sexta-feira, maio 16, 2014

A bordo do Alfa Pendular

Viajo no lugar 44 da carruagem 6, num Alfa procedente de Braga que já vinha apinhado quando atracou na Estação das Devesas, em Gaia. 
Viajar em linha férrea de alta velocidade ("alta" de vez em quando) tem enormes vantagens. Para além da rapidez do comboio - pouco mais de 2h30 para chegar a Lisboa - o rápido para a Capital está equipado com rádio e é extremamente confortável. Ponho os fones e lamento não vir o moderno trem "equipado" também com educação para os passageiros. 
Estou num daqueles lugares centrais, 2 bancos de frente para outros dois com uma enorme mesa a meio, onde vão duas mulheres, uma certamente sexagenária, - apesar do cabelo negro brilhante, curto, com franja alinhada por cima dos óculos rectangulares -, a outra, loira de cabeleireiro, imensamente gorda, com menos 10 anos, mais 20 cm e sem óculos. As duas no sentido da marcha eu de costas, ao lado de um adolescente que as acompanha. As duas vociferam alto, como se o coitado do moço que aqui vai à janela fosse mouco. Mouco vou ficar eu seguramente, caso apanhe muitas companhias destas nos comboios, já que, para não as aturar, pus o volume do rádio no máximo. Para meu azar, a rádio com melhor "captura" insiste em Bruno Mars (?), Shakira e Beyoncé e outras marteladas modernas nos meus tímpanos. 
O comboio está cheio, não tenho alternativa. 
A gorda, apesar de ainda estarmos em Aveiro, com 30 Mn de viagem, já bebeu dois ice tea de pacote. Agora atira-se a um pacote de gomas enquanto limpa o suor que lhe escorre da testa, mesmo que a temperatura cá dentro não ultrapasse os 22º (27º no exterior). À fome não morrerá. 
A baixa, apesar de minúscula, ocupa mais espaço com as pernas que eu, com 1,87. O puto adormeceu. As gajas agora discutem a vida de figuras públicas (aquele é o Ronaldo) apontando para fotos de uma revista cor-de-rosa. 
Triste sina a minha. Na carruagem 5, que cruzei quando fui tentar-me refugiar no Bar, - repleto com um grupo de turistas bêbedos -, nos mesmos lugares está um grupo idosos que usam aparelho nos ouvidos mas estão calados. Devem ter viajado muito com fones no máximo e danificaram os tímpanos. 
Vou-me refugiar no wc. Afinal, está a ser uma viagem de merda. 

quarta-feira, maio 14, 2014

Eu não quero o presente, quero a realidade


Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.
O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
                         como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.
Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.
Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

Somos seres intemporais.
Pessoa dizia viver sempre no presente, por não ter já o passado e por desconhecer o futuro. E depois brindava-nos com estes textos assinados por um dos seus pseudónimos, que demonstravam a sua enorme confusão relativamente à torrente de sentimentos que o cérebro nos proporciona, toldados pela razão, a que chamamos consciência, ou pelo coração, que mais não é que a vontade inconsciente, despoluída das normas sociais.

Podemos dispensar tudo o que não vemos?
Podemos dispensar tudo o que queremos?
Podemos viver egoisticamente sem olhar a quem ferimos, olhando apenas para o nosso umbigo?
Podemos. É o que fazemos.

Vivemos num presente, às vezes envenenado, outras encantado, consoante o que nos convém. Vivemos com pavor da chuva se precisamos do sol para secar roupa e com pavor do sol se precisamos da água da chuva para não morrermos à sede. Somos seres insaciáveis. Somos o que nos convém. Vivemos inquietudes que mais não são que coisas que não nos dão jeito que se passem ou existam.
Sorte a dos tolos, dos insensíveis sem consciência, que vivem à vontade dos seus sonhos, sem terem juízo suficiente para avaliar da conveniência para o próximo de qualquer dos seus actos.
Somos o que nos dá jeito com imenso jeito para justificarmos aquilo que somos.

Também tenho um “Alberto Caeiro” na minha existência. Também falo enquanto Fernando e dou lugar ao Alberto quando dá jeito esquecer a envolvente, a estrada que me guiou, os cruzamentos que escolhi.
Há uma diferença enorme entre ser o que somos, e sermos aquilo que queremos ser. O que separa estes dois estados? A coragem de assumirmos o que somos, sem pseudónimos, sem máscaras, sem meteorologia que nos condicione. É sermos egoístas o suficiente para sermos o Pessoa. As questões que nos colocarão a seguir cabem sempre numa excelente resposta, lacónica o suficiente para ser entendida: Porque sim. Porque quero. Porque a vida é minha e as consequências também.

Seremos todos felizes? Somos Pessoa com necessidade de um Caeiro? A liberdade é um conceito tão válido para uso de pseudónimos como para sermos abandonados pelo mundo por sermos quem somos. E nós somos o que pensamos.

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terça-feira, maio 06, 2014

Ultra Trail do Marão - O sonho começou de noite


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Porquê os 3 dígitos
 
Quando começamos a correr todos temos objectivos e sonhos. Há quem queira perder peso e ganhar qualidade de vida, quebrar a rotina e combater o stress ou apenas fazer desporto para manter a forma. Depois sonhamos em distâncias sempre superiores ao que estamos habituados a correr. Uns querem correr 10 km, outros 1/2 maratonas ou maratonas.
Quando comecei a correr tinha um sonho, mais simples ainda que todos estes: Correr de dia. Depois de atingido este objectivo, o de poder correr normalmente (não que estivesse proibido, mas persistia a incomodidade de, enquanto obeso, atrever-me a misturar-me no meio dos atletas; admiro os que o fazem), surgiram as provas. Primeiro de 6, 14 e 21 quilómetros.
Mais tarde, depois das maratonas e das ultras, começou a desenhar-se um novo desejo, uma prova de 3 dígitos.
Ponderadas várias hipóteses, surgiu o convite do Bruno para fazer vassoura de um dos três turnos previstos dos 121 km da Ultra do Marão. Aceitei com a condição de fazer o primeiro e assim poder prosseguir em prova, para tentar concluir a minha primeira acima dos 100 km.
Ali estava eu, depois de todas as formalidades cumpridas, alinhado com mais 74 atletas, na partida daquela que seria a minha estreia e do Marão nas ultras de trail, dada junto à belíssima Igreja de S. Gonçalo de Amarante, na margem direita do Tâmega. A chegada seria na outra margem. Muito público a assistir, uma envolvente humana fantástica, com a participação rara dos amarantinos, que aderiram em força e apoiaram todos os que partiram, depois de uma novel cerimónia de benção da
prova pelo Padre local. A mole humana duraria toda a prova, e por todo o percurso.
 
