próximo ano, terei outros desafios, provavelmente uma ou outra maratona de estrada, com o mesmo espírito descomprometido de quem corre por bónus, provavelmente cruzando-me em muitas ocasiões com os inúmeros amigos que fiz na corrida, muitos no clube, e todos serão tão importantes como até aqui. A única diferença será a camisola.

 

Boas corridas!

segunda-feira, novembro 25, 2013

Ultra Trail Amigos da Montanha

Acordo às 4h00 da madrugada. Mas porque raio me meto eu nestas coisas? Deve estar um frio do caraças lá fora! Ai, quanto mais velho, menos juízo tenho.

Não havia muito a fazer. Tinha convencido o Meixedo a ir a este empeno, depois de, à última da hora terem aparecido desistentes a ceder inscrições. Era levantar do quentinho e enfrentar as feras.

coffe

Depois de um pequeno almoço de esparguete de frango, e do café tomado numa bomba de gasolina com atendimento por postigo gradeado, no meio de noctívagos admirados com um “janado” de calções quando a temperatura não ultrapassava os 2º celsius, lá fui eu buscar o meu parceiro de prova. Dali a casa do Carlos Natividade não balbuciámos muito mais que fugazes “que frio”, ou “que é que eu estou aqui a fazer”. Rápida saída de um carro para o outro e siga para Barcelos, base da prova. Ali chegados, e ao contrário do que normalmente acontece nas provas de montanha, pouco convívio com outros atletas. Todos se mantinham dentro dos carros, com pouca vontade de enfrentar a baixa temperatura, na ânsia de ouvirem o tiro de partida às 7h e partirem dali mesmo. Mas não era possível, tínhamos de passar no controlo 0.

partidaamigos

Todos juntinhos para enfrentar o frio, lá fomos, ainda de noite, em direcção aos belos trilhos das montanhas de Barcelos. E aqui começa a crónica que vou reduzir ao essencial.

Amigos

Tinham-me dito que esta era uma prova muito “rolante” (também é), onde o atrevimento dos primeiros 30 km se pagaria mais tarde, pelo acumular dos km e da fadiga. O que todos esquecemos, é que, quando se fala em muitos km a correr, logo um organizador trata de equilibrar a corrida com subidas duras, impecavelmente distribuídas por toda a prova, para que, atentos aos sinais do corpo, os atletas façam uma gestão equilibrada que lhes garanta integridade física suficiente para terminar.

Costumo dizer que uma ultra se faz com muito juízo. Dependendo da capacidade de cada um, olhando às limitações e não embandeirando em arco antes dos últimos 10 km. Foi o que fizemos. Saímos com calma, fartamo-nos de rolar, enfrentámos as subidas estoicamente (onde sempre progredimos com algum à vontade) e terminámos a rolar, embora com os meus já habituais impropérios de mau-feitio quando a preguiça me diz para caminhar, e o Meixedo insiste em correr. E eu corro.

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A prova dos Amigos da Montanha é muito boa para quem se quiser estrear em ultras. É muito equilibrada, segura, com imenso apoio, tem paisagens fabulosas (não esqueço tão cedo o fantástico nascer do sol) muita floresta, muitos trilhos bem desenhados, marcada na perfeição e com abastecimentos 5 estrelas. Desde as bolas de berlim do pequeno-almoço (primeiro abastecimento) até ao chourição e presunto do lanche (45 km), passando pela canja do almoço (distribuídos pelas nossas 10 horas de prova foi assim que coincidiram), todos com alimento e bebidas em abundância, sem esquecerem nada.
A cereja no topo do bolo são as diferentes pequenas experiências integradas na prova, a começar pela travessia de um Rio em “slide”, o equilibrismo apoiado em cordas nas escorregadias pedras da zona dos moinhos até à travessia do Cávado em canoa (onde eu e o João fizemos um sprint e, sem conseguirmos travar, tal era a velocidade, abalroámos a canoa que tinha partido MUITO antes). Prova única e espectacular, a repetir, sem dúvida. Não ouvi um único reparo.

nasceramigos

Foi um excelente dia, uma prova algo sofrida depois dos 45 km, quando as cãibras me quiseram chatear sempre que mudava de subida para descida (ou vice-versa) ou quando caía (foram algumas, sem gravidade), e em excelente companhia, do já habitual meu parceiro destas lides (a paciência que ele tem para me aturar), o João Paulo Meixedo, o Paulo Pereira, numa excelente prova em ano de estreia e do inspirador atleta Tiago Dionísio que fazia a sua 274ª Maratona (!). Conseguimos (a espaço com outros) fazer um grupo que foi junto quase até ao fim (o joelho do Paulo não o deixou correr no final como queria) e que se entendeu lindamente num convívio animado.

