Já me sinto aliviado da tensão que criei a mim próprio nos últimos 4 meses.
No dia 7 de Novembro de 2010 atingi um dos objectivos a que me propus.
Nada de especial. Tão só deixar-me embalar num rotineiro trote pelas ruas do Porto, cidade que me viu nascer e que sempre me surpreende pela beleza que espalha.
Na companhia de mais uns quantos apaixonados, que têm como passatempo, sempre que podem, experimentar as sensações que a endorfina nos provoca.
Quando embalei ruas da invicta fora, com a chuva que ainda caía naquela manhã de Domingo, senti a verdadeira liberdade. Senti que apesar do sofrimento que vinha, valia a pena estar ali.
Comecei em Julho a preparação. Durou todo o Verão, custou-me alguns petiscos, muitas unhas negras e horas de descanso. Mas não trocava nenhuma hora de treino por outra qualquer coisa.
Concentrado em ver no que me tinha tornado, curioso com as descobertas que faria, lancei-me ao desafio. É curioso como, depois de tanto treinarmos, sabermos que aquele pode ser um dos maus dias, um de pouca disposição para o sofrimento. Treinei afincadamente o sofrimento. E rapidamente me apercebi que o dito era a única companhia que tinha assegurada para aquela manhã.
Sem enumerar etapas, sem sequer as prever, achei que a banda que tocava junto à Alfandega do Porto estava já mais cansada com a hora e meia de atuação, do que eu e o Pedro com o alcatrão já calcorreado.
Impressionante a frescura que apresentavam os primeiros da prova, como se as endorfinas deles fossem mais puras que as minhas. Ou então nem dão por elas, entretidos com os tempos e os mínimos e os prémios. Sim que isto de correr é como sexo: Não deixa de o ser quando é pago, mas sabe melhor conquistado, desejado, suado e por prazer.
O Porto visto de Gaia é formidável. Enche-nos a alma dizer aos que cá vieram apenas sofrer que aquela é a nossa cidade, e que aquele quadro pintado em socalcos urbanizados é elixir suficiente para inebriar os músculos e levitar mais um pouco.
Já ia longo o caminho, decalcado por tantos Domingos a contar a sombra das pontes, a saltar entre canas de pesca e sacos de isco, e a cidade só para mim.
Vale a pena tanto andar para desfrutar da cidade só para nós. Não faço uso da música para me entreter nas horas que passo enfiado nas sapatilhas. A cidade é a melodia ideal. De noite a melodia é de luz, naquele Domingo a melodia era o Rio, a paisagem e o vento.
O vento, esse companheiro de sempre. Quando saio para treinar escolho o trajeto pela sua direção; nesse dia não me deu escolha. Depois de tanto esperar que eu passasse teve de soprar. E apanhou-me em cheio. Lá fui empurrando como consegui, sangrando da inexperiência latente na t-shirt, só pensava que estava ali para aquilo. Para sofrer. Ninguém me tinha dito que as endorfinas não são eternas. Somos nós que temos de enfrentar todo aquele emaranhado de sensações.
Não há como fugir. É um encontro com o nosso interior.
Buscamos forças onde já não as há. E choramos sem lágrimas deitar.
A emoção maior, a mais esperada, a meta.
Adornada por amigos que como eu sofreram e que deram o bálsamo para amenizar tudo aquilo que estava espalhado pelas ruas da minha cidade.
Felicitado, medalhado, fotografado e já com o descanso de ter terminado, senti-me finalmente um PORTO RUNNER!