segunda-feira, agosto 13, 2012

Jogos olímpicos

Terminada a participação nas olimpíadas de Londres, todos correm a esmiuçar as performances dos atletas que integraram a comitiva.
Eu, enquanto mero espectador atento, cinjo-me aos resultados finais. Fracos uns, dentro do esperado outros e espectaculares alguns. Passando por alguns amadores que levam muito a sério a hipótese que lhes dão de justificarem apoios e subsídios decorrentes da participação em Londres, passando por outros que tiveram a infelicidade de um momento, casos do judo e da ginástica, e a terminar naqueles que, tendo como principal actividade aquela que os levou aos jogos, aproveitaram para viver o ambiente da Aldeia olímpica e a sempre única e inigualável participação nas olimpíadas.
Não partilho da opinião da falta de apoios, ou da falta de condições para preparar a participação, nem tão pouco da ideia de que, para haver melhores resultados seria necessário maior investimento. Há imensos países onde o investimento é inferior e o retorno muito superior. O que falta em Portugal é cultura desportiva. Há boa maneira tuga, se não for o Estado a orientar, a suportar ou a pagar, ninguém faz nada. Não é por ter havido multiplicação de piscinas e pavilhões multiusos no País que as modalidades ligadas à natação e aos desportos de pavilhão tiveram desenvolvimento. Foram mais úteis para o fomento da actividade física os parques desportivos e as ecovias, do que os imensos campos de futebol, pavilhões e piscinas construídos, que mais não foram que panaceias para a anunciada crise das construtoras e garantias de reeleição de alguns autarcas. Se gastassem em ecovias o dinheiro que gastam em bandas gástricas, haveria muito provavelmente maior campo de recrutamento para todas as modalidades desportivas. Há 25 anos, quando as condições eram menores, havia mais empenho numa participação olímpica do que agora. Há mais mediatismo noutros eventos, e há mais eventos.
Voltando aos resultados, ninguém pode avaliar um atleta por uma participação num grande evento internacional, mas parece-me que, nem todos apontaram para os Jogos o topo de forma, pelo menos no atletismo, o que, nalguns casos se compreende. Os que participaram nos jogos fizeram por merecer a chamada. Não esperava mais do que o máximo de dedicação em treino nestes quatro anos. O resultado é o que menos importa. Temos uma representação pequena, porque pequena é a base de recrutamento.
Voltemos agora ao normal. Os atletas fazem pela vida sem apoios e quase sozinhos e são ignorados pelo País futeboleiro.
Quem gosta de desporto em geral, como eu, que faça o mesmo ao futebol, apreciem apenas os grandes eventos. Campeonato do Mundo ou Europa, o resto é para ignorar. E façam desporto, pela vossa saúde!

sexta-feira, agosto 10, 2012

Sou tripeiro. Sou do Porto!

 

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O texto não é meu, mas é exactamente aquilo que eu penso desta cidade. Moro em Gaia, e sempre que passo a ponte D. Luís sinto um arrepio de quem, mais uma vez regressa a casa. Aquele "quadro", a cascata são joanina que tão bem descreveu Carlos Tê no Porto sentido cantado por Rui Veloso, é uma brisa que me refresca a alma e aquece o coração. Também eu sou do Porto, também eu o sinto meu. 

 

Nasci na freguesia de Santo Ildefonso. Os meus dois primeiros anos, passei-os em Cedofeita. Cresci, vivi e vivo em Ramalde. Sou do Porto, portuense, tripeiro.

Ninguém escolhe a cidade onde nasce. Eu nasci no Porto. Ligam-me a esta cidade sentimentos que por mais nenhuma poderei ter: uma ternura, uma nostalgia, um afecto, que só se tem pelo sítio onde se nasce e onde se cresce. Foi no Porto onde aprendi a andar. Foi nas escolas do Porto onde aprendi a ler, a estudar… Foi no Porto que criei os meus primeiros amigos, que fiz os meus amores. A minha infância (e a felicidade que dela emana) tem o Porto como pano de fundo.

Gosto do sotaque do Porto, das vogais abertas, da força do discurso, dos palavrões… Gosto das ruelas da Ribeira, da sua nobreza e burguesia entranhadas. Gosto das pontes. Gosto da Foz do Douro, do mar… Gosto das vistas da Sé e da Praça da Liberdade. Gosto da comida, das francesinhas, das tripas e da hospitalidade. Gosto do São João (a noite sem fim) onde a cidade se torna pequena e o que na Baixa começa na Foz termina.

Não sei se o Porto é a melhor cidade do mundo, nem me interessa. O Porto é a minha cidade. Por isso me comovo com o “Porto Sentido”, por isso vibro com os golos que desfraldam as bandeiras com o nome da minha cidade (nunca entendi os tripeiros que só vibram com o desfraldar de bandeiras doutras cidades e doutras freguesias…).

Ao Norte de um país do Sul da Europa é uma mistura, mais Celta que Moura, nas gentes, nas casas, nas ruas, nas cores e na chuva. Cidade histórica, invicta, nobre e burguesa, é também uma cidade pequena, fechada e conservadora. Não sou obrigado a gostar de tudo no Porto, mas não renego o sítio onde nasci e cresci. Sou do Porto por emoção e por razão!

Vivemos num país que durante muito tempo afunilou o desenvolvimento num só local (a capital) deixando tudo resto ao abandono. Esse é um facto do passado. Hoje o Estado já não tem o poder que teve e está muito mais nas mãos de cada cidade projectar-se competitivamente ao nível internacional. O Porto de hoje precisa de mais economia, de mais riqueza e energia, criatividade e sabedoria (por isso é tão importante potenciar ao máximo a Universidade). Precisa de redes, parcerias (como a aproximação à Galiza) e infra-estruturas (note-se a importância do metro e, principalmente, do moderno aeroporto, para o desenvolvimento turístico e económico da região). Porém, para tudo isso, precisa de gente e muitos tenho visto a emigrar (para Lisboa primeiro, para Madrid, Londres, Bruxelas ou Luanda depois). Resta saber se vão voltar (eu acho que muitos querem voltar)... Eu próprio não sei em que cidade terei que ficar… Sei é que esta é uma boa cidade para se amar e que, qualquer que seja o futuro que o futuro lhe reserve, esta é a cidade de que sempre me irei lembrar!

Gabriel Leite Mota, in Jornal Público, P3, 07/08/2012

segunda-feira, agosto 06, 2012

Ultra Trail Nocturno Lagoa de Óbidos

Nada melhor que uma estreia para a minha 10ª maratona.
Uma estreia em prova exclusivamente nocturna, e uma estreia num terreno que até aqui evitava: Areia e dunas.

A prova começa (apenas o controlo de chip) e termina no Castelo de Óbidos, daquela belíssima localidade do centro do País. Com a realização da Feira Medieval, e a inevitável presença de milhares de visitantes, foi assim emoldurada a partida simbólica, com o serpentear das ruas da Vila histórica por umas centenas de atletas rumo aos trilhos que circundam a bela lagoa de Óbidos. A partida real foi dada no exterior da muralha, com o rápido alongamento do pelotão, onde a boa disposição imperava. Entre os imensos participantes, muitos eram os que se estreavam em provas de trail, ouvindo-se bastantes e constantes avisos de “pedra”, “ramo” ou “subida”. Apesar de todos irem equipados com o obrigatório frontal, as armadilhas espreitavam sempre junto aos pés. Estando as marcações, excelentes, mais acima, era obrigatório projectar para aí a luz. Qualquer desatenção levava a desvios evitáveis e que aconteceram amiúde.

Até à separação das provas, a curta de 25 km e a distância ultra de 50, o trilho foi pequeno para tantos participantes. Junto à lagoa, nas zonas de passagem por água ou lama, já era difícil a progressão. O serpenteado de luzes embelezava a noite da pacata planície e os gritos de alegria de corredores maravilhados com a experiência rasgavam o silêncio habitual da zona. Os campistas, admiravam o cortejo, e ofereciam o que podiam “uma água ou cerveja”, disponibilizava um miúdo. Decidi recusar a cerveja.

Depois de separadas as provas, a calma. Aquilo que mais aprecio nas ultras. Parece que todos vamos para ali em busca de retiro espiritual. A paz que sentimos enquanto sozinhos na natureza, em perfeita harmonia com o meio ambiente, um coelho que passa, uma coruja que canta ou um sapo que coaxa, é inexplicável e inigualável. De noite a calma é exponencial.

Aos 26 kms, depois do 2º abastecimento, a grande dificuldade desta prova. Chegados à Foz do Arelho, 6 kms em areia e arribas. Para subir as arribas, em terreno de areia muito fina, por cada passo que dávamos, parecíamos deslizar 3 ou 4. Impressionante. Um troço que incluí passagens por rochas com menos de 0,5 mt de largura, e sempre com muita areia. Palavrões geravam incentivos, das fraquezas redobravam as forças e lá fomos, num grupo que entretanto se formara, até ao abastecimento do quilómetro 32.

Daqui até ao último abastecimento fui travando conhecimento com os dois atletas que haviam saído comigo do controlo dos 32, e que comigo se perderam por umas centenas de metros. Nada de grave. Lá fomos correndo nas descidas e nas zonas planas e caminhando nas subidas, visto que, apesar de termos saído da praia, o terreno continuava muito solto e em areia. A chuva, miudinha, já nos acompanhava para nos refrescar. Fomos passando vários corredores até ao final, acabámos frescos e com sentimento de dever cumprido.

As peripécias vividas foram muitas, mas abstenho-me de as contar, na certeza de que, os que as viveram sabem do que falo, e os outros devem vir experimentar. Importante dizer que a prova é superiormente organizada, num ambiente de corredores para corredores. A espectacularidade do trajecto, embora sem podermos desfrutar em pleno, por ser de noite, mas que tem uma beleza sem igual pelo efeito provocado pelo pelotão e pela zona de praia, levam-me a dizer apenas e só que fiquei apaixonado por esta corrida. No próximo ano, se nada houver em contrário, não faltarei.

Os abastecimentos, com um apoio inexcedível dos voluntários, com presença de socorristas e muito bem colocados ao longo do percurso. Percurso bem marcado, a exigir alguma atenção nas zonas mais iluminadas, onde os reflectores não eram perceptíveis (km 26 e 32), talvez fosse prudente acrescentar algumas fitas reflectoras nesses locais e em alguns cruzamentos.

Uma última palavra, de agradecimento para o Jorge Serrazina e restantes membros da organização, que tão bem nos acolheram e tão bem nos trataram nesta fantástica festa do trail nacional. Obrigado!

