quinta-feira, novembro 05, 2015

Perdido em Nova Iorque

O que será pior que fazer uma maratona depois de uma longa recuperação, de um longo caminho de luta contra a dependência, de luta contra a adversidade? 

Gianclaudio Marengo, italiano de 30 anos, voou até Nova Iorque para participar na Maratona daquela cidade, integrado num grupo de pessoas que, como ele, faziam parte de um centro de recuperação de toxicodependentes. 
4h44 foi o tempo final do esforçado italiano. Chegado à meta, como acontece com muitos dos que fazem maratonas, desorientado no meio de uma multidão, a sua timidez e olhar vazio passaram seguramente como normais num maratonista. Depois da linha de chegada, um maratonista é sempre mais parecido com um zombie, cambaleando, esticando as pernas e contraindo involuntariamente todos os músculos em espasmos de dor. O comportamento normal de um maratonista é realmente estranho, não sendo por isso de estranhar um desorientado atleta por Central Park.
Portador do dorsal 23781, de Gianclaudio sobrava a informação de chegada à meta e uma imagem a prová-lo, quando os serviços consulares italianos a pedido da instituição que o levou aos Estados Unidos, começaram a procurá-lo. Daí até ser encontrado, dois dias depois, sabe-se agora que o italiano tentou voltar ao Hotel, mas com medo de perder a referência do último lugar onde estava, voltara à zona de chegada da prova. Sem o mapa que o ajudaria a encontrar o caminho, sem documentos e sem saber falar inglês, manteve-se por ali, à espera que o fossem buscar. Os membros do grupo foram lá mas não o encontraram. Comeu pizza, dormiu ao relento na noite fria de Manhatan, sempre com o equipamento com que correra a maratona. Segunda Feira, sabendo que tinha voo de regresso, foi para o aeroporto, de onde o expulsaram, por parecer sem abrigo e não possuir qualquer documento. Voltou para a cidade e refugiou-se no metro, já na madrugada de Terça Feira. Um polícia reconheceu-o por haver já uma notícia do seu desaparecimento



A história é contada pelo New York Post, e parece tirada de um filme.
"Os passageiros habituais, às 6h45 da manhã, são trabalhadores das obras, portanto aquela figura pareceu-me fora do contexto", conta Man Yam. "Reparei no seu ar cansado, lábios secos de desidratação, e principalmente na sua evidente ansiedade, olhando para todos os lados e fitando o mapa, tentando decifrar algo". 
O agente identificou-se e ao aperceber-se de que não entendia inglês, perguntou a Giancarlo em espanhol se estava perdido, ao que este respondeu afirmativamente e com ar aliviado. À boa maneira americana, o bom polícia levou-o a beber um café e comer um donut. Terá sido seguramente o melhor pequeno almoço da sua vida.



O agora maratonista foi levado a um hospital para assegurarem que estava bem de saúde, e onde o médico da instituição que o acolhe o foi buscar para viajarem de volta para Itália.
E assim uma história de libertação de um heroínómano transforma-se numa história de um maratonista, que depois de cruzar a linha de meta, começava uma aventura ainda maior que aquela de 42,195 metros que deixara para trás. 

A maratona é um duro caminho, mas nunca tão duro como muitos caminhos tortuosos que a vida nos proporciona.



Fontes e fotos:
http://www.nytimes.com/2015/11/04/nyregion/missing-italian-marathoner-found-on-new-york-subway-still-in-his-running-gear.html

http://nypost.com/2015/11/03/runner-found-after-going-missing-at-finish-line-of-nyc-marathon/

terça-feira, outubro 27, 2015

O homem branco naquela foto



As fotografias às vezes enganam.



Esta, por exemplo, retrata o ato rebelde de Tommie Smith e John Carlos no dia da cerimónia de pódio dos 200 metros nos Jogos Olímpicos da Cidade do México, e enganou-me um monte de vezes.
Sempre a vi retratando dois homens negros descalços, de cabeças inclinadas e punho com luvas pretas erguidas para o céu, enquanto tocava o hino americano. Um gesto simbólico muito forte, para reivindicar a protecção dos direitos da população afro-americana num ano de tragédias como a morte de Martin Luther King e Bobby Kennedy.
É uma imagem do gesto histórico de dois homens negros. Talvez por isso nunca reparara verdadeiramente naquele homem, também branco como eu, imóvel no segundo patamar do pódio.

Achei essa presença casual, uma espécie de intruso. Na verdade, acreditava que aquele tipo fosse um qualquer rival inglês, que numa postura glacial, representava a vontade de resistência à mudança que Smith e Carlos invocavam com aquele grito silencioso.
Como estava enganado. Graças a um antigo artigo de Gianni Mura, descobri a verdade: o homem branco na imagem é, talvez, o maior herói que surgiu naquela noite em 1968.


