sábado, agosto 14, 2010

Literalismo e paradoxo

“ - Porque será que uma coisa que nos mata pode também fazer-nos sentir mais vivos?

Villada suspirou.

- Isso é o que os filósofos chamam de paradoxo. Quando Deus nos criou, decidiu que o literalismo seria a ruína do mundo. Por isso, inventou o paradoxo para o contrariar.

- Mas como contrariamos o paradoxo?

- Interpretando-o literalmente.”

in As Profecias de Nostradamus, de Mario Reading

 

Acabado de apresentar um dos meus livros de férias, vamos à interpretação, literal, das ditas.

Quem quer sossego não tira férias em Agosto. Deixa-se estar a trabalhar, contagiado por um ambiente morno onde nem todos estão “a banhos”. O trânsito nas cidades fica facilitado, os dias são suficientemente grandes para dar um pulinho à praia, mas, paradoxalmente, é muito pior conduzir nas estradas do resto do País.

Todo o mundo se dirige ao litoral. Uns ficam-se por lá, outros, literalmente, fazem “piscinas” diárias pelas estradas de acesso às praias e zonas turísticas do burgo.

Paradoxalmente, o sossego do tempo de descanso, torna-se numa busca, literal, de um melhor lugar para estacionar, de um melhor lugar para a toalha, ou, para quem está pelo Algarve, de uma praia que ainda tenha lugares vagos.

Ou seja, o tempo que deveria servir para quebrar rotinas, esquecer horários, relaxar, não é mais do que a troca de stress por outro stress. Literalmente. Paradoxalmente é um stress, para a grande maioria, agradável.

Eu, como não gosto nem de uma coisa nem de outra, tiro férias apenas e só para ficar quieto e sossegado, em casa, sem ter de me deslocar por entre quem nem se maça, nem se rala, com quem anda por aí a fazer pela vida.

Paradoxalmente vivo na praia. Literalmente na praia.

Mas evito os banhos de sol e mar neste mês estranho, que mais parece um frenesim de gente que quer corar a ver se não se envergonha com o churrasco que se tornou a santa terrinha.

É que o País está, literalmente, a arder!

E paradoxalmente estamos todos descansados.

Boas férias.

domingo, agosto 08, 2010

Moda lusa

A Procuradora Adjunta rege as suas investigações pelas suas convicções. Vai daí negoceia um relatório que inclua as perguntas que não deixou fazer. Um despacho de arquivamento, a corresponder às suas convicções.

O Ministério Publico em Portugal leva a julgamento as causas mais imbecis que se possam imaginar; desde o roubo de um champô, até ao insulto entre vizinhos que não se gramam.

Sob o beneplácito de uma classe política que tudo tolera desde que se arquivem os casos das malas e dos licenciamentos à ultima hora, este MP continua a atafulhar os tribunais com casos ridículos, que mais parecem reposições foleiras do “Juiz decide”. Quando se trata de gente que não pode gastar dinheiro a entupir os processos com recursos que levem à sua prescrição, os juízes até decidem por convicção. Convictos da culpa do arguido condenam por impulso.

Quem quiser safar-se de um qualquer processo, contrate um defensor que tenha no CV mais prescrições. Ou então, dê uma saltadinha ao Brasil.

À boa moda lusitana, a Fatinha de Felgueiras, mulher de 56 anos, socialista e amiga do povo, diz que sofreu muito no Brasil (provavelmente apanhou um escaldão), e que só sobreviveu à custa da sua, parca, reforma. Aos desempregados a receber subsídio obrigam a apresentações periódicas, esta sujeita foge e ninguém lhe corta a pensão.

À boa moda tuga, o voyeurismo da malta, leva-nos a espreitar tudo o que é incêndio. É o Avatar português. Cinema 3D nas Serras e campos de Portugal.

À boa maneira portuguesa, está tudo de férias. Não se passa nada. Mais imposto, menos imposto, há-de inventar-se algum para cobrar a burrice e a falta de cultura deste povo. Que é feliz assim, porque a ignorância e a ingenuidade são os melhores calmantes do mercado.

Tudo vai ardendo, seja às mãos de quem pode ou pelas mãos de quem não quer saber.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Travestis

Os tempos modernos parecem assim ser.

O jornalismo, que não percebo, não entendo, nem tenho formação para tal, virou uma espécie de programa tipo “As tardes da Júlia”, onde se fala de tudo para encher tempo pré-determinado. É quase um acto heróico encontrar notícias por esse mundo fora para manter a malta entretida enquanto almoça no tradicional tasco, com a TV a debitar decibéis, enquanto se enche o copo de três e se põe mais uma isca no pão.

