quarta-feira, abril 24, 2013

Folha de couve é tão boa como vaselina

Não esperava tamanho ensinamento, logo no primeiro dia do Caminho de Santiago.
O Caminho está a correr lindamente. 37 km na etapa da manhã, 18 de tarde. Optámos por ficar em Barcelos, ao contrário do programado, Tamel, por termos tido vaga num excelente Albergue, com lotação de 10 pessoas. Ocupámos uma camarata com 3 beliches (6 camas) e, em dia de começo das Festas da Cidade, vamos tentar repousar para o dia de amanhã. Serão 49 km, 30 até Ponte de Lima onde almoçaremos.
Começamos bem cedo, na Sé do Porto, com o conforto da presença do Pedro Marques e do José Mimoso, que quiseram despedir-se e apoiar na hora de saída. Fizemos calmamente a etapa até S. Pedro de Rates, serpenteando as bermas tentando não acertar nos imensos carros que cortavam as curvas do Caminho, que também é Estrada Nacional. Da Maia até pouco depois de Rates, um imenso cheiro... Como dizer sem chocar... A merda! Entrámos no caminho em período de fertilização dos campos, nada agradável em comparação com o imenso cheiro floral nos km de aproximação a Barcelos.
Cruzamo-nos já com imensos peregrinos, desde 2 ciclistas brasileiros que compraram os veículos à chegada a Lisboa, ou 3 dinamarqueses que saíram de Lisboa, a correr (50 minutos/hora e 10 de descanso) há 13 dias, e que vão para Pamplona via Santiago. Há gente feliz (ou doida).
Quanto à couve, serviu como protecção das virilhas, à falta de vaselina. Impressionante como o Caminho nos dá o que precisamos. Está lá tudo, é só ter atenção e aproveitar.
Amanhã há mais!

terça-feira, abril 16, 2013

Boston Marathon

É a Maratona popular mais antiga do mundo. Decorre na cidade de Boston, ininterruptamente, desde 1897. Todos os anos são dezenas de milhar que tentam a inscrição na prova. Sendo uma das chamadas "Big Five", é sem dúvida a mais emblemática, por ir já na 117 edição.
Já corri algumas maratonas, mas ainda não corri nenhuma das ditas "grandes". Esse é um acontecimento que deixo para mais tarde. É um daqueles projectos de vida de um corredor, fazer uma maratona mítica, com história, onde somos grandes entre milhares de anónimos. E num projecto de vida, as pessoas empenham-se. Gastam muitas horas a preparar o momento de cruzar a 26 milha, ou o km 42, quando olha para o marcador do tempo e vê em quanto se resumiu todo um trabalho de preparação de tão grande e nobre desafio. Conseguir fazer uma maratona é digno de coragem, determinação e paz. Ninguém corre uma maratona com espírito de vingança, com preocupações na mente ou pressa para ir fazer uma outra coisa qualquer. Numa maratona, tudo se potencia. As emoções são redobradas, a força vem de onde menos se espera e a vontade de acabar supera normalmente todas as fraquezas. São inúmeras as imagens de atletas a acabar as provas com crianças ao colo, ou pela mão, abraçados a alguém que os espera na meta, ou a acenar para aquela pessoa especial que, na bancada, aguardou todas aquelas horas, esperando o concretizar de um sonho, de um culminar de tanto treino e sofrimento, com tempo roubado a quem tanto apoia.
Foram estes os momentos que aquelas explosões roubaram.
Roubaram momentos, vidas, pedaços de corpos, sonhos e futuros. A imagem de um jovem com a perna desfeita numa cadeira de rodas é impressionante.
Porquê?
Perdoem-me a pouca vontade de rir com o humor negro de alguns idiotas, e a imensa vontade de lhes dar umas valentes chapadas, mas aquilo é o que de mais vil e cobarde se pode perpetrar.
E quando me dizem que o Mundo é insensível ao sofrimento que se vive na Síria, às guerras no Iraque ou Afeganistão, ou à fome na Índia, eu respondo que, ninguém busca o inferno para entrar num paraíso. Mas numa maratona, muitas vezes se passa um inferno para atingir o paraíso (meta). E foi isso que roubaram ontem.
Hoje continuamos a correr. É essa a lição que damos aos que querem vencer-nos pelo terror.





quarta-feira, abril 03, 2013

Juras de Amor

Chegado a Madrid por afazeres profissionais, enquanto espero, apraz-me contar-vos uma breve história.
Tinha ela pouco mais de 20 anos. De cabelos longos, tão longos como mantos de princesa, negros e brilhantes, atraía a atenção de muitos, despertava até a paixão em alguns. Ele, um pouco mais maduro (fazem 4 anos de diferença), rapaz do campo que se ia adaptando à vida da cidade, reparou nela mal a viu. Cortejou-a. Aproveitando o facto de seu pai fazer jardinagem onde ela vivia, um dia, sabendo-a por lá, sorriu-lhe, enquanto trocavam atenções matinais e cuidados de alerta. Buscava seu pai, como desculpa, com a intenção de ver sua amada.
Podia ser uma grande história, cheia de floreados e quadros coloridos. E foi. Ou melhor, é, porque fazem hoje 48 anos de casados. Um dia conto-vos a história completa. Para já, deixo-vos apenas a dedicatória do maior troféu que um homem desejava da mulher amada: A foto da própria com dedicatória que atestava o amor correspondido.
Artur e Maria José, vocês são um belíssimo casal, patriarcas de uma bela família (7 filhos, 7netos e tantos outros que se sentem como tais) onde todos se dão bem, como foi vosso desejo.
Parabéns Pai e Mãe.






quarta-feira, março 27, 2013

Correr por prazer nos Caminhos de Santiago

Como alguns de vocês já sabem, vou em breve aventurar-me no Caminho português de Santiago.
Será uma aventura com mais 4 amigos, em que vamos fazer 5 maratonas em 5 dias, de 24 a 28 de Abril. Chamamos-lhe “Os 5 no caminho”.

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Escrevo este texto para que compreendam a enorme honra que foi para mim receber tão grande distinção, entre tantos que podiam ser escolhidos, e para poder partilhar do porquê, embora sendo imensa a vontade, infelizmente irrealizável, de vos poder levar a todos connosco.

A ideia surgiu já há mais de um ano, no seguimento do desejo manifestado por alguns, em fazer o caminho. Logo na altura aflorámos a possibilidade de o fazermos em conjunto, com familiares e amigos, no fundo, a quem quisesse juntar-se à aventura, a caminhar, de bicicleta ou a correr. Rapidamente chegámos à conclusão que seria inviável juntar grupos tão dispares e com ritmos tão distintos, e que a logística inerente à realização de tal empreitada seria muito complicada de gerir. Assim, e por decisão comum dos intervenientes, ficou decidido restringir o grupo aos 5 que vamos correr e a um elemento do apoio logístico. É mais fácil de coadunar vontades e mais fácil o acesso aos albergues dos peregrinos, que como sabem, têm lotação limitada, bem como mais simples o apoio aos atletas.

Foi para mim uma honra enorme, a irrecusável proposta para acompanhar o Luís Pires, Carlos Natividade, João Paulo Meixedo e Vítor Dias em tão nobre e marcante epopeia.

Fui escuteiro e militar, ou melhor, sou as duas coisas, porque, uma vez feita a promessa de escuteiro, torna-se eterna, e porque quando passei à disponibilidade na Força Aérea, parece que ingressei num contingente de reserva até aos 45 anos e tenho alguma experiência em coisas que custam a fazer, mas que nos dão um prazer enorme em conseguir realizar. Tenho um historial de conquistas individuais que seriam inalcançáveis sem o apoio de muitos, mas sei que fazer “o caminho” sozinho seria praticamente impossível. Era um objectivo de há muito, mas queria fazê.lo com um grupo que me proporcionasse um sentimento de partilha muito forte. “O Caminho”, tal como a nossa caminhada na vida, apesar de poder ser penoso, ser propício a percalços, deve ser um caminho de partilha, introspecção, desfruto da natureza envolvente, uma espécie de resumo espiritual em pouco mais de 240 km. Quase todos os que o fazem, fazem-no com uma intenção forte, como os que peregrinam para outros destinos. Será seguramente uma das mais ancestrais peregrinações, oriunda de vários pontos do velho Continente, que desperta em crentes e não crentes, uma atracção que não se explica apenas na fé, mas numa vontade de conseguir chegar onde a humildade tem significado. Fazer tamanho caminho, se não for imbuído de um espírito de partilha, de resumo à condição de errante neste mundo cada vez mais orgulhoso e egoísta, perde significado. Ir a um local com tamanho significado espiritual, com estes quatro inspiradores amigos, é de uma honra e prazer que não vos posso, ou não sou capaz de descrever.

Senão vejam:

Luís Pires - 56 anos, tem quase 100 (!) maratonas, número que deve atingir este ano, tendo começado a correr aos 46.
Conheço o Luís desde que me inscrevi nos Porto Runners, há cerca de 3 anos. Já “fiz” com ele mais de uma dezena de maratonas e ultra maratonas. Por muito mau tempo que alguém faça, é o primeiro a valorizar o esforço, o primeiro a disponibilizar-se para ajudar alguém a fazer melhoria de tempos, a apadrinhar estreias, ou a incentivar para novos desafios. Para o Luís não há impossíveis.

Carlos Natividade – O Carlos quase dispensa apresentações. É um exemplar atleta e uma pessoa inspiradora. Há muitos anos neste mundo das corridas, tem maratonas feitas no tempo em que os que as corriam, não chegavam à meia centena. Tem um historial longo de corridas embrionárias das (imensas) actuais provas de trail. É contemporâneo do malogrado Sálvio Nora, pioneiro, com o José Moutinho, das provas de resistência em montanha.
O Carlos tem já 8 “Caminhos” realizados, ora de bicicleta, ora a pé, tanto no português como no francês e inglês. É escuteiro, mostra-o permanentemente num espírito de constante partilha e entreajuda. Faz a simbiose perfeita com a sua esposa, a quem carinhosamente trata por “Náná” (Fernanda) e que vai fazer o trabalho herculeano de apoio logístico. 