Chama-se Peter Norman, australiano, qualificara-se para a final dos 200 metros com um fantástico tempo de 20,22 nas semifinais. Apenas dois americanos Tommie "The Jet" Smith e John Carlos tinham feito melhor: 20,14 e 20,12, respectivamente.
Todos esperavam que a vitória se decidisse entre os dois, Norman era um estranho que tinha corrido a corrida da sua vida e ficar-se-ia por aí. John Carlos, anos mais tarde, confessou ter-se interrogado de onde saíra aquele branco que com 1,68 m era capaz de correr à mesma velocidade que dois calmeirões com perto de 1,90 m.
Chegado à final, Peter Norman fez mais uma corrida de sonho, uma performance de outro mundo, melhorando o que era já um tempo fenomenal. Correu em 20,06 recorde australiano ainda hoje, 47 anos depois.
Um registo fantástico, contudo insuficiente, porque Tommie Smith fez justiça à sua alcunha e foi "The Jet", batendo o recorde mundial à velocidade de jacto humano. Derrubou o muro de vinte segundos, tendo sido o primeiro homem na história a fazê-lo, cortando a meta em 19,82 e levando o merecido ouro.
John Carlos terminou em terceiro lugar, perdendo a prata por um fio de cabelo, por trás da surpresa Norman, único homem branco entre as estrelas de cor.
Foi uma corrida memorável, do mais espectacular na história das Olimpíadas.


Memorável, mas os momentos mais marcantes desta final prolongar-se-iam até à cerimónia protocolar.
Smith e Carlos tinham decidido mostrar ao mundo inteiro a sua luta pelos direitos humanos e a intenção deles ecoou entre os demais atletas.
Norman era branco e vinha da Austrália, que tinha leis de apartheid muito rigorosas, semelhantes às da África do Sul. A Austrália vivia tensões, com manifestações de rua, como resultado de restrições de imigração a não-brancos ​​e leis discriminatórias contra os aborígenes, incluindo as terríveis adoções forçadas de crianças nativas para benefício de famílias brancas. Mas o atleta australiano, surpreendentemente, queria fazer parte do protesto, mesmo afrontando o poder instituído no seu país.
Os dois americanos perguntaram a Norman se ele acreditava em direitos humanos.
Norman disse que sim.
Perguntaram-lhe se ele acreditava em Deus e ele, com um passado no exército de salvação, respondeu sim novamente.
"Sabíamos que íamos fazer algo muito além de qualquer feito competitivo, mas surpreendentemente ele disse: "Eu estarei convosco"- recorda John Carlos - Esperava ver medo nos olhos de Norman, em vez disso, vi amor." 
Smith e Carlos decidiram ir ao pódio ostentando no peito um brasão de armas do projeto olímpico para os Direitos Humanos, um movimento de atletas em solidariedade com as lutas de igualdade.

Iam receber as medalhas com os pés descalços, que representava a pobreza dos homens negros. E iam usar as famosas luvas de couro preto, símbolo da luta dos Panteras Negras.
Mas antes de irem ao pódio perceberam que tinham apenas um par de luvas negras.
"Usem uma cada um", sugeriu o corredor branco e eles aceitaram o conselho.
Em seguida, Norman fez outro pedido.
"Eu acredito no que vocês acreditam. Têm um desses para mim?", perguntou, apontando para o emblema do Projecto para os Direitos Humanos no peito dos outros dois. "Assim posso afirmar a minha solidariedade com a vossa causa."
Smith admitiu que, surpreendido, pensou: "Mas que quer este branco australiano? Ganhou a medalha de prata, que a receba e pronto!".
Respondeu-lhe que não, que só tinha aquele e não queria deixar de o usar. Mas com eles estava um remador americano, branco, Paul Hoffman, ativista do Projeto Olímpico para os Direitos Humanos. Ouvindo a conversa, pensou que, "se um branco australiano quer usar um destes emblemas, por Deus, deve ter!". Hoffman não hesitou: "Dei-lhe o único que tinha: O meu".
Os três avançaram pelo campo rumo ao pódio: o resto entrou para a história com o poder daquela imagem.
"Eu não vi o que estava a acontecer atrás de mim - disse Norman - Mas percebi que estava a correr como planeado quando uma voz na multidão começou a cantar o hino americano, mas depois parou. O estádio ficou em silêncio. "


O chefe da delegação americana jurou aos seus atletas que iriam pagar para a vida aquele gesto que não tinha nada a ver com o desporto. Smith e Carlos foram imediatamente excluídos da equipa americana e expulsos da Aldeia Olímpica, tendo o remador Hoffman sido acusado de conspiração.
De volta a casa os dois velocistas tiveram consequências pesadas nas suas vidas, ostracizados, discriminados, recebendo inclusive várias ameaças de morte. A América racista não lhes perdoava o atrevimento.
Mas o tempo viria a dar-lhes razão e tornaram-se campeões da luta pelos direitos humanos. Já com a imagem justamente restabelecida, trabalharam com a equipa americana de atletismo e foi-lhes erigida uma estátua na Universidade de San José.


