Sou uma espécie de cancioneiro da corrida. Não faço relatos, transmito os sonhos que vivo nas minhas aventuras. Vou fazendo das tripas motivação.
segunda-feira, maio 20, 2013
VI Ultra Trail da Geira
domingo, maio 05, 2013
Technical Review de um amador
Vou-vos contar um segredo. Deram-me um par de sapatilhas.
Não que isso seja um acontecimento inédito, mas há muitos anos que ninguém, para além dos meus pais, me oferecia calçado desportivo.
Há sapatilhas para todos os gostos. Normalmente, se o preço é alto, têm algum tipo de desenvolvimento técnico, feito por gente que analisa pés… De atletas de elite. Os atletas de elite têm sapatilhas feitas especificamente para a sua passada, qual fato de alfaiate, que depois publicitam e apoiam, a troco de… sapatilhas (ou ténis) e algum apoio financeiro, maior ou menor, consoante a notoriedade e influencia no público alvo. Ora, isto nada tem de mal, funciona bem e chama-se marketing. Nós, que corremos por “amor à causa”, porque gostamos de correr, todos gostamos de imitar os nossos ídolos, seja em treinos, em esforço, na alimentação, entrega, participação em provas e, principalmente, e porque é o mais acessível, no equipamento. As marcas sabem-no e usam-no bem. Quanto maior o marketing, maior a hipótese de venda. O problema é que, um atleta de 60 kg pronador, não tem a mesma sensação com umas sapatilhas, que um atleta de 90. Assim como, um atleta que corre com uma passada tecnicamente mais correcta, não tem a mesma opinião sobre a mesma sapatilha, que um atleta que, tecnicamente, tem uma passada mais, digamos, “futeboleira”. Tudo isto são variáveis que fazem com que, ao longo das nossas vidas, usemos algumas marcas mas nos fixemos numa em específico. Porque depois de encontrarmos aquele modelo que não nos incomoda, normalmente, repetimos a compra. Aí somos mais uma arma de marketing. Corremos a dizer aos amigos que aquela sim, é a sapatilha 5 estrelas. Mas não é assim. As sapatilhas não são carros. Só assim se explica, que sapatilhas que muitos de nós usam como chinelos de sala, sejam para outros o modelo que usaram em todas as provas que fizeram.
Eu tenho alguma experiência de calçado de corrida. Comecei a correr gordo, quando o ideal seria usar, sei lá, botas da tropa, e já comprei e usei quase todas as marcas que qualquer um de nós citaria de cor quando começou a correr.
A primeira pessoa que me explicou que, quando comprámos devemos comprar bom e adequado, para comprar poucas vezes, foi o António Leitão. Medalhado olímpico, disse-me que, um amador, deve comprar sapatilhas duradouras e pôr de lado o mito do limite de km para cada par. Dizia que isso são bons costumes para os patrocinados, para os que trabalham no atletismo e têm calçado grátis.
É quase como os pneus dos carros. Os de Fórmula 1 ou do WRC trocam algumas vezes de pneus ao dia, enquanto que nós, os condutores do dia-a-dia, fazemos 40, 50 ou mesmo 60 ou 70 mil km com um bom pneu. Mas o laboratório, onde os desenvolvem, é na competição.
Toda esta ladainha para vos dizer que experimentei umas novas sapatilhas. E as condições em que as experimentei dão-me a certeza de ser um calçado de eleição, adequado a todos os pisos e a todas as quilometragens.
A Dmaker, representante em Portugal, entre outras marcas, da La Sportiva, ofereceu a cada um dos participantes do 5NC (Os 5 no Caminho de Santiago), um par de sapatilhas. A uma semana da partida, o Vítor entregou-me o par correspondente. Até aí, andava tipo tolo no meio da ponte, a tentar acertar na sapatilha própria para o Caminho. Esperava-nos um misto de pisos, do alcatrão à terra, passando pela pedra solta, e a meteorologia previa calor para os primeiros dias e chuva para os últimos. Levar e usar mais que um par era o mais aconselhado. Mas, depois de experimentar, em estrada as La Sportiva Raptor, fiquei com a sensação que as podia levar para quase todos os dias.
Meus amigos, fiz 245 km em 5 dias. Andei sob sol intenso, apanhei escaldões, corri contra vento forte e com frio, alguma chuva, passei por lama, calhaus, alcatrão, terra e relva. Tudo com as mesmas sapatilhas, as Raptor. O mais incrível, é que acabei a aventura com a mesma sensação do primeiro dia. Os pés estavam como antes de começar.