João MeixedoComo ele costuma dizer, um “aprendiz de feiticeiro” nestas coisas das corridas, mas que é já um experimentado maratonista. Com participações em Boston, Paris ou Adelaide, leva as sapatilhas para os sítios mais recônditos para onde vá. Já fez, sozinho, a travessia da Ilha de S Jorge, a meio de umas férias em família. É um apaixonado das corridas. Meu companheiro na mais apaixonante prova que fiz, a Ultra da Freita do ano passado, e que me acompanhou em muitas outras provas. Foi o homem do abraço em Sevilha. E aquele abraço significou muito, tanto quanto ele sabia que significava aquele tempo, apesar de pouco importar. 
Ateu, tem mais espiritualidade do que muitos apaixonados crentes. A racionalidade que emprega em tudo o que projecta e faz, é quase sempre traída pelo enorme coração e espírito de entreajuda que revela em cada atitude. Sempre disponível para todos, conseguindo ter, entre os inúmeros compromissos, o tempo que lhe é indispensável para a amizade. Incrível como consegue ter mais do que muitos apregoam, sem ter a necessidade de o mostrar. É a prova que a simplicidade só é possível nos que fazem simples, aquilo que complicadamente conseguem.

Vítor Dias – Padrinho de muitos nas corridas, também é o meu. É o principal responsável pelo que eu consegui fazer nestes últimos anos. Foi no seu site que me inspirei e suportei para dar o “passo seguinte” na corrida. Já sei que há muitos sites de corrida, mas só neste é que me foram incentivando e apoiando. O Vítor, desde o primeiro contacto disponibilizou-se para me acompanhar em treinos, prontificou-se a ajudar no planeamento da minha primeira maratona, levou-me para os Porto Runners (onde conheci tantos outros enormes atletas, enquanto seres humanos), fez questão de me acompanhar em muitos treinos e faz questão de o continuar a fazer. É um dinâmico companheiro, sempre disposto a apoiar o atleta de pelotão. Não há outra homenagem que seja mais justa fazer-lhe, senão dar-lhe este lugar de padrinho. Foi ele o responsável pelo meu salto, ao acreditar e fazer-me crer que tudo era possível com empenho e trabalho.

Como já referi, é uma honra enorme tentar acompanhar tão ilustres companheiros nesta nobre empreitada. Só espero ser digno de tamanha distinção.

Vamos então, ao “Caminho”!

sexta-feira, março 22, 2013

O outro lado dos Trilhos do Paleozoico

Agora, quase uma semana depois do evento, já com as pernas recuperadas de mais um empeno, resta a recordação de 5 dias preenchidos na ultimação dos trilhos que foram percorridos por largas centenas de atletas e caminheiros. Coube-me desta vez experimentar o outro lado das provas, o lado do frenesim constante para que nada falhe, o lado do stress estampado na cara do Director da prova, o lado das reclamações de quem participa e o lado da impotência perante factos consumados que não se conseguiram evitar, como a desagradável notícia de uma atleta que, infelizmente partiu a tíbia.

É digno de louvar o trabalho de quem se decide a montar tamanho “circo” quase sem apoios. Já o disse, volto a referir, o Luis Pereira e o Asdrúbal Freitas fizeram o milagre de, numa Serra que todos pensávamos conhecer, nos surpreender com trilhos fantásticos, abertos por eles, à mão, como pude testemunhar, quase sempre com uma tesoura de podar e uma sachola. Não se limitaram a marcar um percurso em estradões e trilhos existentes. Procuraram beleza que todos pensávamos não existir, e proporcionaram-nos uma nova prova que, esperemos, subsista por muitos anos. E pelo que vi, ainda há muito para mostrar.

Desde há uns meses, quando começaram os preparativos para a prova, organizaram treinos nos trilhos para que, quem se quisesse ir ambientando aos percursos, à dureza de algumas subidas, e também para ajudar a manter limpos e calcorreados os trilhos abertos, o pudesse fazer.

Disse na altura ao Luis Pereira que, ou me inscrevia e fazia a prova, ou lhe dava apoio no que fosse necessário. Claro está que tive de lhe ligar na véspera de começar a marcar os trilhos. O Luis é assim, reservado, sempre disposto a dar, mas pouco disposto a pedir. Andou até à última para apelar por voluntários para os abastecimentos, depois de lhe roerem a corda os que se tinham comprometido a fazê-lo.
Mesmo depois de começarmos a marcar trilhos, teve sempre alguma relutância em colocar nos ombros de outros a árdua tarefa de se certificar que nada falharia. Nada falhou, graças a todos os que colaboraram, e também graças a ele, que quando via um troço mal marcado, desmarcava e marcava sem o referir.

Na véspera da prova, depois de colocarmos marcações nos trilhos mais próximos de zonas habitacionais, eles voltavam a desaparecer. No dia da prova, o Marco Silva, Asdrúbal Freitas e o Miguel Catarino, foram para os três terços da prova para se certificarem que tudo estava marcado em condições. Os diversos voluntários, quase todos ligados à corrida, espalharam-se pelos diversos abastecimentos para assegurar o bom funcionamento de todos no apoio aos atletas. Nada faltou. Quando o Luis se apercebeu que podia faltar abastecimento em Couce, foi a um hipermercado nas redondezas e rematou literalmente tudo o que eram bananas, laranjas, água e coca cola. Rapidamente, e sem que ninguém chegasse a sentir falta de alguma coisa, chegaram os víveres aos abastecimentos.

Houve falhas? Claro que sim. Só não erra quem não trabalha. Mas ficou a sensação de dever cumprido, a sensação de que, tudo o que podia ser antecipado o foi e correu bem.

Na análise à participação de todos, depois de 2 dias a tirar fitas nos trilhos, devo enaltecer o civismo e urbanidade com que todos trataram a natureza. Foram poucos os invólucros de géis e outros lixos habituais que encontrámos.
Houve colaboração de todos com os membros da organização e houve bom senso e paciência de todos os que colaboraram.

Fica a vontade de voltar a participar, seja na organização, limpeza de trilhos, marcação ou a fazer vassoura, como fiz em metade da prova, tendo-a deixado ao Rui Barbosa para dar apoio em Couce.

Parece-me que os Trilhos do Paleozoico são já a prova de referência no Porto para quem se quiser aventurar em provas de trail em distâncias ultra. Uma prova de 43 km que passa por três serras (Sta Justa, Pias e Castiçal), com desnível acumulado de mais de 4000 mt, com passagens por linhas de água, single tracks, enormes paredes e descidas menos íngremes e mais longas. Quem não teve oportunidade de fazer a prova, aproveite e apareça num dos muitos treinos que se organizam ao longo do ano.

Obrigado ao Luís por me proporcionar a oportunidade de viver por dentro o reboliço da organização de uma prova, até ao descomprimir do “arrumar da casa”. Fiquei com a bela sensação que ganhei mais respeito por todos os que se esforçam por pôr uma prova de pé. E ganhei uma admiração especial pelo espírito altruísta de muitos atletas do trail, que abdicam de competir para apoiar. É como na montanha, um amigo que precisa da nossa ajuda, e que a tem antes mesmo de a pedir. Assim é que é bonito. Este é o nosso espírito, dos que fazemos trail. Estamos lá para proveito próprio, mas sem passar por cima de ninguém, e abdicámos do melhor para nós, pelo bem de mais alguns.

Bem hajam!

sexta-feira, março 15, 2013

Trilhos, placas e fitas

 

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“Ninguém te encomendou sermão”, dizia a minha avó, transmontana de palavra fácil e directa e que habitualmente me colocava assim no lugar, quando me atrevia a falar sem que nada me perguntassem. 

Vem isto a respeito do que andei a fazer nos últimos dias, com o Luís Pereira, Asdrúbal Freitas e Marco Silva. O Luís, que com o Asdrúbal e ajudas pontuais de algumas pessoas, tem desbravado mato e traçado trilhos nas belas Serras de Pias, Sta. Justa e Castiçal, (que juntas formam a popular Serra de Valongo), para poder proporcionar aos mais de 1000 atletas que se vão aventurar na 1ª Edição dos Trilhos do Paleozoico, excelentes momentos de divertimento e aventura na natureza. Temos aqui um excelente espaço, com potencial para o trail, muito próximo do Porto, com excelente oferta de transportes, que provam que para fazer trail, não é necessário ir para recônditas serras do País, nem gastar muito mais que uma mera viagem de autocarro.

Os trilhos estão a ser marcados desde há alguns dias com placas indicativas, sinalização pintada em estrada, placas de alerta e com as habituais fitas de marcação de percurso. 
Todas as provas fazem alertas de segurança sobre os trajectos, (esta também o faz, leiam o regulamento), especialmente as provas de trail, e particularmente as que se desenrolam em ambientes onde os perigos espreitam onde menos se espera. Diz-nos a experiência, que nestas provas junto às grandes cidades, há sempre alguém que se aventura para experimentar uma nova vertente de corrida. Devem ter em atenção que a Serra de Valongo é constituída por escarpas, fragas (com enormes poços) e trilhos com inclinações às vezes superiores a 20%. É muito provável que chova, por isso devem usar calçado adequado e irem munidos de um impermeável, ter uma manta térmica na mochila de hidratação e algumas barras energéticas. Apesar de não fazerem parte do material obrigatório (telemóvel e reservatório de hidratação), estes artigos que referi podem fazer a diferença, caso haja algum imprevisto num trilho onde o acesso dos meios de apoio sejam mais demorados, ou mesmo serem fundamentais no caso de encontrarmos algum participante em dificuldade. Na montanha os cuidados nunca são demais.

Apesar destes meus alertas, fica o meu testemunho de que tudo está a ser acautelado, para que nada falhe.

Assim, e para vos poder passar a imagem do que vão encontrar na prova, deixo-vos algumas imagens da sinalização dos percursos.

 

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Fitas que marcam o percurso

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Quando vires esta placa, volta para trás. Indica trilho errado.

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Placa que indica trajecto para os 43 km. Existe outra para os 16 km.

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Placa indicativa do percurso

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Fita na horizontal para alertar para percurso.

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Esta sinalização não é da nossa prova.

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Setas que ficaram, indicam o mesmo trilho, mas não pertencem à prova.

 

Não olhem só para o chão, há perigos que espreitam ao nível da cabeça. Apesar do cuidado que o Asdrúbal e o Luís tiveram na limpeza dos trilhos, há sempre obstáculos mais difíceis de transpor, se assim não fosse perdia a piada.