Lá pelo Algarve um senhor magoou-se ao ser abalroado por um barco, tartarugas deram à costa, e Tavira tem praias acessíveis só de barco, que as senhoras da Linha comparam, deleitadas, com as piscinas lá do condomínio.

Na Guarda há uma praia fluvial, na Zambujeira as miúdas vão ao banho que está muito calor, e, em Lisboa, por causa do calor, não vão os toiros reclamar das condições de trabalho, fechou-se o tecto amovível do Campo Pequeno e ligou-se o ar condicionado. Está quase tudo a postos para a Corrida do Emigrante. Sim, do emigrante, que eles vieram só para ir ao Campo Pequeno acompanhar as tias, que devido aos joanetes, ficaram pela linha.

Foda-se! Que País este! Apetece invocar Millôr Fernandes e desatar a descarregar palavrões que melhor adjectivem esta merda.

Entre um dia de incêndios e outro de acalmia no churrasco em que se transformou o Norte e Centro cá do sítio, ficámos a saber que houve um acidente de trânsito na Austrália e que Moscovo está poluída. Sim, isto deu nas notícias.

Como diz um amigo meu, quando alguém desaparece em terra não chega a ser notícia, se desaparece no mar fica uma multidão a olhar o horizonte a ver se o náufrago caminha sobre as águas. Outra vez entrevistas e mais entrevistas aos expert´s que vagueiam pela costa.

Entretanto a espécie de julgamento em que se transformou o processo Casa Pia parece que está em vias de ser anulado. Se não fosse assim, seria a Justiça travestida de justiça.

Um homem, que andou ao murro na Sexta-Feira, anda desde aí de hospital em hospital, e o pai já pondera processar os hospitais todos por achar que o filho, devido ao adiamento da cirurgia ao queixo, que lhe partiram, possa ficar com a boca à banda.

Eu continuo de férias, mas por cá.

São umas férias travestidas…

quinta-feira, julho 22, 2010

Constituição ou Bíblia Sagrada?

Percebo pouco disto, mas ou é de mim ou nada do que diz a constituição é respeitado.

Ensino gratuito? Onde?

Saúde gratuita? Só se for para os membros do governo e parlamentares.

Trabalho sem despedimento? Se as empresas não falirem…

Andamos há anos a enganar o Zé povinho com retórica. Andamos não, andam a enganar. E tudo porque ninguém teve coragem de mexer nos testemunhos sagrados dos discípulos do conselho da revolução. Da esquerda à direita querem todos continuar como o teso: A fazer de conta que tem a carteira cheia.

Não consta que se tenha mudado a Constituição americana para mudar o sistema de saúde.

Nem consta que nos Estados Unidos se pague mais pelos estudos do que em Portugal, antes pelo contrário. As faculdades financiam-se com ditos mestrados que não são mais do que os anos que Bolonha roubou às antigas licenciaturas. Tudo porque temos um ensino obrigatório cada vez menos suficiente para dotar os alunos com bagagem para o ensino superior. Passam a licenciatura a aprender a ler e escrever, passe o exagero.

A justiça, constitucionalmente gratuita, é mais cara do que comprar carro novo. Favorece quem tem possibilidades económicas para pagar as artimanhas legais que levem à prescrição ou amnistia dos delitos.

Somos um País maioritariamente de gente católica.

Assim como esperamos o reino dos céus prometido na Bíblia, ansiámos pelo País que desejámos na Constituição.

Assim seja.

terça-feira, julho 20, 2010

O Amor é…

Não me sinto (nem deveria sentir, a julgar pela falta de experiência que tenho a esse respeito) nenhum expert na matéria, mas penso, logo (não, não vou por aí…) tenho opinião.

Ando arredado desta minha paixão, recente é certo, mas uma paixão é sempre fugaz. Aparece com força de tufão e sai como uma brisa matinal de um dia de Primavera. É uma tempestade tropical. Aquece de tal maneira que acaba em chuva e humidade em excesso. Nem sempre se repara na praga de mosquitos que vem atrás, mas enfim, tem piada a intensidade. Piada não, tem mesmo é o poder de cegar.

A escrita tem destas coisas, necessita de inspiração. É como o amor.

O amor é inspirado na vivência comum. As expectativas que criamos aquando da paixão, são sempre elevadas, e as expectativas “lixam-nos”. São sempre grandes as desilusões advindas de esperanças.