Os resultados e outras informações da prova, podem ser consultados aqui.

segunda-feira, julho 30, 2012

Trail Santa Justa e uma justa homenagem

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Organizado pelos Amigos do Trail, que como o nome indica, é um grupo de amantes da corrida de montanha, que treinam habitualmente nas Serras de Santa Justa, Pias e Castiçal, que, em conjunto formam o maciço de Valongo, decorreu ontem nesse belo espaço verde, mesmo aqui ao lado do Porto, a primeira edição, com saída e chegada no Parque da Cidade de Valongo.
A prova, como qualquer primeira edição, teve lapsos de organização que certamente serão corrigidos, e que tiveram origem na ânsia de proporcionar aos participantes do Trail, na distância de 21 kms e da Corrida/Caminhada com 12 kms a percorrer, as emoções e sensações que habitualmente experimentamos noutras serras e trilhos do nosso Portugal. A ideia de colocar no mesmo trilho, e com a mesma dificuldade, os caminheiros, pareceu-me exageradamente arriscada, e levou ao extremo o esforço de algumas pessoas que se preparavam para uma experiência que não englobava subidas com grau de dificuldade elevado, técnico e físico.

Os primeiros 6 Kms de prova eram a rolar, o que proporcionou imediatamente uma selecção dos atletas. Com uma subida aos 360 mts em apenas 3 kms, logo se proporcionou aos atletas a oportunidade de acelerar os batimentos cardíacos, tanto pela vista do alto da serra de Pias, como pelo esforço despendido numa inclinada e dura escalada. Rapidamente abordada a descida, com muita pedra solta a solicitar destemido arrojo, segunda paragem para rápido abastecimento (num total de 4, excelente para a distância) e retorno ao estradão, que já cansava. Aqui, uma surpresa relativamente ao treino de reconhecimento uma semana antes, entrámos num bonito e curto exemplo de trilho à beira rio, onde os domingueiros, com toalhas estendidas nas frescas sombras, nos iam indicando o caminho a seguir. Novo abastecimento e nova subida. Esta, de quase 3 kms, e com um início algo técnico, com muita pedra solta, e um final com uma inclinação brutal para quem ia apenas fazer uma caminhada. É que este era também o percurso final da corrida e da caminhada. E depois da subida, uma descida em pista de downhill, bastante divertida para quem gosta de trail, mas, pareceu-me, imprópria para caminhadas.

As classificações e outras informações, podem ser consultadas aqui, no site do evento.

Enfim, um agradável Domingo, num dia de algum calor, com sol, onde o apoio dos Escuteiros dos Agrupamentos de Gandra e de Sobrado foi inexcedível, e no qual todos se divertiram e muitos puderam experimentar, alguns pela primeira vez, a diversão de uma corrida de trail.
É sempre uma alegria ver tanta gente a chegar, a música, com escolhas que variam entre José Malhoa e Ac/Dc, o burburinho antes da partida, o rever caras conhecidas das corridas e o convívio entre apaixonados de uma modalidade cada vez mais popular, e para a qual apenas precisámos de umas sapatilhas e força de vontade. O prazer vem com a regularidade. E é um prazer enorme poder partilhar experiências com tanta gente que me faz, cada vez mais admirar cada um deles.

Um cumprimento especial a um grande senhor das corridas em montanha, que me dá o privilégio de ser seu amigo. Sempre disposto a uma palavra de incentivo, sempre na disposição altruísta de ajudar, seja em treino ou em provas, e que, todos nós, tenho a certeza, almejámos imitar. Representa, quanto a mim, o espírito do trail na sua essência. É o exemplo de respeito, boa disposição, desportivismo, educação, elevação e camaradagem. Sempre com um rasgado sorriso, que a todos nos marca. Faz hoje 52 anos e corre como correm poucos de 25. Mereces esta homenagem, Carlos Natividade. Obrigado por tudo.

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segunda-feira, julho 02, 2012

Ultra Trail Serra da Freita 2012

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Prova extreme do trail nacional, ou “um filme de grande produção”, como diz o José Moutinho, em contraponto com a minha estreia, há um ano, na versão pequena desta mesma organização, e à qual o seu director chama “um pequeno trailer”. O trail, na sua essência, é aquilo que a Freita nos dá: Desafiar a natureza, lidar com os obstáculos que ela nos coloca e que nos dificultam ao máximo a progressão. Desde rios, túneis, escarpas e montes até ao bode com uma pata partida ou à vaca de grande porte com quem dividimos, momentaneamente, o trilho.
A prova é, na palavra do José Moutinho, gourmet. Gourmet, meu caro amigo, é a de 17 kms, porque gourmet é em pouca quantidade, só para provar. O que eu vi ontem na versão longa metragem é um buffet à discrição! A UTSF é o Tromba Rija do trail.

Esta é (mais) uma crónica vista de trás. Não sou, nunca fui, atleta de eleição, mas sinto-me privilegiado por poder “beber” da experiência e capacidades fantásticas dos que comigo partilham trilhos e dores. Luto muito, cerro os dentes e fixo o olhar na ponta das sapatilhas, na esperança de que, quando volte a elevar o olhar, os cumes estejam mais próximos, para poder voltar a respirar aquelas paisagens que nos envolvem e que nos fazem sentir tão, mas tão minúsculos, num Mundo onde somos invasores e em que, cada vez mais, somos factor de desequilíbrio e de destruição. São estas sensações que me fazem inscrever em cada desafio. Poder partilhar estes sentimentos e sensações com um amigo ganho nas corridas é um privilégio ainda maior.

O dia começou com chuva intensa e temperatura a rondar os 10º, condições excelentes para correr em montanha, visto que, estando a partida da prova a mais ou menos 900 mts de altitude, e como os primeiros quilómetros seriam a descer, a tendência seria de aumentar pouco mais, desde que a chuva desse tréguas, o que se veio a verificar ainda antes do início.

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Os primeiros quilómetros passaram rápido, até atingirmos os primeiros verdadeiros desafios. Fui, desde o início, com o João Meixedo, em amena cavaqueira. Decidimos não arriscar, avisados pelo Moutinho, e fomos, sensatamente, em passo calmo rumo ao Rio Paivô. Depois de uma primeira sessão de crioterapia, o primeiro inédito desta edição: Uma passagem de cerca de 300 mts por um túnel, onde deveríamos ter usado os frontais, mas a preguiça levou-nos a usar os bastões, quais bengalas de cego, e o pequeno ponto de luz no final do dito, como guias de ocasião. Chegados ao troço de rio, começamos a experimentar a tracção das sapatilhas. Entre mergulhos, travessias a nado, escorregadelas dentro e fora de água e algumas cabeçadas e caneladas nas escarpas, lá chegamos ao primeiro abastecimento, em Covelo de Paivô. Primeira surpresa. Quase uma dezena de atletas à espera de transporte para o Merujal, que me fizeram pensar serem de outra prova, não fossem os dorsais. O Rio a fazer as primeiras vítimas.
Dali aos 30 kms foi um reconfortante quadro que nos envolveu e que fez com que os quilómetros passassem sem serem notados. Entre a Serra da Freita e a de S. Macário, uma formidável e asfixiante paisagem, digna de um paraíso terrestre, com o epílogo em Drave, a bonita aldeia histórica conservada por escuteiros e onde estava o 2º abastecimento. Mais um trajecto no rio. Fomos avisados pelos elementos do abastecimento que teríamos 10 kms muito duros, mas nunca pensámos que fossem mais duros que os que ultrapassáramos antes. Mas eram. O rio, naquela zona, obrigava a muito mais passagens por escarpas que se revelavam perigosas. A certo ponto, como a progressão se tornou impossível para quem balizou o percurso, optaram por uma saída por uma escarpa, extremamente perigosa e onde encontrar pontos de apoio se revelava difícil. Dali saídos, sãos e salvos, o Meixedo saca do repasto preparado como almoço: Duas sandes de presunto que repuseram energia onde ela já faltava, e que confirmaram os dotes culinários do meu companheiro de jornada.