A organização, que embora pareça de muita gente, é uma empreitada digna de louvor do Luís Pereira e do Asdrúbal. São dois enormes campeões, que correm muito e são dos melhores a nível nacional, e que conseguiram transpor para esta organização o nível de excelência que têm como atletas.

Parabéns a todos os que colaboraram com eles, patrocinadores à cabeça. A vossa aposta foi acertada.

Boa prova a todos!

segunda-feira, março 11, 2013

Vontade de correr

Não que ainda não tenha corrido hoje, nada disso. Já fiz um treino de pouco mais de uma hora, 13 km para recuperar activamente da porrada literal que levei no Sábado, num louco treino de 30 km, entre a Póvoa de Varzim e Matosinhos, num desafio ao vento que soprava de frente a mais de 60 km/h. Ali para os lados do Cabo do Mundo, começou a dar-me mais vontade de andar do que de correr. O paciente Kim Lopes, lá me acompanhou até ao fim, ao meu ritmo. É fantástico como há quem faça maratonas abaixo das 2h50, e mesmo assim tenha paciência para aturar tartarugas... Fantástico!Entretanto, hoje, vejo este vídeo e dá-me uma vontade louca de voltar a calçar as sapatilhas, sair porta fora e correr sem que nada se transforme em obstáculo.É este o espírito do trail. Nada, mas mesmo nada nos detém. Há monte? Sobe-se!Há rio? Atravessa-se nem que seja a nado!Há coração? Corre! Corre! Corre! Serra os dentes e corre!Livre, tu e a natureza. A simbiose perfeita!

sexta-feira, março 01, 2013

Ultra Trail “Ad Hoc”

O termo “ad hoc”, do latim, é normalmente utilizado para justificar uma especificidade que varia do significado normal do acto, ou experiência. Neste caso, será um Ultra Trail, que se distingue dos demais por não ter, nem partida em conjunto, nem chegadas ao sprint, sob pressão de tempos cronometrados para a geral, sem aglomeração de atletas, e sem sequer um trajecto para percorrer. O que a distingue das demais corridas é precisamente o facto de os atletas escolherem além do trajecto, tempos de descanso, paragem e abastecimentos, escolherem também a hora de saída, tendo uma janela para o fazer de 12 horas na Ultra, ou de 3 na distância mais curta, desde que respeitem o tempo limite de prova. Claro está que o tempo de prova só começa a contabilizar a partir da saída.

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Estou a falar da Ultra Trail Picos da Europa que se vai realizar no final de Julho, nas distâncias de 120 ou 50 km, e cujo tempo limite será de 50 horas para a distância mais longa, ou de 25 para a mais curta. A corrida é feita em par, em regime de autonomia total, com possibilidade de ter nos pontos de controlo (refúgios de montanha) outros elementos ligados à equipa, que possam fornecer equipamento, abastecimento ou outros apoios que sejam necessários. Podem-se utilizar mapas, gps, bússolas, ou outros elementos de apoio à orientação no terreno da prova.

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Será com certeza uma prova de sonho, com imagens e momentos espectaculares, num ambiente único, diria mesmo de sonho, para se fazer uma prova extrema, em que o apoio é o companheiro de equipa.

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Arrisco-me desde já a organizar uma equipa de apoio para quem se atrever a inscrever-se na prova.

Quem se atreve?

terça-feira, fevereiro 26, 2013

A melhor Maratona do Mundo

É uma experiência reconfortante, a de cruzar a meta de chegada de uma maratona. Mas mais reconfortante ainda, é cruzar a meta, abraçar um amigo que me espera e que conhece o autêntico caminho de cabras que tenho feito até aqui.

Já se torna um pouco redundante falar da perca de peso com a corrida. Todos perdemos. Há atletas ilustres que saíram do sofá para o topo, que trocaram cigarros por sapatilhas ou lua-de-mel nas areias brancas e águas temperadas por longas corridas nas montanhas, entre bolhas e entorses e hipotermias. Mas estes, já mais de 50 kg, e os pequenos degraus que vou subindo, levam-me ao enorme de desejo de apregoar ao mundo e a todos, que todos podemos ser aquele caso de sucesso. Quando alguém se mete ao caminho, se dedica e se compromete consigo próprio a fazer o que lhe determinará o sucesso, nem sempre terá sucessos, mas quando eles chegarem vão ter um sabor infinitamente superior a todos os obstáculos que teimosamente foram aparecendo.

Já conhecem a minha história, é pública, está aqui relatada. Sou maratonista contra todas as probabilidades. Já fiz 8 maratonas de estrada e 6 ultras de montanha, mas nunca tinha conseguido baixar das 4 horas na maratona. E porquê? Porque nunca (excepto na primeira) preparei a maratona com antecedência e cuidado, obedecendo a um plano de treinos e provas que me levassem a adquirir forma e performance que o proporcionassem. A título de exemplo (a não seguir), há duas semanas fiz 107 km no total dos dias, quilometragem pouco aconselhável totalizada 8 dias antes de uma maratona. 
Mas porquê as 4 horas? Porque a grande maioria dos maratonistas amadores, aqueles que não se ficam por apenas uma experiência, tentam baixar da 1/2 hora que normalmente ultrapassam; os que fazem entre 3h30 e 4h, tentam baixar das 3h30 e os que fazem pouco acima das 3h, tentam baixar desta barreira, e entrar num restrito grupo. Tudo isto requer trabalho, disciplina, dedicação e planeamento. Nada aparece ao acaso.
Ora eu, pouco adepto dos “planos de treinos”, pouco disciplinado quanto à obrigatoriedade de seguir dias específicos com treinos específicos e mais virado para o Correr Por Prazer, ia já para a sexta maratona de estrada com a expectativa de baixar das 4 horas, mas, nas 5 anteriores, normalmente por 1, 2 ou 5 minutos, não o tinha conseguido. Há um ano em Sevilha fiquei a um minuto, em Outubro no Porto a 2, por este ou aquele motivo falhava. Nada de grave, não era uma obsessão. Decidi pôr de parte esse pensamento em cada prova que começava, focando-me apenas na capacidade de saber controlar os meus ímpetos quando a prova começa e tudo são forças, e impulsionar as pernas com a cabeça quando os músculos gritassem de cansaço. Foi assim em Lisboa, em Dezembro, onde acabei a Maratona com um atleta que tinha nascido com os pés botos, no meu pior registo, mas a testemunhar um feito heroico e arrepiante, num autêntico desafio à natureza.

Este ano parti para Sevilha sem grande pressão, integrado num grupo de amigos, onde não faltou um repasto no Alentejo, regado com maduro tinto, onde as entradas foram “Pezinhos de coentrada” e o prato principal “Migas com plumas de porco preto”. Nada de massa, peixe grelhado, água ou cola zero. Não é propriamente ementa de atletas, mas porra, na véspera ninguém estraga uma prova, e o convívio e descontração são fundamentais. Claro que tive o cuidado de correr pouco na semana anterior, (fiz 4 treinos de 9 km), hidratar-me bem e descansar melhor. Na véspera, com as emoções à flor da pele, nem o descanso é o ideal, por muito que se deseje, nem a alimentação vai fazer grande diferença (sem exageros, claro). A massa ficou para o jantar.

Fiz uma prova extremamente regular. Sabia que, com tantos km entre provas e treinos, se exagerasse pagaria com mais uma desilusão. A meio da prova, ao chegar aos 21 km, caí na real e retirei toda a pressão da cabeça e disfrutei daquele ambiente único. Não há ninguém que termine uma maratona que não seja digno da minha admiração, acabe com 2h ou com 6h, porque ninguém faz uma maratona sem sofrimento. E ninguém acaba sem determinação.

Ao chegar à Isla Cartuja onde está o Estádio Olímpico de Sevilha, com tempo mais que suficiente para acabar abaixo das 4h, sorri. E foi a sorrir e a resumir mentalmente, com uma sensação de dever cumprido, que fiz aqueles últimos 4 km. Entrei com tanta descontração no Estádio, olhei para o ecrã gigante, vi a meta e desatei a acelerar como se estivesse num imenso campo florido de felicidade. Depois de a cruzar uns longos braços que me apertam em maior êxtase e satisfação que eu. Era o João Meixedo, que depois de fazer uma notável prova, em 3h37, um mês depois do que penara nos Abutres, me esperava junto à meta, fazendo da minha felicidade e do meu objectivo cumprido também o seu. As 4h eram, mais que um objectivo pessoal, uma obrigação para com todos os que, como ele, me apoiam e me acompanham desde há alguns anos.
É este o espírito da corrida e dos maratonistas. Habituados a sofrer, sabem o que todos os outros sofrem e vivem os objectivos e feitos alcançados como se fossem também seus. Também eu fiquei assim e agora corro com a força de muita gente.

A desilusão de não alcançar um objectivo esvai-se com a alegria dos objectivos de outros, porque apesar da maratona ser um individual, sem a força, o incentivo e as palavras e abraços de outros, principalmente daqueles que gostámos, deixa de fazer sentido. Torna-se naquilo que muitos pensam sobre todos nós, os que parecemos correr sem destino como loucos, quando não passam de momentos em que, sozinhos, apuramos a forma que nos leva a cumprir objectivos que agradam a muitos. E é esta força colectiva, esta vontade que nos empurra estrada fora, km a km, que faz de cada maratona que faço com todos vós, a melhor maratona do Mundo.

(Também publicado em www.correrporprazer.com)

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Viver o presente!