Eu tinha a esperança e ousei pensar em escrever todos os dias. Passei para “de vez em quando” para o semanal. Agora parei por um tempo, embora cheio de vontade de escrever. É uma espécie de paixão adormecida. Que como qualquer relação amorosa digna desse nome, daquelas que se tornam rotineiras, daquelas que nos obrigam a pensar nelas, precisava de um “click”, de algo diferente que quebrasse a rotina. E teve. Uns tempos depois do ultimo artigo, ou “post”, aconteceu o inédito. Despertado por pensamentos que assolam a minha veia criativa enquanto corro, lembrei-me que um bom tema de regresso à escrita era este. O Amor. Que tanto apregoa quem o busca e tão mal o trata quando o tem.

Conheço quem ame sem respeitar, só porque acha que amar é saber o que é melhor para o outro. E amor sem respeito não é amor.

O egoísmo e o egocentrismo dos apaixonados, leva-os a cegarem na luz que pensam emanar de dentro para outros e para todos. Ficam assim como que vidrados na sua razão, que estando ausente, se torna em obsessão deprimida, de ânsia de atenção. É uma espécie de condutor embriagado que acha que os outros não conseguem manter um rumo certo.

Ao invés há-os racionais, que param, pensam, distribuem amor e carinho, atenção e compreensão. Seguram as pontas, mantêm as bases de retorno dos irracionais, quais balões cheios com hélio à espera que alguém lhes segure o fio que os mantém à distância de retorno sem esforço. São os embriagados que apanham os táxis.

Esquecem-se uns e outros que nem todo o racional tem o sucesso que espera, porque amor sem paixão é como chocolate sem açúcar, nem o tonto chega à plenitude da loucura, porque esta não é boa conselheira da estabilidade necessária no amor.

Não sei o que é o Amor, mas gosto muito de escrever.

A escrita é descoberta. O amor só o encontrei nas paixões. E sem paixão nunca vi o amor. Mas amor duradouro…

Nem conheço amor eterno nem mulher que o queira. Nem homem que o deseje.

Nem escrita esporádica nem escrita compulsiva. Vou escrevendo…

quarta-feira, maio 05, 2010

Actualidades

Enquanto me entretenho a tentar dar um rumo a um livro que, há longo tempo, tento escrever, a política portuguesa segue o rumo de uma autêntica comédia, a não parecer quase trágica.

Cavaco, do alto da sua insignificância, diz que a alternativa ao Euro seria ruinosa, se ele não dissesse não acreditávamos. Agora que já se tinha iniciado o cunho das moedas de 50 paus e a estampagem, quais t-shir't’s, das nouvelles notas de “conto”, é que o Sr. Silva vem mandar parar a ansiedade dos cotas, que tinham a legítima esperança de gastar as economias antes de partir para o outro mundo.

O Louçã insiste em sacar a “pasta” a quem a tem para investir por aí, e de preferência com muitos empregos para os, inaptos, tugas na alta velocidade.

O Jerónimo diz que sim, que o investimento tem de ser público, como se o público não tivesse já metido no prego os anéis que sobraram das estradas que por aí grassam.

O Portas, que ninguém leva a sério, foi ao Cavaco fazer queixinhas, enquanto pedia desculpa pela campanha do Independente nos idos anos 90.

Os ministro correm a dizer que tudo está bem e bem há-de estar.

O Norte continua a assobiar enquanto é posto à parte destes investimentos todos.

E nos Açores tivemos o momento Júlio Isidro. Carlos César assume que há muito viu em Alegre o que parece que o PS vai assumir em breve: O homem ideal para vencer o Sr. Silva dos discursos insignificantes.

Eu, como nem de relações percebo, nem de política quero saber, vou tentar dar rumo ao livro, na esperança de fazer algo de útil, não vá a minha cabeça entrar nesta onda de parvoíce colectiva.

A actualidade é dura, mas em liberdade podemos sempre alhear-nos como se nada fosse.

Até que a água nos chegue aos pés, isto parece ser, embora movediça, areia firme. Sim areia. Porque se tentarmos sentir algo em tudo isto, esvaísse-nos entre os dedos.

quinta-feira, abril 29, 2010

Tânger

Terra de mercadores, primeira conquista portuguesa em África.

Tem todo o ar de cidade virada para o contrabando e para as trocas comerciais com a Europa. Os polícias estão sempre prontos a multar os ocidentais, em busca de um suborno que lhes componha o ordenado que o Rei lhes paga. Eu, como não gosto de subornar, pago e peço talão. Eles não gostam, mas acho que, se todos formos na conversa dos “criminosos”, acabamos por lhes dar razão para agirem como agem.