Na estátua construída foi ignorado Peter Norman.
O lugar parece esvaziar o epitáfio de um herói que ninguém reconhece. Um atleta esquecido de facto, excluído, logo à partida no seu país natal, a Austrália.
Quatro anos depois do México 68, para os Jogos Olímpicos de Munique, Norman não foi chamado para a equipa de velocistas australianos, apesar de ter corrido mais de 13 vezes abaixo do tempo de qualificação para os 200 metros e cinco para os 100.
Desiludido, deixou o atletismo competitivo, continuando a correr como amador.
O seu País, a branca Austrália queria resistir à mudança, e tratou-o como um pária, com consequências para a sua família e para si próprio. Desacreditado, arranjar trabalho foi permanentemente difícil. Deu aulas de ginástica, trabalhou ocasionalmente como talhante, e continuou as suas lutas como activista sindical. Mais tarde uma lesão grave que gangrenou levou-o a abandonar qualquer prática desportiva, levando-o à depressão e ao alcoolismo
"Se nós dois levamos um chuto no rabo, Peter enfrentou um país inteiro e sofreu sozinho", disse John Carlos.
Durante toda a sua vida, Norman teve apenas à disposição uma chance de se salvar e retomar honras de campeão: Foi instado a condenar o acto dos seus colegas Tommie Smith e John Carlos, em troca de um perdão do sistema que o tinha condenado ao esquecimento. Um perdão que lhe permitiria encontrar um lugar permanente no Comité Olímpico Australiano e fazer parte da organização dos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000.
Mas Peter Norman não se deixou ir pela ambição e nunca condenou a escolha dos dois americanos, ficando assim longe de qualquer lugar ou tarefa de honra nos Jogos organizados pelo seu País.
Foi o maior velocista australiano de todos os tempos, ainda detentor do recorde nacional nos 200 m, mas não teve sequer um convite para as Olimpíadas de Sydney. Foi o Comité Olímpico americano, uma vez divulgada a circunstância em que o colocaram os australianos, a convidá-lo a juntar-se ao seu grupo, tendo sido figura de destaque na festa de aniversário do campeão Michael Johnson que considerava Peter Norman um modelo e um herói.
Norman morreu repentinamente, de ataque cardíaco, em 2006, sem o reconhecimento do seu País.
No funeral, Tommie Smith e John Carlos, amigos de Norman desde 1968, levaram o caixão aos ombros, homenageando-o como um herói.



"Peter era um soldado solitário. Conscientemente escolheu sacrificar-se em nome dos direitos humanos. Não há ninguém mais do que ele que a Austrália deva honrar, reconhecer e apreciar", disse John Carlos.
"Ele pagou o preço da sua escolha - explicou Tommie Smith - Não foi apenas um gesto para nos ajudar, foi uma batalha que escolheu travar. Era um branco, um homem branco entre dois homens negros, de pé no momento da vitória, tudo em nome da mesma causa".
Só 6 anos depois, em 2012, o Parlamento australiano aprovou uma declaração para pedir desculpas a Peter Norman e reabilitar a história com estas palavras: 
"Este Parlamento reconhece a conquista extraordinária de Peter Norman, que ganhou a medalha de prata nos 200 metros nos Jogos Olímpicos da Cidade do México, com um tempo de 20,06, ainda hoje o recorde australiano.
Reconhece a coragem de Peter Norman em usar o símbolo da Projecto Olímpico para os Direitos Humanos no pódio, em solidariedade com Tommie Smith e John Carlos, que fizeram a saudação do "black power".
O Parlamento pede ainda desculpa por, mais tarde, o Comité Olímpico ter cometido o erro de não o ter levado às Olimpíadas de 1972 em Munique, apesar de repetidamente se ter qualificado, e reconhece o papel preponderante de Peter Norman na luta pela igualdade racial." Reconhecimento justo, mas tardio, que o visado não pode testemunhar. 
Talvez as melhores de todas as palavras que lembram Peter Norman sejam as suas, no documentário "Salute" realizado pelo seu sobrinho Matt, em que explicou as razões para o seu gesto:
"Eu não entendia por que um homem negro não podia beber água da mesma fonte, apanhar o mesmo autocarro ou frequentar a mesma escola que um homem branco.
Era uma injustiça social para alguns contra a qual eu nada podia fazer, mas que odiava.
Tem sido dito que o facto de partilhar a minha prata com tudo o que aconteceu naquela noite na cerimónia de pódio tem ofuscado o meu desempenho.
Acho que foi precisamente o contrário.
Confesso que sinto um orgulho enorme em ter feito parte daquele momento".