Hoje acordei cedo, pouco passava das 6h15.
O Lord, rafeiro para os clubes caninos, mas com um pedigree apurado em dedicação e gratidão, meu companheiro de muitas corridas matinais dos últimos 4 anos e meio, quando sentindo-me desperto, fita-me com o ar ansioso de quem quer apanhar ar. Ali, com o focinho pousado na cama, sentado a meu lado, só lhe faltava ter as sapatilhas na boca. Acedi ao leve bater de rabo. Levantei-me e, os dois em silêncio, numa cumplicidade evidente, lá fomos ver o que a praia da Madalena nos reservava.
O dia estava fresco, ainda num envergonhado despertar, onde os raios de luz furavam as nuvens. Chovia. Não uma chuva intensa, nem tão pouco "molha tolos", era uma chuva constante de gotas que se faziam notar, mas com espaço suficiente entre elas, para não serem demasiado incómodas nem ignoradas.
Ali fomos junto ao mar, ele feliz por poder sentir todos os aromas da manhã, solto à sua vontade, mas sem nunca deixar de me ter no seu horizonte. Nem preciso falar, gritar ou assobiar. Parece que... Melhor, ele sabe o que eu sinto, sabe quando deve vir, só quer sentir se vou para Sul, Norte, se paro, se calcorreio as dunas ou o passadiço, para me poder acompanhar.
Foi um bom treino. Pouco mais de 8 km em pouco mais de 40 minutos.
Passear na praia de manhã, sentir as cores e os aromas da aurora, apreciar o carrossel de barcaças que serpenteiam a costa em busca de pesca, ouvir as gaivotas, ver todo o despertar do mundo que me rodeia. Impagável.
Posso não ter tudo, posso não ter nem um pouco do que muitos têm, mas ter a percepção de que o que tenho é mais do que muitos terão, é meio caminho para viver melhor e tranquilo. Porque nem sempre as melhores coisas são as que menos vemos, porque quase sempre não apreciamos aquilo que temos e ansiámos por coisas que não sabemos se vamos ter, devíamos olhar mais para aquilo que nos rodeia.
Parafraseando Pessoa (Livro do Desassossego), numa frase que era a preferida do jornalista Nuno Felício, que ontem faleceu, aos 38 anos sem que nada o fizesse prever:
"Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho."

domingo, fevereiro 17, 2013

Free Running do Redleh Odeveza

Se lerem ao contrário, descortinam o nome do responsável por uma excelente manhã de trail junto à terra dos famosos Jesuítas. E é assim que ele se apresenta no livro das caras.
Do avesso quase ficava eu. E as minhas pernas.
Depois de varrer a Sta. Luzia, no último Domingo, a uma baixa velocidade apesar dos 32 km, mantive os treinos desta semana, descansando apenas na Sexta-Feira. Ontem, e porque precisava de fazer alguns km na estrada, para testar o esqueleto, visto ser já no próximo Domingo que me aventuro, mais uma vez, numa maratona, fiz 22 km totalizando assim 95 km na semana.
Entretanto, desafiado para ir a este Free Running, embora relutante, lá acedi. Seriam 27 km. Há sempre estreantes, atletas mais lentos, alguém que se atrasa e eu, esperançado, lá fui. Puro engano. Chegados ao alto do Monte Córdova, junto à Sra. Da Assunção, deparo-me com o pelotão mais rápido que ali podia estar. Além dos dois que foram comigo, João e Vasco, estava lá a fina flor do trail. Alguns dos que ocupam habitualmente os pódios nas provas, femininos incluídos, e muitos dos que não passam do meio das classificações para baixo. Onde me fui meter.
Há um provérbio que diz que "se não queres ser lobo não lhe vistas a pele". Eu, armado em atleta, saio com a pele toda vestida, e feito lobo, faço-me aos km iniciais junto com os rápidos todos, e rapidamente percebi, que rápidos eram mesmo todos, ou eu estava com "carga a mais".
Nas primeiras subidas reparei que afinal, eram os quilómetros que gritavam nas pernas. Faltava-me força para acompanhar aquele comboio. Aos 18 km, no alto do Pilar, junto às instalações da Força Aérea, aceitei boleia (foi mais ele que aceitou a minha companhia) do carro de apoio e do fotógrafo de serviço.
O quintal do Hélder é uma excelente zona para trail. Tenho pena de não ter chegado à nascente do Rio Leça. A julgar pelo restante percurso, seria com certeza a cereja no topo do bolo.
Muito verde, num dia de muita chuva, onde a temperatura não passou dos 8 graus, sendo seguramente mais baixa nos pontos mais altos por onde passamos.
A organização esteve inexcedível, brindando os participantes com um excelente abastecimento, que faria corar muitas provas, banho quente no final, e um repasto que, infelizmente, não pude provar.
Espero voltar, com sol e gente lenta, ou então, como o Hélder marca os treinos com alguma antecedência, faço um plano de treinos específico para acompanhar tanta gente ilustre do trail nacional.
Agora, venha Sevilha.


segunda-feira, fevereiro 11, 2013

A varrer o Monte de Sta Luzia

Por motivos profissionais, calculara impossível participar na prova organizada pela Viana Cycles, o Trail de Santa Luzia, idealizada e dirigida pelo incansável Leandro Freitas, habitué dos trilhos nacionais, e que se lançou numa empreitada digna de aplauso. Com a constatação que afinal podia ir à prova, e curioso em conhecer os famosos trilhos da Serra de Sta Luzia, tentei inscrever-me à última da hora. Com as inscrições há muito esgotadas, (antevendo-se assim um sucesso), experimentei outro “expediente”. Como não sou apologista de correr com dorsais alheios, falei com o André Palhares, colega dos Porto Runners, que ia fazer o sempre nobre trabalho de atleta vassoura, e pedi-lhe para o acompanhar. O vassoura nas provas de trail tem como missão “fechar” os trilhos, certificando-se que ninguém fica atrás de si. Informa os voluntários nos postos de abastecimento e controlo e está em permanente contacto com a organização e equipas de socorro, caso surja alguma eventualidade com algum atleta. Mas a missão mais importante é de incentivar os que andam na cauda do pelotão. Desanimar é meio caminho para a desistência, sendo que a desistência, salvo por motivos de força maior, é a última das opções de um trail-runner. No trail, o último é o maior dos resistentes.

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Nuno Silva, vencedor da prova. (Foto de Miro Cerqueira)

A prova, com prometidos 33 km, desenrolou-se por belíssimas paisagens da Serra de Santa Luzia. Com partida e chegada no Estádio da “Princesa do Lima”, epíteto pelo qual é conhecida a bonita e atraente Viana do Castelo, serpenteou o Monte até ao Parque Eólico, por passagens constantes por cursos de água que embelezavam e animavam o percurso. Ali chegados ao ponto mais alto, brindados com um forte nevoeiro e chuva intensa, deu para apreciar os imensos cavalos selvagens, estáticos resistindo à intempérie. Mais pedra e trilhos técnicos levavam-nos planalto fora onde a lama e água serviam de tapete difícil, com progressão acidentada. É o chamado percurso “salta-pocinhas”, a fim de evitar o atolar que nos leve a perder alguma sapatilha.
Mais chuva e vento, alguma bonança, um número infindável de bois com chifres afiados e ar de pouco ou nenhum interesse naqueles estranhos humanos que lhes invadiam por pouco que fosse o habitat onde calmamente pastavam, e finalmente um pouco de descida. Ali os trilhos verdes e quase sempre com cursos de água à mistura, divertiam-nos ainda mais. Chegados perto de S. Mamede da Areosa, um pequeno trilho a subir (Trilho do Mel) e uma intempérie que se abate sobre as nossas cabeças. À nossa espera no abastecimento, um chá quente e nova investida ao trilho. Mais uns quilómetros por belíssimos percursos por entre verde, muito verde e quedas de água, um belo serpenteado minhoto  que nos levou até aos famosos “Canos de água da Areosa”, que antigamente abasteciam de água, desde o alto da Serra a cidade. Percurso belo e entretido, onde o equilíbrio se impunha, até a uma última subida que nos levaria à medieval Citânia de Santa Luzia. Dali até à meta trilhos entre a terra e a calçada românica com uma última incursão num ribeiro para lavar as sapatilhas. Resumindo, um belíssimo percurso, nem sempre bem marcado, mas suficientemente divertido e técnico para quem se quiser aventurar em distâncias mais generosas de trail.

Uma excelente forma de divulgar Viana do Castelo. Como me dizia um atleta local, toda a gente conhece o Santuário de Santa Luzia e as bolas do Natário. Há realmente muito mais para descobrir em Viana. Pena foi que as condições meteorológicas nos tivessem impedido de desfrutar das vistas formidáveis do alto da Serra, embora, aqui e ali, em zonas mais baixas, fosse possível ver perfeitamente os imensos areais do Cabedelo e Praia Norte com o beijar constante das gélidas e agitadas águas atlânticas.

Foi uma forma divertida de passar 6 horas de um Domingo. Obrigado ao André e à divertida Susana.

Parabéns ao Leandro Freitas e à Viana Cycles. Parabéns a todos os que se aventuraram, desde o vencedor Nuno Silva, até aos que se estrearam em quilometragem superior ao que já haviam experimentado. Sei bem o júbilo que nos vai na alma sempre que damos mais um passo, e por muito que haja quem desvalorize, nós no trail, desde o mais rápido ao mais lento, estamos aqui para felicitar todos os que se atrevem e são capazes.

E tu, atreves-te?

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Os famosos canos da Aerosa. Bom trilho, onde o equilíbrio é fundamental.

 

domingo, fevereiro 03, 2013

O que é o Trail Running?

Há alguns dias alguém perguntava se havia melhor definição para o trail que uma que o descrevia, por poéticas frases, como uma constante tomada de decisões e batalha permanente do corpo vs mente. Numa definição lata, o trail é a vertente de corrida na natureza, em provas que variam em quilometragem mas são constantes no desafio à natureza.

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(Serra da Freita, onde são vulgares os encontros com estes “locais”.)

É vulgarmente confundido com corta-mato. Há atletas que se inscrevem em provas de trail e depois se lamentam de haver pouco onde correr. Para quem gosta de correr, se procura desafios de dureza superior às provas de estrada, normalmente planas, deve procurar fazer as provas do circuito de montanha. Essas sim, são provas de corrida em terrenos de desníveis acentuados, onde o estradão florestal, caminhos rurais e os corta-fogos de montanha substituem o habitual alcatrão das estradas. Aí podem desafiar a gravidade e impulsionar o corpo montanha acima, em competição com outros atletas que apreciam a corrida inclinada.
O Trail é “vinho de outra pipa”. Trail não implica obrigatoriamente correr. Trail implica técnica de corrida e muita caminhada em pisos que podem variar entre a lama, água, pedra solta ou penedos lisos e caminhos apenas utilizados por cabras. Implica sempre ser destemido perante os desafiantes desfiladeiros, as assustadoras quedas de água, ou as lamacentas e escorregadias margens de cursos de água, onde normalmente se revela difícil manter o corpo na posição erecta. Aqui, o segredo é deixar o corpo ir, tentado equilibra-lo sem cair, enquanto os pés se precipitam trilho abaixo, firmando o solo apenas por um nano-segundo. E quando pensares que finalmente há uns km para fazer em corrida, provavelmente é apenas um pequeno terreno de transição para outro trilho. Para entender o que é o trail, quando olhares para uma montanha, imagina como seria fazer uma estrada até ao topo com a maior inclinação possível, porque será esse normalmente o trajecto que um “desenhador” de trilhos escolheria.
Quando quiseres fazer um treino de trail, vai à praia, uma bastante rochosa, preferencialmente com a maré vaza, e corre pelas rochas, saltitando entre elas sem parar, tentando o equilíbrio. As quedas aí serão um bom treino.