Tenho por hábito fugir aos “aglomerados” de machos, homens de negócios em busca de proveitos em terras estrangeiras. E um grupo que convivia no bar do hotel veio confirmar os meus temores.

Seis cromos na ordem dos 50, telefonam cheios de ganas, às 6 da tarde, para uma “promotora” de bons momentos. Pedem-lhe que se desloque ao hotel, exigem rapidez, e que se faça acompanhar de 5 amigas.

Ás 18h45 chega o harém solicitado.

Raparigas com bom aspecto, com tez magrebina, vestes ocidentais e perfumes foleiros.

Cá como aí, mulheres de vida.

Não gosto de lhes chamar o que são, prefiro manter-me longe da ideia de comprar os serviços que prestam.

E gosto de me manter longe de homens que negoceiam assim.

terça-feira, abril 27, 2010

Casablanca

Cidade fantástica. Encantadora.

Tem a maior Mesquita do mundo, e, para acompanhar o feito, os condutores mais “apanhados” com quem eu dividi os espaço das ruas por onde tenho conduzido.

Não tenho grande paciência para o trânsito das grandes cidades, e, normalmente, “passo-me” com os autênticos pastores que grassam pelas nossas estradas e ruas citadinas. O português, que normalmente é stressado, conduz como pensa: Muito devagar, de preferência de forma a estorvar o vizinho.

Aqui, onde as pessoas não transmitem stress em nenhuma situação, onde há sempre um sorriso para responder a uma pergunta, por parva que seja, onde o tempo parece prolongar-se de forma a apreciarmos o que de belo por cá se fez, o que de esplendoroso eles mantêm, conduzem como verdadeiros artistas.

Numa espécie de bailado coordenado, num contorcionismo que faz pasmar, aparecem por todos os lados, e cabem sempre onde ninguém acredita ser possível.

Então os “Petit Taxi”, que, como o nome indica são mesmo pequenos, aparecem como mosquitos. Devem bater muito, (embora nestas 24h ainda não tenha visto nenhum acidente), a julgar pelos imensos danos visíveis.

Mas, apesar de tudo, do trânsito constante e dos condutores loucos, é uma cidade a visitar.

Eu estou em trabalho, senão, visitava com certeza.

terça-feira, abril 20, 2010

O poder das pessoas

Uma mulher, que não seja estúpida, cedo ou tarde encontra um farrapo humano e tenta salvá-lo. Às vezes consegue. Porém, uma mulher, que não seja estúpida, cedo ou tarde encontra um homem são e reduze-o a um farrapo. Sempre consegue. (Cesare Pavese, in Il mistiere di vivere.)

Coloquei esta frase no mural do meu facebook. É uma das muitas que li num site bastante agradável, de que uso e abuso, de onde tiro frases, pensamentos, reflexões e onde consulto fabulosos autores das mais variadas épocas.

Esta é uma das cerca de 400 do tema mulher. Podia ser do tema pessoas. Ou do tema amor.

Curiosamente não gerou tanta polémica como uma outra publicada há alguns dias, mas gerou discordância em privado.

Gostava de aqui deixar a minha opinião acerca da dita.

Acho que a vontade de salvar um farrapo humano é comum aos nativos dos dois sexos. Quanto a reduzir a farrapo, é bem possível que a causa não seja a mulher, mas sim a paixão. A paixão, a insegurança, a solidão, a ilusão, as expectativas, são tudo factores que podem fazer de uma mente sã uma espécie de farrapo.

Como me dizia uma amiga, as pessoas não sabem viver sozinhas. Quando se livram de uma relação onde não querem estar, ou de onde são levados a sair, tratam imediatamente de procurar alternativa.

Há quem diga que não. Mas não há quem o faça.

As relações levam sempre uma das partes ao ponto de desespero, seja porque não se sentem nem ali, seja porque não sentem o outro ali.

Conhecem relações perfeitas? Nem eu.

Mas daí a perceberem que o fim do amor é inevitável vai uma enorme distancia. As relações só são algo parecido com a perfeição quando deixam de importar. Quando se deixa andar só porque o outro não incomoda muito, ou que até dá jeito.

Essas são as relações normais. As que perduram. Que levam e trazem fogachos de respeito e cumplicidade que se confundem com amor. As que geram a confiança entre duas pessoas que se respeitam, amam os filhos e não têm tempo nem coragem de assumir a ruptura.