A Prova
 
Sem querer ser muito descritivo - não gosto de ler descrições de provas, nem gosto muito de as fazer - posso apenas dizer-vos que o Marão e serras cercanas, têm das paisagens mais espetaculares para trail, dos trilhos mais bonitos e das subidas mais dolorosas que conheci até hoje. Corri em paisagens de um verde imenso, pontes de madeira suspensas em árvores, densas florestas de castanheiros, levadas intermináveis que serpenteavam aldeias a despertar da bruma da madrugada, na primeira noite, rios selvagens que ladeiam as imponentes encostas do Marão já durante o dia e onde repetidas vezes me refresquei. As suas gentes são do mais hospitaleiro que existe, como comprovam as opiniões sobre os voluntários locais, do mais extremoso e simpático que vi em provas, bem como da população em geral, que nos apoiou à partida, à chegada e por onde íamos passando. O percurso delineado mostra que houve algum exagero após os 50 km, tendo o restante sido bem escolhido; aqui e ali, eventualmente devido ao forte vento de véspera, deficientemente marcado, mas em geral bonito e agradável. Não havia era necessidade de “castigar” os atletas da ultra com descidas em escombreiras de pedra solta, com pendentes superiores aos 30%. Na véspera, ao jantar, encontrei o Luís Duarte, que se classificou brilhantemente em 2º lugar, que me dizia não ser possível descer ali a mais de 3 km/h. Devo ter descido aquilo, enquanto chamava todos os nomes do vernáculo ao Bruno Silva, a 0,3 km/h. E de noite.
Quanto ao resto não me pronuncio, fiquei ali quando o meu GPS marcava 93 km, quase 7.000 mt de desnível positivo acumulado e mais de 21 h de prova. Na informação do PAC constava “Sedielos, km 74”. Ainda ponderamos, eu e o António Morais prosseguir em prova, mas um bombeiro alertou-nos para o que ainda vinha, e que o primeiro classificado tinha concluído em 8h, de dia. Os relatos que nos chegavam da meta eram de 54 km de percurso, que somados aos já feitos, iam dar nuns mais de 145 (!). Não sei hoje se os teria terminado. Sei que no dia seguinte estava quase pronto para mais 90 km com a mesma intensidade.
Dos 74 atletas que partiram, apenas 16 concluíram a prova, o que demonstra que muita coisa não correu bem. Na minha opinião, esta Ultra do Marão merece uma segunda oportunidade, assim os organizadores a saibam conquistar. Há muito para melhorar e algumas coisas não se devem estragar. Amarante merece uma prova destas, o Marão também (e vai ter outras) e Portugal tem tudo a ganhar com a inclusão desta serra no panorama do trail internacional. A par da Estrela, Gerês e da Madeira, têm condições únicas para a prática desta apaixonante modalidade.
 
O Futuro
 
A Associação de Trail Running de Portugal tem de ter um staff de certificação de provas. Tem de acabar em Portugal o hábito de se certificarem provas no “papel”. Não se podem anunciar 121 km e saírem mais de 140. Este foi o principal pecado desta prova, e consequentemente o desfasamento entre o esperado pelos atletas quanto a abastecimentos e o que acontecia na realidade. Não podem haver provas cujo percurso (incluindo tempos limite) não tenham sido aferidos por alguém com experiência comprovada, e cujos km tenham sido aferidos por um comum GPS. O Google Earth falha demasiado.
A segurança destas provas tem que ser pensada para o último dos atletas, para o mais baixo e para o mais lento, sem exageros, claro. Mas não se podem fazer saídas por zonas perigosas apenas para não repetir trajetos. Podíamos ter ido a todos os locais onde fomos no Marão, fazendo como fazem os organizadores do Ehunmilak no Txindoki: Se só há um acesso, faz-se um controlo no alto. Não há que inventar.
Os controlos falharam, houve atletas barrados no km 95 da prova (20 km depois do lugar onde eu estava), que eu tinha passado 20 km antes, no alegado abastecimento dos 60, na Sra da Serra. Como? Fácil. Não desceram à Ermida e foram em frente pelo estradão até Mafómodes. Não deve acontecer.
Tudo isto deve ser aconselhado por um staff especializado da ATRP, que os deve recrutar e formar, para haver um critério uniforme.
Como consideração final, uma palavra de apreço ao Bruno Silva e restante organização do Marão Ultra Trail: Vocês sabem que fui um dos que mais desejou que esta prova se realizasse. Sei que tudo fizeram para que desse certo. Não tomem por perdido o tempo que gastaram a erguer a prova, melhorem o que há a melhorar e peçam ajuda. Onde mais cabeças pensam sai menos asneira. Preservem essa determinação de quererem fazer melhor, mas esqueçam a ideia de fazer mais duro. O Marão e suas cercanias têm dureza suficiente. Mando por vós um especial agradecimento às gentes de Amarante, que tão bem nos receberam, e a toda a equipa de voluntários, foram sem dúvida excepcionais.
Por fim, um especial agradecimento ao Miguel Santos, cuja colaboração foi fundamental para que eu tivesse a oportunidade de continuar o sonho de dia; ao João Marinho, que se fartou de pedalar monte fora para apoiar todos, do primeiro aos últimos; à Susana, pelo fundamental apoio e constante motivação; ao Meixedo, que mesmo de longe não deixou de incentivar, e a todos, todos sem excepção com que me fui cruzando nos trilhos do Marão. Todos os que começaram este desafio foram bravos. O facto de apenas 16 terem concluído a prova demonstra-o na perfeição.
 
O que fica…
 
Emocionei-me algumas vezes ao olhar a beleza daquela serra. Não só pelas deslumbrantes paisagens, mas principalmente porque comecei a escrever esta crónica um dia antes da prova, começando pelo título, e lembrei-me em cada metro que subia naquelas encostas, de um Rui com excesso de peso, vestido de negro dos pés à cabeça, a sair de casa às 10 da noite para ir correr 3, 4 km, os que conseguisse. Lembrei-me dos mais de 50 kg que já ficaram pelo caminho, pelos milhares de km que entretanto percorri e me trouxeram até ali, ao sonho de ir sempre um pouco mais longe. Lembrei-me muitas vezes do Rui que os outros viam, porque, como alguém me disse hoje, “o Rui já lá estava, só que escondido”.
O meu sonho começou de noite, mas já viu o dia. Que o Ultra Trail do Marão saia também do breu onde se meteu. A prova merece.

sexta-feira, abril 25, 2014

Liberdade

 

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Foi há 40 anos.
Era miúdo, sou um dos da geração chamada de “Abril”, mesmo tendo nascido dois anos antes, em Outubro. Somos da geração “baby boom” à portuguesa. Portugal, apesar de direccionar grandes recursos para a guerra colonial, estava em franco crescimento económico desde a recente criação do EEE, espaço livre económico que precedeu a UE, e que juntara em 1973 os membros da EFTA aos da CEE. A década de 60, com a indústria a impor-se ao sector primário, caracterizou-se pela deslocalização das populações para as grandes cidades do litoral, concentrando-se quase 1/3 nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Apesar de todas as excelentes condições para o crescimento económico, o regime insistia num modelo caduco, que não deixava que o País crescesse ainda mais, e que nos levou a uma revolução com muitos méritos, mas cujo PREC levou à quase total destruição de um tecido industrial que nunca mais se revigorou. O crescimento económico não impediu contudo, a emigração, que atingiu o seu máximo nas décadas de 60 e 70, nem impediu que o analfabetismo mantivesse taxas acima dos 25%, ou que o regime mantivesse um controlo quase total da imprensa, nem que Portugal figurasse entre os poucos que mantinham colónias ultramarinas. Éramos um País retrógrado e amarrado.

Em 1974, com a revolução dos cravos e consequente queda da ditadura, o “pássaro fugiu da gaiola”. Ora, um pássaro que passa anos enfiado numa gaiola, quando libertado, raramente consegue voar muito e em perfeitas condições. Vejam os inúmeros animais criados em cativeiro que, quando soltos no seu meio natural, em liberdade, não conseguem sobreviver aos desafios que a luta pela sobrevivência impõe. O País, como um pássaro trôpego, andou a cambalear até estabilizar a meio da década de 80. 