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Quando demos por ela, estávamos de volta ao rio. Uma pequena passagem para podermos iniciar a subida para os “3 Pinheiros”, e consequente acesso a Candal, pelo “Trilho dos Incas”. O problema nesta incursão ao rio, foi o percurso estar marcado com fitas da “Asics”, e o trilho seguinte com fitas da “EDP”, sem nenhuma transição perceptível e que nos colocou na dúvida, se o trajecto seguia pelo rio ou se seria aquele. Subiu o Meixedo alguns metros e reconheceu a envolvente, recordando-se de uma foto publicada por uma das pessoas que havia feito a limpeza dos trilhos. Esta subida era brutal. Do melhor que já vi e fiz em trail. Mais de uma hora para a fazer, na peugada do Meixedo, que levava um bom ritmo, e que parecia não terminar nunca. Aqui, e como em quase todas as provas, aprendi mais uma lição: Não adiar nunca a hora de comer. Quando apetece, o melhor é mesmo comer um gel, ou uma barra. Fui adiando, não quis parar a meio da subida, e já a menos de 2 kms de Candal, em pleno Trilho dos Incas tive que o fazer. A consequência deste erro viria depois.
Chegados ao abastecimento dos 40 kms, já recuperado da estopada que foram as duas incursões no rio, em apenas 5 kms, e aquele tão belo quanto duro trilho em plena “Garra” (termo usado pelo Moutinho para definir uma encosta onde coincidem vários trilhos), repusemos energias e repousámos as emoções. O veredicto do elemento da organização que ali se encontrava é que não nos convenceu. Estávamos fora do horário de controlo, e não podíamos prosseguir. O Meixedo mostrou a nossa indignação, tentando contrariar a vontade que tinham de nos barrar a passagem. Demos conta da nossa determinação em seguir caminho, mesmo à nossa responsabilidade, tendo o elemento da organização procedido ao check-up do material, por segurança. Entretanto iam-nos avisando que o que faltava era muito duro, que íamos fazer grande parte do trajecto de noite, que iria estar muito frio, etc. Nada dos demoveu. Fomos embora a blasfemar contra tudo, todos e principalmente contra a nossa, até então, prudência e sensatez. Mas como não estávamos preparados para desistir sem motivo de saúde, ou caso estivesse em perigo qualquer um de nós, seguimos. Na subida da Fraguinha fraquejei. Estava a pagar a má gestão da alimentação em tantas horas de prova. Tinha no “bucho” uma sandes de presunto, meia banana, dois géis e uma barra energética. Pouco, muito pouco para mais de 11 horas de prova. O Meixedo, indignado, lá ia dizendo que havia de chegar pelo pé dele, com ou sem abastecimentos (tinham-nos dito no abastecimento dos 40 que não esperariam por nós em nenhum dos seguintes). Eu, quase sem falar ia sorrindo com ar de resignação. Desse por onde desse, caso continuasse assim, a fraquejar, e por muito que o quisesse acompanhar, não sabia então se teria condições para o fazer.
Já aos 50 kms de prova (no GPS do Meixedo, porque o meu “morrera” aos 46), em Manhouce, nem sinais de qualquer abastecimento. Eu, já recomposto da quebra, revigorado pelo sorriso do Meixedo por não ver quem lhe tirasse a companhia, estava determinado a ir com ele até ao Merujal. Havíamos de ali chegar, triunfantes, no meio do nevoeiro. Sentados nuns bancos de pedra junto a uma fonte, fizemos o nosso próprio repasto: Um pacote de caju que eu tinha na mochila, dois géis e bebida isotónica (as pastilhas revelaram-se fundamentais, devido à restrição de bebida energética) fizeram a ementa do jantar. Colocados os frontais, pusemos pés ao caminho, sempre pelo trajecto balizado. Um pouco mais à frente um vulto saúda-nos. Era o Fernando Rocha, colega dos Porto Runners, que estava no apoio do abastecimento dos 50 kms, e que esperava alguém da organização para recolher dois atletas que ali tinham abandonado a prova. À pergunta do Fernando se íamos seguir, respondemos em uníssono afirmativamente. Prometeu-nos simpaticamente um café no abastecimento dos 60, e que lá nos esperava, descansando-nos em relação ao percurso.
Lá fomos nós. Era já noite. O percurso ali, não estava ainda balizado com fitas reflectoras, tornando-se assim difícil distinguir algumas no breu. Encosta acima, trilho abaixo, mais rio para atravessar, numa zona com uma mini-hídrica e onde tínhamos de caminhar dentro de água, mas felizmente sem incidentes. Quando chegámos ao fim da subida, já a menos de 1 km do prometido controlo dos 59, eis que vindo da escuridão, aparece o José Moutinho ao volante da sua pick up (curiosamente o termo traduzido à letra do inglês é boleia, ou apanhar), buzinando. Recolheu-nos dizendo que a prova tinha sido suspensa por razões de segurança, devido ao nevoeiro e que nos ia ser atribuído o tempo de prova de 17 horas. 
No “Refúgio da Lomba” esperava-nos uma canja, uma bifana e uma mini, que degustámos, esses sim como gourmet, na companhia de mais alguns colegas que aí foram recolhidos e levados, connosco até ao Merujal. Não foi a forma com que queria acabar a prova, sair de um carro, entregar o chip e receber o troféu de finisher, mas foi o que me calhou.
Não sei se teria ou não conseguido chegar à meta sem mais percalços, mas sei que não desistiria nunca. Com 10 kms para o final, tenho a certeza que, mesmo de rastos, o Meixedo me arrastaria para a meta. E tenho a certeza, porque apesar de o ter atrasado com aquela quebra pouco antes dos 40 kms, foi ele que me mostrou só com simples frases que chegaríamos desse por onde desse e que éramos capazes. Quando se tem assim um companheiro, com uma força, determinação e coragem do tamanho daquela serra, não temos como o desapontar. Suguei dele o que pude, enquanto pude, e enquanto ele me foi mantendo à vista. Fiz o que consegui, sem deixar nunca de pôr um pé à frente do outro, na esperança que não o atrasasse e não o deixasse cumprir o sonho. Pela sua determinação, pela bravura de um verdadeiro ultra, determinado e obstinado no objectivo, e, acima de tudo, pelo companheirismo, mereceu aquele troféu de finisher. Diga-se em abono da verdade que merecia o dele e o meu.
Obrigado Meixedo.     

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Para terminar, não quero deixar de agradecer a todos os que contribuíram para a organização da prova, aos Leões do Veneza, às populações e aos voluntários.
Ao José Moutinho, agradecer as palavras de apoio no final (tem aquele jeito de nos calar com o termo que mais usa: “Campeão”), agradecer o empeno que trouxe da aventura fantástica que é a Ultra Serra da Freita, mas dizer-lhe que, mesmo sem tanto “petisco” no rio Paivô, o Gourmet era perfeito. Não precisávamos de provar tanta técnica. Vou seguir o teu conselho, e vou treinar nas rochas das praias da marginal do Porto. Pode ser que no próximo ano salte entre elas qual cabra montesa.
A última palavra fica para todos os que participaram nesta prova. Aos que participaram no “trailer” (17 kms) e que com certeza tiraram uma pequena ideia da dureza e beleza da Freita e principalmente aos que se aventuraram na prova rainha, a tal “película de grande produção”. São todos uns bravos. Todos, sem excepção. Desistir numa prova como esta é tão difícil como a fazer, até porque, depois da partida, só mesmo nos abastecimentos há hipótese de recolher quem para. Concluir é para alguns eleitos. Não basta estar preparado fisicamente, é preciso ser muito forte mentalmente. O Luis Mota e a Carmen Pires foram os primeiros a concluir a prova nos respectivos segmentos. Parabéns pelas vossas vitórias.

Por fim fica a frase que serviu de inspiração a um amigo e atleta exemplar, o Carlos Natividade, que, na sua estreia, concluiu brilhantemente a prova.

"É melhor tentar e falhar, que preocupar-se e ver a vida passar; é melhor tentar ainda que em vão, que sentar-se fazendo nada até ao final.
Eu prefiro na chuva caminhar, que em dias tristes em casa me esconder; prefiro ser feliz, embora louco, que em conformidade viver".

(Martin Luther King)

P.S.:Fotos retiradas do Facebook, da autoria de Hugo Santos e do Francisco Serrano Cantalejo

terça-feira, maio 22, 2012

V Ultra Trail Geira–Via Nova Romana

 

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Vêm em silêncio. Estacionam perto daquela que há-de ser a almejada meta de uma prometida empreitada digna de registo. Serão 52,5 kms de corrida desde a localidade de Baños de Rio Caldo, na vizinha Galiza, pela Via Nova. Sonolentos, despertam sorrisos com o sono dos que vão chegando. É sempre assim. Os que viajam no dia da prova vão-se abrigando, ora da chuva, ora do frio, dentro dos carros, vão limpando os vidros embaciados, na busca de outros que chegarão, também de casa, também arrancados ao conforto da cama num Domingo de madrugada, ou da escola primária ou pavilhão que serviram de casa aos que vieram de véspera. Nunca fui. Vou quase sempre no dia. A designação do espaço destinado ao alojamento de quem não prescinde de mais uma ou duas horas de sono, “solo duro”, provoca-me dores nas costas por antecipação. Nada que um colchão não resolva, mas…

Em burburinho controlado, caminham apressadamente pela arvorada rua que ladeia as famosas Termas de Caldelas em direcção aos autocarros que os hão-de levar à partida.

Já em elevada agitação, num quase estado de manifestação espontânea de um grupo de miúdos de escola prestes a estrear um brinquedo, aglomeram-se junto a um estranho tanque de água quente ali sito, onde meia dúzia de anónimos se espantavam com tamanha algazarra na normalmente pacata terra. Espantados, mas sem saírem do certamente aconchegante conforto de águas quentes em tempo chuvoso e fresco. Ninguém cedeu à tentação de ali ficar, literalmente, a banhos.

Depois de salvas a César, cuja figura discursou, mas que eu, sinceramente não ouvi, foi dada a ordem de partida.

E dali até ao final foram 5 dezenas de quilómetros a apreciar a beleza do Gerês, na sua vertente mais selvagem. Um percurso belíssimo, com imagens formidáveis que nos fazem ter vontade de voltar. Nem a chuva, fria, nos impediu de desfrutar de todo aquele quadro esplendoroso, desta abençoada terra outrora conservada e cruzada por romanos.
O final da prova é surpreendentemente uma original caminhada pelo Rio Homem, ontem com muita água e caudal devido à chuva, mas onde os músculos relaxam com o choque térmico provocado. No mínimo original. Na minha opinião, genial.
Prova aconselhada a quem gosta de natureza, e quer tentar a estreia numa ultra-maratona de trail. É propícia à corrida, visto as dificuldades técnicas do percurso não serem elevadas, devendo contudo, os menos experientes, refrear a tendência de corrida muito rápida devido à distância. 52 kms custam sempre.

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No fim do dia, um sobe e desce de gente mais ou menos vagarosa, normalmente suja de lama, com ar fatigado e sorriso rasgado. Todos se cruzam e se cumprimentam. Mais dois ou três ou mesmo meia-dúzia de amigos que se conheceram no meio de uma serra, enquanto comiam um pedaço de banana e diziam umas palavras de ocasião aos voluntários dos imensos postos de abastecimento. Uns a mancar, outros como se nada fosse, quase todos os estreantes sem largar a medalha que lhes há-de perpetuar aquela sensação feliz e realizada de ser Ultra-Maratonista. Com um espírito que não se explica, não se percebe enquanto não se prova, mas que nos fica no sangue, na mente e no corpo, na exacta medida que nos vão saindo da pele todas as horas de esforço e sofrimento. Um espírito forte, que nos acolhe, que nos suga para dentro de uma família que sabemos que nos vai apoiar no próximo desafio, no próximo empeno, na próxima prova louca onde nos vamos inscrever. Porque depois de uma prova, depois do sofrimento, depois do empeno e enquanto colocam gelo nas mazelas, fazem pesquisas e inscrevem-se em mais uma aventura, em mais uma reunião de gente saudavelmente insana.

É isto o Trail Running. 

sexta-feira, maio 04, 2012

Respirar e sorrir

Há apenas duas coisas que me fazem sentir, mais que todas as outras, vivo e feliz por viver. Correr e ouvir música. Não serei caso único, mas o fascínio que me provoca esta bela forma de encantar, que a natureza nos proporcionou, faz-me saltar de estado de espírito em estado de espírito, sem nunca querer parar de ouvir. O que mais tem piada é que salto de estilo em estilo sem estranhar.

“Viver intensamente cada dia, que isto está a passar cada vez mais depressa”.

Esta frase espelha a vida. Tudo aquilo que vamos vivendo, com mais ou menos intensidade, vamos um dia recordar com imensa saudade. Devemos viver tudo, sentir, cheirar, provar o sal da vida. Arriscar, tentar, falhar e perder. Tudo nos fará sentir que valeu a pena. Porque a vida vale mesmo a pena.

A saudade, o recordar tempos idos, faz bem à alma, é saudável.

Começa hoje a Queima das Fitas. Fica aqui a minha homenagem a todos os que choram de saudade.
Os que a vivem, aproveitem. Nunca as esquecerão.

Só nos resta desfrutar, suspirar e sorrir.