Agora vem o review, ou testemunho nada técnico. São leves mas duras, sem o serem demasiado, dando a sensação de robustez e não de dureza excessiva. A palmilha original dá um conforto, ou protecção ao pé, não deixando passar qualquer sensação de “pé descalço”, como acontece quando levamos sapatilhas de estrada para caminhos de pedra pequena e solta, e como acontece quando a sapatilha tem sola demasiado dura. Têm uma aderência fora do normal em pedra molhada. A parte da frente tem um reforço, quase semelhante ao calçado de obra, parecendo que, se tivessem biqueira de aço, seriam homologadas como tal. Mas a melhor característica é mesmo o conforto, segurança e adaptabilidade aos diversos pisos. São excelentes. Encontrei uma sapatilha de eleição.
terça-feira, abril 30, 2013
Um Caminho de Vida
Quando acabámos a subida até à entrada na zona histórica de Santiago de Compostela, de um imenso e estranho silêncio, surgiu uma espontânea salva de palmas dos que, já no destino, descansavam nas esplanadas dos cafés. O Caminho é assim, feito de espontaneidade, solidariedade e partilha.
Não esperava, muito sinceramente, que ainda houvesse no Mundo ocidental, tão cheio de egoísmo, inveja, medo e com tantas “trancas” em tudo, um imenso caminho de confiança. É normal encontrarmos nos imensos recantos do Caminho, desde os Albergues aos cafés, trilhos, estradas, templos religiosos ou mesmo campos de cultivo, um peregrino que nos saúda e com quem trocámos palavras de apreço, admiração e incentivo. Nos albergues, tudo ainda é como devia ser. As portas estão abertas, as coisas de cada um permanecem onde as deixámos, o silêncio e o respeito imperam, a partilha é o mote de todos, apesar de cada peregrino se manter numa espécie de limbo individual, onde é normal grupos separarem-se e encontrarem-se pelo Caminho, sem dramas, porque cada um vai caminhando como quer, sem sacrifícios extremos, sinónimos de outras peregrinações, parando onde lhe apetece, sabendo que seguindo as silenciosas vieiras e setas do Caminho há-de encontrar o seu meio, o conforto de quem o acompanha.
Saímos na Quarta-Feira, dia 24 às 8h30, da Sé Catedral do Porto. Entrámos às 17h no Albergue de Barcelos. Foi assim, com esta regularidade de horários até ao último dia. Curiosamente, sem o prevermos e sem fazermos nada para que assim fosse. Foi assim que calhou, e foi assim, mesmo tendo o grupo feito todo o Caminho sem pressão para partir, parar, acelerar ou abrandar o passo, ou sequer olhar para as horas. Fizemos o Caminho sem saber o que vinha, mas obtendo o que nos fazia falta, como no segundo dia, quando, chegados ao Albergue de Rubiães, restavam ocupar… 6 camas, exactamente o número de camas que precisávamos. Ou no terceiro, em que, chegados a Redondela, com o Albergue lotado, tivemos a sorte da presença do inexcedível amigo Ramiro Alvarez, que combinara correr alguns quilómetros connosco, e que, com a sua esposa, fizeram questão de nos albergar em sua casa, com tamanha mordomia, que penso que foi a melhor noite que todos dormimos desde há muito tempo.
Tanta paz nos dá o Caminho. Dá-nos vontade de partilhar, de sorrir, rir, correr, saltar, abraçar o Mundo, o nosso Mundo que tanto destruímos sem razão. O Carlos Natividade tinha-nos dito que o Caminho nos agarrava e nos chamava. Agora entendo na perfeição o que ele, na sua imensa sabedoria, dizia. É arrepiante, mas ao mesmo tempo enternecedor e calmo o que nos dá o Caminho. É a soma das bondades do ser humano, que convergem numa Catedral que é sinónimo de paz e acolhe todos, sem olhar a cores, credos ou estatutos. Ali, aliás como na corrida, somos todos iguais.
É quase impossível fazer uma crónica factual de um Caminho que, apesar de feito com mais 5 pessoas, foi das coisas mais introspectivas que fiz. E introspectiva, apesar de partilhada com 4 companheiros de corrida espectaculares, e uma fabulosa protectora que nos apoiou na rectaguarda, a Naná, esposa do Carlos Natividade, e que nos proporcionou uma fabulosa demonstração de altruísmo em toda a logística necessária para que nós nos preocupássemos apenas em correr.