A liberdade é um processo de aprendizagem. Todos nós fizemos imensas asneiras nos primeiros passos que demos em liberdade, enquanto adolescentes, quando os nossos pais acharam que nos podiam soltar um pouco as rédeas que nos mantinham junto a eles. Todos nós fomos aprendendo a sobreviver neste mundo, nesta sociedade que nos coloca permanentemente em desafio, que nos amarra permanentemente a um estigma social que nos tolhe a aparente liberdade.

40 anos são mais que suficientes para amadurecer. Já podemos em liberdade escolher caminhos, escolher destinos e escolher os nossos erros.
É isto que significa a liberdade: A capacidade de podermos escolher livremente o nosso destino, reconhecermos nós próprios as nossas fraquezas, sem estereótipos, e podermos liderar o nosso caminho rumo à felicidade.

Soltemo-nos de gaiolas e amarras.

Vivamos a liberdade!

Oração do corredor

 

Endorfinas nossas que estais no cérebro
Fazendo-nos sorrir depois de cada empeno
Duplicais a vontade de correr
Esteja o céu azul ou carregado de negro

Força para a corrida de cada dia nos dai hoje
Perdoai-nos as nossas preguiças
Assim como nós perdoamos a quem nos ultrapassa

Dá-nos forças correr nos trilhos ou na estrada, mas livrai-nos de lesões.

 

Amen

quinta-feira, abril 17, 2014

Grupo que não está a $oldo

Existem vários grupos no Facebook. O fenómeno das redes sociais é exponencial e um excelente meio de divulgação de produtos, eventos, trocas de ideias, textos (eu próprio me farto de o usar para divulgar as coisas que aqui vou escrevendo) e muitas mais coisas que se vão lembrando de partilhar com amigos e seguidores desta enorme comunidade de internautas, que já não dispensam a consulta mais ou menos regular, para acompanhar as tendências e acontecimentos mediáticos.

Criei há algum tempo um Grupo (Trail Running Tuga), no sentido de partilharmos, os que o praticamos e os que o querem praticar, algumas ideias de treinos, especifidades técnicas, treinos conjuntos, produtos aliciantes (como prova a compra por parte do Mauro Gonçalves, sem qualquer vantagem pessoal de umas dezenas de GPS a preço mais competitivo, pela quantidade negociada) e divulgação de provas.

Inevitavelmente, e com o crescimento do desporto, começaram a haver partilhas de páginas de lojas on-line, de espaços físicos de venda de produtos, sem prejuízo dos habituais posts de divulgação de saldos em lojas da especialidade sempre que descobertos por algum membro mais atento e com sentido altruísta de partilha de informação que todos apreciamos. É para isto que este grupo existe, e foi para isto que ele foi criado.

Há algumas semanas apareceu uma publicação de um membro, com um anunciado excelente negócio, promovido pelo próprio, de frontais a um preço irrisório quando confrontado com as centenas de “lumens” anunciados e durabilidade do produto. Entretanto foi contestado por outro membro, o Luis Leite, “velho” conhecido dos trilhos, que, atentamente criticou o oportunismo e divulgou um site (http://www.dx.com/pt/p/zooming-cree-q5-200lm-2-mode-1-led-white-light-headlamp-3-x-aaa-3-6-4-5v-117193, aproveitem) onde os ditos frontais são vendidos a menos de metade do preço pedido pelo utilizador que utilizou o grupo como “banca de venda”, portes incluídos, e atestados em prova pelo próprio. Também eu lhe ia, repito, ia(!), (já não vou) comprar o dito frontal, mas como me sinto usado e enganado (o espírito do grupo está descrito e não serve para oportunistas), já contactei o dito atleta e declinei a oferta. Tudo isto porque o membro do grupo, confrontado com as questões do Luis, decidiu ignorar e abancar o post com comentários típicos dos grupos que servem (esses sim) para a venda de produtos. Vou eliminar o post, se o utilizador insistir na sua publicação será banido, como todos os que já tentaram vender óculos, barracas, créditos, bugigangas ou outros produtos que não respeitem o espírito altruísta do grupo.

Este grupo não foi criado com objectivos comerciais. Serve apenas e só para partilhas que possam valorizar o conhecimento de todos, serve para partilhar experiência, serve para servir.

terça-feira, abril 08, 2014

Juízos e liberdades

O Juízo da Perturbação

Se estás aflito por alguma coisa externa, não é ela que te perturba, mas o juízo que dela fazes. E está em teu poder dissipar esse juízo. Mas se a dor provém da tua disposição interior, quem te impede de a corrigir? E se sofres particularmente por não estares a fazer algo que te parece certo, por que não ages, em vez de te lamentares? Um obstáculo insuperável te o impede? Não te aflijas, então, pois a causa de não o estares a fazer não depende de ti. Não vale a pena viver se não o puderes fazer? Parte, então, desta vida satisfeito, como partirias se tivesses logrado êxito no que pretendias fazer, mas sem cólera contra o que se te opôs.

Marco Aurélio (Imperador Romano)

Se já era assim no tempo de Marco Aurélio, assim continua nos nossos dias. Andamos preocupados com o que a sociedade pensa de nós, ajuizando permanentemente o que ela sentenciará de cada passo, cada atitude, cada vontade demonstrada em fazermos o que quer que seja, abdicando de viver o que desejamos. Perturbamo-nos depois por não fazermos o que queremos ou queríamos fazer, abdicando do livre arbítrio que todos temos e de que quase todos abdicámos. Os loucos, esses, ficam com o bom da vida, a despreocupação. A consciência, essa guilhotina que vem acoplada ao ser humano e que os nossos educadores tanto trabalham, leva-nos os sonhos como as enxurradas levam a água. Felizmente, depois de toda a intempérie surge nova vida, e muitas vezes, onde havia flores, voltam a nascer flores.
Temos que fazer uma permanente avaliação de tudo o que se passa nas nossas vidas? Não obrigatoriamente. Mas devemos seguramente avaliar se estamos a ser capazes de fazer tudo aquilo que nós, e apenas nós, esperamos da nossa vida. Egoísmo? Não me parece.
Devemos procurar as nossas meias laranjas, os testos das nossas panelas, os legos que encaixam nas nossas peças, porque é isso seguramente que todos os outros fazem.
Afinal, procurar o que é melhor para nós, apesar de um acto individualista, faz-nos ser, em primeiro lugar, leais para com nós próprios, não abdicando dos nossos projectos, e isso, quer queiramos ou não, é o que faz com que os outros possam encaixar nas nossas vidas. Se não encaixam é porque as peças não são compatíveis.
Vamos ser felizes e deixarmo-nos de merdas? Vamos lá!

sexta-feira, abril 04, 2014

Atestado de virgindade

Cruzei-me com este texto há alguns dias. 
É um certificado requisitado durante séculos e que, como os certificados de bons costumes exigidos para cargos públicos, passados pelos párocos a troco de umas moedas, ou pelo chefe da polícia a troco de uns copos de três, eram exigidos às mulheres antes de casarem, e normalmente atestados por parteiras experimentadas. 
É digno de ser lido. 
Perdoem o vernáculo, mas a senhora não tinha formação académica.

Atestado de Birgindade

 

Eu, Bárbara Emília, parteira que sou de Coyra, atesto e certufico pela minha onra que Maria de Jesus tem as partes fodengas talinqual como veyo ao mundo insceto umas pequenas noidas negras junto ao alto do monte da crica que a não seren de nacenssa sarão porvenientes de marradas de piça.