Ainda o Pingo Doce

Não sou economista, director de jornal, deputado à AR, nem cronista ou comentador da actualidade política. Ao contrário da grande maioria dos "opinion makers" deste País, vivo no Porto.
Viver fora de Lisboa e da sua sufocante área metropolitana, dá àqueles uma visão deturpada da realidade que se vive no País. Consideram, para tirar ilações e sensibilidades sobre qualquer assunto, que aquilo que vêm é o espelho do País. Quando muito, e se as tv's tiverem estagiários disponíveis para relatos tremidos, apercebem-se da realidade do Porto.
Tenho seguido com especial atenção o debate gerado em torno da promoção de 1 de Maio no Pingo Doce. Quase todos se escandalizaram, com a esquerda e sindicatos, que se acham donos de datas, a liderar a indignação. O governo, na linha socialista de todos os que nos governaram desde 74, tenta legislar margens de lucro. Os pudicos e pudicas da esquerda caviar, falam do perigo de ajuntamentos de povo (que horror) e da exploração dos funcionários do Pingo Doce, que, como é hábito da esquerda, queriam que fossem obrigados a descansar. É pecado trabalhar no 1 de Maio.
Ora, não sendo eu aquilo tudo, não deixo de ser cidadão e observador do fenómeno.
No dia 1 de Maio não fui ao PD. E não fui porque abomino lojas e centros comerciais em dias festivos. Mas também evito praias em Agosto, jogos de futebol, trânsito em hora de ponta, etc. Não gosto de confusão.
Ontem fui ao PD do costume, o de Canidelo, junto à praia, em Gaia. É o sítio onde faço compras, quase semanalmente, por ser o mais próximo de casa. Curioso, com uma imagem formatada pela opinião bebida na comunicação social, e apenas com um ou outro testemunho na primeira pessoa de alguns clientes, (quem teve paciência e tem que contar todos os cêntimos, ganhou) quis saber mais sobre a empresa e em especial sobre aquele dia. Aproveitando o facto de estar na hora do fecho e ser o último cliente, fiquei um pouco à conversa com uma funcionária (coisa que poucos se devem ter preocupado em fazer). Disse-me que recebem todos os feriados a triplicar e têm direito a uma folga extra, preferindo assim, quase todos trabalhar (liberdade também é isto, poder escolher), os Domingos recebem a dobrar, e quando têm que fazer horas nocturnas recebem como tal. Disse-me ainda que a grande confusão no dia da promoção, foi o facto de não haver estacionamento para tanta gente, nem espaço dentro da loja. Os stocks esgotaram (como seria de esperar), as filas para as caixas eram intermináveis (quase todos os clientes faziam compras enquanto um esperava na fila), e o dia começou mais cedo para preparar tudo aquilo e terminou mais tarde. Não tiveram oportunidade de fazer as compras com a promoção nesse dia, tendo sido informados que o podem fazer agora, depois de repostos os stocks. Diz-se contente por trabalhar no grupo Jerónimo Martins e gostar do que faz. Aprecia o facto de ser acarinhada, sente que faz parte de um todo, por ser respeitada, por receber prémio dos lucros da empresa e por poder fazer o que gosta. Não, não era a gerente de loja. Falei com uma Senhora, nos seus 50 anos, funcionária da peixaria.
Não foi por isto que lutaram os que morreram nas lutas sindicais do século XIX em Chicago?
Eu sei que é uma chatice apregoar o socialismo e vir um grupo empresarial da grande distribuição aplicá-lo com mais eficácia que os próprios. Deve doer. Daí terem começado a chamar a Soares dos Santos, merceeiro holandês.
Deve ser por não ter invocado a crise para cortar direitos aos trabalhadores, ou por ter-se atrevido a liderar um grupo que gera lucros e os distribui com equidade.
Deram-lhe razão, à posteriori, pelos insultos dogmáticos de quem se sentiu ofendido pela violação do dia sagrado sindical. Se calhar seria bom ouvirem quem trabalha.

domingo, abril 29, 2012

Free-Running Nocturno. O Porto by night

 

Houve anos em que eu vivi o Porto noite fora. Passava as minhas noites num carrossel entre os bares da Ribeira e as discotecas da Foz e Boavista. Como o dinheiro não abundava, como atestavam as caminhadas diárias do Marquês à Ribeira, e das partilhas de táxi de e para as discotecas, fazíamos dos pés meio de transporte forçado.
Quando muito na Queima das Fitas ou no S. João, desfrutava-mos das caminhadas.
Até ter mota ou carro, era este o ritual de muitos de nós. Um fadado destino de percorrer a cidade a pé, porque os autocarros também escasseavam.

Ontem tive a oportunidade de reviver tempos idos, mas com uma vassoura às costas.

vassoura

Nascido da cabeça de amantes do Porto e do trail, que exploram ao máximo a zona histórica, Património da Humanidade, rica em ruelas, vielas, escadarias todas com acentuados declives, a confluir na lindíssima zona ribeirinha, outrora centro logístico do Norte do País, e agora transformado em passeio para os milhares que nos visitam, surgiu o Urban Trail Porto. Com a necessidade de conciliar treinos diários para provas de montanha com o facto de viverem numa cidade, o Jorge Azevedo e o Miguel Catarino, organizadores e criadores do Urban Trail, fazem, como muitos outros da zona antiga da cidade trilho de treino. Aproveitar e dar uma saltada à zona ribeirinha de Gaia, Serra do Pilar e zona das caves, é o mimo de ter a cascata são joanina como paisagem. É incrível como conseguimos fazer na nossa Cidade treinos que variam entre praia, campo, terreno plano ou acidentado, acumular desníveis superiores a 1000 metros…

Isto tudo, mas em grupo. Melhor, com uma multidão.

free-nocturno

A cidade fervilhou após as 22h, com um serpenteado de luzes usadas pelas mais de 500 pessoas que aderiram ao desafio de explorar os caminhos de granito do Porto e Gaia. Da Alfândega à Sé, subindo pelas Escadas do Barredo, passar pela Rua Escura, Viela do Anjo, Escadas dos Guindais e Codeçal, Ribeira, onde nos misturamos com turistas e boémios, com uma belíssima incursão a Gaia onde nos esperava o melhor ponto, a Serra do Pilar, para observar e fotografar (também havia um concurso de fotografia) a mais bela paisagem urbana que se pode imaginar.

porto_noite

Atravessámos as pontes do Infante e D. Luís, convivemos com autênticos craques do trail nacional, uns mais conhecidos que outros, mas todos com um espírito fantástico. E é este espírito que nos faz amar esta forma de vida. Deve haver poucas coisas onde se veja tanta humildade como na corrida, onde todos nós cedemos às fraquezas, mas fazemos das nossas poucas energias muletas dos que delas precisam. Vi gente que nunca tinha feito trail, maravilhada com a experiência, apesar do esgar de esforço com que trepavam mais um degrau.

Houve muitos que nunca tinham sequer imaginado que há uma cidade a explorar, uma cidade que é património de todos, que a todos nos acolhe e envolve numa grandiosidade de beleza cinzenta, colorida por gente que nos saudou simpaticamente, que nos incentivou e apoiou.

Outros houve, como eu, que se lembraram de tempos idos, em que, vivendo como se não houvesse amanhã, calcorreávamos toda aquela envolvente sem querer passar lá pelo meio. Agora não dispensámos. Nem a Cidade, nem tudo o que ela tem para nos dar. O Porto vivido assim tem outra intensidade, tem outra beleza. É como fazer parte de uma orquestra, onde os músicos entram nos tempos correctos, com uma intuição genuína, com uma harmonia melancólica de quem sabe que o fim chega, mas o prazer é o caminho.

Obrigado aos mentores desta corrida/caminhada nocturna pelas zona histórica da minha cidade. 
Obrigado aos que comigo partilharam a responsabilidade de não deixar ninguém para trás, Carlos Natividade e João Paulo Meixedo, dois amigos de um companheirismo inexcedível.

Obrigado a todos os que participaram, com um civismo extraordinário. 

P.S. – Este álbum de fotos do Miguel Oliveira espelha muito do que aqui tentei descrever.
http://www.facebook.com/media/set/?set=a.368806363171040.102124.126867960698216&type=1

domingo, abril 22, 2012

Vasco Batista–O Amador

amador |ô|

adj. s. m.

adj. s. m.

adj. s. m.

1. Que ou o que ama.

2. O que, por gosto e não por profissão, exerce qualquer ofício ou arte.

3. Apreciador.

(Dicionário Priberam)

 

Andamos todos de homenagem em homenagem, justas, aos atletas que elevam bem alto o nome de Portugal, principalmente àqueles que o fazem com enormes sacrifícios, que o fazem por carolice, porque são como nós, amadores.
Nos últimos meses tivemos a alegria de ver o Armando Teixeira, Carlos Sá, Pedro Marques, Telmo Veloso e Susana Simões, com resultados que a todos nos orgulharam, como se um pouco do que eles conseguem fosse também nosso, os que partilhamos com eles as ruas e trilhos de treino e provas.
Todas as homenagens são poucas para o que todos eles conseguem alcançar com tão pouco. Limitam-se a “fazer das tripas coração”, técnica tão nortenha de fazer sem meios aquilo que muitos, tendo-os, não conseguem. São justas.

Mas deixem-me personificar no homem que dá título a este texto, a homenagem justa ao atleta amador.

Vasco

Amador, porque é operário (como ele orgulhosamente diz) de uma multinacional, onde exerce a sua profissão, sendo a corrida um hobbie, um passatempo que apaixonadamente faz, para ocupar tempo livre e para desfrutar de todo o ambiente que normalmente se cria no grupo onde treinamos, e com o grupo com que corremos.
Amador porque não se limita a treinar e seguir escrupulosamente um plano de treinos com vista a atingir um tempo objectivado e estudado por um qualquer treinador, que nem tem. Amador porque faz todas as provas que pode, desde provas de 10 kms até ultra trails onde consegue acompanhar os melhores.
E amador porque, aconteça o que acontecer, nada lhe vai mudar a personalidade de apaixonado e de bem com a vida.

Conheci o Vasco uma semana antes daquela que foi a sua (e minha) estreia na distância mais longa das corridas de estrada, a maratona. Lembro-me como se tivesse sido ontem, ao pormenor, daquele treino. E lembro-me porque o Vasco é daquelas pessoas que marca. Ele e a sua simpática família, sempre disponíveis para os outros.

O Vasco é das pessoas mais humildes que conheço, mas daquelas que têm um altruísmo incontinente, não se limitando a ser quem são sem saírem do seu lugar.
Sempre disponível para ajudar, sempre com uma palavra de incentivo, sempre a aconchegar os outros e sempre com um sorriso de menino cada vez que consegue a foto da ordem com os ditos profissionais. Em todas as fotos onde, surpreendido ou não, aparece, mostra sempre um sorriso rasgado, seja no início, meio ou no auge do sofrimento que algumas a todos nós provocam. Garanto-vos que não há prova onde ele vá que não faça um amigo. Não é capaz de fazer uma prova compenetrado, sem falar com o atleta que vai ao lado, ou sem oferecer o gel, ou incentivando… É assim o Vasco.