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(Ultra Trail Serra da Freita – Entre penedos e água, muitas vezes escolhe-se a água)

Quanto ao espírito do trail, só me ocorre um pensamento: Introspecção. Somos nós e a montanha.
Nas provas ou treinos de trail, perante as dificuldades, ficamos pequeninos e humildes às mãos do feitio da mãe natureza. Da natureza que nos dificulta a progressão, e da nossa própria natureza, dos nossos receios, da nossa cómoda posição dominante e agressora do meio ambiente onde nascemos e tão mal tratámos. Já fiz algumas provas de trail. Não há uma onde não pare hesitante perante um qualquer obstáculo que transpus e diga baixinho para mim: “Espectáculo!”
São lutas constantes com tudo. O terreno, o trilho que teima em não nos facilitar a corrida, as cãibras, as dores musculares e traumáticas das constantes quedas, o pó ou a lama, os arranhões ou os picos nas mãos… Não há prova que não termine sem trazer um pouco do percurso marcado no corpo.

Catarino(O excelente atleta e amigo Miguel Catarino no final dos Trilhos dos Abutres, marcado pela lama)

E depois, o mais importante: A camaradagem.
No pelotão do trail todos se ajudam, todos se incentivam e todos apoiam todos. Porque todos sentem as mesmas dificuldades. É usual e normal estarem os primeiros a apoiar os últimos na meta de uma prova, mesmo que isso signifique uma diferença de 5, 6 ou mais horas. É usual no trail os mais rápidos treinarem com tipos como eu, que toco sempre os tempos limite das provas. E nunca te deixam para trás.


VascoCascata(Eu e o Vasco Batista, que me acompanhou e incentivou a partir dos 28km, pacientemente, nos abutres.)

Resumindo, o trail é uma actividade em natureza, ligado à corrida por caminhos normalmente não utilizados por quem se quer deslocar rapidamente entre dois pontos. É uma actividade que se pratica na natureza e que por isso a respeita. No trail deixamos a natureza marcada apenas pelos nossos pés. Trocámos os habituais abastecimentos em passo de corrida, por uma amena cavaqueira com os voluntários que nos servem sopa e sandes. E é acima de tudo isto, uma actividade de sofrimento.
Quem não estiver preparado para sofrer não se dá bem com o Trail Running. É escusado queixarem-se deste ou daquele organizador, porque todas são duras e difíceis. Se forem fáceis, normalmente, quem gosta de trail não as repete.
E depois o que fica são os bons momentos, os que nos fazem sentir grandes, enormes perante os desafios. Aqueles que nos fazem sentir altruístas porque ajudámos um atleta em dificuldades, ou os que nos fazem mais humildes porque nos deram a mão quando mais precisávamos. Os melhores momentos são mesmo os mais humanos, os de deslumbramento perante a força da natureza. E essa força, no trail, somos nós.   

AbutreCascata

terça-feira, janeiro 29, 2013

III Edição Trilhos dos Abutres

Esta não é uma crónica jornalística, nem pretende de qualquer forma fazer juízos depreciativos acerca da prova que a titula. É a minha crónica, a redação pessoal da prova do passado Sábado.

Era a minha 15ª participação em Maratonas ou Ultra-Maratonas. Das 15, seria a terceira que não terminaria, mas também a primeira onde mais vezes me convidaram a desistir. 
Nas duas ocasiões em que tal  tinha acontecido, uma foi por a prova ter sido interrompida aos 21 km, no Grande Trail Serra D’Arga de 2011, e a outra devido ao nevoeiro nos últimos 10 km da Ultra da Freita de 2012. Ou seja, nunca por minha iniciativa desisti de sofrer ou lutar. Sim, porque ainda não fiz nenhuma Ultra (e já fiz algumas) em que não tivesse que lutar contra as minhas fraquezas e/ou percalços físicos. 
Esta era uma prova especial, era a primeira ultra que repetia, tendo sido a minha estreia em provas deste grau de dificuldade, há um ano, a primeira que fizera e terminara com 9h. 
Este ano, devido às vicissitudes da meteorologia, adivinhavam-se dificuldades acrescidas. Sabia de antemão que teria lama, muita lama, água, árvores caídas a obstaculizar os trilhos, enfim, sabia que ia ter de me aplicar a fundo para fazer os prometidos 45 km. 
Cometi alguns erros, sendo o mais grave, e aquele que tenho repetido (Einstein dizia que a maior burrice é repetir um erro à espera de um resultado diferente) o de comer pouco. É um erro que repito de há algumas provas para cá, embora coma o mesmo que comia antes. O problema é que, tendo perdido muita gordura nestes anos, o organismo, quando falta a “gasolina”, não tem muito onde ir buscar. As minhas reservas são já escassas, sendo a alimentação mais importante que nunca. É horrível sentir o que senti aos 13, 14 km dos Abutres, quando subia uma zona de rio, com lama que dificultava a progressão, uma falta de força generalizada, com os olhos turvados pela falta de energia. Tinha ido até ao abastecimento dos 9 km com o grupo do ano passado (João Paulo Meixedo, Joana Leite e Miguel Santos) em amena cavaqueira e permanente galhofa. No dito abastecimento quase não comi. Tostas com mel, marmelada, banana e laranja; nem lhes toquei. Algumas batatas fritas e uns amendoins, enchi os cantis e segui caminho. Ali, meio desfalecido e com o apoio dos atletas vassouras da prova, lá comi um gel e bebi isotónico. Mas, passado pouco tempo tive de parar. Sentei-me numa paragem de autocarro, num cruzamento com uma estrada, e comi uma sande de presunto que trazia na mochila. Reabastecido, lá arrancamos de novo, e ao fim de uns km já os ultrapassava a subir e corríamos a descer e em plano. A energia estava restabelecida. Chegados ao PA (posto de abastecimento) 2, nas Mestrinhas, Km 18, pouco depois de ter passado o controlo junto à Barragem, encontro 2 atletas que ali ultrapasso e que, ora me passaram ou os ultrapassaria dali até ser barrado ao km 38. Revitalizado pela sande de presunto sigo caminho monte acima, corta-fogo inclinadíssimo abaixo, nova subida, descida com muita água e finalmente a descida do downhill. Entre tombos e sku, lá cheguei a mais um PC (posto de controlo), com cerca de 6 horas de prova. Marcam-me o dorsal e dizem-me “pouco mais de um km e tens o abastecimento”. Sigo em passo de corrida, atravesso mais uma estrada, subo para o PA 3, anunciado aos 24 km, mas já com 28. Ali entrado, apenas 10 minutos depois do dito controlo, dizem-me que estou fora de tempo (!!) e que, a querer prosseguir ia à minha responsabilidade. Como é lógico, depois de uma luta intensa, não era ali que ia ficar. O Vasco Batista que ali tinha estado a tirar fotografias o dia todo, prontifica-se a ir comigo. O abastecimento pouco mais tinha que os anteriores: Marmelada, tostas com mel, laranjas e bananas. No ano anterior, antes da segunda dificuldade havia, se bem me recordo, sopa. Foi ali que, um ano antes repus energia para enfrentar a segunda parte da prova. Este ano diziam-me que estava fora de controlo e podia seguir à minha responsabilidade. Tenho 40 anos, idade para ter juízo, mas ninguém tem o perfeito juízo numa altura daquelas. Nem comi. Arranquei trilho fora, com os avisos do Vasco que aquilo ia doer, que eram 6 km sempre a subir. Lá fomos. Tiramos umas fotos junto às monumentais quedas de água, aproveitei para refrescar os músculos, e cerrando os dentes, lá fui trilho acima. 2 km depois novo sentir de pouca força. O Vasco dá-me uma pastilha de isostar, rejuvenesço para enfrentar o resto da subida. No Parque eólico, no meio do nevoeiro, controlo. Marcam-me o dorsal e perguntam-me: “Ficas aqui?”, apontando para uma carrinha com alguns atletas dentro. “Aqui?”, pergunto eu. “Depois de subir isto tudo? Nem pensar”, retorqui. Arranquei em passo de corrida com o Vasco. Ali no cimo da Serra fazia frio, o vento era mais forte e estava nevoeiro. Metemos passo de corrida, iniciando um serpenteado espectacular no meio de um bosque, onde, divertidos corríamos a sorrir. Nova descida técnica, mais rio e lama, mais quedas e eis que começa a anoitecer. Nova subida, agora a temida subida da Póvoa das Leiras (acho eu), onde subíamos agarrados a cabos presos nas rochas. Já com os frontais ligados e comigo a preocupar o Vasco, de tão esgotado me sentir, chegámos a umas placas que indicavam “15 minutos de trilho a subir”. Agarrado à placa, respirei fundo e comi mais uma pastilha. Apesar do Vasco temer que eu ali ficasse, não me sentia assim tão desfalecido. Estava menos mal do que tinha estado aos 14 km. Arranquei lento, passámos por uns bombeiros que nos anunciaram o abastecimento a 1 km. Ao chegar a Gondramaz, já no final da subida, ouço a Lina Batista dizer “Anda lá que agora vais de carro”. Chegado junto do que tinha sido um PA e de controlo, e cujo tempo limite de chegada era de 8 horas, dizem-me que já não me deixavam passar. Resignado, entrei no carro e regressei a Miranda do Corvo. Faltavam pouco mais de 8 km a descer. Terminaria muito provavelmente com mais de 12 horas, sendo o limite 11. Às 18h50, 10 horas depois de partir, acabava a minha prova.