Por ser verdade pasei o prezente atestado de virgindade.

Bárbara Emília das Dores

sexta-feira, março 28, 2014

Transpiração, superação e inspiração

Faz amanhã precisamente 20 dias que cheguei, pela segunda vez em menos de um ano, a Santiago de Compostela depois de 5 dias de corrida. Foi o meu segundo “Caminho”.

Este introito serve apenas para justificar a vontade que me tem dado de correr. Muito. Tenho feito quilómetros e quilómetros a correr a ritmo de Santiago, com mais vontade de desfrutar do prazer da corrida do que propriamente treinar. Ontem repeti o treino de anteontem, que imitarei hoje. 22 km essencialmente pelas marginais de Gaia e Porto, depois de uma incursão ao Parque da Cidade. Durante o percurso, sozinho, pensava na grande mudança que um bom hábito pode trazer às nossas vidas. Não vou especificar pormenores que todos conhecemos, da melhoria da saúde à inevitável euforia da evolução, superação e permanente desafio, vou-me cingir ao quanto mudei nos últimos anos. A corrida molda-nos. Não vivemos a correr, passamos a ser corredores na vida. Deixámos paixões que não compreendam esta nossa paixão, a que chamam obsessão, descobrimos ligações a, até aí, perfeitos estranhos, descobrimos pontos em comum com uma série de gente que partilha do gosto de liberdade, crescemos enquanto seres humanos e transformamo-nos enquanto membros de uma sociedade que não nos compreende até provar do mesmo prazer.

Dizem-me que a corrida me mudou. Sei que já não sou o mesmo que era há 6 anos. Mas gosto desta mudança permanente, incompreensivelmente atraente, para quem, como a maioria de nós nos dias de hoje, tanto apreciava a estabilidade. Aprendi a ser inconformado, a lutar por sonhos, por objectivos, nunca desistir de sonhar e usar o sonho como motor da busca do que nos traz felicidade.

Há 20 dias, os que à saída do Porto enfrentavam um Caminho que tempos antes julgavam impossível, sabem agora que podem continuar a sonhar. É isto que tanto gosto de transmitir a quem começa a correr, ou a quem quer evoluir na corrida enquanto meio de prazer, de transformação.

Não é apenas a corrida que nos molda, somos nós que encontramos na corrida o verdadeiro banco de ensaios para o que, até um ponto da nossa vida julgamos impossível. Por isso sorrimos quando devíamos conscientemente praguejar, enquanto o nosso subconsciente nos transmite a satisfação da vitória, a satisfação de sabermos que é mais uma vitória em cima da vitória que é começar.

E é este o resultado de toda a nossa transformação: De repente voltamos a ser imortais, tudo é possível; o céu, esse imenso infinito, é o limite. 

segunda-feira, março 24, 2014

Correr, desporto ou paixão?

Azáfama, rotina, trânsito, emprego, contas, compras... Tudo contribui para irritar o dia-a-dia de quem quer que seja. 
Agora, experimentem apaixonar-se. Pela corrida, pelos filhos, pela família, pela vida, por alguém...
A paixão satisfaz pela intensidade, pelo desfruto completo, por se beber tudo sem deixar pingar gota, na paixão tudo se sorve sofregamente. 
Acontece-nos isto com tudo. Apaixonamo-nos e tudo corre melhor. O trânsito flui, as contas pagam-se, a vida flui, enfrentam-se as dificuldades com um sorriso nos lábios. Até os lugares para estacionar aparecem. Não é sorte, é o cosmos que se alinha para nos agradar. 
Apaixonem-se. Vivam apaixonadamente. Corram com paixão, descomprometidos, apenas virados para o prazer. Num fim de um momento de paixão, tudo flui. Os astros alinham-se, ou aninham-se perante a força que daí surge. 
Digam lá, não vos acontece o mesmo? Sempre que acabam um daqueles treinos intensos mas recompensadores de endorfinas, não corre tudo melhor? O trânsito deixa de chatear, cedemos lugar na fila, temos paciência para tudo e mais alguma coisa... Até o lugar para estacionar naquela rua difícil aparece. 
É a paixão. Viver sem paixão é horrível. Apaixonem-se! 

quinta-feira, março 20, 2014

A vida continua

Apesar de às vezes não parecer, apesar de, de quando em vez, o universo parecer parar, apesar de termos projectos, vidas em comum, ideias, compromissos, há que saber quebrar elos das cadeias que nos ligam. Muitas vezes quebram-se os elos, saímos e voltámos a fechar, mantendo quem lá quis ou teve que ficar.

Podemos até saltar, fechar ciclos, terminar projectos, começar outros e ir abrindo portas e fechando janelas pelo labirinto em que transformamos as nossas vidas, mas a vida há-de sempre continuar e persistir. E todos os elos que fechámos e mais tarde acabámos por quebrar, não hão-de deixar de ter a marca de abrir e fechar. Vamos soldando e solidificando relações nesta cadeia chamada vida e que no final será um enrodelado novelo de cadeias com elos cortados e que pesarão sobre nós enquanto vida que fomos vivendo e alterando como um desenho animado. No final restarão as experiências e as relações que fomos capazes de alimentar, fazer crescer e romper.

Tudo na vida tem um fim. Nas nossas vidas seguramente. Mas a vida continua. 

sábado, março 15, 2014

Caminho de Santiago 2014 - Crónica final

 

O que sobra do sonho ou da loucura, e o que vivemos nos 5 dias do Caminho?

 
Há um ano, quando me falaram em correr em 5 dias consecutivos 5 ultra maratonas, imaginei-me a arrastar-me algures entre Barcelos e Ponte de Lima, com o desespero de saber que ainda estaria em Portugal, a meio caminho de Santiago, e com 4 pessoas que corriam muito, à minha espera, arrependidos de me terem levado. Nada disto aconteceu. O que aconteceu foi a fantástica revelação no Caminho de que eu seria capaz.
Este Caminho, com este grupo, começou há poucos meses quando lançámos o desafio de repetir a façanha, agora enquanto guias e com apoio logístico, a quem quisesse desafiar os seus limites e testar a capacidade de superar medos, limites físicos e mentais que todos julgamos conhecer em nós próprios, mas cujo limite ignoramos até o testarmos. Foi isso que eu vi neste Caminho, superação. E introspecção, como mostra a foto abaixo.

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Primeiro dia

O grupo formou-se aleatoriamente. Dos 8 que aceitaram o desafio, só a Paula e a Patrícia se conheciam, todos os outros eram perfeitos desconhecidos, excepto para nós, organização. E é aqui que começa o encanto do Caminho.
No primeiro dia, depois das despedidas na Sé e da imensa estrada, chegados a Barcelos, depois de 55 km a correr, todos tinham a sensação que eram capazes de dobrar o Mundo, depois de passarem pelo muro que julgavam conhecer. Dos 8, apenas o Mário Leal e o Renato tinham alguma vez feito tantos quilómetros, e só a Susana tinha feito mais que os 64 com que acabámos o dia. E foi fantástico percebermos que, os até aí 8 desconhecidos, em grupo, foram sem se deterem desafiar os medos e partir, quase no breu, rumo a Tamel, como se o corpo se fosse aperceber que já tinham mais que a conta e colapsasse. Não colapsou nenhum corpo, mas as mentes abanaram. Já mergulhados na noite, experimentámos pela primeira vez aquilo que viria a ser uma constante, a divisão do grupo, onde uns aceleravam, outros se atrasavam, e nós, os que devíamos e queríamos todos acompanhar, aprendíamos logo ali como gerir todos os sentimentos e vontades. Uma aprendizagem, este primeiro dia. Para todos. Para todos menos para a Naná, que se não é, parece incansável. E eu diria perfeita guardiã, como puderam todos constatar e testemunhar logo no primeiro dia.
 