63 Km, com 5.000 m de desnível acumulado, em pouco mais de 10h foi este o empeno.

No final, de onde partira-mos, no centro de Barcelos, uma excelente recepção de todos os que, tendo acabado muito antes, ali esperavam os que prolongam o sofrimento.

Parabéns aos Amigos da Montanha pela irrepreensível prova e a todos os que nela participaram. Parabéns aos vencedores, Luís Mota e Ester Sofia Alves. Nem a canoagem os atrapalha.

Até ao Xtmas Trail

 

P.S. – Créditos das fotos do sempre presente Miro Cerqueira e de André Alves (fonte: Facebook). Um álbum que retrata de forma excelente a prova, é este álbum, do Carlos Cardoso.

segunda-feira, novembro 18, 2013

10ª Maratona do Porto

A minha 9ª maratona de estrada (20ª absoluta), coincidiu com a 10ª edição desta que é, há muito, a mais participada e a melhor maratona em território nacional.

Pelo 4º ano consecutivo alinhava à partida da distância rainha do atletismo, depois de em 2009 ter corrido a “Family Race”, prova de 15 km, integrada na mesma organização, e que dá um colorido especial à partida, junto ao Palácio de Cristal, fazendo com que a multidão à partida seja avassaladora e arrepiante. Tanta gente tem aderido à corrida e às diversas provas que se organizam nesta cidade, que parecem ser, a seguir à noite de S. João, as ocasiões em que mais gente se junta para uma manifestação, neste caso desportiva.

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Tinha como primeiro objectivo, como em todas as provas que alinho, terminar sem sequelas, e de preferência em condições de correr no dia seguinte. É que gosto tanto de correr, que não arrisco nada para fazer melhor. Acho que devo cerrar os dentes e contrariar as fraquezas, mas nunca contrario o corpo, só a cabeça. Talvez só assim se justifique a ausência de lesões nestes anos de corrida. O segundo objectivo era terminar abaixo das 4 horas. Tinha falhado este objectivo nas 2 anteriores edições por ridículos 4 e 2 minutos respectivamente.

O UTAX tinha deixado as suas marcas, principalmente no “motor”. Sem o gripar, deixara-o cansado, sem capacidade de exceder as 3.000 rotações. Notei na descida da Avenida da Boavista, entre os 4 e os 7 km, que aquele não era dia para grandes veleidades, atendendo ao facto de não conseguir, a descer, baixar dos 5’10/km.

Nada de grave. A experiência que acumulei em tanta prova e treino, levou-me a reflectir uma simples evidência: “Se não dá para mais, não forces”, pensei. Lá fui no meu ritmo em direcção a Matosinhos, cumprimentando entusiasticamente todos os que, já em sentido contrário seguiam em direcção à Foz.

Sabia que um ritmo entre os 5’30 e 5’40 seriam suficientes para me manter a “salvo” do balão das 4h, sendo este o objectivo interiorizado, a táctica de ataque à prova. Aprendi que, mesmo tendo no momento outras sensações, a regra de ouro é comer e beber sempre. Sem sede ia bebendo água e comendo 1 gel a cada 40 minutos de prova, que se revelaram fundamentais mais à frente.

Ao km 10, 55 minutos de prova. Houve tempos em que aceleraria feito doido para baixar aquele que era um tempo vergonhoso para uma prova de 10 km, mas como faltavam 30… e 2 (há muita gente que se esquece dos 2, e o que custam…), e como ainda estava à frente do balão das 4, não era grave, era bom. Siga. Viragem em Matosinhos, vamos lá até à Afurada. Porra, lembrei-me da minha primeira prova, que também passara ali e terminou na Praia de Matosinhos e o que tinha sofrido para não andar a passo. Que diferença…

Marginal fora, tempo formidável para correr, nada de vento como no ano anterior, nem chuva, nada a atrapalhar, nem uma desculpa para não atingir o objectivo 2. Era “só” ter juízo e não abusar. A marginal entre a Foz e a Ribeira é belíssima para correr. Fui por lá fora saudando e sendo saudado por público e outros atletas, já na companhia do Renato, dos Porto Runners, que havia feito um Ironman em Outubro, e muito perto do António Nascimento, que se prepara para dobrar a distância e que ia ali em ritmo de treino longo.