Não podíamos ter escolhido melhor termo de comparação com a corrida do que o Caminho de Santiago. A melhor definição que eu tenho para a corrida, para a corrida que quase todos nós fazemos, por prazer, por recriação pessoal, é que correr é liberdade, é solidariedade, é a forma de nos mantermos crianças alegres e traquinas, de podermos ser livres e despreocupados, exactamente como as crianças, coisa que já ninguém compreenderia em qualquer outra situação da nossa vida adulta. A corrida liberta-nos da rotina diária, do trabalho, do “politicamente correcto”, da azáfama do dia-a-dia, como mais nenhuma actividade. Não precisámos de tapar os ouvidos para nos ouvirmos apenas a nós próprios quando corremos, não precisámos de marcar hora de correr, de meteorologia favorável, dependemos apenas da nossa vontade. Sabemos que vamos gostar. Não há um dia em que cheguemos ao fim de uma corrida tristes porque estivemos a correr. É a nossa pílula de aconchego. Agora sei que encontrei um destino onde encontrarei tudo isso. Santiago é para o Caminho como a meta para uma qualquer corrida, é o destino mas não é o fim. E no entanto deixou-me a mesma sensação de vontade de voltar como no fim de qualquer corrida voltar a calçar as sapatilhas.
Fico para sempre com imagens flash de 5 amigos a rir, saltar, brincar por imensos 245 km, desde os primeiros 2 dias, onde se enfiavam em tudo o que eram tanques e cursos de água para refrescar os músculos, até ao serpentear de ruas escurecidas pelas antigas casas graníticas, até ao emocionante e sentido abraço na solarenga Praça do Obradoiro.
Sobra a pena de não ter podido ir com todos aqueles que também queriam juntar-se ao grupo, mas fica o orgulho de ter ido com os 5 com quem fui. Foi uma enorme honra partilhar 5 ultra maratonas em 5 dias. 55 km no primeiro dia, do Porto a Barcelos, onde ficámos no Albergue local, 52 no segundo, que acabámos em Rubiães. No terceiro dia, entrada em Espanha com repetição da quilometragem do dia anterior, mas com o conforto e amparo do amigo Ramiro e restante família Alvarez, que nos proporcionou uma noite de reis. Os dois últimos dias foram de 43 km até Caldas de Rei, onde, na entrada da localidade, festejámos o 200º quilómetro, e de 44 na última etapa até Santiago de Compostela.
Se servir de alguma coisa a experiência destes 5 dias, podem sempre contactar-nos, mas fica a dica da importância da hidratação, alimentação e principalmente um bom espírito de sacrifício e uma gestão inteligente do esforço. Ouçam o corpo, a mente e convençam-se que nós só não conseguimos fazer o que não nos dispomos a tentar. É este um dos grandes ensinamentos do Caminho.
Obrigado Carlos Natividade, Luis Sousa Pires, João Paulo Meixedo, Vitor Dias pela vossa paciência em me aturarem todos aqueles quilómetros. Não faço aqui juras de “amor eterno” porque não tenho jeito para declarações, mas garanto-vos que, convosco, corria até ao fim do mundo. À Naná fica um agradecimento especial, pela dedicação e pela incrível paciência e calma. Obrigado.
A todos os que leem estas coisas que escrevo, obrigado por partilharem comigo este Caminho. Os que comentam, os que não comentam, os que me conhecem, os anónimos, todos vós sois peregrinos com quem partilho o meu Caminho de vida. A todos o meu obrigado por todo o apoio que sei que nos deram.
Vou continuar a tentar fazer o Caminho da vida como até aqui, mas enriquecido com esta brutal experiência de humildade, partilha e solidariedade.
Vamos então:
Ao Caminho!
sábado, abril 27, 2013
200 km
Lindas paisagens, muito verde, num serpenteado montanhoso em terreno de pedra, calçada romana e pouca estrada, apenas com passagens pelas localidades atravessadas, quase todas muito bem conservadas e muito ligadas ao Caminho, como é normal.
O dia foi frio e ventoso, o que dificultou ainda mais a nossa progressão e disposição. Foi um "bate dente".
O Caminho é uma via única, mas dá a possibilidade ao peregrino de o fazer como bem entender. Há os (muitos) que fazem de bicicleta, em grandes ou pequenos grupos, mas há muitos também de caminheiros. Estes são os originais, os que fazem o "Caminho" como ele deve ser feito, em convívio com a lindíssima envolvente natural, e principalmente, enfrentando quando decide enfrentar qualquer dificuldade que se lhe depara, seja uma subida íngreme, um aguaceiro, uma qualquer lesão, fraqueza ou mesmo a vontade de esperar. É um caminho de paciência, e é uma dinâmica muito pessoal, como a vida.