Certamente que vos podia dar mais alguns exemplos do atleta amador, daquele que, com sacrifício busca objectivos que não lhe trazem mais que o dever cumprido. Muitos mesmo. Mas o de um homem que trabalha por turnos rotativos de 8 horas, que tanto está a trabalhar de manhã, como à tarde ou no turno da noite (08h-16h/16h-24h ou 00h-08h), e que mesmo assim tem tempo para treinar, descansar, ser marido e pai, e não se esquecer dos amigos… Daqueles que eu conheço, é exemplar.

Impressiona toda a evolução que o Vasco conseguiu em 2 anos de corrida. Completou hoje a sua 5ª Maratona de estrada, com um formidável tempo de 2h51, 105º classificado na Maratona de Madrid.
E com uma regularidade de ritmo que espelha trabalho e muita dedicação.

MaratonademadridVasco

É justo que se homenageie o resultado, mas é mais justo que se homenageie o Homem. Que é seguramente um excelente filho, irmão e principalmente pai e marido.

Parabéns ao clã Batista. São uma inspiração.

E parabéns a ti Vasco.

É um orgulho imenso ser teu amigo. Obrigado por retribuíres.

segunda-feira, março 19, 2012

Dia do gajo porreiro

Há pessoas que conhecemos há anos e que se fartam de nos surpreender, pela negativa. Outras há que, apesar do pouco que sabemos delas, temos a sensação que somos como almas gémeas.
Infelizmente tenho vários casos da primeira espécie descrita. São casos perdidos, de gente que julgava com emenda, mas que nunca me deixaram a expectativa da surpresa. Das almas gémeas, tenho a sensação que são as primeiras antes de as conhecermos.
Aqui há uns anos num primeiro dia de trabalho numa determinada empresa, um colega, ao contrário do normal, que seria dar-me as boas vindas e mostrar-me o bom, que logo o mal se encarregaria de se revelar, optou por me alertar para os perigos. Não que o trabalho fosse de risco, nada disso. Tinha era colegas de trabalho. Disse-me: "Cuidado, que o Mundo está cheio de filhos da puta. No início todos sorriem para ti, dão-te palmadinhas nas costas e sorrisos de orelha a orelha, mas quando chega a hora da verdade estão-se a cagar para os princípios ou para o que quer que seja que te tenham dito. Gajo porreiro foi o teu velhote, que te deu de comer e sustentou-te até poderes andar por ti. O resto são abutres à espera que te distraias para te comerem a carne."
Confirmo. Na hora da verdade, a grande maioria olha para o seu umbigo. E burro sou eu que ainda acredito que há gente que não é assim.
No dia do Pai, esta é mais uma homenagem ao que ele me ensinou e ensina. A acreditar que há sempre alguém que, como nós, tem prazer em ser altruísta neste mundo de egocêntricos e invejosos.
Espero que continuem a aparecer as excepções que referi, e que, apesar de tudo, ainda existem.

domingo, março 04, 2012

Conselho de amigo: Aprender a ouvir o corpo!

 

Ontem, enquanto me decidia pelo trajecto a fazer, e já com as sapatilhas calçadas, ouch! Uma dor no fundo das costas, ligeiramente acima do cóccix, impedia-me de me mover sem dor. Melhor, quase me impedia de me mexer. Estava refém de um grupo muscular, que ao que parece, segundo me diz o Paulo Pimentel, o homem da arte de tratar e recuperar lesões, às vezes, com um espasmo contraem e provocam dor e sensação de perda de força na locomoção, ou mesmo impedimento de o fazer. Enfim, não podia correr. E quase não conseguia andar.

Dia inteiro com repetições de colocação de gelo e acima de tudo, descanso. À noite, uma chamada para o Paulo só para confirmar se a terapia era a correcta, e se correr hoje seria ou não uma boa ideia. Sem dor, confirmava que o gelo tinha resolvido o problema, mas o Paulo achava melhor não correr. “Nem pensar”, foi a expressão. Dei-lhe razão e pensei que, finalmente, estava na hora de descansar um fim-de-semana inteiro. Já não me lembrava de estar Sábado e Domingo sem calçar as sapatilhas e sair por umas horas. Ia ser este.

Hoje, já convencido do descanso aconselhado, fiz o que faz qualquer domingueiro sedentário. Fui tomar café e ler o jornal, na esperança que o dia passasse mais rápido. Quando nos abstemos de um vício, tudo nos faz lembrar o dito. E a corrida faz-nos falta, especialmente quando não podemos correr.

Quando saio do café vejo um grupo de gente conhecida, colegas do Porto Runners, a correr contra a chuva miudinha que caía com intensidade e os fustigava directamente e de frente. Atravessei rapidamente a rua e cumprimento duas atletas que iam mais atrás. Claro que não me contive e fui logo calçar as sapatilhas. Nada de água nem isotónico, nem gel, nem impermeável. Apenas uns calções e um corta-vento e fiz-me à marginal, na esperança de que as costas não cedessem. Saí em direcção a Sul, em busca dos meus companheiros de equipa. Pensei em manter um ritmo baixo até encontrar a Marlene ou o Miguel Santos, e depois ajuda-los a regressar ao ponto de onde tinham partido. Sei o quão bem sabe encontrar uma “lebre”, alguém mais fresco que nos possa ajudar a quebrar a rotina de um treino longo, e que nos “imponha” um ritmo, que não nos deixe quebrar. Lá fui eu à procura.

8 quilómetros a Sul, já depois da Granja, decidi regressar. Não tinha visto ninguém, tinha já 45 minutos de treino e algum receio de claudicar, perder o apoio lombar e ter de regressar a passo. Tinha passado, logo no quilómetro inicial pela Fabienne, que regressava a caminhar por estar lesionada, que me dissera que o grupo ia uma hora para Sul e regressava. Ora, entre vestir e arrancar e a conversa com ela, já deviam estar de regresso. Não vi ninguém, fiz inversão de marcha, não literalmente, porque tinha feito uma incursão pelo passadiço e agora voltava para Norte pela estrada junto à linha férrea. Ao chegar à estação da Granja vejo a esposa do Geraldino que me diz que ainda não tinha passado nenhum dos atletas. Olho para trás e vejo a Marlene e o Miguel. Abastecem, comem, bebem e arrancámos. Fui com eles até ao final do treino que tinham programado, 3 horas e cerca de 35 quilómetros. É obra.

Já com a fadiga estampada no rosto e com vontade de parar, a Marlene, depois de eu comentar, “são lixadas as endorfinas”, sorriu. Com um sorriso dócil, apesar do cansaço, e revelador de satisfação por mais um passo concluído, num longo caminho que é a preparação de uma maratona. Estava a terminar o treino longo com Barcelona no horizonte, mas estava, acima de tudo, a concluir mais um enorme desafio, como revelam ser todos os treinos com tamanha exigência física.

São estes treinos que nos ensinam a ouvir e sentir o corpo. Mas são também estes treinos que nos mostram o formidável que é o corpo humano. Apesar de todos os receios, de todos os cuidados que possamos ter e que o corpo nos possa exigir, é a nossa cabeça que o comanda e que faz com que, apesar de tudo, vamos até ao infinito. O prazer de correr, dá razão à nossa insanidade de ouvir o corpo e não lhe ligar nenhum. Nascemos mesmo para correr, é um gesto tão natural como respirar, mas curiosamente são poucos os que experimentam esta sensação de prazer depois de um esforço intenso. A grande maioria é sedentária porque, como eu fiz durante anos, ouve o corpo e dá-lhe razão.

Acabei por fazer 20 km em pouco mais de 1h50. Não me dói nada.

http://connect.garmin.com/activity/154787514

É sempre desafiante ter estes diálogos com o meu corpo. Ele diz: “Não vás!”, eu vou. Ele diz-me “Para!”, eu acelero. Ele acaba por me entender quando as endorfinas libertadas no cérebro o fazem levitar e surpreendentemente ajustar ao movimento, parando a dor e promovendo o prazer.

Só posso concluir que o devo ouvir, mas não lhe posso dar sempre razão.     

terça-feira, fevereiro 21, 2012

Atletas? Atletas são os amadores!

Ouvi hoje na televisão, um comentador de um programa semanal sobre futebol, dizer que o Benfica tinha perdido com o Guimarães porque os atletas (?) estavam cansados. Isto porque 4 dias antes tinham jogado na Rússia para outra competição. Diz ele que as 6 horas de avião (em primeira classe, coitados) para cada sentido, em apenas 2 dias, o jogo e suas vicissitudes, fizeram com que os jogadores acusassem tal fadiga acumulada, no jogo com o Vitória.
Tenho que lhe escrever, para que saiba que, no último fim-de-semana, muitos malucos fizeram mais de 12 horas de automóvel ou autocarro, para correr 42 km por puro prazer. Todos foram gastar dinheiro do seu bolso, todos foram sofrer umas horas, todos foram representar Portugal sem nada ganhar em troca, senão a alegria de terminar uma maratona. Uns com vitórias pessoais, outros menos realizados. Todos amadores, ninguém se queixou das viagens. Atletas somos nós, esses são meninos mimados.

28ª Maratona de Sevilha

 

Pézinhos de Coentrada e Migas alentejanas.

Esta foi a ementa (do almoço de Sábado) da grande descoberta de um bom fim-de-semana, o Restaurante Faisão em Campo Maior. Regado com Monte Mayor 2009.

Com o grande objectivo de completar mais uma Maratona, a 5ª em pouco mais de um ano (6ª com quilometragem superior a 42 km), partimos, eu e o Miguel Santos, rumo à capital da Andaluzia, Sevilha, pouco depois das 9h do último Sábado. Tinha decidido há pouco mais de duas semanas, ir experimentar a prova que alguns dizem ser uma prova muito propícia a recordes e bastante agradável, com público a incentivar e com uma excelente organização, que tratava bem os atletas. Fui ver, como dizia o poeta…

Tendo feito há menos de um mês a minha 1ª Ultra, sabia ser demasiado ambicioso tentar um bom tempo numa maratona. Em consciência, e se tivesse algum juízo, seguia o conselho dos especialistas (???) e não fazia mais de 2 maratonas por ano, muito menos 6 em pouco mais de 14 meses. Mas nós, maratonistas, gente doida que gosta de calçar as sapatilhas e correr apenas e só porque pode e gosta, não somos pessoas muito comuns, somos uma espécie de turma de repetentes crónicos, sem vergonha de falhar e sem vergonha de continuar a insistir no anormal. Qualquer comum mortal prefere o sossego de um sofá do que uma aventura de 4 horas no meio de mais de 5.000 pessoas, onde o único objectivo é não ter uma síncope cardíaca ou uma ruptura de um qualquer músculo que nos impeça de fazer aquilo que mais gostamos, correr. E se somarmos a esta vontade pouco senil de correr porque podemos, o facto de para tal, fazermos mais de 1300 quilómetros em dois dias, chegamos à conclusão que saímos mesmo um pouco do conceito de pessoas normais. Ainda por cima, nada ganhámos. Mas achamos todos que somos uns valentes, com os balsamos, os géis e marmeladas para os abastecimentos, as meias de meia-perna para melhorar o rendimento e… Ficámos todos na humilde parte da classificação onde, para nos encontrarmos, precisamos de aumentar o zoom do PDF, quais formigas no carreiro, ou Wallys no meio da multidão. Mas sabem que mais? Se não fossemos nós não havia maratonas. Somos os mais importantes, e honra seja feita à organização da Maratona de Sevilha, o atleta é o foco principal de todos os que nela colaboram. Inexcedíveis no apoio.