Reconheço que errei. Tenho errado nos dias de provas, por não comer. Não tenho por hábito fazer treinos longos de manhã, prefiro correr ao fim da tarde de Domingo, depois de um almoço mais reforçado. Em dias de prova, mesmo não tendo apetite devemos reforçar o pequeno almoço, coisa que não fiz. O facto de ter já mais de uma dezena de maratonas e ultra maratonas, levou-me a ser menos rigoroso também com a preparação. Reconheço agora que fazer, 9 dias antes de uma prova como esta, um treino bi-diário de 30km + 12km não foi provavelmente muito inteligente. Mas eu gosto imenso de correr. Reconheço que não treino, o treino requer rigor e planeamento. Eu corro à aventura, por isso gosto tanto do trail. E sinto-me imensamente feliz por correr. E chega-me. Já sei que sou capaz, que posso fazer melhor, mas será que me sentirei mais feliz, mais realizado? Não me parece. O que vier é lucro em cima de ganho.

Quanto à prova e à organização em particular, devo referir alguns pontos que me parecem pertinentes referenciar. Não que me sirvam de desculpa em relação ao que se passou no meu caso particular no último Sábado, mas para que sirva como reflexão e para ponderar.

Tempos de Passagem e marcações

Srª Piedade de Tábuas – 5h
Gondramaz – 8h
Espinho – 9h30m
Meta– 11h

Se estavam a contar com dificuldades acrescidas devido ao mau tempo dos dias anteriores, seria aceitável que ampliassem os tempos limite. Contudo, mesmo que não o fizessem, deviam ter marcado os troços finais com sinalização nocturna. Houve imensos atletas a acabar a prova de noite. Todos sabemos que, caso a sinalização não seja adequada, a progressão torna-se mais lenta, atendendo à tecnicidade dos trilhos. No restante percurso, era suficiente e bem marcada, faltando apenas as placas indicativas do km do percurso.
Os tempos apresentados como limite deviam ter sido aferidos por alguém que fizesse o percurso por completo. Dar 8h para fazer o mais difícil do percurso, onde se concentra a quase totalidade do desnível positivo, 38 km, e depois permitir fazer pouco mais de 8km, a descer, em 3 horas, não me parece nada apropriado. Em relação ao tempo limite de prova, as 11h, mais uma que na edição de 2012, pareceu-me pouco, visto que, a maioria dos atletas demoraram mais que no ano anterior a percorrer todo o percurso. Atente-se como exemplo a quantidade de atletas a terminarem com mais de 9 horas relativamente ao ano passado. Se em 2012 houve quem terminasse com 11 e mais horas, seria prudente e expectável, com as alterações introduzidas, que mais houvesse este ano. Foi provavelmente por isso que obrigaram a que os atletas tivessem frontal.

Abastecimentos e Condições logísticas

Todos os voluntários, bombeiros, organizadores e população estão de parabéns. Pessoalmente, sabem receber, são simpáticos e prestáveis.
Quanto aos abastecimentos, não me parecem adequados à dureza da prova. Já aprendi que não nos podemos fiar numa organização; mas tostas com mel, marmelada, bananas e laranjas, não são suficientes numa prova deste calibre. O ano passado houve sopa e sandes, este ano nada. Pelo menos, para quem vinha no fim do pelotão.
No Pavilhão, a exemplo do ano anterior, não havia água quente. Imperdoável. Depois de um esforço daqueles é o mínimo que se pode exigir.
O jantar era adequado.

Resumindo, numa conjugação infeliz de percalços e erros, acabei por falhar a meta pela primeira vez, por responsabilidade minha. Parece-me contudo que, mesmo que tivesse chegado a Gondramaz 1 hora antes, teria de enfrentar igualmente no breu, a descida até Espinho e os trilhos até Miranda. Houve uma conjugação de falhas, ou de imprevistos, que não deviam acontecer. No limite, e prevenindo desde já futuras edições, com a mais que possível abundância de chuva, seria prudente terem um percurso alternativo por estradões, à semelhança do ano transacto. Seria também útil começar a prova mais cedo. Os dias são demasiado curtos em Janeiro para tanta dureza. 
Fica a vontade de voltar aos Trilhos dos Abutres. São trilhos lindos, com quedas de água espectaculares e algumas paisagens de cortar a respiração.
Parabéns aos vencedores e a todos os que terminaram. Honra seja feita aos demais, que mesmo não tendo terminado, se fartaram de lutar naquele imenso rinque de lama e água.
A corrida por montanha está em crescimento, e também estes episódios contribuem para que este crescimento aconteça. As dificuldades são o sal destas provas.

Até ao próximo empeno!

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Os Quatro na capital

Podíamos ser 5, mas o quinto seria sempre imaginário, ou apenas personagem de anedota.
Talvez a engenharia nunca o venha a determinar, mas na altura pareceu-me premonitório um qualquer fanhoso ter azar na vida, mesmo depois de a vida lhe ter sorrido.
Esta introdução apenas pode ser compreendida na sua essência pelos meus três companheiros de viagem do último fim‑de‑semana.
Tinha corrido tudo dentro de uma aparente normalidade até àquele momento em que o motor do carro, como as minhas pernas ao km 30 da maratona, se recusou a trabalhar. Não era muita a velocidade, 120, 130 no máximo, como tinha sido regular o meu ritmo até "gripar". A animação estava em alta, numa espécie de desafio com o Vitor Dias, que desgarradamente debitava anedotas sempre em resposta a alguma desafiante da minha parte. De repente, como um "muro", o motor calou-se. Ficámos ali, algures na Serrania de Fátima, até os pés da Marlene enregelarem por completo, fora do carro, atrás do rail de protecção, que os que passavam não abrandavam. Como na prova dessa manhã, lá veio um reboque, com pior aspecto que o carro (apesar de avariado) mas que o levou. Nós regressámos sãos e salvos num belo topo de gama, conduzido pelo Sr. Armando, homem dos seus 56, que depois de por o aquecimento nos 21 graus, avisou a patroa da inesperada incursão ao Norte, e da consequente ausência para jantar.
Animação foi coisa que não faltou. Nem no Sábado na viagem para Lisboa, nem na estadia. Tínhamos planeado ir de comboio, fomos de carro devido à greve dos maquinistas da CP ao trabalho em dias feriados; pedi para alterarem a reserva do hotel, de quarto quadruplo para duplo, quando chegámos tínhamos 4 camas. Planeamos deitarmo-nos cedo, deitamo-nos quase às 2 da manhã, depois de um animado jantar. Planeara fazer a maratona na ordem das 4 horas, saiu-me uma prova de 4h32. Imprevistos atrás de imprevistos tinha que haver mais algum. Foi a avaria.
A minha prova resume-se por um ritmo cuidadoso, agradável, com 1h57 à 1/2 maratona, na tentativa de o manter até à Almirante Reis. Com alguns minutos de avanço sobre as 4 horas, mesmo que vacilasse naquela subida, daria para controlar. Mas as pernas não queriam. Não era dia. Depois dos 23 kms comecei a sentir alguma fraqueza. Até aos 28 mantive o ritmo, à espera que passasse. Nada. Quando fiz o retorno pensei em desistir, tantas eram as cãibras. Faltavam-me 14 kms e parecia que correr era impossível. Encontro o José Guimarães, que animava por fora, diz-me para beber água, muita. Foi o que fiz, no abastecimento dos 30. Depois disso, aguentei-me com ele e uma amiga que ele então acompanhava num ritmo lento, mas que as minhas pernas não reclamavam. Aparece então, cerca do km 36, o Miguel Lopes, que acompanhei até final. O Miguel nasceu com pés botos. Depois de muitas operações e fisioterapia corrigiu minimamente o desvio ósseo, o que lhe permite caminhar quase normalmente. Quase. Depois de algumas aventuras na corrida, decidiu estrear-se na maratona. Eu ali a pensar desistir porque não ia fazer o objectivo, e aquele homem a superar a própria natureza. É disto que são feitos os maratonistas, de superação. Mesmo contra a adversidade lutámos. Com a impossibilidade de o Miguel correr em subida devido ao atrofiamento dos gémeos, lá fomos Almirante Reis acima, ele dentes cerrados e vontade imensa e eu pasmado com a garra daquele homem, que não mais larguei mesmo contra a sua vontade e com quem tive a honra de cruzar a meta. É de surpresas que a vida é feita. As maratonas são sempre uma incógnita. Nunca sabemos o que esperar delas. Confesso que não acabei muito animado, mas não é mais que um sentimento egoísta de quem quer sempre superar-se. Mas há alturas em que o motor para. Não há mais nada a fazer que não seja prepara-lo para outras viagens.
De surpresa em surpresa, com maior ou menor dificuldade, lá fomos a mais uma aventura. O Vitor Dias fez uma excelente prova, terminando mais uma maratona de forma brilhante, com 3h10. O Luis Pires, concluiu em 3h19, no top 20 do seu escalão, a sua 84! participação em maratonas e ultra maratonas. A Marlene não correu, dançou. E coloriu-nos a viagem. Foi um fim‑de‑semana agradável, com gente agradável, saudavelmente insana, que levou sorrisos à capital. Assim até as avarias passam despercebidas e compreendemos que o 13 é apenas um número (foi a minha décima terceira maratona) e tudo, mas mesmo tudo, é motivo para nos rirmos da vida, senão ela vai seguramente rir-se de nós.

quarta-feira, novembro 28, 2012

Endorfinite

Patologia crónica. Acho que há sintomas evidentes em muitos dos tontos que, como eu, trocam dias de praia por treinos na montanha, manhãs de Domingo na cama por longas corridas, ou noites à lareira por corridas polares, nas noites em que, como hoje, nem os carros abundam na rua.

Sabemos todos que, apesar do bem que possa saber qualquer uma das situações que referi, nenhuma se assemelha ao esplêndido sabor de sentir o suor a escorrer pela cara e quase a congelar, o vento que nos sopra ao ouvido, e a solidão de um fantástico treino à beira-mar, com incursões constantes na fantástica zona ribeirinha desta bela cidade invicta.