Traduzido do original (com autorização do autor) "L'uomo bianco in quella foto" de Riccardo Gazzaniga, publicado aqui. 
Twitter - @ricgazza
Facebook - https://www.facebook.com/Riccardo-Gazzaniga-262419330510005/




quinta-feira, agosto 06, 2015

Zoom às Nike Pegasus 32

Um zoom, a pedido da Sportzone/TSF Runners, ao modelo Pegasus 32 da Nike.

Com reconhecido sucesso no mercado, a Nike Pegasus vai evoluindo em design, baixando o drop (inclinação entre o calcanhar e os dedos) e aumentando a resistência e conforto. Modelo idealizado para corredores que apreciem amortecimento sem correção, as Pegasus cumprem na perfeição a missão de deixar os pés guiar o calçado e não o contrário.

Para passada neutra, pensada para dar uma sensação de suavidade na transição entre o impacto e o impulso, é quase imperceptível a “ajuda” da ergonomia, que permite a pressão sobre a planta do pé, fazendo um efeito mola passo a passo. Leves, com tecido respirável e resistente, em dupla malha, e com aqueles cordões laterais, onde os atacadores encaixam, e que, depois de apertados, fazem com que pareça ter mãos a segurar-nos o pé pela lateral.

O amortecimento, confortável, não é contudo demasiado esponjoso, dando a sensação de resguardo do pé ao peso do corpo e retribuindo o impacto em impulso contrário. No fundo, não desilude na evolução que vai fazendo, tornando-se uma compra segura, em linha com os modelos anteriores, e posicionando-se como um excelente calçado para quem quer preparar com segurança as provas de fundo, ou simplesmente correr horas a fio, sem sentir nos pés o massacre dos quilómetros.



Com a possibilidade de personalizar as cores, o design passa a ser moldável ao gosto do cliente. Mas, justiça seja feita, os designers da marca têm melhorado na conjugação de cores. Desde os tradicionais pretos aos arrojados azuis e laranja, passando pelos rosa para as meninas, não será pelas cores que não se apaixonarão pela sapatilha. Quanto à corrida, essa, só pode correr bem, com produto tão leve e resistente nos pés.

segunda-feira, junho 15, 2015

Queres ganhar forma? Corre devagar!

Já comentei com muita gente com quem me vou cruzando nos treinos e provas, que este é o método (Maffetone) que sigo, sem saber, há alguns anos, quase desde que corro. Reconheço que para alguns é difícil treinar sem plano de treinos, mas para mim basta correr. O plano é conseguir fazê-lo por muitos anos, sem lesões, e essas felizmente têm andado longe. A última dor que tive surgiu depois de 2 horas a dormir num puf.
Se és atleta rápido, quase de velocidade de profissional, este texto não é para ti, deves contactar um treinador e pedir ajuda profissional. Se pelo contrário, és um corredor de pelotão que corre por prazer e quer melhorar a performance sem grandes sacrifícios e sem lesões, lê e aplica este método. Precisas apenas de um relógio e de uma banda cardíaca. Se ainda não tens um relógio que monitorize o ritmo cardíaco, podes comprar um barato numa Decathlon.
Com o método Maffetone vais evitar lesões (reduzes a velocidade, baixas o stress muscular e o impacto nas articulações), ganhar saúde, subir de forma e treinar o corpo a consumir de forma mais eficaz as reservas de gordura, essenciais para uma melhor performance na corrida de resistência. Queres melhor justificação para seguir este método?

Quem é Maffetone e como funciona o seu método?

Maffetone é um renomado treinador de corrida italiano, investigador, formador, médico, músico, ideólogo e autor de planos nutricionais. É um estudioso do desporto, da corrida em particular e também corredor amador. Podem consultar o seu site e habilitarem-se a serem “treinados” pela sua app, ainda em versão beta - www.philmaffetone.com
De uma forma geral, achamos que só o treino anaeróbico conduz a ganhos de velocidade, contudo, desenvolver uma boa condição aeróbica antes de trabalhar a intensidade, permite melhorar a velocidade sem o desgaste inerente à velocidade e diminui a possibilidade de lesões. Se tiverem curiosidade e quiserem saber a diferença, podem ler aqui um bom artigo.