Voltando ao normal desenrolar da viagem e prova, embora eu pense que o mais importante já escrevi (motivação e aspectos positivos), e como um texto destes tem de ter, obrigatoriamente cronologia, foi assim:

18h, chegada à fraquíssima Expo-Maratona. Equipamento oferta para todos os participantes, mas com tamanhos apenas e só para quenianos e etíopes. M?, perguntaram eles a olhar para mim e para o Miguel. A alternativa era o S…

20h15, chegada à Plaza Mayor em Sevilha, local combinado com o Luís Pires para nos encontramos para jantar com mais alguns colegas dos Porto Runners e outros maratonistas. Como eu já deveria saber, o Luís dá-se mal com a Geografia, afinal era na Plaza de Armas, do outro lado da cidade, mais precisamente a 17 kms. Lá demos com a dita, e conseguimos ainda, quais penetras, jantar umas massas muito manhosas, num Restaurante italiano que nem mereceria destaque não fosse pela companhia de alguns grandes maratonistas: Rui Pedras, Domitília Santos (168 maratonas!!), Tiago Dionísio e o Luís Pires, o nosso inspirador atleta, que ali no meio fazia com que a soma de maratonas destes ATLETAS subisse acima dos 21 mil quilómetros. Impressionante. Pagava muito mais que os 15€ que custou o jantar para os ouvir durante aquelas horas. São estas coisas que nos fazem querer fazer mais e mais, e que nos fazem sentir tão pequeninos quando achamos que somos maratonistas, mas que eles nos fazem sentir campeões quando dão valor ao pouco que conseguimos. Fantástica companhia.

23h45, já no hotel, rumo ao descanso, com vontade de ter ali à mão um batuque, que fizesse num toque mágico o tempo voar sem perder o descanso.

8h30 no Estádio Olímpico, lugar à porta para estacionar. O dia começara gelado, mas depois de uma noite bem dormida e de um tranquilo pequeno-almoço, sentia-me preparado para a prova. O Miguel, entre pós, pomadas e poções, estava pronto para um treino rápido para a maratona de Barcelona. Tanga, sentia eu, porque ninguém, principalmente ninguém competitivo como ele, vai a uma prova fazer um treino, muito menos numa maratona. Saiu-lhe mais uma grande conquista, um excelente record pessoal na sua segunda maratona, numa prova que fez com imensa cabeça, de trás para a frente, e ainda bem. A ele e ao Vítor Ferreira, companheiro dos Porto Runners, a quem eu, antes da partida disse que iria baixar das 3 horas, apesar de ele achar que duas semanas com pouco treino não deixariam. O descanso é um treino excelente, e para alguns tem de ser forçado pelo corpo.

9h30. Com o início, com tamanho cerimonial, acaba a cronologia. Como qualquer momento importante, este também muda o curso desta crónica, porque, por muitos defeitos que tenha visto nesta maratona, este momento é sempre especial. Eu, das maratonas que já fiz, só me recordo na perfeição de dois momentos: O início e fim de todas (dispensava a música do Michel Teló no fim…). É impressionante a passagem naquele túnel de saída do estádio, com milhares a gritar, quais gladiadores rumo à arena (expressão feliz do meu amigo Vasco Batista). Assim como foi emocionante o regresso, pelo mesmo túnel, 42 quilómetros depois. Com 4 horas e 1 minuto de prova, e apesar de muitas considerações poder fazer acerca do tempo, acho que é inigualável o terminar de mais uma prova de fogo, onde finalmente corri a ouvir o corpo, e ele me “pôs” num ritmo que deu para chegar ao fim no mesmo registo do início.
Parabéns a todos os meus companheiros da equipa Porto Runners, o meu muito obrigado pelas palavras de incentivo e pela força que transmitem. É óptimo poder correr com a força de um equipa.

A prova tem um trajecto plano, muitas rectas e é exclusivamente na distância de maratona. O público, não sendo muito, é bastante entusiasta, dá ânimo, bem como todos os voluntários. Os abastecimentos são muitos, embora pobres, apenas água, isotónico e laranjas. Acho que a marmelada e as bananas não esgotariam o plafond… A assistência médica, pelo que pude ver, é exemplar.
Mais um reparo: Não classificaram nenhum atleta acima das 5 horas, o que me pareceu demasiado curto. Ouvi histórias de atletas perdidos pela cidade à procura do caminho do Estádio Olímpico, porque se recusaram a serem desclassificados, tendo ficado abandonados às suas sortes…

Banho tomado, retorno a Portugal com a bela da medalha ao peito, desta vez sem parar para um belo repasto.

Fica a vontade de sempre de voltar à Andaluzia, a pátria da alegria.

Aconselho a prova. Mas percebo agora porque é que nunca tinha visto ninguém usar a camisola de participação.

Tempo Final: 4h01m15 (Record pessoal)
4349 atletas concluíram a prova (a organização só publica tempos até às 5h)

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Pieguices

Bem me parecia que a história de o Pedro Passos Coelho ter chamado piegas aos portugueses, não era mai que uma daquelas brilhantes interpretações da comunicação social. A mesma comunicação social que tanto gosta da polémica, como substituto da falta de inteligência para cativar público.
Para quem não sabe do que estou a falar, ou para os que acham que o Primeiro-Ministro chamou piegas, literalmente, aos portugueses, aqui fica o link para o vídeo do discurso, completo. Aos 22 minutos vem o sound byte.

http://sicnoticias.sapo.pt/pais/article1288615.ece

segunda-feira, janeiro 30, 2012

II Edição dos Trilhos dos Abutres

Empeno Abutrico.

O subtítulo serve como definição perfeita para o estado do meu corpo no “day after” à prova que decorreu ontem, nos belíssimos trilhos que circundam Miranda do Corvo e a Lousã, com base no ninho da Associação que organiza o evento, sita na primeira destas localidades.

 

Fomos brindados pela Natureza com um dia belíssimo, embora frio, para percorrermos aqueles 45 km de subidas e descidas. A esfregar as mãos e a bater o dente, fomos chegando ao Pavilhão Municipal de Miranda do Corvo, onde decorriam as verificações de material obrigatório para os participantes da Ultra. No centro do ringue o ambicionado alvo para todos os que partiam, o insuflável pórtico com a inscrição que todos queremos ver: META.

A partida foi dada depois de um aquecimento sui generis ao som de uma gaita de foles e bombos que encorajou os que ainda se resguardavam do frio.

Não tenho a mínima noção do desenrolar da prova para vos poder descrever as vicissitudes que levaram às classificações finais. Posso no entanto testemunhar, enquanto finalizador, a imensa alegria que nos invade quando regressamos ao Pavilhão. Aquela última subida, já dentro da Vila…

Fiz o primeiro terço da prova sempre na espectativa de começar a descer. Está bem. Os abutres acharam que descer não se desce no início e só nos deram pouco mais de 2 km de descida nos primeiros 20, com muita subida e mais lama ainda! Até aí, no máximo da altitude que atingimos (935 mts), acompanhei o passo do João Meixedo (ou ele o meu), junto com o Luis Rodrigues, também dos Porto Runners e de um companheiro de jornada que conhecemos na Serra, o Bruno Domingos, homem do BTT e que se estreava, como nós, numa ultra de montanha. Na subida para o alto da Serra o Meixedo “meteu” a tracção às 4 e lá foi ele no seu passo rumo a uma brilhante participação. Ainda o vi, depois de passar a íngreme descida do “Revoltado” (nome atribuído por mim a um corta-fogo com uma inclinação tal que parecia o tecto de Miranda do Corvo, onde um atleta reclamava e dizia que aquilo era de loucos e que só saía dali de helicóptero) mas não consegui ir tão rápido quanto ele. Juntámo-nos, eu e o Bruno, com a Carla Monteiro, que vinha desde a partida com o Fran, e nos tinham alcançado no 1º abastecimento.

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Seguimos monte abaixo, (com 1 km em que subimos mais de 130 mts e me fartei de praguejar), e que culminou com uma descida de uma pista de Downhill com inclinações superiores a 30%, e onde as quedas, sem gravidade, foram uma constante. Foi uma desagradável incursão ao “sku”, vulgo desporto de quem não se consegue manter em pé, e que durou praticamente até ao km 28, onde estava o segundo abastecimento. Sabíamos que ainda vinha muita subida, embora tivéssemos já um assinalável desnível positivo acumulado, sendo essencial e muito importante um rápido restabelecimento das forças. Comemos uma sande de presunto e um creme de cenoura, enchemos os reservatórios de isotónico, e lá fomos nós para o trilho. Até aos 33 km, num trilho muito técnico, junto a belíssimas quedas de água, fartei-me de insultar a geografia do terreno, na esperança que o calão e os impropérios servissem de alavanca em cada obstáculo que tinha de transpor. Subimos 5 km em pouco mais de 1h30, e demorámos 2 horas para completar os restantes 12 km até à meta, num trilho muito bonito e extremamente técnico, semelhante à parte inicial da prova, onde abundavam as passagens por pontes de madeira e troncos de árvores sobre o rio, onde nós optávamos por refrescar os pés e limpar a lama das sapatilhas. Os últimos 5 km, já depois do abastecimento foram em corrida, ligeira que já não havia forças, para tentar chegar o mais rápido possível ao fim.

Depois de uma paragem técnica para retirar duas pedras da sapatilha, lá fomos nós em busca da meta. 9 horas depois de sair daquele Pavilhão, no crepúsculo do dia, algures no meio da Vila de Miranda, oiço umas vozes ao alto a gritarem “força, são só mais 100 metros”; olho e vejo uma parede verde com um carreiro ao meio desenhado por passadas firmes dos mais de 300 atletas que por ali tinham escalado o último obstáculo, rumo à glória de terminar aquele fabulosos desafio. Ao olhar para aquele autêntico muro, confesso que me foi impossível conter o insulto, que verbalizei para os meus pés, transformando nas últimas forças o último nome que chamei àquele último trilho abutrico.

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Foi a minha primeira Ultra, numa prova que recomendo.

Agradeço a paciência da Carla Monteiro, do Francisco Serrano Cantalejo (Fran) e do Bruno, que me aturaram, e que esperaram por mim quando eu pensava que ia fracassar. É formidável como o corpo humano aguenta tanto antes de quebrar, e como a nossa cabeça faz tanta diferença num momento de fraqueza.