Sentimos sempre aquele reconfortante sabor a dever cumprido, e nem comentámos muito com os amigos que se ficaram pela lareira. Eles não iriam compreender. Dizem-nos doentes. Eu confirmo, é endorfinite. A dependência de endorfinas, a “droga” dos corredores.

sexta-feira, novembro 16, 2012

Meus amigos:

Ontem fui fazer séries à chuva. Não me apeteceu molhar muito, corri apenas 50 minutos, quase a trote (com algumas acelerações). Nada de novo, é o que eu faço habitualmente, Fartlek. Corro sempre assim, a brincar. Na Maratona do Porto, o Luis Rodrigues dizia-me, meio a brincar, muito a sério, que eu não me calava um minuto, tal era a animação que gerava à minha volta. Acho que é por isso que continuo sem me cansar (física e psicologicamente) da corrida. Vou correndo, sem me matar muito. Cerro os dentes quando dói muito, mas não provoco a dor. Corro sempre muito descontraído, com gosto e sem pressão.
Meus amigos: Vocês andam-me a preocupar. Desataram todos a fazer grandes provas, excelentes tempos, imensas cargas de treino. Agora, uns têm lesão aqui, dor acolá, cansaço acumulado. Outros correram uns tempos, desistiram. São os que experimentam, fazem umas provas, mas desistem. Tenho já uma longa lista de pessoas que acompanhei em treinos e provas e que abandonaram a corrida. É compreensível, alguns desiludiram-se com performances, outros não arriscam más performances, como se isso fosse obrigação, outros não têm disponibilidade, ou deixaram de a procurar. Lembrem-se, nascemos para correr, não devemos é correr para competir com o nosso corpo.
Corram por prazer.

segunda-feira, novembro 05, 2012

Free Running Gourmet

 

Rota das Tascas – A Via Sacra

- Pouco barulho, caralho! Foda-se… Ainda são 11 da manhã!

E à terceira das muitas tascas que visitámos, éramos finalmente recebidos à boa maneira tripeira, por uma anfitriã boavisteira assumida, tripeira famosa, não só pelo vernáculo mas também pelo aspecto que tradicionalmente tinha a tasca que lhe dá o cognome: A Badalhoca. A Dª Lurdes, depois do aviso, lá desatou a despachar os mais de 30 atletas, com sandes de presunto, rojões ou fígado de cebolada, entre outras iguarias, tudo regado com cerveja ou com o tradicional espadal. Não acalmou o burburinho, esse passou do interior para o exterior e passou a êxtase de quem aconchegava o petisco a espanto dos que por ali passavam ainda em registo matinal.

As tascas abundavam no Porto há alguns anos. O Moutinho, mestre do Trail Gourmet, e adepto confesso dos treinos em ambiente de convívio, onde todos correm juntos e em que a boa disposição reina, prepara com alguma frequência estes free-running, muitos deles na Cidade do Porto, levando quem o acompanha a descobrir recantos inimagináveis, que nos levam a correr por trilhos rurais enlameados  ou pelas escuras vielas e escadarias, passando por “ilhas” e parques urbanos. No passado Sábado os temas que escolheu foram as tascas e o cinema na Cidade Invicta. 
Com partida do Jardim de Arca D’Água, onde havíamos de chegar para o convívio final no “Escondidinho”, foram 26 kms em Via Sacra onde as Estações eram as tascas das Freguesias visitadas (Paranhos, Ramalde, Aldoar, Nevogilde e Foz).   
Das 9h (chuvosa) até às 14h (com tímido sol de Outono), foi um teste à resistência, onde só os mais fortes (leia-se com melhor fígado) resistiram. Houve alguns que corriam a um ritmo errático, uma espécie de fartlek, quando se aproximavam de mais uma tasca. Outros experimentaram abastecimentos variados para testar o nível de resistência ao lactato dos diferentes produtos analisados. Foi unânime a conclusão de que deveríamos repetir a experiência, para haver uma aferição mais credível dos resultados, mas o Moutinho, um anfitrião de eleição, avisou logo que, com ele, só gourmet. Experimenta-se uma vez guiado por ele, mas diz ser apologista da livre iniciativa.
Enfim, fico com esta experiência, mas dispenso a repetição em modo individual, até porque o que é bom deve ser partilhado.

Ficou a vontade de participar em mais encontros como este. Obrigado a todos por uma manhã de Sábado bem passada, onde a corrida, paixão que nos é comum, foi motivo para mais um excelente convívio de gente sã que invariavelmente se junta para esta espécie de “revisita” à liberdade.

segunda-feira, outubro 29, 2012

9ª Maratona do Porto

Muitos dos que começam a ler esta crónica não fazem ideia do que é correr 42 km. Muitos, como eu, não percebem como é possível alguém o fazer em pouco mais de 2 horas. Todos nos espantámos com os resultados, as proezas, as limitações e superações de todos.

Ontem, segundo a organização, foram mais de 5000 os participantes em mais uma edição da Maratona da Cidade Invicta, divididos entre a prova rainha, a Fun Race de 15 km e uma caminhada de 6 km.

A azáfama que se vive à partida destas provas é sempre muita. Os que se estreiam não escondem o nervoso miudinho, a ansiedade de começar e a vontade de acabar, os repetentes, muitos veteranos incentivam os apadrinhados, e os que vão correr a distância mais curta prometem entre dentes alinhar na maratona do ano seguinte. 

Dado o tiro de partida, lança-se a confusão. Uns que tentam chegar aos balões (levados por atletas experientes que marcam ritmos para tempos finais entre as 3 e as 4h, com separação de 15 minutos cada) que desejam acompanhar, outros que levam ritmos mais altos, por participarem na prova mais curta ou apenas porque sim.
Eu, que começava ali mais uma participação na minha cidade, a terceira, onde me estreara 2 anos antes, e que sabia o que me esperava, deixei-me ir com ritmo de aquecimento. Sem grandes veleidades a fazer um tempo excepcional, não só por ter feito 20 dias antes uma prova extremamente exigente, de 46 km em montanha, mas também porque o dia se apresentou com vento forte de leste, o que em nada ajudava a fazer bons tempos. Íamos todos sofrer e muito quando chegássemos à marginal. Mas ninguém sofre por antecipação, há que aproveitar o ambiente, a festa da corrida, a alegria contagiante de muitos dos anónimos que enchem as ruas nestas provas. Lá fui eu rumo a Matosinhos, uma excelente novidade no percurso da prova, que faz com que a ida ao Freixo, 7 km que eram penosos para quase todos, seja abolida. Esta novidade tem várias vantagens, além da referida, na minha modesta opinião. Uma delas é a de “colocar” entre os km 22 e 32 a zona de maior concentração de público, entre a Alfândega e a Afurada e respectivo retorno. Depois de passarem a 1/2 maratona, os atletas começam o percurso mais belo, por entre uma pequena multidão, com muitos estrangeiros que não se cansam de apoiar, e com imensos familiares e amigos que ali montam base de incentivos, que entra na zona pedonal da Ribeira e cruza a Ponte D. Luís rumo à margem sul, de onde se aprecia toda a beleza da cascata sanjoanina. Eu não me canso de a apreciar, mas ali, com a viragem a oeste, e com o vento pelas costas, podia finalmente aproveitar a força com que soprava e tentar manter um ritmo que não me fizesse baquear. Passagem ao km 25 com um speaker a incentivar os atletas, incansável, rumo à viragem na Afurada ao km 27. Nesta zona da marginal de Gaia, e graças às alterações no percurso, cruzam-se a grande maioria dos atletas de pelotão, podendo haver uma saudável troca de injeções de moral. O km 30, habitual “Monstro Adamastor” dos maratonistas, situa-se na entrada da Ribeira de Gaia, junto ao Cais, onde há a maior afluência de gente, ainda por cima ao Domingo, cujo espaço está normalmente ocupado por uma pequena feira de artesanato, fazendo com que sejam poucos os que soçobram à inevitável fadiga acumulada. Nova rampa para a ponte, uma pequena viragem a Este, com pouco mais de 1 km e entrada no túnel da Ribeira. O piso em paralelo, a repentina escuridão ou apenas o cansaço, fizeram-me parar. Km 32, o meu muro. Já todos temos técnicas de o contrariar. Peguei num gel, comi-o, bebi uma pequena garrafa de água enquanto fazia o percurso do túnel a passo, saio da escuridão, volto a colocar os óculos de sol e “siga, que para a frente é que é caminho”, disse para mim mesmo. Depois daquele km a 6’30, não mais baixei dos 5’45 até ao km 35. Ali, no abastecimento, peguei num copo de isotónico e em duas garrafas de água e segui a passo. Poucos metros à frente, ainda estava a beber a água, aparece-me o João Mota Freitas, da minha equipa, com  o habitual “vamos lá Rui, anda connosco, vamos a 6’, devagar, anda”, fui. Pouco depois foi ele que teve de ficar com mais 3 colegas de equipa. A maratona é uma prova de superação, camaradagem, para a qual é necessário muito treino, mas é principalmente um desafio mental. O corpo fala, a mente contraria ou acompanha. Este ano, ao contrário do ano passado, só tive de lutar contra a fraqueza do corpo, não tive cãibras, ao contrário do João, nem nenhuma lesão que me forçasse a parar. Correr “em casa” tem as suas vantagens, há sempre alguém que nos incentiva, aparece sempre algum conhecido, ou então alguém que desconhecemos e que ali se transforma num apoio tão inesperado como precioso.
Até ao km 38, junto ao Passeio Alegre foi uma luta com o cansaço, dali para a frente foi a mente a comandar. Av. Brasil e os seus intermináveis 2 km, a viragem para a Avenida da Boavista e que boa vista aquela do pórtico laranja que assinala os 42 km. Aqui, já com a companhia da Célia Nuno, da equipa da Filipa Vicente, que se estreou finalmente, depois da desistência por lesão o ano passado. A Célia, que começou a prova comigo, com quem eu troquei algumas palavras aos 40 minutos de prova e com quem tive o privilégio de terminar, e que eu não vira durante mais de 3 horas, tinha-me dado uma outra dica que muitas vezes descurámos: A alimentação. “De 40 em 40 minutos”, disse-me. Foi o que fiz e resultou. Muitas vezes, fraquejámos por falta de alimentação sem o sabermos. Para quem corre mais de 3 horas é fundamental começar a ingerir alimentos antes de ter fome, muito antes. Tenho que lhe agradecer o alerta e a felicitar, bem como à Filipa Vicente pelas excelentes estreias.
Acabei com 4h03 de tempo oficial, menos 3 minutos que o ano passado, em condições menos vantajosas para as minhas características de baixar das 4 horas. O vento forte de leste que se fez sentir na maioria dos kms da parte inicial da prova e principalmente em toda a marginal do Rio, é dos principais handicaps para alguém da minha estrutura, alto e pesado. Fiquei feliz por ter terminado mais uma maratona, por ter acabado com saúde suficiente para correr um pouco mais e com vontade de estar à partida em muitas mais edições da maratona da minha cidade.