Vejamos então como calcular a intensidade recomendada de treino aeróbico, aquela que devemos manter o maior tempo possível para melhorar.
A fórmula 180, tem duas grandes vantagens, a de “treinar” o corpo a queimar mais gordura acumulada para gerar energia (normalmente queimamos diferentes quantidades de açúcar e gordura, à vez) e faz com que após algum tempo possamos correr a maior velocidade, sem variar a frequência cardíaca, aumentando a resistência e alargando o período até ao ponto de fadiga. 

Como calcular? 

1. Subtrair a idade a 180 (180-idade).
2. Modificar este número segundo uma das seguintes situações:
• Para quem convalesce de uma doença grave /Coração, uma operação, um internamento hospitalar) ou está com uma medicação prolongada, subtrai 10;
• Para quem nunca treinou ou treinou mas ficou lesionado, retoma a corrida após um interregno, ou tem alergias ou está frequentemente medicado, subtrai 5;
• Para quem pratica desporto há dois anos sem problemas mantém o número;
• Para quem tem praticado por mais de dois anos sem qualquer problema e vai progredindo na competição sem problemas, soma  5.
Por exemplo, quem tem 30 anos e cai na segunda situação, acima: 180-30=150 e 150-5= 145. É este o seu ritmo cardíaco aeróbico máximo. Para uma construção de base aeróbica eficiente, deve treinar dentro ou abaixo desse valor durante todo o período de treino.
Há duas exceções a esta fórmula:
  • Para indivíduos maiores de 65 anos é possível que se tenha de somar 10 pulsações, sempre em função do nível de forma e saúde.Isto não significa que tenham de somar 10 de forma automática, é importante que façam uma auto avaliação honesta.
  • Para jovens atletas até 16 anos, esta fórmula não é válida. É melhor que usem uma FCM de 165.
Uma vez obtida a FCM aeróbica, podes treinar dentro do limite que vai desde o limite até 10 batimentos abaixo. Se a tua FCM é de 155, treina entre as 145 e as 155 pulsações.
No meu caso, 180 – 42 = 138. A verdade é que, nos treinos mais longos, quando começo num ritmo baixo, entre os 6’/km e os 6’30 (125, 130 BPM), aos 20 km ainda estou naquela euforia que todos temos num determinado momento do treino – “ficava aqui horas, a este ritmo”, ao contrário do que acontece nos treinos mais rápidos, onde o stress da velocidade me faz esgotar energias muito mais rapidamente. O que é certo é que, em prova, a velocidades de menos 1 minuto e meio deste ritmo, entre os 4’45 e os 5’/km, sinto-me bastante confortável. Mas mais importante que a velocidade ou performance, é que continuo a correr, com imenso gosto, sem lesões e sem grandes chatices. É importante mantermos uma “relação saudável” com a corrida, para não nos “enchermos” dela e nos divorciarmos de vez. E principalmente que não desgastemos o corpo desnecessariamente. A minha vida não é só corrida e a vossa também não seguramente.
Experimentem correr mais devagar. Aprendam a correr devagar. O vosso corpo agradece, e os resultados vão seguramente melhorar.
 
(Fonte: Sportlife e Maffetone.com)

quinta-feira, março 05, 2015

Numa ultra só és adulto quando te inscreves

 

(Publicado originalmente no JN Running)

Esta viagem ao interior dos mais de 100km de Sicó é a de Rui Pinho, atleta convidado pelo JN Running. É a viagem de cada um dos que se lança ao desafio. Seja para dez, 20, 40 ou 100km. É a viagem ao interior de cada um de nós. E é muito boa de se ler.

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Uma ultra é uma viagem ao interior de nós próprios. É uma viagem rumo ao desconhecido. Sabes por onde viajas, conheces o barco, o mar e até os ventos, mas nunca saberás a infinidade de conjugações com que te irás deparar. É uma viagem deambulante pelo limite do corpo, da mente, da vontade e da resiliência. Todos sabemos ao que vamos, sem saber o que vamos encontrar.

Na azáfama da arena de partida, somos todos gladiadores prontos a serem lançados às feras. O arrepio na espinha, o vazio no estômago, a sensação de levitar sobre todos aqueles que, como tu, sentem a adrenalina a subir no tiquetaque decrescente para o tiro de partida. Nada ouves. O silêncio apodera-se de ti. O ruído que também tu fazes é o de todos os fantasmas que acumulaste e que agora se libertam, rumo aos trilhos para onde vais e onde cumprirão a sua missão: tentar-te, desanimar-te, alertar-te para as tuas fraquezas, para as dores e para os arrependimentos.