Depois há os pragmáticos, os chamados homens ou mulheres de uma relação só. Aqueles que se separam antes de se tornarem farrapos, que antecipam o futuro da relação e precipitam o fim. Com determinação saltam de relação em relação até atinarem com a enfermeira, ou com o geriatra que os acompanhará até ao fim dos dias.

Esse é o poder que todos têm, a bomba atómica da relação.

Assim tenham a coragem de carregar no botão.

Senão, passam a vida a viver em guerra-fria…

domingo, abril 18, 2010

O vulcão islandês

Estes islandeses teimam em encrencar os europeus de qualquer forma.

Há alguns meses decidiram não apoiar um acordo com alguns credores (leia-se bancos do centro da Europa), o que levou à irritação de uma série de burocratas que lhes tinha indicado um caminho, impar diziam, para repor no bolso dos especuladores o dinheiro que, repentinamente, desvalorizou a moeda lá do burgo.

Faliram.

Como represália, e numa tentativa de retribuírem os prejuízos, em perfeito conluio com a natureza da ilha, de origem vulcânica num clima gélido, “impelem” uma nuvem de matéria por essa Europa fora.

Com os aviões em terra, a Europa a despender dinheiro, seja a pagar estadias e refeições, seja a alugar transportes alternativos, a Islândia, ironicamente, tem o espaço aéreo aberto. O aeroporto da capital está em pleno funcionamento, só que a população já não dispõe dos meios de que dispunha para viagens lúdicas. 

Sinais dos tempos…

domingo, abril 04, 2010

Notícias à pressão…

Quando vejo um dos jornais televisivos diários, o que, felizmente, é raro, interrogo-me porque têm os ditos que “encontrar” notícias suficientes para preencher o tempo de antena.

É irritante a quantidade de banalidades que brotam das bocas dos apresentadores.

A gripe A era, até há pouco, o “tapa-buracos”, o assunto recorrente até às campanhas eleitorais e às escutas de que já ninguém fala. Agora passámos ao PEC, esse bicho que nos há-de levar por esta crise fora, imposto por uma Europa forte que se una contra os fracos, numa espécie de matilha que, não expulsando quem não quer, o morde continuamente nas patas, para que este ao menos não pense que come e dorme seguro sem dar algo em troca.

Hoje, na ausência de notícias políticas, era o Tivoli, a urgência (?) de Valença, e a Páscoa de Castelo de Vide com a mistura de tradições judaicas e cristãs.

Com jornais tão enfadonhos, seria melhor fazer como o milionário que impõe folclore transmontano ao canal televisivo.

Já imaginaram se a imprensa escrita tivesse que preencher X folhas por dia, houvesse ou não notícias? Provavelmente enchiam-nas com puzzles sudoku, ou banda-desenhada.

Porque as notícias não têm dia e hora marcadas, seria bom que adequassem os horários à quantidade das ditas que têm para dar.

quinta-feira, abril 01, 2010

A morte à espreita

Temos como certo o destino. Ninguém escapa ao fim. Nem nada.

Todos o sabemos, não é nada de novo. O mundo, cheio de vida, é uma dança de cadeiras, ocupadas sequencialmente por nascimentos em lugares deixados vagos por quem parte.

A vida em tudo nos mostra que temos como certo o fim, embora vivamos como se aquele nunca viesse. Há-os que vivem com o epílogo no pensamento, não tirando partido, nem mesmo sentindo, o verdadeiro êxtase da existência.

Não que eu viva como um louco, em busca de diferentes experiências que me façam sentir vivo, nada disso. Acho apenas que, quando não fazemos algo, é uma parte de vida que deixamos de sentir.

Já todos nós perdemos alguém ou algo. Nada de novo.

Ontem, enquanto caminhava em direcção ao Metro, o Toni, amigo de longa data, vizinho mais velho que sempre respeitou os “putos” lá da rua, estava longe de imaginar que seria a sua ultima viagem terrena. Num ápice, num simples segundo, caiu e ali ficou. Apesar de rapidamente socorrido, de terem inclusive suspendido a circulação do Metro em toda a linha, a fim de facilitar a assistência, nada inverteu o destino do António Cunha.

Morreu com 49 anos.

É um amigo que parte, um pai que se perde, um filho que deixa os pais em dor e na angustia de verem partir quem criaram para cá deixar.