Foi escolha nossa fazê-lo assim: Os 5 e a correr. O nosso objectivo, chegar à Catedral, está a pouco mais de 40 km, e tem já uma enorme carga de kms. Mas o que levámos do Caminho, é uma forma mais solidária de encarar as dificuldades, uma visão sobre o esforço das pessoas nas suas mais pequenas coisas, a que às vezes não tributamos o verdadeiro valor, uma linha de tinta sobre o livro branco do "outro". É que às vezes, é muito difícil explicar as diferenças, mas mais difícil ainda é encontrarmos semelhanças entre nós. E no nosso âmago, no nosso caminho, em última instância buscámos num imaginário diferente aquilo que muitas vezes está em nós próprios, e o Caminho leva-nos a descobrir respostas em nós.
Quando completámos o km 200 deste nosso caminho, juntámo-nos num momento simbólico. Demos as mãos e sentimo-nos um só. Descobrimos nestes 4 dias já várias particularidades de uns e outros, mas acima de tudo, confirmamos o que nos une: O prazer de correr, o prazer de partilharmos estes momentos, que mais não são do que realizações pessoais, que nunca alcançaríamos sem o apoio dos que nos acompanham, junto ou à distância.
Boa disposição constante, liberdade para irmos fazendo a progressão à maneira de cada um, mas acima de tudo temos sido um grupo que, na boa tradição do Caminho, tem uma peculiar forma de o abordar. Correndo. E isso, meus amigos, é das melhores formas que conheci de nos conhecermos a nós próprios e de entender o próximo.
Amanhã faremos a última etapa, juntos, como até aqui, com o apoio da Naná que se revela um anjo no Caminho, e com a sensação única de conseguir um feito único para cada um de nós.
Ao Caminho!
Dia 3 e Santiago aqui tão perto...
Mas nesta aventura, parece que o próximo km é o melhor. É provavelmente a grande ilação que tiro destes dias. Quanto mais devagar, melhor a resistência e melhor a progressão. Mesmo em km com desníveis acentuados, consegui manter passo de corrida. Mais uma vez fartámo-nos de passar peregrinos em bicicleta, em rampas, que se aventuram no Caminho sem grande treino. O treino revela-se o ensinamento mais importante até aqui. Os treinos lentos e longos ensinaram-me a suportar e lidar com o cansaço que se vai acumulando, facilitando também a recuperação entre etapas.
Hoje, etapa entre Rubiães e Redondela, já na Galiza, com longos troços feios e mesmo penosos, em zonas industriais, mas também já com incursões pela milenar Via Romana XIX, que ligava Bracara Augusta a Lucus Augusti (Lugo), e que tem passagem por Santiago, o agora destino de quase todos os que a cruzam. Zonas verdes, com imensos pinhais, que cruzamos em ambiente sereno já trazido do primeiro dia, e que nos levou até Redondela. Ali chegados, ao Albergue da Cidade, lotação esgotada. O Ramiro Alvarez, atleta galego nosso conhecido dos imensos trails que normalmente faz em Portugal, colaborador de algumas organizações, disponibilizou-se imediatamente para nos albergar em sua casa. Ele e a esposa, muito simpaticamente cederam-nos o conforto que tão bem nos faz e que nos ajudará a recuperar forças para os mais de 40 km de amanhã até Caldas de Reis.
Esperemos que o corpo corresponda, porque a animação e espírito de grupo mantêm-se desde a primeira hora, em todos os 5, que somos 6, já que a nossa preciosa "Anjo", a Naná, aparece sempre quando é precisa. O apoio para uma coisa destas é fundamental, e a esposa do Natividade, com a longa experiência do Caminho e com a simpatia e disponibilidade que sempre mostra, com um imenso sorriso sempre a acompanhar, faz com que o esforço seja recompensado. Foi mais um dia de superação, partilha e solidariedade. No fundo, o que nos dá o Caminho: A noção de que somos pequenos na imensidão das nossas fraquezas, e que quando menos esperamos aparece alguém que nos dá um apoio indispensável e inestimável. Quando ajudámos e partilhamos altruisticamente, a retribuição vem quando mais precisámos e não contávamos.
Rumo a Santiago.
Ao Caminho!
quinta-feira, abril 25, 2013
Não havia cerveja no tempo de Napoleão?