A organização esteve à altura dos pergaminhos, sem falhas nos apoios necessários, com excelentes speakers instalados nos pontos mais críticos, e com uma excelente escolha de percurso. Os muitos músicos (?) espalhados ao longo do percurso bem se esforçaram, mas pareceram-me nitidamente desfasados de uma qualquer play-list para a maratona. Entre grupos de música brasileira e outros de covers havia uma heterogeneidade estranha que não encaixava. 
O ponto negativo constatei-o depois de finalizada a prova, já depois do brinde com o João Meixedo que me esperou com um copo de cerveja, quando descobri o saco com os meus pertences no meio de um passeio no chão. Os sacos dos atletas estavam em duas tendas, assinaladas como sendo da Maratona ou da Fun Race, todos amontoados, sem supervisão os da Fun Race, e muitos espalhados fora das ditas tendas. Surreal. Para quem está habituado a organizações tão cuidadas, não pode descurar um dos pontos mais importantes de uma corrida destas. O acesso aos sacos devia estar vedado ao público, ao contrário de ser colocado fora da zona de meta. Parece-me menos importante o bacalhau para os Vip’s do que a segurança dos pertences daqueles que confiam na organização para os guardar enquanto correm uma prova que pagaram com esse serviço incluído. Um erro a corrigir.

Foi mais uma Maratona a somar às 11 já concluídas, 6ª de estrada.

Quero agradecer a todos os que me apoiaram durante a prova, enaltecer todos os que a completaram, especialmente os estreantes, que merecem sempre a nossa admiração. Porque, como dizia no início desta prosa, 42 km é uma distância avassaladora para percorrer. É uma violência para o corpo, mas um excelente tónico para a mente. Dificilmente um maratonista verga perante um desafio. O ser capaz de contrariar todas as dificuldades, de superar todas as fraquezas, faz-nos a todos querer chorar de alegria depois de cruzar a meta. Como na vida, na corrida vencem os fortes. E aqueles que vencem as suas fraquezas, são os principais vencedores destas provas. Imaginem o que será mais difícil: Fazer 42 km em pouco mais de 2 horas ou os mesmos 42 km em quase 6 horas, só com uma ambulância como companheira e com todas as probabilidades contra o facto de poder terminar? Nenhuma é fácil e todos nos sentimos enormes quando conseguimos cruzar a linha de chegada.

"A dor é passageira, mas a glória de se alcançar um objetivo é eterna" 

terça-feira, outubro 16, 2012

A história de 50 kgs

 

Este texto foi prometido a uma amiga ainda em Agosto. Pedia-me que descrevesse as minhas motivações, o que me tinha levado à perca de peso que iniciei mais a sério há quatro anos, e quais as mudanças mais significativas nas minhas rotinas diárias. Engloba tudo isso.

Tendo por recorde 36 rissóis (de carne) numa só refeição aos 12 anos, quando estava de dieta por suspeita de apendicite (as desculpas que eu arranjava para ir para a enfermaria do seminário no Inverno…(Sim, eu andei num seminário)), alguns 30 Bollycaos (aquecidos com manteiga), depois de desafiado por alguns amigos numa noite de copos, aos 19/20, altura em que, quando os outros iam aos panados à Mobil (bomba de gasolina de uma marca já extinta, que ainda existe na Avenida dos Combatentes, ali para os lados das Antas) eu comia um, muitas vezes dois Dan Cakes de chocolate (sim daqueles de 400g), era certo e sabido que havia de chegar a obeso. Não foi logo, mas aos 25 anos, quando deixei de jogar futebol de 11 e passei exclusivamente ao Futsal, e que coincidiu com o fim dos treinos de ginásio, rapidamente os meus maus hábitos alimentares me levaram a aumentar de peso.

gordofutsal

(Futsal, esse desporto de sofá)

Foram em média 5 kg por ano. Parece pouco, mas em 10 anos, levou-me à estupidez de não poder baixar-me para apertar os cordões. Nunca me senti infeliz. Sou de riso e piada fácil, tenho por hábito andar bem disposto, a minha profissão implica contactos permanentes com muitas pessoas, em muitos lugares do País e de outros países, o que proporcionava sempre repastos fartos e completos, onde se ultimavam negócios ou se reconfortavam parcerias.
Um dia fui comprar um fato. Era grande. Mas os fatos são sempre grandes, nada de alarmante. Comprei umas calças. 60. Fui-me pesar e vejo 137 kg. Assustei-me.

Godo

(Sim, sou o da direita)

Assim, dificilmente não teria complicações de saúde em breve. A juntar a tudo isto era fumador. Tinha no tabaco um amigo, um companheiro de viagens, um reconfortante escape para o frio, para o calor, para a cerveja geladinha, para o copo de vinho, para tudo. Comecei então uma nova tentativa de dieta. Já tinha tentado algumas. Tinha havido uma altura em que ia para a piscina diariamente. Durante uns meses dediquei-me à natação. Fazia 60 piscinas de 25 mt na especialidade bruços. Emagreci, mas pouco. Veio a Primavera, a piscina era muito quente, um ambiente fechado, preferia o mar. Mas o mar era frio. Deixei e esqueci. Continuava o futsal. E voltei ao volume normal. 
Um dia, vendo uma amiga emagrecer, perguntei-lhe o que fazia. Apresentou-me uma marca de batidos substitutos de refeição. Durante um ano fiz religiosamente a substituição do jantar por um batido. Perdi 8 kg. Ao fim de um ano deixei de fumar. Foi há 4 anos. Com medo de recuperar o peso perdido comecei a correr. Comprei equipamento adequado, e todos os dias corria 4 km, normalmente de madrugada, às vezes a altas horas da noite, sempre de maneira que não me vissem. Admiro as pessoas gordinhas que correm desavergonhadamente. Mas parecia-me melhor ter de correr tão lentamente com poucas testemunhas. 
A corrida levou-me às escolhas acertadas dos alimentos. É inevitável. Quando começamos a correr, consultámos sites de corrida, compramos revistas, equipamento, chegámos a trocar impressões anonimamente em sites de corrida, e depois, inscreve-mo-nos em provas. Foi o que eu fiz um dia. Numa prova de 7 km. Fui, fiz a prova, fui desafiado por um amigo a fazer uma 1/2 maratona e treinei para ela. Achei-me um atleta depois de a concluir (ainda com mais de 115 kgs. Um ano depois fazia a minha primeira maratona, aí já a rondar os 100. Peso neste momento 85 kg, e já completei 5 maratonas de estrada e 6 ultras de montanha. 
Desde o início deste ano que ando entre os 83 e os 87. Peso o mesmo que há 20 anos, mas com muito mais qualidade de vida. As loucuras à mesa moderei-as, o tabaco deixei-o definitivamente e o exercício físico tornou-se num saudável vício e num escape ao bulício do dia-a-dia. As minhas escolhas alimentares são as que me permitem ter mais saciedade, embora fure muitas vezes a dieta exemplar do atleta. E não sou caso único. Saber o que comer é fundamental, comer aquilo que nos dá prazer também. Só não o faço todos os dias, ou todas as semanas. Mas não abdico de uma francesinha de vez em quando, ou do bolo de bolacha da minha mãe (com creme de manteiga, perfeito), ou mesmo de um repasto típico português em ocasiões especiais. Evito os excessos mas não excluo alimentos. Os erros não passam de prémios. É tudo uma questão de equilíbrio.

A vida é equilíbrio. Eu encontrei o meu. E se eu, com um histórico tão “pesado” consegui, só não consegue quem não tentar e não quiser insistir. São muitos os momentos em que queremos desistir, as tentações são muitas, há sempre desculpas para não fazermos aquilo que sabemos ser o mais acertado. O fatídico “é só desta vez” é o erro mais comum e usual de quem quer e precisa de perder peso. Durante muito tempo evitei excessos e alimentos que eu sabai me iam atrasar o equilíbrio que me levaria ao peso minimamente aceitável para poder almejar o sonho de correr uma maratona. Durante o período de treinos menos intensos tenho o cuidado de compensar com muita atenção ao que como, fazendo uma contabilidade dos erros ao pormenor de não excederem as escolhas acertadas. Uma boa forma de os evitar é, quando os estamos quase a cometer, comer uma peça da fruta que mais gostamos, ou um punhado de frutos secos. Normalmente, a vontade de comer um doce é apenas uma indução do cérebro a mostrar-nos o caminho mais curto para acalmar a “fome”, o açúcar. Aprendendo a contornar este impulso, facilmente se perde algum peso. O resto é disciplina e exercício físico. O nosso corpo está tão bem feito, que sempre que o fazemos ficámos com um sorriso rasgado, por mais que soframos. A vida de hoje em dia é tão sedentária que é fundamental o exercício. O resto é a motivação de todos os que reparam na nossa perda de peso e nos vão dando injecções de motivação para não voltar atrás. Sempre com metas alcançáveis, sem desesperar e de preferência com acompanhamento por um profissional. E idealmente devemos publicitar a nossa luta, para sermos ajudados e incentivados pelos que nos rodeiam. Vamos ter tentações toda a vida e a principal é aquela altura em que achámos que já não voltámos atrás. Conheço imensos casos, espero não ser um. E desejo o mesmo a quem, como eu, se decidir a travar uma luta contra o peso.
Estarei sempre aqui para ajudar no que puder.

Obidos

(Foto Ultra Trail Nocturno Lagoa de Óbidos, Agosto 2012, 50 Km)

Daqui a umas horas chego aos 40 anos. Não podia ter escolhido melhor prenda. Saúde, vontade de continuar esta luta permanente e acima de tudo, gozar esta capacidade de me surpreender todos os dias, de poder suplantar sempre mais um obstáculo, de, como na corrida em que, quando estamos cansados nos limitamos a colocar um pé em frente ao outro, poder viver um dia de cada vez, sem a sensação de eternidade, mas com a consciência do fútil e do acessório em contraponto ao mais importante: Viver. E um obeso não vive, desespera por poder usufruir da vida que está para lá da comida. É um escravo da comida.

Obrigado a todos vós que me ajudam permanentemente neste caminho. Todos são determinantes e importantes para mim. Em todos encontro motivação para me suplantar. Em todas as vitórias, por pequenas que vos pareçam, e que sempre mas fazem sentir grandes, é um enorme passo na estabilidade desta forma de vida que desejo nunca abandonar. Não há dia que não recorde o meu eu que ficou para trás. Este de hoje é mais feliz, também graças a todos vós.

Obrigado!