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A entrada na Ribeira foi um tónico de motivação, com muito público a saudar a passagem dos atletas horas a fio (muitos espanhóis, que são sempre animados e tanto incentivam), o que contrastava com a indiferença que imperava na margem Sul, onde os clientes habituais dos diversos cafés do antigo mercado de Gaia balbuciavam comentários de análise comparativa entre os níveis de preparação e fadiga dos diversos atletas que estendiam a passagem do pelotão por múltiplos “copos de três”. Era ali o “muro”. A ida à Afurada, com retorno ao km 26, era para muitos o flagelo dos km no corpo, ou menos preparado, ou mais fatigado, ou pouco cuidado nos primeiros km.

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Em cada viragem via os balões das 3h45 e das 4h à mesma distância, o que revelava coerência no ritmo e esforço. Ao chegar de novo ao Cais de Gaia e ao abastecimento dos 30 km, começo a ver caras conhecidas a fraquejar. A tentação de parar para beber é sempre maior que a força de seguir, temos que a contrariar. Foi o que fiz. Peguei em 2 garrafas de água e segui. Chegada à Ponte Luiz I, subida que parece sempre ter inclinação e distância superiores aos 100 m que tem, e alívio por saber que era “só” acabar, depois de uma pequena incursão à marginal Este, outrora a gigante ida ao Freixo. Alívio e cansaço. Começavam a pesar os km. A entrada no Túnel da Ribeira e aquele paralelo para calcorrear é sempre um momento de superação, temos que meter na cabeça que aquilo não é assim tanto e não caminhar, como muitos já faziam. Siga.

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Depois da Igreja de S. Francisco e da chegada ao alcatrão baixei ligeiramente o ritmo. Sentia-me cansado, chegara o momento de apelar mais um pouco à lucidez. Deixei seguir o Renato, que ia mais fresco e abrandei. Fiz um descanso activo até ao abastecimento dos 35 km, na Arrábida, com passagem pela Alfândega e o apoio do Miguel Santos, fundamental, como sempre, não parando e resistindo à tentação de acelerar. Mais 2 garrafas de água, mais um gel, sempre a trote. No Fluvial fiz contas de cabeça. “Rui, falta um trote de recuperação até ao Parque”. Fui passando “caminheiros”, muitos deles tinha visto junto ao balão das 3h30 e das 3h45, nem falava com os conhecidos, tal era o medo de contágio (naquelas alturas, só nos lamentámos, acabando por influenciar quem vai, como eu ia “nos arames”). Mais um pouco de paralelo junto ao Castelo da Foz, a subir ligeiramente, onde quase todos caminhavam e eu parecia sprintar. Nova recta conhecida, a Foz à esquerda e o abastecimento dos 40 ali tão perto. De repente passa por mim um “balão” que dizia “4h00”. Era a Conceição Grare a portadora das más notícias. “Anda Rui”, dizia, “anda que vamos para baixo das 4h00”. “Para baixo das 4?”, perguntei, “és tu o balão e vais muito rápido”. Felizmente o balão “oficial” vinha um pouco mais atrás, a Conceição estava a terminar a prova e esquecera-se de tirar o balão cujo ritmo tinha sido por ela orientado até a um determinado ponto, onde passara a responsabilidade.

Há alturas numa maratona em que parecemos adormecer. Aquele momento do susto que me pregou a Conceição foi o momento de despertar. Pouco depois da placa dos 40 km, mais caras conhecidas. O Professor Ascensão e a Marisa Barros ainda lá estavam, depois de os ter saudado mais de 2 horas antes, à passagem do km 15. A Marisa coloca-se ao meu lado a correr, peço-lhe encarecidamente para não fazer de lebre que me matava. Ela sorri, dá-me os parabéns “por mais uma”, e diz a sorrir “agora é só subires, já acabaste”. Que rico tónico. Olho para a frente e vejo o Castelo do Queijo e a bela da rotunda com que vinha a “sonhar” acordado. Entro na Avenida e de repente vejo um mar imenso de cabeças e corpos a batalhar contra o cansaço.