Conheci-o muito bem, privávamos conversas banais, ambições trocadas, relações falhadas, enfim, sobre tudo e sobre nada. Agradável no trato, sempre disposto à gargalhada ocasional ou ao conselho banal. Partiu.

Diziam-me hoje que havia um Padre que, nas Missas de Corpo Presente costumava dizer:

Até já! 

domingo, março 07, 2010

A raça do alentejano

 

Recebi este texto por e-mail, de um alentejano puro.

Se a definição for errada, eu encaminho as reclamações.

Não sei quem é o autor do texto, mas é digno de divulgação.

“A raça do alentejano?
É, assim, a modos que atravessado.
Nem é bem branco, nem preto, nem castanho, nem amarelo, nem vermelho....
E também não é bem judeu, nem bem cigano.
Como é que hei-de explicar?
É uma mistura disto tudo com uma pinga de azeite e uma côdea de pão.
Dos amarelos, herdámos a filosofia oriental, a paciência de chinês e aquela paz interior do tipo "não há nada que me chateie"; 
Dos negros, o gosto pela savana, por não fazer nada e pelos prazeres da vida;                                                                       Dos judeus, o humor cáustico e refinado.
As anedotas curtas e autobiográficas;
Dos árabes, a pele curtida pelo sol do deserto e esse jeito especial de nos escarrancharmos nos camelos;
Dos ciganos, a esperteza de enganar os outros, convencendo-os de que são eles que nos estão a enganar a nós;
Dos brancos, o olhar intelectual de carneiro mal morto;
E… dos vermelhos, essa grande maluqueira de sermos todos iguais.
O alentejano, como se vê, mais do que uma raça pura, é uma raça apurada.
Ou melhor, uma caldeirada feita com os melhores ingredientes de cada uma das raças. Não é fácil fazer um alentejano.
Por isso, há tão poucos.
É certo que os judeus são o povo eleito de Deus.
Mas os alentejanos têm uma enorme vantagem sobre os judeus:
Nunca foram eleitos por ninguém, o que é o melhor certificado da sua qualidade.                                                                     Conhecem, por acaso, alguém que preste que já tenha sido eleito para alguma coisa?
Até o próprio Milton Friedman reconhece isso quando afirma que «as qualidades necessárias para ser eleito são quase sempre o contrário das que se exigem para bem governar».
E já imaginaram o que seria o mundo governado por um alentejano?
Era um descanso.”

sexta-feira, março 05, 2010

Sinais dos tempos

Tenho reflectido sobre os acontecimentos dos últimos dias, mesmo semanas.

Reflectir é uma capacidade que nos atrapalha as ideias, muitas vezes faz-nos pensar no melhor para alguém que não nós próprios, o que, diga-se, não é muito inteligente.

O mundo anda numa agitação constante há milhares de anos, mas agora que somos muitos, as consequências dos abanões são sempre mais devastadoras. Mesmo no plano pessoal, e com a evolução constante da humanidade e dos meios ao dispor das sociedades desenvolvidas, as decepções e conquistas são mais suadas e difíceis.

O homem, numa ânsia de comodidade, tudo atropela. Natureza, tempo, outros seres humanos, sentimentos, vontades, tendências, enfim, todo um conjunto de imperativos que passaram para segundo plano, quando comparados com o nosso bem estar.

A comodidade leva-nos a olvidar os princípios básicos de uma sociedade.

O respeito faz parte da minha concepção de sociedade. Não me vejo a viver com a indiferença com que se apreciam casos de bullying, sejam eles numa escola ou na sociedade em geral.

Todos nós tivemos arrufos com colegas de escola, ou noutra qualquer circunstância, sendo que quem tinha a obrigação de nos orientar, fosse professor, superior, familiar ou alguém mais velho, normalmente se impunha sobre os nossos ímpetos, fazendo com que o bom senso de alguém mais maduro imperasse.

A anormal sensação de falta de respeito generalizada, pelos professores, autoridades de polícia ou justiça e mesmo pela família, demonstra que o sonho de muitos, que pensaram uma sociedade livre e justa, esbarrou no medo da autoridade.

O respeito pelos outros não deve ser abolido desta sociedade, mesmo correndo o risco de excesso de autoridade, ou corremos o risco de a convivência ser insuportável.

Como será possível que um miúdo de 14 anos, detido depois da 1ª violação e depois de 3 tentativas, dependa da bondade da mãe para que as autoridades pensem em o colocar em internamento compulsivo, de onde, muito provavelmente, vai fugir?