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Segundo Dia
 
O segundo dia roçou a perfeição. Todos acordaram com disposição de continuar, sem grandes maleitas, e com o Minho brindado com um excelente dia primaveril. A decisão da véspera reservou-nos para este segundo dia um belo carrossel por entre campos verdejantes, aldeias milenares, a mais antiga Vila de Portugal e a bela Serra da Labruja. Já adaptados aos diferentes ritmos, ninguém reclamou andamentos rápidos ou lentos, ninguém se inibiu de parar para um ou outro mergulho, houve pares que se adiantaram, outros que atrasaram, houve até a oportunidade do Mário se perder na Labruja, correr desalmadamente e fazer mais 5 quilómetros serra acima, serra abaixo. Foi dia de cada um sentir o seu Caminho. Uns celebravam 100 km em 2 dias, outros o desejo de encontrar um qualquer "Eu", exterior ou interior, enervando-se com a possibilidade de estar ali ao lado da seta amarela. Todos sentimos o Caminho em grupo, mas todos o sentimos de forma diferente. O Caminho tomado foi aparentemente o mesmo, mas só seguimos as mesmas setas. Cá dentro, de onde tirámos motivação para o fazer, seguimos caminhos mais ou menos tortuosos, mais ou menos floridos, carregados de gerberas ou de rosas com espinhos, mas todos seguimos em busca do altar espiritual. O do corpo já todos o tinham. O meu um ano antes, o dos 8 na véspera, o dos outros guias também já tinha sido descoberto, sentiam agora as dores do grupo como deles, e viam o altar em Santiago, mas o Calvário ia continuar.
 
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Terceiro dia
 
Um dia de dúvidas, de incertezas quanto à capacidade de todos chegarem ao destino, o da dita revelação, onde todos se chatearam com o Caminho, naquele que foi o primeiro "arrufo" numa relação que até aí só tinha melhorado. Não que o Caminho tenha mudado muito, só porque havia mais lama, mais civilização e os seus agressores, os carros e o progresso, o empedrado que massacrava os pés, depois de um spa de mais de 40 km da véspera, onde os pisos em terra e os cursos de água imperaram e amenizaram as dores da carga física. Depois de entrarmos em Espanha, mais estrada, mais km, uma longa etapa matinal que nos fez recalibrar as restantes e adaptar os encontros com a Naná, que tão bem repousa os mais cansados e os menos crentes.
Mas não deixou de ser dia de surpresas agradáveis. Do bom senso de alguns, à entrada do Miguel no grupo e animação correspondente, do crescer da paixão com o Caminho, do encontro de todos com o muro dos 5 dias, físico e psicológico. Foi um dia que custou a passar, mas não tanto como os 5 ou 6 km da reta da zona industrial que antecede Porriño, e que tem agora uma agradável alternativa, abrigada por um arvoredo denso e a calma do campo.
À noite, já depois de instalados, o jantar, os brindes, as trocas de olhares aliviados, as brincadeiras, os sentidos já adaptados às queixas do corpo, mas a alma mais perto de encontrar o que todos buscaram no Caminho. Foi um dia parecido com aqueles bolos que demoramos muito tempo a fazer, queimamos a base, mas a cobertura sai excelente. Não foi a cereja no topo do bolo, mas foi seguramente uma massagem num ego que já estava em défice.
 
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Quarto dia
 
Com tantos quilómetros já perCorridos, o cansaço acumulado, e em mais um dia de sol e calor, o Caminho nas zonas mais rurais estava despido de peregrinos. Não me recordo de nos cruzarmos com algum nos trilhos entre Redondela e Pontevedra, onde há quase um ano se multiplicavam os “bicigrinos”, desta vez reservaram-os só para nós. Os sons da natureza, um rio que corre, um corvejar de um corvo em busca de parceira. Os percursos por entre a natureza só foram interrompidos pela passagem em Pontevedra, onde o Mário nos obrigou a dar a volta para apanharmos uma Escola de Samba que, ao som de rufos de tambores, dançava e nos pôs a dançar animadamente. De novo mergulhados nos campos e acompanhados pela beleza daquelas bandas, voltávamos à habitual dança entre o trilho e as águas das imensas fontes, ribeiros, quedas de água, onde inevitavelmente a Susana mergulhava. A certa altura, temendo maiores atrasos, a Patrícia pedia-lhe que evitasse olhar para a água. Impossível foi evitar um magnífico cenário que rodeava um antigo Mosteiro com uma estátua de um clérigo na entrada, sentado num banco à imagem de Pessoa. Inevitável foto e seguir caminho. 100 mt à frente, o João Casal e a Patrícia comiam kiwis. O Caminho dá imenso. Claro está que fomos os últimos a chegar ao local de almoço onde nos esperava a Naná; mas como dizia num quadro de um café próximo do local onde almoçamos, “a tartaruga conhece melhor o caminho que a lebre”.
À tarde, comemorámos os 200 km de Caminho, já muito perto de Caldas de Reys, onde pernoitámos a sonhar com Santiago, ali tão perto.
 
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Quinto e último dia

Finalmente Santiago. O último dia, mais uma vez cheio de serpenteados belíssimos entre campos verdejantes e aldeias que respiram Caminho e acarinham os peregrinos, foi de alegria e ansiedade. Fomos fazendo os quilómetros até Padron com espanto pela beleza do Caminho e do estado dos corpos dos corregrinos, ajudados por uma temperatura mais baixa e com uma leve cortina de nuvens, que não escondendo completamente o sol, atenuava a sua força. Um corregrino tinha dado baixa, (teremos de voltar a Caldas de Reys e fazer com ele o que resta até à Praça do Obradoiro), e um ou outro que já "rangia" com o excesso de carga, mas que no geral continuavam a responder às cabeças que os balanceavam na direcção de Santiago de Compostela.
A chegada à Catedral, em grupo, foi o culminar de sonhos, vontades e muita superação.
Ainda estou a ver a emoção de uns, o espanto de outros por terem conseguido, a certeza de outros que sabem que ali não era o final, mas o início de outro Caminho, e o sentimento geral de satisfação pelas conquistas de todos. Foi, enquanto grupo um Caminho de sucesso.
Quanto aos "Eus" interiores, não sei se alguém encontrou respostas para algumas questões que trazia. Venham os nossos caminhos, as nossas vidas, que apesar de parecerem inacabáveis, ou mesmo perfeitas, são como o Caminho de Santiago, sinuosas, às vezes penosas, mas seguramente transitáveis.
E agora? Agora sei que tenho setas para seguir. Como o Mário na Labruja, por muitas setas que perca, por muitas voltas que dê, pese o cansaço dos km acumulados, hei-de encontrar o Caminho que me leve. Assim tenha sabedoria e coragem para os seguir.
 