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Senti-me tão bem na Avenida que desatei a acelerar. As cãibras quiseram começar-me a lembrar da quantidade de km, mas eu fiz-lhes um “manguito”. Cerrei os dentes, levantei a cabeça e desatei a sprintar (pensava eu) Avenida fora. Vejo ao longe camisolas do Gaia Running, equipa de amigos que treina ao lado de minha casa, e reconheço uma cabeça coberta por cabelos brancos. Era o Lopes. Vamos lá apanhar o Lopes. Apanhei o Lopes, saúdo-o a ele, ao Luis Duarte que brilhantemente se estreava, e a mais um outro elemento da equipa, e de repente entrámos num “túnel” de gente: Atletas, público e familiares de atletas, que deram um final único, emocionante e que me levaram “ao colo” literalmente até à meta e ao objectivo cumprido. Olho para o relógio ao entrar na Avenida do Parque e vejo 3h58’58. Acabei com o cronómetro oficial nas 3h59’12, o que quer dizer que devo ter batido o meu record dos 200 mt Piscar de olho

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Baixei das 4h na maratona da minha cidade, depois de o ter conseguido já em Sevilha, Sevilha, que será seguramente a minha próxima incursão à distância rainha do atletismo.

As maratonas de estrada são para quem gosta de correr, como o balneário para quem gosta de futebol. É aqui que se sente a corrida na sua plenitude. Não há espaço para descanso, abastecimentos prolongados ou outros sossegos. Tudo aqui é intenso, das emoções à gestão do esforço, à velocidade, ao juízo. E tudo se revela fundamental para o sucesso, seja para os que terminam abaixo das 3h, 3h15, 3h30, 3h45, 4h ou que se limitam a chegar. Porque meus amigos, quando chegámos ao muro, que todos queremos adiar, seja aos 30, 32 ou aos 36, a distância que resta varia entre os 30 e os mais de 60 minutos a concluir, e se correr um minuto que seja com um empeno valente é duro…

É por isso que considero todos os que correm uma maratona verdadeiros campeões. Sofre-se muito. Sofre-se o que só nós, os que as corremos compreendemos.

Os que como eu tanto gostam de trail e tão pouco apreciam alcatrão, sabem do que falo. A experiência da maratona é o clímax da corrida de resistência à velocidade. E o ambiente de superação que se vive numa maratona é mesmo único.

Parabéns a todos!

Venha a próxima!

 

P.S. – Créditos das fotos aos sempre presentes: Lina Branco Batista, Miguel Martins, Paulo Rodrigues e Clinica Médica da Foz. Obrigado!

segunda-feira, outubro 21, 2013

Ultra Trail das Aldeias de Xisto

Repito-me ao considerar as provas de trail como reuniões de família, onde todos se conhecem, ou se não se conhecem, facilmente se integram. Como em todas as famílias, há uma altura no ano em que a reunião é especial, uma espécie de banquete de Natal, onde todos se reúnem e celebram mais um ano, com farta mesa, onde há de tudo. O UTAX é a celebração do trail em Portugal. Com uma prova de 88 km e outra de 45 (Trail da Lousã) cuja designação é fiel ao percurso, com passagens por Aldeias de Xisto, tem a distância e a localização ideais para reunir os amantes do trail nacional, numa Serra que é um hino à natureza, com um pinhal imenso, quedas de água, rios e ribeiros, aldeias preservadas e recuperadas, e uma paz de cortar a respiração. A vontade que nos dá é de parar, contemplar e chorar para dentro o rol de sensações que só uma beleza daquelas nos induz.

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Sexta-Feira, dia de verificações técnicas e levantamento de dorsais para os atletas da Ultra, ao chegar a Castanheira de Pêra, base da prova, foi provavelmente o dia em que mais chuva, das fortes, vi cair. Estava apreensivo. Apesar da confiança que tinha nas pernas e na cabeça, as imagens da prova dos Abutres em Janeiro deste ano, onde abundaram a lama e água daquelas cercanias vieram-me à memória. Temia passar no dia seguinte o mesmo que passara então, calcorreando trilhos lamacentos e penosos, onde a difícil progressão duplicam o cansaço. Enfim, temores que felizmente não se confirmaram. Depois de uma noite dormida rapidamente, no lotado pavilhão da escola local, e já com café tomado numa pastelaria que abrira propositadamente às 5h, dirijo-me para o controlo 0. Muitas caras conhecidas, muitos bons dias com sorrisos ensonados, um flash aqui e ali das habituais fotos, um ambiente calmo, sereno e de sã convivência, como são sempre os que antecedem estas provas.