A corrida transformou a minha vida, mas não é mais do que um estado de alma que tão bem nos faz ao corpo. Há quem diga que começamos a morrer quando deixamos de ser crianças, e nós, os que corremos por prazer, encontrámos na corrida a forma perfeita de, enquanto adultos, fazermos uma série de traquinices e maluqueiras que de outra forma não faríamos, e que ninguém nos leva a mal. Mesmo desafiando os nossos limites, num plano de quase inconsciência juvenil, temos a recompensa única de terminar desafios que, ainda há pouco tempo julgávamos impossíveis. É essa a única diferença em relação à infância, a consciência dos desafios. Mas sem desafios, a vida perde sal.

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Resta-me agradecer aos meus companheiros de equipa dos Porto Runners, em especial aos companheiros de jornada Joana Leite e Miguel Santos, dois campeões numa estreia em grande nível; e ainda a todos os envolvidos na organização deste magnífico evento. Todos foram inexcedíveis, sempre com palavras de incentivo e exemplares na colaboração com os atletas.

Parabéns aos Abutres!

Vemo-nos na 3ª Edição!

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Correr com Prazer na Serra da Cuca Macuca

No passado Sábado, com excelente organização da equipa do Correr por Prazer, site que serve como muleta do imenso pelotão de amadores que têm como hobbie este desporto cada vez mais popular, decorreu  nas Serras de Pias e Valongo, um Free Running de Trail.
A empreitada foi apimentada pela participação do alpinista João Garcia, que acedeu ao convite do Vítor Dias, grande dinamizador do evento, que, à imagem do seu projecto cibernético, se revela um exímio promotor destas iniciativas.

Foi agradável ver toda a colaboração do Grupo Dramático e Recreativo da Retorta, que disponibilizou as instalações (balneários e sala de convívio) para servirem de base ao evento, bem como o apoio de uma carrinha para a eventualidade de haver quem fraquejasse ou se lesionasse.

O treino decorreu num agradável ambiente de sã convivência, onde os mais experientes se prontificaram a transmitir as dicas necessárias para melhor nos adaptarmos às condições do trail. Mais de 150 almas serpentearam as subidas e descidas das bonitas serras de Pias e Sta.Justa, durante cerca de três horas, com passagem pela Aldeia de Couce com uma envolvente que nos cativa e prende, num desejo de prolongamento de toda uma ruralidade cada vez mais rara no Grande Porto, e que, por ali, ainda perdura. Só os risos e graçolas dos participantes, e uma ou outra moto, incomodou o sossego de um banal Sábado para as gentes que habitam a Aldeia, e para a fauna e flora que a rodeia. O vento esse, soprava moderado para arrefecer os “motores” que aqueceram com o esforço de empurrar o corpo serra acima e segurá-lo encosta a baixo. Mas não houve frio ou cansaço que esmorecesse a alegria e boa disposição de todos num treino que, para muitos, foi o primeiro de muitos na corrida pela natureza. É uma forma de nos sentirmos parte de um Mundo onde tudo tem o seu lugar, numa harmonia perfeita entre o Homem e a sua envolvente, ao contrário da estrada, onde muitas vezes nos sentimos corpos estranhos a serpentear, ora por pessoas que vagueiam num vai-e-vem de vidas desenfreadas, ora por entre máquinas que todos querem que os levem a todo o lado. Na corrida na natureza, somos nós e o Mundo tal como o nosso corpo o conhece, e de repente, tudo faz sentido. Faz sentido o desafio constante do João Garcia com os cumes mais altos deste planeta e faz sentido que ele nos queira transmitir a fantástica harmonia do Homem com o seu meio ambiente, de nos mostrar que, apesar de todas as agressões que fazemos ao Mundo, ele ainda é nosso aliado nesta luta de sobrevivência que ele tão bem personifica. É, ele é um sobrevivente, um lutador e um brilhante comunicador. E nada melhor que uma serra para tal.

Depois de percorrermos os trilhos escolhidos pelo staff do Correr Por Prazer, dedicamo-nos a outros prazeres, que as máquinas são de carne e osso e precisam de abastecimento. Juntando o que os que puderam ficar trouxeram, deu um repasto digno de mesa Real, acompanhado ao acordeão pelo Luís Pires, homem que se revela um excelente animador de eventos em família, como foi este da família que é o pelotão amador.

As imagens do evento ilustram bem o que eu aqui tentei descrever. Podem consultar as excelentes reportagens fotográficas do Luis Rodrigues e da Lina Batista, aqui.

Obrigado Vítor Dias pelo teu esforço, pelo teu trabalho, pela carolice que aplicas em tudo o que nos dás.

A melhor forma que tenho de te retribuir é com a única imagem que me veio à cabeça, quando, antes de partirmos rumo à Serra, fizeste alusão aos 50 kgs que eu já perdi desde que comecei a correr. Por Prazer.

uiiii

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Ainda se queixam

Uma família que pediu asilo político ao Canadá, acaba de ser apoiada pelos Governos Regional e Central, tanto no forcing para ficar por lá, como no regresso às origens.
E ainda se queixam...

sexta-feira, outubro 28, 2011

Incongruências

Há por aí gente que fica muito indignada, com o facto de os deputados na Assembleia da Republica fazerem uso dos computadores para acederem às redes sociais.
Por outro lado, indignam-se que apenas os funcionários públicos e pensionistas sejam abrangidos pelos cortes nos próximos anos. Queriam que os cortes, via impostos, fossem também aos privados.
Até aqui nada contra. Mas quando alguém lhes questiona se nunca usaram os computadores no trabalho para aceder a redes sociais, respondem que o computador deles não é publico, nem estão ao serviço do Estado.
É assim a justiça destes supostos comunistas/socialistas. Aplicam a doutrina deles aos outros. Quando toca aos próprios aludem ao lado privado da coisa. Incongruências...

quinta-feira, outubro 27, 2011

Amizades altruístas?

Não, não são quase nunca. E então? Quando descobrimos, normalmente acabámos. Sugestão? Este fantástico texto, que de tão certo bater com a realidade não resisti a publicá-lo.

Saber Terminar uma Amizade Indesejável

Sucede também, como por calamidade, que algumas vezes é necessário romper uma amizade: porque passo agora das amizades dos sábios às ligações vulgares. Muitas vezes quando os vícios se revelam num homem, os seus amigos são as suas vítimas como todos os outros: contudo é sobre eles que recai a vergonha. É preciso, pois, desligar-se de tais amizades —, afrouxando o laço pouco a pouco e, como ouvi dizer a Catão, é necessário descoser antes que despedaçar, a menos que se não haja produzido um escândalo de tal modo intolerável, que não fosse nem justo nem honesto, nem mesmo possível, deixar de romper imediatamente.

Mas se o carácter e os gostos vierem a mudar, o que acontece muitas vezes; se algum dissentimento político separar dois amigos (não falo mais, repito-o, das amizades dos sábios, mas das afeições vulgares), é preciso tomar cuidado em, desfazendo a amizade, não a substituir logo pelo ódio. Nada mais vergonhoso, com efeito, que estar em guerra com aquele que se amou por muito tempo.
(...) Apliquemo-nos, pois, antes de tudo, em afastar toda a causa de ruptura: se contudo, acontecer alguma, que a amizade pareça antes extinta do que estrangulada. Temamos sobretudo que ela não se transforme em ódio violento, que traz sempre consigo as querelas, as injúrias, os ultrajes. Por nós, suportemos esses ultrajes quanto forem suportáveis e prestemos esta homenagem a uma antiga amizade, de modo que a culpa caiba a quem os faz e não àquele que os sofre.
Mas o único meio de evitar e prevenir todos os aborrecimentos é não dar a nossa afeição nem muito depressa, nem a pessoas que não são dignas.

São dignos da nossa amizade aqueles que trazem consigo os meios de se fazer amar. Homens raros! De resto, tudo que é bom é raro e nada é mais difícil do que achar alguma coisa que seja em seu género perfeita em tudo. Mas a maior parte dos homens não conhece nada de bom nas coisas humanas senão o que lhes interessa e tratam seus amigos como aos animais, estimando mais aqueles de quem esperam recolher mais proveito.
Também são eles privados dessa amizade tão bela e tão natural, por si mesma tão desejável; e o seu coração não lhes faz compreender qual é a natureza e a grandeza de tal sentimento. Cada um ama-se a si mesmo, não para exigir prémio da sua própria ternura, mas porque naturalmente a sua própria pessoa lhe é cara. Se não existe alguma coisa de semelhante na amizade, não se achará nunca um verdadeiro amigo; porque um amigo, é um outro nós mesmos.

Se se vê nos animais aprisionados ou selvagens, habitantes do ar, da terra ou das águas, primeiro amarem-se a si mesmos (porque este sentimento é inato em toda a criatura), em seguida desejar e procurar seres da sua espécie, para se unir a eles (e, nessa procura mostram um afã e um ardor que não deixa de ser semelhante ao nosso amor), quanto mais essa dupla inclinação na natureza do homem que se ama a si próprio e que busca um outro homem, cuja alma se confunde de tal modo com a sua que de duas não faça mais de que uma.

Marcus Cícero, in 'Diálogo sobre a Amizade

terça-feira, outubro 25, 2011

1º Grande Trail Serra de Arga

4 horas da manhã do primeiro dia de Outono. Não o do calendário, mas o efectivo, o que trazia os sinais de que a estação do ano tinha mudado.

O despertador cumpre a sua missão e irrita-me surpreendentemente (experimentem gostar de uma música que usam para despertar) ouvir o “Start me Up” dos Stones.

Com o País a clamar por chuva, depois de um surpreendente prolongamento do Verão em Outubro, os participantes do GTSA ansiavam que ela chegasse apenas umas horas mais tarde. No relatório meteorológico que a organização da prova nos havia feito chegar, prometida estava, mas com maior intensidade, bem como o vento, para depois das 13h. Saio e sinto que, para meu infortúnio e de quem ia correr, a tempestade estava mais próxima do que anunciara.

Equipado faço-me à estrada rumo a Dem, localidade do Concelho de Caminha que acolheu a base operacional de toda a prova. Ali chegado, pouco passava das 6h, encontro o Carlos Sá a sair do Centro Cultural, abrigo dos atletas que ali pernoitaram. Cumprimento-o e trocamos as primeiras impressões.

- “Está a soprar forte…”, digo olhando o nosso primeiro obstáculo, uma subida às eólicas junto a Dem, a mais de 700 m, que parecia que ia ser feita ao som de trombetas. 
- “É da maneira que vocês se despacham!”, responde-me o campeão. “Só espero que não venha o pior antes da Sra.do Minho. Aí sim, é perigoso. O vento sopra muito mais forte, a encosta é mais exposta, e o piso escorregadio.” O comentário mostrava-me receio pelas dificuldades que nos esperavam, aos participantes, e a ele como dinamizador e responsável máximo da prova.