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Agradecimentos
Carlos Natividade, Mestre inspirador, com a incansável Naná a seu par, são um exemplo de harmonia. Há pouco tempo alguém me dizia que acredita nos amores verdadeiros. Está aqui, à vista de todos. No Caminho, o Carlos sempre a liderar, e a Naná a apoiar-nos a todos, sempre com um mimo para dispensar.
João Meixedo e Miguel Santos, o primeiro a liderar ou a fechar o grupo, sempre atento às necessidades de todos. O Miguel, no terceiro e quarto dias, a apoiar e animar todos, quando a cabeça tinha de comandar o corpo.
Paula Quintela, enorme Senhora, de uma simpatia e cordialidade extrema, que nunca tinha corrido tantos km. Mostrou a todos do que é capaz e deu-nos o privilégio de testemunharmos o prazer que retira da corrida. É uma excelente atleta, mas é mais uma feliz corredora.
Rui Martins, que tenazmente transformou todas as probabilidades em pó e se levou a Santiago. Apesar de nunca ter corrido mais que 1/2 maratona, com a ajuda de todos conseguiu o inimaginável.
Ângela Lopez, psicóloga do grupo, sempre a incentivar, que logo deu mostras que nenhuma contrariedade a demoveria de fazer todo o Caminho. Com bolhas arreliadoras nos pés desde o primeiro dia, poucos a viram a queixar-se. Dobrou o Caminho como quem dobra ferro com os braços, com garra e resiliência. Também uma estreante em distâncias superiores a 21 km.
Renato Cardoso, companheiro de muitos km, paciente e com um espírito fantástico de partilha. Experimentado explorador de outras montanhas, tri-atleta e ultra-maratonista, abraçou o grupo desde o primeiro dia e pacientemente usufruiu do Caminho.
Patrícia Pereira, a nossa incansável enfermeira, que cuidou de si e de todos, não deixando ninguém sem apoio médico, fosse tratamento de bolhas ou torcicolos. Inexperiente na corrida, confiou na amiga Paula e depois no grupo, e foi cilindrando etapas e batendo recordes de distância. Uma maratona para esta "dura" será como comer regueifa.
Mário Leal, a quem prometi voltar a Caldas de Reys para a última etapa, maratonista, corredor de trail, açoriano que nos trouxe a calma de quem vive a um ritmo mais lento. Não o sendo na corrida, nunca demonstrou vontade de chegar muito rápido ao destino, usufruindo sim de tudo o que o Caminho proporciona, como os mergulhos nos tanques e ribeiros e os km a mais na Labruja.
João Casal, altruísta maratonista, que se prepara para dar a volta a Portugal com objectivos meramente solidários, e que no Caminho encontrou seguramente um ritmo adequado às 53 etapas de 50 km do próximo verão. Para baixar o ritmo de corrida e poder acompanhar e motivar os mais lentos, fez o Caminho em direcção a Santiago, e seguramente 1/3 mais do Caminho de regresso, tantos foram os vai-vem.
E por fim, Susana Brás Santos. Não é bonito deixar para o fim uma menina, mas ficou para personificar o agradecimento pela confiança que depositou em nós, equipa Desafios. A Susana aceitou o desafio sem se preparar para tal. Apesar de ser uma ultra-maratonista com provas dadas, nunca tinha corrido tantos dias seguidos. Pôs-se ao Caminho e deu-nos o prazer da sua excelente companhia. Os dias não seriam os mesmos sem as suas vibrantes gargalhadas e resplandecente sorriso, que todos cativa. Ora desata a correr por "onduladinhos", como chama aos trilhos em sobe e desce (eu chamo parte-pernas, ela diverte-se), ora mergulha em tudo o que é reservatório ou curso de água. Bem disposta, animada e cheia de bom humor, uma agradável companhia.
Obrigado a todos por estes fantásticos 5 dias, onde tive de tudo, menos cansaço.
Os Caminhos de Santiago são assim, únicos, mesmo quando revisitados.

 

segunda-feira, março 10, 2014

5º Dia do Caminho - Celebração

Ao chegar à Praça do Obradoiro, em frente à Catedral de Santiago de Compostela, depois de contados os quilómetros desde a "Milladoiro", que parecem ter mais que os 5 anunciados, todos se emocionaram. Não tanto pelo momento do fim deste Caminho, que como disse há um ano (e mantenho), ali chegados sabemos que não é o fim, mas pela sensação de fim que nos abraça. Pelo sentimento de término de algo que, dos 8 estreantes, apenas 1 ou 2 tinham a certeza de conseguir concretizar. Eu sabia que todos (salvo qualquer lesão) o conseguiriam. Sabia porque não admitiria outro fim. 


Hoje descobri o fim do Caminho. 
Descobri que há um fim quando temos dúvidas. Descobri que há um fim em tudo. Descobri que a miséria tem fim, que a dúvida tem fim, que a alegria tem fim, que a solidão tem fim... Tudo, mas tudo tem um fim. Faz sentido que este Caminho tenha fim. 
Quando há alguns meses lançamos o desafio de ir a correr do Porto a Santiago, depois de sabermos os integrantes do grupo, sabia que o nosso objectivo seria o de cada um deles. 
O Rui Martins nunca tinha corrido mais que 1/2 maratona. O Mário desejava fazer o Caminho, é maratonista, mas não havia corrido tanto, muito menos em dias consecutivos. O Renato, recente Iron Man, desconfiava da capacidade do corpo em aguentar dias consecutivos de esforço. A Paula. A Paula, que tanto gosta de correr, que é de uma alegria contagiante, nunca tinha retirado o verdadeiro prazer da corrida sem competição, com ela ou adversárias, até há pouco mais de um mês fazer um treino de 6h de trail connosco. Nem imaginava ser possível correr até Santiago. Mas acreditou. 
E a Ângela? Que dizer de uma pessoa que já andou a correr pelo Sahara (1/2 maratona, é certo) e que, quase sem saber o que era uma prova de estrada, se dispõe a desafiar-se e enfrentar tal desiderato?  
A Patrícia, que pouco corre, tinha a mesma ideia de tentar o impossível. Apesar de pouco treinar, lá se aplicou a mudar hábitos para poder encarar os dias seguidos a correr. 
O João Casal, que no próximo Verão vai dar a volta a Portugal em 53 etapas de 50 km por causas solidárias, veio para o Caminho para aprender, dizia, "a correr devagar". 
E o por fim a Susana. A Susana, ultra maratonista, depois de 3 ultras nos primeiros 2 meses do ano, a última das quais uma semana antes do Caminho, quando confrontada com a vaga disponibilizada por uma lesão de um dos atletas inscritos, perguntou-me: "Achas-me capaz?", "Claro que sim", afirmei, "se há alguém que é capaz de, sem prever, concluir tal desafio sem estar a contar sequer fazê-lo, és tu". 
Estes 8 bravos começaram este Caminho, quando depositaram na nossa equipa a confiança de tudo assegurarmos para que fossem capazes de o concluir, a começar por sermos os primeiros a acreditar que o fariam com sucesso. 
Hoje foi o dia em que acabaram este Caminho e em que nós concretizamos o seu fim.
A partir de hoje, todos eles têm a certeza que conseguem superar os seus próprios medos e limites, que se podem aventurar em Maratonas ou Ultra maratonas, 100 km ou 100 Milhas, que podem dar passos maiores dos que os que julgavam capazes, de abrandar ou acelerar, de se superarem sempre. 
Hoje descobri um fim no caminho. 
Talvez um dia descubra o meu "Eu interior", que de tão procurado mais parece o Santo Graal. Talvez descubra mais coisas no Caminho, como tantas outras que já descobri. 
Uma certeza tenho, que o Caminho nos faz melhores, mais fortes, torna-nos infinitos, dando-nos a sensação que temos ali um refúgio de encontro com tudo aquilo que julgamos não ter. 
Há um ano atrás quando terminei o Caminho, tive a certeza que voltaria. Tenho a certeza que todos os que lá estávamos hoje pensaram o mesmo. 
Ainda não foi desta vez que vi alguém triste ou resignado no "Caminho". Não me parece que vá ver nunca. É impossível. O Caminho é um encontro com a felicidade. 
Amanhã escrevo a crónica final, a quatro mãos, como prometido. Acho que hoje é importante realçar a celebração da alegria de, 250 km depois,  ao fim de 5 dias, celebramos em grupo a chegada a Santiago. 
Todos chegaram a este fim. Mas atribuam-lhe outro fim que não o final. 
Ultreya!  

sábado, março 08, 2014

4º Dia do Caminho - Desfrutar

Hoje foi o dia da tartaruga. 