Em todo esse ruído há uma paz angelical que te faz sentir capaz de domar todos os teus demónios. É o silêncio do teu treino. O silêncio dos que acreditam em ti, o silêncio das palavras que te disseram há minutos, quando fizeste aquela última chamada – “vou agora ao controlo zero, para a partida. Dorme, eu dou-te novidades”. “Nós acreditamos em ti…” E acreditam. E dormem pouco. E ali vais tu, nessa viagem de mais de 100 km, de mais que muitas horas, que te deixará à mercê dos elementos, da chuva, do chão de barro que te vai fazer lembrar argila nas mãos de crianças que as formam alegremente.

Essa criança, vulnerável, és tu, é o teu filho, é o filho de alguém, desamparado, como tu ali, a cair e levantar, a dar a mão ao colega de ocasião que caiu a teu lado. És tu no teu mundo. Vais de criança a velho. Só és adulto quando te inscreves. És uma criança nas mãos dos voluntários que te abastecem e mimam, és um velho sem forças nas pendentes montanhosas que parecem não ter fim. És marinheiro. És sim. És marinheiro com pele franzida pelo cansaço, olhos de noite em branco perdidos no nevoeiro. Afinal não. És só um pastor que chegou ao alto da sua Serra onde outrora havia moinhos.

Estás a sonhar. Sonhas acordado no meio daqueles pesadelos que os fantasmas te vão lançando. E sonhas com os teus anjos. “Tenho de acabar, só faltam 30 km”. E fazes contas: “30 km, a este ritmo são 7 ou 8 horas, meu Deus, como aguento?”. E vêm os teus anjos. Lembras-te do último telefonema. Voltas a ligar. Não atendem, deixas mensagem, como se deixasses uma âncora que te vai puxar até ao fim; quando o telemóvel volta a tocar já te parece o ruído do motor que puxa a âncora. E animas-te de novo com uma canja, um caldo verde, uma bifana, uma cara conhecida, um popular que te grita “CORAGEM!!!”, e voltas a sentir-te vivo. Meu Deus! Ressuscitei! Sou o maior!… Até à fraqueza seguinte.

É isto. Morres e ressuscitas vezes sem conta, amas e odeias o trail, queres voltar para casa, para os braços dos teus. Mas isto é tudo teu. A viagem é tua. Mesmo que vás ao lado de alguém, que juntes fraquezas com fracos e te mostres forte, ou fraco, perante fortes, não saberás nunca como eles estão, porque eles estão numa viagem só deles, como tu. Na tua. Aproveita. Faz-te forte. Encontra-te. Vais ver-te como nunca te viste. Chorarás como criança ao cruzar a meta. Aquele que correu a teu lado ficará amigo para a vida. Afinal, esteve numa viagem única contigo.

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“Foi um belo cenário”

A importância do planeamento numa viagem destas é fundamental. Nesta Ultra de Sicó, planeiam por nós. Nada foi deixado ao acaso. Fartos abastecimentos, alguns de surpresa, apoio dos voluntários – muitos deles também ultramaratonistas e atletas da Associação Mundo da Corrida, e duas “bases de vida”. O termo pode suscitar sustos, mas mais não é que dois pontos onde podemos ter um saco com muda de roupa ou calçado. Importante para quem vai correr muitas horas, já que um coincidia com o início do dia, depois de 7 ou 8h a correr mais de 50 km, e o outro aos 93, onde muitos chegariam com mais de 16h. Estavam portanto no final dos dois primeiros terços de corrida. E os abastecimentos eram excelentes, de 10 em 10 km, alguns com sopa (da pedra, até) ou hidratos à bolonhesa. Havia muito mais o que comer, entre queijo, requeijão, bifanas, batatas fritas, fruta, doces.

Sicó tem muito por onde correr, mas tem também muito para subir. Tem trilhos técnicos, alguns belíssimos, como o da Cascata e o de Vale de Poios – o da Cascata é digno de figurar nos lugares mais idílicos do trail e daria um excelente cartaz da prova. Valeu a pena ter passado por lá. Tal como por Conímbriga, animada por guerreiros que cuspiam fogo na noite, iluminando-a e secando a chuva miudinha que persistiu quase até ao fim das 24h de tempo limite.