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Dada a partida, lá fomos a despertar os músculos em direcção às eólicas, cujas luzes sinalizadoras se avistavam bem lá no alto, por um pinhal onde rapidamente se dispersou o pelotão. Pouco depois, ainda no início da subida, reagrupámos todos, uns subiam, outros desciam, estávamos todos perdidos. Todos, do primeiro ao último. Esperámos pelo vassoura que nos encaminhou para o “Downhill” (feito uphill) que nos haveria de encaminhar até ao alto da Serra. As marcações, talvez devido à chuva e ao vento forte do dia anterior, eram deficientes em muitos pontos do percurso, sendo mais difícil o período nocturno. Registe-se que, a nível de percurso, só uma ou outra falha de marcação não pode diminuir o excelente trabalho de limpeza de trilhos e sua escolha. É uma prova com um percurso equilibradíssimo, onde não faltam zonas de trilhos planos ou pouco íngremes onde se corre durante quilómetros, passando por single tracks sinuosos em matas fechadas, e cujo final tem a sensatez de ser em estrada, estradão e trilhos pouco técnicos, provavelmente a pensar nos atletas mais lentos, como eu, que chegando ali já de noite, têm dificuldade duplicada pelo cansaço e ausência de luz natural.

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A partir daqui, já com o dia a raiar, o pelotão foi dispersando serra fora. Até aos 16 km, primeiro abastecimento, foi um agradável serpentear, divertido e luxuoso aquecimento. No primeiro abastecimento, primeira desilusão. Não havia nada com sal, o isotónico tinha acabado, sobravam gomas, banana, laranja e alguns biscoitos. Salve-se a simpatia dos voluntários, enchiam-se os reservatórios com água e voltámos ao trilho. Até ao segundo abastecimento, na belíssima Aldeia de Gondramaz, houve de tudo. Subidas, descidas, belas paisagens, florestas pintadas de cores e frutos de Outono, muita castanha espalhada pelo chão, enfim, trail do melhor. No abastecimento, mais do mesmo. Gomas e pouco mais, o resto tinha acabado, não havia rede de telemóvel e aguardavam por reforço do abastecimento. Daqui até ao Espinho, um trilho fantástico, que fiz sozinho, por ribeiros, pontes feitas de troncos de árvores, onde o sol chega por finas linhas douradas que embelezam a verdejante paisagem. Se há paraíso deve ser parecido com aquele percurso. No Espinho, ao passar no “Ti Patamar”, conhecido ponto de abastecimento de muitos dos que treinam por aquelas bandas, deu-me vontade de parar, mas sem companhia, segui caminho. Pouco mais à frente, na dura subida que antecedia a Lousã, encontro o “trio abutrico” que me acompanhou até ao fim, o João Lamas, José Carlos Fernandes e Tiago Santos. Ilustres “habitués” daqueles trilhos, organizadores da prova dos Abutres, tinham já “abastecido” no Ti Patamar. Por pouco perdera o melhor da festa. Lá seguimos juntos até ao Hotel Mélia, onde nos aguardava um abastecimento ultra: Canja, chá, café e todos os petiscos que lá faziam falta e que estavam em quantidade mais que suficiente. A acompanhar o aconchego do estômago, um saco previamente deixado à organização, com roupa seca e sapatilhas de reserva. Como estava confortável, nada mudei, limitando-me a meter na mochila uma camisola térmica de reserva.

Partimos de seguida em direcção à segunda parte da prova, com passagens por mais escadas infindáveis a cruzar as aldeias espalhadas pelas verdejantes encostas, fontes, castelo, uma levada belíssima onde correr era arriscado pelo perigo de cair ribanceira abaixo. Contemplação. Admirável Serra, esta bela Lousã. Espero que a conservem, há pouco em Portugal com tão assombrante beleza.

UTAX

Tinham-nos avisado no briefing, que por motivos de segurança havia sido abolido o PAC 5, passando a prova directamente do 4 para o 6. Assim foi. Um pequeno abastecimento aos 54 km de prova e a subida, tão bela quanto dura ao Trevim, ponto mais alto da Lousã, aos 1200 mt. A subida havia começado perto dos 200, com a levada a meio para “descanso”. Ali chegados, contemplámos, já na companhia do Rodolfo Rapaz e do Pedro Rodrigues (fotógrafo de ocasião), que se tinham juntado a nós na subida, a maravilhosa vista. O cansaço era pequeno perante tamanha beleza. Seguiu-se uma descida acentuada e nova ascensão, desta vez à Sra das Neves, onde entrámos no trilho que nos levou até ao PAC 7, na Aldeia do Coentral. Novo abastecimento reforçado, com canja quente, sandes de chourição e nova incursão do “trio abutrico” ao tasco local para mais uma mini.