Este ano temos mais uma escritora no grupo. Roubei-lhe esta foto da rede sociopata onde todos nos encontramos assiduamente. É uma excelente caricatura do nosso Caminho. 
Todos sabemos que, nos dias de hoje, é difícil dispor de tempo para desfrutar em pleno daquilo que precisa de tão precioso e raro bem para ser apreciado. O Caminho de Santiago é percorrido por milhares de pessoas, sendo que a grande maioria o faz a pé. Em Portugal, falando com muita gente, fica-se com a sensação que, se ainda não tivessem inventado a bicicleta, seriam poucos os que o teriam feito. 
Em 2013, quando fizemos o Caminho na versão 5NC (vejam aí o histórico de Abril, está lá tudo), que coincidiu com um feriado e respectiva ponte, dividimos o Caminho com centenas deles, tendo perdido então o que agora temos: Sossego. Hoje, ao ver esta frase da lebre e da tartaruga, interroguei-me como raio duvida alguém que a correr (como nós corremos, lentos) se consegue desfrutar de todos os encantos do Caminho. Foi o que fizemos todos hoje. Quase 8 h para percorrer pouco mais de 43 km. Mas o Caminho foi quase só para nós. Fomos tartarugas que desfrutaram de tudo. Da envolvente, linda, da paz do caminho, dos imensos (inevitável com este sol) riachos e ribeiros e da alegria que é correr devagar. Só quem corre sabe o quanto conseguimos isolar-nos para podermos apreciar o que mais ninguém vê; os cheiros, as árvores que começam a florir, os animais de pastoreio pelos campos, o silêncio interrompido pelo chamamento de acasalamento de um corvo, uma queda de água que silva no meio das árvores... Quando chegar amanhã a Santiago, não me digam que correndo não se sente o Caminho. O Caminho sente-se quando o fazemos com a alma, esse eu que todos procuramos. E a alma satisfaz-se com tudo o que os olhos vêem, o nariz cheira e os ouvidos ouvem. O nosso mundo está todo no Caminho e deve ser desfrutado. Como o Corvo na floresta, também somos capazes de um grito no silêncio. O grito da Alma é o que se sente no Caminho. E esse grito, essa busca que todos sem excepção fazemos, esse é o nosso Eu. Desfrutemos. 
Amanhã será, seguramente, dia de Celebração. 



3º Dia do Caminho - A revelação

2h em Redondela. (Quase) Todos dormem. 
Depois de 2 dias intensos, onde prevaleceu a superação e celebração, hoje foi dia de revelação. Em todos os aspectos e decisões que tomamos nas nossas vidas, quando escolhemos um caminho, sabemos que, entre pontos positivos, há sempre alguns negativos. 
Hoje foi dia de todos experimentarem o reverso da superação, a provação. 
O Caminho Português de Santiago, como por aqui é conhecido, entra em Espanha por Tuy, tomando a direcção de Porriño, antes de, 36 km depois chegar a Redondela. Aquilo que em Tuy se revela agradável, com todo o carinho e atenção que Espanha dedica a um dos principais destinos mundiais de peregrinação espíritual ou religiosa, é contrariado pelo serpenteado por estradas nacionais, por terras galegas menos atraentes e minimizado pelo acumular de Km's e do consequente esforço dispendido. Isto para não aludir à lama mal cheirosa das estradas (?) do lado português junto a Valença, que, como dizia um pastor, "a Junta não arranja". 
 
Todos se têm vindo a superar. Só o Caminho que nos leva a Santiago regrediu um pouco na beleza que ontem todos admiramos no Minho, e o cansaço a sensações que apesar de duras, nos levam a concluir que nós comandámos os nossos destinos.
A vida não é só flores. Também tem espinhos.
Mesmo assim, ainda houve tempo para admirar alguns dos troços mais rurais, de desfrutar de alguns (poucos) cursos de água cristalina e refrescante num dia de sol e de calor primaveril. 

Faltam 2 dias. Pouco mais de 80 km, depois de um dia em que palmilhamos mais 57. Agora que o Caminho se aproxima do destino, vamos enfrentá-lo com a coragem de quem sabe que, apesar dos momentos menos agradáveis, há sempre pontos de apoio, de satisfação e de regozijo e um ou outro ponto de interesse. 
Transformamos o cansaço em força para que a chegada amanhã aos 200 km, seja mais uma etapa única (talvez impensável) de alguns dos que, motivando-se cada vez mais face às dificuldades, vão vencendo barreiras que nunca pensaram transpor. 
É isto o Caminho. 
Amanhã há mais. 

sexta-feira, março 07, 2014

2º dia do Caminho - Superação

Saídos de Tamel, Lugar a pouco mais de 10 km (pelo Caminho) a Norte de Barcelos, foram os 11 contentes por afinal o corpo permitir aquilo que a mente mais desejava: Fazer 44 km um dia depois de correr 64. 
Dos 11, 4 nunca tinham sequer feito uma maratona, quanto mais ambicionar correr mais que a mítica distância em dias consecutivos. Havia o receio de o corpo reclamar o descanso que todos lhe dámos depois de tanto km a correr. Mas como o grande motor do corpo é a mente, todos meteram na cabeça que haviam de chegar a Rubiães. E chegaram. Pelo meio um dia fantástico onde o Minho foi Rei, com belíssimas paisagens onde desponta a Primavera, num radiante dia de sol, quente, que convidava àquilo que nenhum de nós dispensou: Mergulhos e mais mergulhos, ora das pernas, ora integrais, com direito a ameaça de "chamar a polícia" por invasão de tanque de rega alheia. 
O Caminho que percorremos ontem foi de celebração dos que nunca haviam corrido mais que um par de horas. Hoje foi dia de celebração da superação do cansaço e dos quilómetros, e pela natureza e beleza do Caminho. É sem dúvida a mais bela das etapas deste Caminho Central, esta entre Tamel e Rubiães com passagem pela bela Ponte de Lima, onde entramos por um serpenteado milenar entre casas de granito, pastos vastos e densos choupais.

Parece-me que já ninguém dispensa correr, ou caminhar, ou voltar a correr depois de comer ou de um banho numa qualquer queda de água. Já todos interiorizaram que o Caminho é para fazer com o prazer da superação, a entreajuda e animação de todos. Sem pressas, porque Santiago é já ali, mas sem desfrutar e com pressa ninguém sente o Caminho.
Amanhã já dormiremos em Espanha. Esperam-nos mais de 50 km de permanente descoberta.
Estamos todos prontos para nos surpreendermos e desfrutarmos do que podemos receber, sem hesitar em dar o melhor de nós próprios.
Ao Caminho, então. 

quinta-feira, março 06, 2014

Dia 1 do Caminho - A Catarse

Catarse: 
1. [Filosofia]  Palavra pela qual Aristóteles designa a "purificação" sentida pelos espectadores durante e após uma representação dramática.
2. Método psicanalítico que consiste em trazer à consciência recordações recalcadas.
3. Libertação de emoção ou sentimento que sofreu repressão.