Condeixa será seguramente um destino de maratonistas em busca da experiência dos 100 km. Sicó tem todas as condições para dar a Portugal a dimensão de outras provas de 100 km lá fora. A localização, a envolvente paisagística, o envolvimento das forças vivas dos concelhos que acolhem a prova, das suas populações e autoridades, fazem o sucesso desta organização. Estão de parabéns. Pensaram todos os pormenores, focaram-se nos atletas de pelotão (a grande maioria) e superaram as melhores expectativas.

A partida às zero horas de sábado foi uma boa decisão. Com o adiamento das restantes distâncias (65, 25 e 12 km) para a manhã de Domingo, puderam concentrar na prova rainha toda a atenção e apoio, fazendo com que esta seja, até ao momento, a única em Portugal dedicada à distância superior a 100 km, sem misturas, às vezes complicadas de gerir, de ritmos, disposição e diferentes necessidades. A segurança esteve sempre presente, as marcações eram suficientes e havia um responsável da organização em cada PAC. Parabéns ao Mundo da Corrida. Foi um belo cenário para uma viagem ao centro de nós próprios.

As ultras são viagens estranhas. Saímos do conforto, treinamos todo o labirinto de emoções, fraquezas e dificuldades que vamos encontrar. Fazemo-lo em prova para assegurarmos a segurança na loucura. É um salto no desconhecido, mas em bunjee jumping. A fantástica conclusão comum a (quase) todos os que partem é que vale a pena. Mesmo que interrompamos a viagem. Vale sempre a pena descobrirmo-nos. Andámos muitas vezes escondidos de nós próprios. Ali, na montanha, no carrossel de emoções e sensações encontramos facetas que desconhecíamos possuir. Estas guerras aos nossos fantasmas faz-nos sentir vivos como nunca. Sair da nossa zona de conforto é um passo para nos sentirmos ainda mais confortáveis. É um éden de sensações num inferno de emoções.