Levanto o dorsal, preparo-me e aguardo calmamente que o dia alvoreça e com ele venham as emoções de uma aventura longa e, esperava eu, divertida.

Divertidos, já todos junto à Igreja de Dem, aguardamos que tocasse a última badalada do sinal horário das 8 e zarpamos estrada acima. Tínhamos combinado, eu, o Luís Pires, o João Meixedo e o Vítor Dias irmos juntos, se possível com o Pedro Amorim, também dos Porto Runners, toda a prova. O ritmo a seguir seria o dos mais lentos, mas, na montanha, pouco olhámos para trás e, ao 3º Km já só restava eu e o Meixedo, que também rapidamente se adiantou. Eu, que sempre me poupo em subidas, deixei-me ficar no meu passo, sem forçar muito, e a desfrutar da bela paisagem sobre Dem. Chegado ao alto, o vento e a chuva fustigavam-nos forte e impiedosamente. Nunca tinha sentido aquela sensação de marinheiro que quer abrir os olhos e só o consegue se olhar para baixo. Impressionante. Dem abriga-se por detrás daquele gigantesco tapa-vento virado a Sul. Ali sim, a tempestade começara.

Lá em cima reagrupamos e fizemos a descida em ritmo de trote, com cuidado necessário para não cair, por um belíssimo trilho em calçada romana, que nos levou até ao não menos majestoso Mosteiro de S.João de Arga. A tempestade é que parecia não querer dar tréguas, a chuva era intensa e o vento…

Iniciada a segunda subida, rapidamente os meus companheiros de aventura se afastaram, seguindo eu num passo confortável e que não comprometesse o que ainda faltava. Afinal, tínhamos percorrido pouco mais de 9 kms e eu queria acima de tudo terminar bem, sem mazelas. O ritmo teria de o controlar com muito juízo ou estaria a comprometer a Maratona do Porto que se avizinha.

Depois da subida, novo encontro com a tempestade. A chuva era fortíssima, o vento impiedoso impelia-me para trás. Tinha tanta dificuldade em ver que parei para colocar uns óculos de protecção, mas a chuva era tanta que nem com óculos, nem impermeável, nada. Só havia um remédio: Continuar até ao próximo monte ou encosta que me abrigasse. Entretanto, a Dª Analice, figura maior do pelotão nacional, corria a meu lado e tremia de frio. Parei e dei-lhe um impermeável que tinha de reserva para a tal chuva intensa que deveria vir depois das 13h, mas que já chegara. Molhado como estava já não me iria fazer falta. A Dª Analice, simpática e divertidamente agradeceu com um “Brigado cara. Bacano!” 
Lá fomos trilho abaixo. A dificuldade que ela tinha a descer e o cuidado com que colocava os pés nas descidas mais técnicas atrasou-me um pouco, no entanto decidi ir junto com ela. Não era um sitio para deixar ninguém sozinho, muito menos com aquele temporal. Depois do abastecimento dos 15 kms, já na descida para o Rio Âncora, o Pedro Igor, membro do staff da prova, dá-me a notícia da interrupção da prova ao km 20 devido ao mau tempo. Diz-me para fazer a zona do Rio com calma, sem riscos, que só faria mais 4 kms. A subida à Sra. do Minho estava impraticável, o nevoeiro limitava a visibilidade e a acontecer algo, o socorro seria difícil, colocando em causa a segurança dos participantes.

Lá fui eu cheio de cuidados, preocupado em não atrasar os primeiros da prova de trail que tinham partido uma hora depois de nós e que entretanto já nos começavam a ultrapassar.

Terminados os 20 kms, encharcado, meteram-me num autocarro rumo a Dem para um retemperador banho.

Foi uma excelente organização, numa fantástica prova, que tem tudo para ser um sucesso no trail nacional. O Minho merece, o Carlos Sá, seu maior embaixador na modalidade, quis ser mentor e dinamizador deste desafio gigantesco, que é o de organizar um evento de dois dias, com Jornadas Técnicas (o que me parece inédito) com mais de 600 pessoas a participar. Nada falhou. Nada do que dependia de alguém avisado falhou. Foi impressionante a articulação perfeita de todos, inclusive da população.

A meteorologia é incontrolável, a única vertente que não depende do homem. A natureza, que todos nós tanto apreciamos é implacável, e cabe ao homem, em consciência, saber se está à altura de a ultrapassar ou não.

Como me dizia a minha irmã nesse dia, ao telefone, “Ainda bem que havia aí alguém com juízo, senão vocês não paravam”.

O meu muito obrigado ao Carlos Sá por tudo. E acima de tudo o mais que ele é como desportista e homem, a sua ENORME humildade. Porque só desiste quem reconhece as suas próprias fraquezas. Como diz o Dalai Lama, “Se descobrirmos que não podemos ajudar os outros, o mínimo que podemos fazer é desistir de prejudica-los.”

Venha daí o 2º Grande Trail Serra de Arga que eu e quase seguramente os demais, queremos voltar.

sexta-feira, outubro 21, 2011

Sport Zone

Isto é um dos exemplos do quão mal se trabalha em Portugal. Aconteceu agora mesmo comigo, e acabei de deixar esta mensagem no mural do Facebook da Sport Zone. Espero que não me metam em Tribunal...

"Como ser enganado numa loja Sport Zone: Entrar, ver um produto no catálogo Berg Outdoor 2011 (catálogo na loja), mais concretamente uma mísera bolsa impermeável, cujo preço é de 1,5€. Vais procurar no expositor respectivo e vês uma bolsa RIGOROSAMENTE igual, com as mesmas medidas, mas que custa o dobro, ou quase (2,99€). Depois de questionada, uma das colaboradoras da loja diz-me que as bolsas constantes do catálogo são antigas e estão esgotadas (!). Apesar de compreender a minha questão e indignação por estarmos a olhar para o mesmo produto, apenas com códigos diferentes, nada mais tinha para me dizer. As bolsas a 1,50 estavam esgotadas. Têm lá a mesma, mas com mais lucro. É a crise. Eu, que não gosto que façam de mim otário, e apesar da insignificância material da questão, vou embora, provavelmente comprar a mesma bolsa, muito provavelmente pelo mesmo preço ou mais, mas à concorrência. Porque quem trabalha assim não me merece como cliente."

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Porra, estamos a falar de uma insignificância, mas é por estas e por outras que as lojas em Portugal estão sempre a definhar de mofo. Nas promoções e tempo de saldos é que têm preços normais. No resto do ano parece que andam a gamar...

De referir que isto se passou na Sport Zone do Norte Shopping, mas curiosamente, a falta de formação do pessoal é extensiva às demais.

Droga

Acabo de ouvir o Presidente do IDT, Instituto da Droga e Toxicodependência em declarações a uma rádio, mostrar a sua preocupação com a anunciada extinção do dito. Parece que o trabalho até assegurado nos CAT será feito pelos Centros de Saúde.
O mais preocupante é que, alguns anos depois da criação e expansão da rede de CAT's não só aumentou o consumo, como aumentaram as doenças relacionadas com o vicio e seus riscos. Os jovens iniciam mais cedo o contacto com drogas (as chamadas leves) e vê-se gente a consumir droga por todo o lado, como se fosse algo normal. A descriminilização do consumo, e a deficiente aplicação da legislação que obriga a tratamento a quem é apanhado a consumir droga, levou a que, o acto de consumir droga, passasse a ser ignorado pela restante população, autoridade incluídas.
Esta velha teoria de esquerda de encontrar nos dinheiros públicos respostas para todos os males da sociedade, trouxe-nos a isto. Muitos milhões gastos em tratamentos de gente que não quer ser tratada, antes quer evitar a ressaca. E muitos mais em apoios que só servem para tapar o sol com a peneira, já que não é com um quarto pago pela segurança social, o passe da STCP e o rendimento social de inserção que se tira alguém da droga. Como me dizia um conhecido que dela saiu sem ir a nenhum CAT, a metadona é uma heroína que não bate.
Prevenção é o caminho.

domingo, outubro 16, 2011

Despenteado

Não, não estou a falar de mim. Estou a falar do texto que a seguir transcrevo e que acho fantástico. Desconheço o autor(a).

DEIXA QUE A VIDA TE DESPENTEIE
“Hoje aprendi que é preciso deixar que a vida te despenteie,
por isso decidi aproveitar a vida com mais intensidade…
O mundo é louco, definitivamente louco…
O que é gostoso, engorda.
O que é lindo, custa caro.
O sol que ilumina o teu rosto enruga.
E o que é realmente bom dessa vida, despenteia…
- Fazer amor, despenteia.
- Rir às gargalhadas, despenteia.
- Viajar, voar, correr, entrar no mar, despenteia.
- Tirar a roupa, despenteia.
- Beijar a pessoa amada, despenteia.
- Brincar, despenteia.
- Cantar até ficar sem ar, despenteia.
- Dançar até duvidar se foi boa ideia colocar aqueles
saltos gigantes essa noite, deixa o teu cabelo irreconhecível…
Então, como sempre, cada vez que nos vejamos
eu espero estar com o meu cabelo bem bagunçado…
E se estiver, pode ter certeza
que estarei passando pelo momento mais feliz da minha vida.
E quero encontrar você com o teu mais bagunçado ainda!
É a lei da vida:
sempre vai estar mais despenteado
quem decide ir no primeiro carrinho da montanha russa,
que aquele que decide não subir.
Pode ser que te sintas tentado a ser
um homem ou uma mulher impecável,
todo arrumado por dentro e por fora.
O aviso de páginas amarelas deste mundo exige boa presença:
Arrume o cabelo, coloque, tire, compre, corra, emagreça,
coma coisas saudáveis, caminhe direito, fique séria…
e talvez deveria seguir as instruções, mas
quando vão me dar a ordem de ser feliz?
Por acaso não se dão conta que para ficar bonito
eu tenho que me sentir bonito?…
A pessoa mais bonita que posso ser!
O que realmente importa é que ao nos olharmos no espelho,
vejamos aquele que devemos SER.
Por isso, a minha recomendação a todos que amo é:
Entreguem-se, comam coisas gostosas, beijem, abracem,
dancem, apaixonem-se, relaxem, orem, viajem, pulem,
durmam tarde, acordem cedo, corram, voem, cantem,
meditem, arrumem-se para ficar lindos,
arrumem-se para ficar confortáveis!
Admirem a paisagem, aproveitem, e, acima de tudo,
deixem a vida despentear vocês!
O pior que pode acontecer é que, rindo frente ao espelho,
vocês precisem se pentear de novo…
Aproveitem cada dia.