Como é possível que um miúdo de 12 anos chegue à conclusão que a única saída para os abusos que sofre é o suicídio?

Que sociedade será esta em que o estado não pode penalizar, em nome de um colectivo, alguém que não respeita os valores comuns?

Já ninguém respeita ninguém.

E continuamos a assobiar para o lado.

Sinais dos tempos…

terça-feira, março 02, 2010

Assim, não!

Acho sempre difícil alguém fazer sacrifícios, sejam eles quais forem.

Admiro todos aqueles que vão ao Mc Donald’s e bebem Coca-cola zero, os que vão ao café e tomam o dito com adoçante a acompanhar o belo do croissant, que pedem sempre salada para acompanhar os rojões, etc.

Mas quem admiro bastante mais são os que, à medida que crescem os dias, começam a luta contra os quilinhos acumulados, numa guerra com o tempo ou com a falta dele.

Admiro quem luta contra o tempo, contra as tentações e contra os erros. Ou quem os tenta emendar.

Admiro quem atravessa na passadeira, quem espera pelo sinal verde para os peões, quem sempre acha que o bem comum está à frente do individual.

Admiro-me quando vejo alguém dizer que não tem problemas, todos temos.

Admiro mesmo muito quem reconhece os seus erros, quem vê em si próprio o mal que, cristalinamente, vislumbra nos outros.

Admiro quem consegue lutar contra ventos e marés, quem rema para o lado em que acredita, apesar dos que teimam em soprar ao contrário, fazendo crer aos próprios que a brisa é contrária.

Admiro os cientistas que nos ajudam na busca de qualidade de vida, que nos “decifram” e que nos mostram os caminhos.

Admiro o gajo que inventou o Facebook.

Admiro os Filósofos que, na antiguidade, descobriram tanto sobre nós.

Admiro os homens.

Não admiro de forma nenhuma é que se vá gastar a quantia exorbitante de 200.000€ num palco para apenas uma celebração do Papa.

Não é admirável de forma nenhuma que, os seguidores do Homem que correu com os vendilhões do Templo, que praticou a simplicidade entre nós, ostentem tanta riqueza e esbanjem tanto.

Não é um bom exemplo. Tornam-se pouco admiráveis.

Ao menos corrijam o erro. Só pode ter sido…

domingo, fevereiro 21, 2010

Mundo cão virado ao contrário

Um destes dias dizia-me um amigo que o mundo era uma merda. Não concordo. Às vezes a vida é madrasta, mas o mundo não é assim tão mau, pelo menos, não tenho uma classificação tão redutora.

Há alturas em que a vida parece não fazer sentido absolutamente nenhum e acenderem-se luzes que nos guiam.

Há sempre sinais que nos chegam nas formas mais estranhas, que nos mostram caminhos, alternativas para uma vida que é única.

É agora. É este o nosso tempo. É agora que temos de fazer com que o tempo que aqui passarmos faça sentido.

Não podemos, não posso, não podes fazer do mundo o mundo de todos. O mundo é teu, e quando te alheias do teu mundo levas para um lugar obscuro e sombrio todos os que tentas agradar.

A vida, por muito que nos magoe, é quase sempre um desafio à altura de heróis. Por isso é que a grande maioria de nós se sente deslocado do seu mundo ideal.

Mas pode alguém abstrair-se do mundo que o rodeia e fazer sem olhar a quem magoa?

É a pergunta que se nos depara em enumeras situações, naquelas alturas em que não fazemos porque achamos que vamos magoar alguém, ou desiludir.

Enquanto assim pensarmos somos apenas mais um no meio de muitos que não vivem. Passamos o tempo a lamentar o que nos estava destinado. O destino somos nós que escolhemos.

Dizem os crentes que Deus deu ao homem o livre arbítrio. É nosso o direito de escolha, é nosso o nosso íntimo desejo. Mas esta sociedade que sempre se dispõe a avaliar e classificar comportamentos e vontades, é má companheira de vida.

É esta sociedade que nos proporciona os sonhos, paixões e desejos que depois nos leva a questionar o que achamos que é ideal para a nossa vida. E ata-nos as mãos, tolhe-nos os pensamentos e mata-nos os sonhos.

Mundo de merda? Não.

Mas ladrões de sonhos construíram uma sociedade que não nos liberta para a vida.

Poesia

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes
que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu que reunias pedaços
do meu poema reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me
qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer

Mia Couto

domingo, fevereiro 07, 2010

Tributar os bancos já!

O presidente da associação de bancos defende um aumento de impostos para que Portugal recupere a credibilidade.