Fotos Ico Bossa e Pedro Sá

quarta-feira, março 04, 2015

Viagem interior na Ultra de Sicó

Uma ultra é uma viagem ao interior de nós próprios. É uma viagem rumo ao desconhecido. Sabes por onde viajas, conheces o barco, o mar e até os ventos, mas nunca saberás a infinidade de conjugações com que te irás deparar. É uma viagem deambulante pelo limite do corpo, da mente, da vontade e da resiliência. Todos sabemos ao que vamos, sem saber o que vamos encontrar.
Na azáfama da arena de partida, somos todos gladiadores prontos a serem lançados às feras. O arrepio na espinha, o vazio no estômago, a sensação de levitar sobre todos aqueles que, como tu, sentem a adrenalina a subir no tique-taque decrescente para o tiro de partida. Nada ouves. O silêncio apodera-se de ti. O ruído que também tu fazes são todos os fantasmas que acumulaste e que agora se libertam, rumo aos trilhos para onde vais e onde cumprirão a sua missão: Tentar-te, desanimar-te, alertar-te para as tuas fraquezas, para as dores e para os arrependimentos. Em todo esse ruído há uma paz angelical que te faz sentir capaz de domar todos os teus demónios. É o silêncio do teu treino. O silêncio dos que acreditam em ti, o silêncio das palavras que te disseram há minutos, quando fizeste aquela última chamada “vou agora ao controlo 0, para a partida. Dorme, eu dou-te novidades”; “Força! Nós acreditamos em ti!”. E acreditam. E dormem pouco. E ali vais tu, nessa viagem de mais de 100 km, de mais que muitas horas, que te deixarão à mercê dos elementos, da chuva, do chão de barro que te vai fazer lembrar argila nas mãos de crianças que as formam alegremente. Essa criança, vulnerável, és tu, é o teu filho, é o filho de alguém, desamparado, como tu ali, a cair e levantar, a dar a mão ao colega de ocasião que caiu a teu lado. És tu no teu Mundo. Vais de criança a velho. Só és adulto quando te inscreves. És uma criança mimada nas mãos dos voluntários que te abastecem e mimam, és um velho sem forças nas pendentes montanhosas que parecem não ter fim. És marinheiro. És sim. És marinheiro com pele franzida pelo cansaço, olhos de noite em branco perdido no nevoeiro. Afinal não. És só um pastor que chegou ao alto da sua Serra onde outrora havia moinhos. Estás a sonhar. Sonhas acordado no meio daqueles pesadelos que os fantasmas te vão lançando. E sonhas com os teus anjos. “Tenho de acabar, só faltam 30 km”. E fazes contas “30 km, a este ritmo são 7 ou 8 horas, meu Deus. Como aguento?”. E vêm os teus anjos. Lembras-te do último telefonema. Voltas a ligar. Não atendem, deixas mensagem, como se deixasses uma âncora que te vai puxar até ao fim; quando o telemóvel volta a tocar já te parece o ruído do motor que puxa a âncora. E animas-te de novo com uma canja, um caldo verde, uma bifana, uma cara conhecida, um popular que te grita “CORAGEM!!!”, e voltas a sentir-te vivo. Meu Deus! Ressuscitei! Sou o maior!… Até à fraqueza seguinte. É isto. Morres e ressuscitas vezes sem conta, amas e odeias o trail, queres voltar para casa, para os braços dos teus. Mas isto é tudo teu. A viagem é tua. Mesmo que vás ao lado de alguém, que juntes fraquezas com fracos e te mostres forte, ou fraco, perante fortes, não saberás nunca como eles estão, porque eles estão numa viagem só deles, como tu. Na tua. Aproveita. Faz-te forte. Encontra-te. Vais-te ver como nunca te viste. Chorarás como criança ao cruzar a meta. Aquele que correu a teu lado ficará amigo para a vida. Afinal esteve numa viagem única contigo.
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A importância do planeamento numa viagem destas é fundamental. Nesta Ultra de Sicó, planeiam por nós. Nada foi deixado ao acaso. Fartos abastecimentos, alguns surpresa, apoio dos voluntários – muitos deles também ultra maratonistas e atletas da Associação Mundo da Corrida, e duas “bases de vida”. O termo pode suscitar sustos, mas mais não é que dois pontos onde podemos ter um saco com muda de roupa ou calçado. Importante para quem vai correr muitas horas, já que um coincidia com o início do dia, depois de 7 ou 8h a correr mais de 50 km, e o outro aos 93, onde muitos chegariam com mais de 16h. Estavam portanto no final dos dois primeiros terços de corrida. Os abastecimentos quase sempre de 10 em 10 km (aproximadamente), sendo alguns com sopa (da pedra, caldo verde e canja) ou massa/arroz à bolonhesa. Havia muito mais o que comer, entre queijo, requeijão, bifanas, batatas fritas, fruta variada, bolos, etc.
Sicó tem muito por onde correr, mas tem também muito para subir. Tem trilhos técnicos, alguns belíssimos, como o da Cascata e o de Vale de Poios – o da Cascata é digno de figurar nos lugares mais idílicos do trail, e daria um excelente cartaz da prova. Valeu a pena ter passado por lá. Bem como a passagem por Conimbriga, animada por guerreiros que cuspiam fogo na noite, iluminando-a e secando a chuva miudinha que persistiu quase até ao fim das 24h de tempo limite.
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Condeixa será seguramente um destino de maratonistas em busca da experiência dos 100 km. Sicó tem todas as condições para tomar em Portugal a mesma dimensão de outras provas de 100 km. A localização, a envolvente paisagística, o envolvimento das forças vivas dos Concelhos que acolhem a prova, das suas populações e autoridades, fazem o sucesso desta organização. Estão de parabéns. Pensaram todos os pormenores, focaram-se nos atletas de pelotão (a grande maioria) e superaram as melhores expectativas. A partida às 00h de Sábado foi uma boa decisão. Puderam concentrar na prova rainha toda a atenção e apoio, fazendo com que esta seja, até ao momento, a única em Portugal dedicada à distância superior a 100 km, sem misturas, às vezes complicadas de gerir, de ritmos, disposição e diferentes necessidades. A segurança esteve sempre presente, as marcações eram suficientes e havia sempre um responsável da organização em cada PAC. Parabéns ao Eduardo Santos, Margarida Henriques e restantes operacionais do Mundo da Corrida. Têm uma prova com futuro assegurado, que ombreará seguramente com as melhores da Península Ibérica. Foi um belo cenário para uma viagem ao centro de nós próprios.
As ultras são viagens estranhas. Saímos do conforto, treinamos todo o labirinto de emoções, fraquezas e dificuldades que vamos encontrar. Fazemo-lo em prova para assegurarmos a segurança na loucura. É um salto no desconhecido, mas em Bunjee Jumping. A fantástica conclusão comum a (quase) todos os que partem, é que valeu a pena. Mesmo que interrompamos a viagem. Vale sempre a pena descobrir-mo-nos. Andámos muitas vezes escondidos de nós próprios, ali, na montanha, no carrossel de emoções e sensações encontramos facetas que desconhecíamos possuir. Estas guerras aos nossos fantasmas faz-nos sentir vivos como nunca. Sair da nossa zona de conforto é um passo para nos sentirmos ainda mais confortáveis. É um éden de sensações num inferno de emoções.