Com a noite a cair, lá fomos juntos até final, aproveitando os cerca de 14 km finais para fazer recuperação activa. O facto de o percurso ser ali menos exigente, permitiu-nos recuperar forças sem abusar nos andamentos. Acabámos juntos, animados e com vontade de voltar, com 14h58 de prova. Previra 20h. Mesmo com 76 km registados no relógio oficial do nosso pequeno pelotão, sentimos-nos todos com dever cumprido.

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O UTAX é, como referi no início, uma excelente prova. Organização excelente, com um avançado controlo de passagens com actualização on-line, sem confusão nas entregas de dorsais e verificações técnicas, boas condições de solo duro e boa refeição final, abastecimentos excelentes a meio e ao km 75, e excelente percurso. Como em todas as famílias, quando vamos a um banquete festivo, podemos não gostar de tudo, mas não é o facto de as rabanadas estarem queimadas, ou a sopa insossa, que vamos dizer que o banquete foi um fracasso. O facto de as organizações, com esta conjuntura económica, lutarem com menos apoios, faz com que nem tudo seja perfeito. É compreensível. Talvez possam mudar o excesso de gomas para mais alguns pacotes de batatas fritas, o sal faz-nos muito mais falta. Quanto às marcações, obrigado por me fazerem dar mais umas voltas naquelas fantásticas paisagens. Não dei como perdido nem um metro do que fui fazendo a mais para encontrar o caminho. Deslumbrei-me com cada pedaço de trilho que percorri, com cada castanheiro que contemplei, com cada pássaro que chilreava nas densas florestas que cruzei. Fiquei cheio de vontade de regressar. Se não tiverem abastecimentos, por mim não há problema, levo sempre a mochila com comida, e um reservatório para água que por lá abunda. Temos que encarar os trails, cada vez mais como provas de auto-suficiência e cada vez menos como banquetes organizados. Os abastecimentos fazem parte do banquete, mas o prato principal é aquilo que nos vai fazer a todos voltar no próximo ano: A mais bela, equilibrada e brutal prova de trail que por cá se faz.

Parabéns a todos os que se aventuraram nesta epopeia, ao vencedor Armando Teixeira em masculinos e à Ester Sofia Alves no feminino, a toda a organização e voluntários, que foram inexcedíveis. No global, o saldo é amplamente positivo.

Portugal tem excelentes serras para correr. Haja mais “Go Outdoor” para as organizar. Se o circuito Ax Trail é assim, merecem apoios para o reactivarem. Fiquei “cliente”.

sexta-feira, outubro 18, 2013

Obrigado!

Ontem, ao ler e reler todas as mensagens publicadas no meu mural do Facebook, revi quase toda a minha vida. Desde colegas de banco de escola, passando pelos camaradas de tropa, até aos companheiros da vida, de trabalhos, da corrida, das simples amizades ou de algo mais, tudo está aqui agrupado. A forma que tenho de vos agradecer é a mesma caso não tivesse outra, dizer-vos que todos fazem parte de um trajecto de vida que continua, onde tudo acaba, mas nada tem validade.
Leiam este post que convosco partilho, de uma pessoa inspiradora, que se recusou a ter prazo e que, graças à atitude que demonstra, superou todas as estatísticas. Como ele diz, é preciso continuar a viver, apesar do que quer que seja. Todos tenhamos consciência, que o que queremos fazer não deve esperar por melhores dias, porque os melhores dias são estes. Temos o que vivemos e devemos viver sem ser na corda bamba do que vai terminar, mas no que há para viver. Como dizia Pessoa, "Vivo sempre no presente. O futuro não o conheço, o passado já o não tenho".
Obrigado por me darem o privilégio de serem parte da minha vida.
Beijos e abraços!

"...dia de molhanga hoje, e grande conversa com o meu médico (um dos que me segue) que adoro (síndrome de Estocolmo - ;.) )...