Para darem o exemplo, diz que vão subir os spreads, devido à subida dos juros na fonte.

Defende-se dizendo que a rentabilidade dos bancos desce continuamente, à medida que cresce a taxa de juro que pagam aos financiadores estrangeiros.

Eu, como contra-medida, acho que se deve aplicar aos bancos, com efeito retroactivo e imediato, um taxa excepcional de 40% sobre os lucros do último ano. Acho que não se deve tributar mais os lucros de 2008, visto que foram anormalmente baixos.

Com a lata destes senhores aplicada no Ministério das Finanças, faziam-se actos de gestão do tipo: Partir o porquinho das poupanças das prendas de Natal, para pagar ao merceeiro.

Porque raio é que esta gente acha que deve continuar a assobiar para o ar, a mandar bitaites para a comunicação social, e anunciar reiteradamente lucros que nos fazem corar de vergonha, quando confrontados com a miséria crescente em Portugal?

Quem me conhece sabe que não sou propriamente defensor de radicais medidas de ataque ao capital. Talvez por medo do desconhecido, por sentir que o capitalismo em que vivemos é o melhor sistema, que permite uma razoável humanização da sociedade, que faz com que as pessoas possam sonhar sem achar que os sonhos são inatingíveis. Mas assim, com quem se aproveita de um sistema que deveria servir a todos, para, cegamente, buscar forma de agradar a alguns, temo que a democracia esteja em risco.

Pena é que tudo aqui seja importado, até as revoluções. Devíamos ficar pelo dinheiro…

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Faits divers

São fatos desconectados de historicidade jornalística, ou seja, referem-se apenas ao seu carácter interno e seu interesse como fato inusitado, pitoresco.

É este o significado da expressão francesa.

Enquanto navegava pelas páginas do ciberespaço, dei com vários. O que mais me espantou foi o facto de as reportagens mais lidas no site de um dos jornais lideres em audiência no nosso País, serem as referentes aos assuntos mais parvos e pitorescos de uma sociedade que já se alheou completamente da realidade que a possa afectar.

Com larga vantagem, estava a noticia que dava conta do incêndio que devorou o carro do marido de uma conhecida apresentadora.

Em segundo vinha (com pouca vantagem sobre a notícia de uma prostituta querer mudar de vida) a notícia de uma actriz internada compulsivamente numa ala psiquiátrica por ter atacado a avó à facada.

Por fim, em quarto lugar, destacava-se uma peça que narrava a vingança de uma amante ofendida, que ao saber que o “moço” que frequentava a sua cama era casado, atraiu-o para um Motel e, à boa maneira de Hollywood, colou-lhe o pénis à barriga. Chamou outras três ex-enganadas e celebrou a vingança.

Ninguém se preocupou com o País, a política que temos ou o orçamento que nos vai governar. Nada.

Continuamos como até aqui.

Assobiamos todos muito bem e queremos saber o que vai em casa da vizinha.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Periférico? O Porto não!

Entre outros assuntos, está em análise a rentabilidade das linhas de alta de velocidade.

Diz um estudo feito vá-se lá saber por quem, que o Aeroporto de Lisboa, o novo, se paga a ele próprio. Diz ainda que a linha Porto-Lisboa e Porto-Vigo serão deficitárias e não gerarão o suficiente para se pagarem a si próprias. Parece que rentável só é a linha Poceirão-Caia (!). A malta de Lisboa tem mais hábito de ir comprar caramelos à fronteira.

Mas porque raio é que acham que uma linha de TGV nos dá centralidade? Mas será que Málaga ou Sevilha cresceram com o TGV? Dizem que sim, nas férias da Páscoa. Mas se o Zé povinho gosta tanto do bólide e é tão bem servido de Auto-Estradas, porquê mais uns milhões numas linhas de comboio?

Não seria mais rentável a expansão da rede do metro?

Não seria mais rentável o incremento das verbas a distribuir pelas autarquias por onde vai passar o TGV, para que estas se desenvolvam e evitem a excessiva centralidade de Lisboa?

Será que os nossos governantes ainda não repararam que o que evita o desenvolvimento do País é o excessivo protagonismo da capital em relação ao resto do território?

Periférica está Lisboa de tanto chamar a si o centro do que não consegue controlar: A geografia.

Não vai ser o TGV que os vai aproximar do resto da Europa. A única cidade que o TGV vai tirar da periferia ibérica será Vigo.

O Porto nunca lá esteve. Daqui nasceu Portugal.