Posso resumir nesta definição do termo utilizado para título desta crónica, as sensações vividas pelos vários intervenientes neste Caminho que hoje iniciamos na Sé do Porto. 
Não quero descrever o Caminho, esse está cá para ser sentido por cada um, numa espécie de catarse individual, onde o significado varia consoante o interveniente.
O Caminho é seguramente uma representação dramática transformada em purificação na primeira pessoa, pelos que hoje se estrearam em quilometragens nunca antes experimentadas. O Rui Martins, a Patrícia, a Paula e a Ângela, nunca tinham feito mais que uma vintena de km. Aquilo que seria um drama antecipado tornou-se num espectáculo almejado: Fizeram 63 entre o Porto e Tamel, onde repousamos no Albergue local. 
Trouxe-nos, aos que já fizemos o Caminho, recordações, muitas e boas, e aos que nunca o tinham feito a experiência que só aqui se vive e sente. 
A Susana, o Mário, João Casal, Meixedo, Renato, Carlos Natividade, a Naná e eu, como outrora outros fizeram, demos o conforto do apoio e da certeza de, em grupo, tudo se superar. 
O Caminho de Santiago é uma experiência única de partilha, porque apesar de individual, é sentida por cada um dos que o faz, como uma fantástica experiência de superação e conquista que todos sentem uns dos outros. 
É uma catarse individual, no Caminho mais partilhado dos últimos 20 séculos, onde nunca nos sentimos sós. 
Amanhã há mais. 


domingo, fevereiro 16, 2014

Trail do Jesuíta

Devia chamar-se dos beneditinos, já que a peregrinação pelo Monte Córdova acima, era mais hábito dos monges de Singeverga, do que dos pasteleiros da iguaria típica de St. Tirso.
Conheci em tempos um beneditino que havia passado grande parte da sua vida no Mosteiro de Singeverga. Era uma daquelas pessoas que emana santidade, pela postura, calma e simplicidade que o caracterizavam. O "Dom Gabriel", como se chamava, tinha nos montes que circundam a cidade dos jesuítas, o seu local de culto mundano. Admirava e fazia passar a admiração pela beleza de toda a envolvente natural, e relatava-nos as longas caminhadas que fazia nos percursos, alguns que hoje tive o prazer de percorrer, que ligavam as freguesias então rurais, do Concelho Tirsense.
A Cidade é conhecida por pouco mais que a sua famosa gastronomia e pelo Mosteiro de S. Bento, embora tenha uma história rica, que remonta ao Séc IX a.c., mas desde hoje, para umas centenas de atletas, passou também a ser destino de uma belíssima e dura prova de trail.
Foram muitos os que a escolheram para estreia nestes terrenos, e provaram de tudo, desde single-tracks fantasticamente desenhados, a descidas quase de rapel, quedas de água, e subidas duras, extensas, como as que só experimentamos em provas de maior quilometragem.
De uma coisa tenho a certeza, há mais uma prova que veio para ficar. Este Trail do Jesuíta, superiormente organizado, com segurança nos pontos mais críticos, abastecimentos excelentes e banhos de luxo no Pavilhão Municipal, que serviu de base à prova, é um excelente exemplo de como desenhar e erguer provas simples, duras q.b., sem inventar sobre o que lá há. De enaltecer ainda, o envolvimento das autoridades locais, na divulgação e realização do evento, bem como da famosa Pastelaria Moura, que nos deliciou com jesuítas acabados de fazer.
O trail tem destas coisas, leva-nos sempre a algum ponto que desconhecíamos existir, a algum lugar de que tínhamos ouvido falar, mas que de nenhuma outra forma íamos visitar. Monte acima, monte abaixo, muitas vezes sós a divagar em bons pensamentos, experimentamos a liberdade que todos temos, a que nos permite escolher um pouco de sofrimento em troca do que nos realiza. Era assim que viviam os beneditinos de Singeverga. "Ora et labora", era a regra do fundador da Ordem. Baseava-se na reflexão pelo silêncio, recolhimento e leitura, bem como no trabalho agrícola, pastoral e na contemplação.
A envolvente daquele Concelho parece que foi desenhada para eles. Campos agrícolas, silêncio e muito para contemplar. Guardo na memória a excelente vista do alto do Monte Córdova, e as fantásticas quedas de água a jusante da nascente do Rio Leça (ali límpido como gostaríamos de ver até à foz, em Leça). 
Os 27 km passaram num instante, literalmente a correr, num belo dia de sol, onde nada faltou para uma excelente prova de trail.

Mergulhado no Rio Leça

Verde do princípio ao fim. Bonito.


sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Dia do Padre Costa


"Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado, o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi argüido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido:
- com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos;
- de cinco irmãs teve dezoito filhas;
- de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas;
- de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas;
- de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas;
- dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas,
- da própria mãe teve dois filhos.
Total: "duzentos e setenta e cinco, sendo cento e quarenta e oito do sexo feminino e cento e vinte e sete do sexo masculino, tendo concebido em cinqüenta e quatro mulheres",

Esta é a sentença que condenou o grande conquistador, amante, o Dom Juan do Concelho de Trancoso. Se fosse nos dias de hoje, podia viver de apoio social. Então, no Séc. XV, durante o reinado do Príncipe Perfeito, D. João II, que tinha apenas um filho (e que viria a morrer misteriosamente 4 anos depois), foi perdoado pelo Rei, por ter tido importante papel de "povoador da Beira Alta". 
Ora, em dia dos namorados, ninguém consegue negar o facto que este foi talvez, o maior namoradeiro de todos os tempos. 
Mas hoje não é dia de Padre Costa, é dia do Santo, que era Bispo e se apaixonou pela filha do carcereiro.
Vá lá alguém perceber isto...

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Ler e escrever, ou sonhar e viver.

"Ler é sonhar pela mão de outrem." - Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego 
Os génios da escrita dizem evidências que todos nós sentimos, concordámos e nunca fomos capazes de dizer. 
Ontem, li este texto de Miguel Torga, um escritor triste e amargurado, que colocava na pena o que não era capaz de fazer ou admitir na vida. E revi-me no texto. Revi-me e revi muitos dos que gosto de ler, e muitas das leituras compreendi e senti como estados de alma que não são mais que desabafos pelo que somos incapazes de concretizar, neste mundo estereotipado e preconceituoso, onde tudo tem norma, até a felicidade. 

Que tristeza isto de a gente escrever! 
Secos como paus na vida, e sai-nos depois a ternura pelo bico da pena! Comigo é assim. E como ninguém me lê—ninguém dos que eu mais desejava que recebessem ternura de mim (minha Mãe, meu Pai, minha Irmã, uns pobres amigos rudes que tenho na minha terra e uns infelizes que encontro por este mundo) —, fica tudo em letra morta. Hoje todo eu fui uma sede ardente de abraçar um infeliz que calcorreava às apalpadelas as ruas escaroladas da Nazaré. Um dia como uma estrela, aquela maravilha ali para se ver, e o desgraçado cego de nascença! Mas o abraço saiu-me aqui, a tinta.

Miguel Torga, in "Diário (1938)"