...falámos do prognóstico e de tempo de vida;
...eu nunca perguntei a nenhum médico quanto tempo de vida tenho; a razão é simples, sem bens nem rendimentos, não saberia o que fazer com essa informação, a não ser tirar fotocópias e arrumar papéis; coisa que nunca faria se tivesse duas semanas de vida;
...a ética/deontologia/ escola médicas obrigam o médico à verdade, conceito não absoluto, logo porque pode ser contar tudo ou não dizer mentiras; mas acho estranho que alguém faça a pergunta e mais estranho ainda que o médico dê essa informação por várias razões:
=> não acredito que seja a regra, mas não existirão alguns muito poucos médicos que baixam a esperança de vida para parecerem génios na gestão da doença?
=> além da classe modal, cujas estatísticas estão disponíveis online, só acontecem excepções; quantas vezes não ouvimos alguém que tinha 6 meses durar cinco anos? Na vastíssima maioria dos casos o doente ultrapassa o tempo comunicado;
50% dos cancristas de pulmão morre no primeiro ano; porque normalmente este cancro é insidioso e uando o pciente chega ao hospital já está todo roto; eu já cá vou a caminho dos 5 anos....graças a Deus só soube desta estatística há pouco...
=> a fixação de um prazo de validade retira energia e motivação para o aproveitamento do tempo de vida; ou seja o tempo da morte é trabalho do médico e da medicina, o tempo da vida é do cancrista; eu não preciso de saber quanto tempo vou viver, porque alterarei a minha vida em função do meu prazo; à partida eu calculo que não viverei tanto como os outros, mas cada dia meu tem e deve ser igual a todos os outros, até ao último;
=> A teoria dos bucket lists, popularizada por um lindíssimo filme de Morgan Freeman e Jack Nicholson; tive a graça de viver o meu bucket list desde a minha adolescência, e da maioria das coisas que queria fazer na vida já as ter feito; além disso a maioria das coisas que agora me faz feliz e me energizam não custam dinheiro; mas não as aproveitarei da mesma maneira com um prazo;
Se eu tivesse dinheiro e tivesse vivido uma outra vida, não quereria aproveitar o tempo que me sobra para subir o Himalaia ou uns gang bangs em Las Vegas? Dont think so; até porque não saberia como as poderia aproveitar com o cutelo em cima da cabeça; se alguém tem cancro, não faz a pergunta e se puder e tiver recursos, corra para o seu bucket list, seja essa a opção sem necessidade de saber que são 4 semanas ou 6 meses;

=> certo que certas coisas poderão ficar melhor arrumadas e não deixadas ao descuido, como a educação dos filhos, a questão patrimonial para quem o tenha, o testamento espiritual, os nossos objectos pessoais, etc etc; mas tudo isso pode ser tratado já, sem saberem esse errado prazo!

Portantos:
1 - Não perguntem nunca qual o vosso prazo de validade;
2 - Peçam ao vosso médico para não o dizer;
3 - Organizem-se e bucketizem o que quiserem, já; não como se tivesse medo de não viver para sempre, mas porque isso vos poderá tranquilizar e energizar;
4 - Não leiam as estatísticas, por causa do frango;
5 - Quando alguém vier dramaticamente vos dizer que têm x semanas ou meses, digam-lhes que é mentira, porque eu disse que era mentira e que o prazo será maior; acertarei em mais de 90% dos casos!! nos casos em que falhar faltará decidir para quem vai a cómoda da Tia Mariazinha, o que não é muito grave...

Esqueçam este assunto. o segredo é sempre o mesmo, poderemos morrer da doença, mas a doença numa nos matará, porque viveremos todos os dias como se não a tivéssemos, como se ela não fosse um assunto! (minimizando a dor e desconforto, tentando todas as terapias, rodeando-nos de pessoas boa onda, replicando e repetindo os cassos de sucessos, etc etc etc...)"


O texto original pode ser lido aqui.

terça-feira, outubro 15, 2013

O Urban Trail é “me(u)”, disse o Porto

Foi aqui que ele nasceu, num aparente longínquo Abril. Vou reler o texto que escrevi então, e reparo que passou apenas pouco mais de um ano.

Longe vão os dias em que correr escadas acima, rampas e ruelas escuras abaixo, nas zonas históricas do Porto e Gaia, era regalia de alguns, que na ânsia de treinar desníveis como os das montanhas, que tanto apreciam e onde correm quando podem, calcorreavam-nas todas, descobrindo todos os caminhos sinuosos, cinzentos, rudes e belos, já coroados como Património da Humanidade. São cada vez mais a fazê-lo. Tudo graças à iniciativa de alguém que, afectado pelo desemprego, pôs mãos à obra e não descansou enquanto não viu o sonho concretizado, com a ajuda de alguns e o apoio de outros, que superiormente reconhece.

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O Urban Trail é um acontecimento único. Há imensas corridas, mas só esta consegue fazer desfilar pela cidade, um bonito carrossel de luz e gente bem disposta, que parece querer prolongar o privilégio de tomar a zona histórica de assalto, não forçando o passo para poder usufruir por mais tempo.

Como habitualmente, fiz a prova na cauda. “Varri” a primeira edição, (a pirata e a oficial), e o Jorge Azevedo e o Miguel Catarino, organizadores da prova, desafiaram-me a repetir a experiência. Desta vez levei uma bandeira no lugar da vassoura, o que não impediu que, por onde passasse, todos me apelidassem de “carro vassoura”. Foram 2h14 para fazer 12 km, mas já não me vejo a fazer esta prova num ritmo rápido. Logo depois da partida na Ribeira, e de percorrer a Ponte Luis I (tiraram-lhe o “Dom” por ele se ter baldado à inauguração), o primeiro grupo a passo, apesar de o terreno ser ainda plano, fazia-me adivinhar o que vinha. Seria um longo passeio. Ribeira de Gaia fora, com um belo espectáculo de cor do outro lado, com a multidão alinhada para a partida da caminhada, lá fomos ora a correr, ora a saudar quem nos saudava. Primeira subida, o grupo engrossa com alguns que sentem pela primeira vez a inclinação da zona ribeirinha nas pernas. “Ó Sr. faltam muitos?”. “Sou o último”. “Então força, que isto sobe muito”. Lá fomos em direcção à Taylor’s, por onde passámos entre pipas de história em forma de vinho, onde só faltou a prova de um vintage. Mais umas vielas e ruelas, passagem pelo Yeatman e chegada ao fantástico ponto de observação do Porto, a Serra do Pilar, com passagem pelos claustros do Mosteiro. Aqui, talvez devido à água bebida no abastecimento, um grupo de corredoras vai ao wc, e eu, claro, espero, enquanto o corrupio de caminheiros continua a ultrapassar-me. Caminheiros rápidos vs corredores lentos. Descida ao tabuleiro inferior da Ponte pela rua do Casino (é verdade, chama-se assim e o casino existiu mesmo, em tempos) e, já com a companhia do João Meixedo, subida das escadas do Codeçal, rumo à habitual passagem pela Muralha fernandina e descida à Sé Catedral. Tanta história tem o Porto, que passámos por muitos mais monumentos que os que aqui vou referindo, e que provavelmente passam despercebidos a tantos que por eles passam diariamente na azáfama da rotina. A nós, que fazemos destas ruelas e escadas pista de treinos, só as passagens que referi são novidade, todas as outras estão disponíveis no dia-a-dia.

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Depois da Sé, seguimos rumo à Vitória, onde iniciámos o abastecimento, e que durou quase até ao Palácio.

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Um serpenteado desenhado nos jardins do Palácio de Cristal, descemos à marginal, onde rumámos à meta instalada junto ao Cubo da Ribeira.

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Foi este o grupo (Iolanda Barros, Ivone Ganso, Sandra Pascoal, João Meixedo e Nuno Godinho) que nos acompanhou quase toda a prova. Pouco habituados a correr, fizeram das tripas coração, e apesar da lesão num joelho da Iolanda, acabaram com brio, a primeira das, espero, muitas provas que farão a correr. Porque tudo tem um início, tudo tem uma primeira vez, e para primeira vez, um trail urbano com mais de 500 mts de desnível positivo, é obra. E sempre bem dispostos. Virtudes do desporto, apesar das dificuldades, há sempre um sorriso de satisfação.

Parabéns ao meu amigo Luís Pereira, brilhante vencedor, num tempo que, com certeza, não o deixou apreciar a paisagem. Voou literalmente. 

Parabéns à organização, que resolveu com mestria o imbróglio que é o de separar a corrida da caminhada, apesar de partilharem parte do percurso, sem que deixasse de haver muito público sempre, e sem haver, aparentemente, qualquer desagrado por parte dos atletas. Foi uma festa, e as festas, no Porto, são sempre bonitas e animadas.

Venha o próximo!