Saímos bem cedo de Barcelos. O Caminho de Barcelos a Ponte de Lima, embora rural, é um pouco cansativo. Os atractivos não são muitos e a vista é muito "aberta", sendo os percursos pouco banhados de sombras e o sol escaldava. Foram 33 km a um ritmo de quem não se quer cansar, mas que também não quer perder tempo a bronzear. Digna de registo foi a paragem para carimbar a Credencial do Peregrino, onde os locais atestam a passagem a caminho de Santiago (antigamente as paróquias, agora maioritariamente nos cafés, minimercados e Albergues) em Vitorino dos Piães. Chegámos ali com pouco mais de 2h30 e 21 km. O sol queimava, o abastecimento imperava. Fomos ao Talho Viana pedir o carimbo, tinha um café ao lado. Bebemos umas cervejas, descansadamente, enquanto esperávamos a nossa Anjo da Guarda, a Naná, que trazia ainda bola de presunto do primeiro dia. Como devem imaginar, os 12 km até Ponte de Lima foram feitos num ritmo bem mais agradável. Inevitavelmente bebemos mais algumas ao almoço (sandes, que a tarde prometia a Serra da Labruja, com as suas temidas subidas) nas sombras dos plátanos da beira rio da mais antiga Vila de Portugal. Outra inevitabilidade foi a de mergulhar as pernas em quase todos os cursos de água, para a obrigatória crioterapia.
Ora, não sei se os franceses, aquando das invasões napoleónicas bebiam cerveja, mas a temida subida da "Cruz dos Franceses", que sobe muito sobre pedras desniveladas, fizemo-la toda a correr. Inclusive, ainda fiz os últimos 100 mts a ajudar a empurrar trilho acima a bicicleta de um ciclista, que tinha alforges laterais que o desequilibravam.
Calculo que os franceses, para terem ali uma "cruz", terão falhado os abastecimentos, ou estes não eram adequados.
Hoje sim. Cheirámos e sentimos o caminho. Imensos ciclistas em dia feriado, que se espantavam quando passavam por nós e muitos caminheiros que nos desejavam bom treino.
Espero poder continuar com esta vontade, e que Santiago me ajude a manter as pernas com força suficiente para lá chegar. Os meus companheiros têm sido inexcedíveis no apoio. E são uma excelente companhia para o "Caminho". Os km não se notam com tão boa harmonia entre todos, com animação e festa constante.
Amanhã serão 49 km. Chegaremos, se tudo correr bem, a Redondela, já na Galiza e mais perto do objectivo.
Obrigado a todos que nos apoiam.
Ao Caminho!
quarta-feira, abril 24, 2013
Folha de couve é tão boa como vaselina
O Caminho está a correr lindamente. 37 km na etapa da manhã, 18 de tarde. Optámos por ficar em Barcelos, ao contrário do programado, Tamel, por termos tido vaga num excelente Albergue, com lotação de 10 pessoas. Ocupámos uma camarata com 3 beliches (6 camas) e, em dia de começo das Festas da Cidade, vamos tentar repousar para o dia de amanhã. Serão 49 km, 30 até Ponte de Lima onde almoçaremos.
Começamos bem cedo, na Sé do Porto, com o conforto da presença do Pedro Marques e do José Mimoso, que quiseram despedir-se e apoiar na hora de saída. Fizemos calmamente a etapa até S. Pedro de Rates, serpenteando as bermas tentando não acertar nos imensos carros que cortavam as curvas do Caminho, que também é Estrada Nacional. Da Maia até pouco depois de Rates, um imenso cheiro... Como dizer sem chocar... A merda! Entrámos no caminho em período de fertilização dos campos, nada agradável em comparação com o imenso cheiro floral nos km de aproximação a Barcelos.
Cruzamo-nos já com imensos peregrinos, desde 2 ciclistas brasileiros que compraram os veículos à chegada a Lisboa, ou 3 dinamarqueses que saíram de Lisboa, a correr (50 minutos/hora e 10 de descanso) há 13 dias, e que vão para Pamplona via Santiago. Há gente feliz (ou doida).
Quanto à couve, serviu como protecção das virilhas, à falta de vaselina. Impressionante como o Caminho nos dá o que precisamos. Está lá tudo, é só ter atenção e aproveitar.
Amanhã há mais!
terça-feira, abril 16, 2013
Boston Marathon
Já corri algumas maratonas, mas ainda não corri nenhuma das ditas "grandes". Esse é um acontecimento que deixo para mais tarde. É um daqueles projectos de vida de um corredor, fazer uma maratona mítica, com história, onde somos grandes entre milhares de anónimos. E num projecto de vida, as pessoas empenham-se. Gastam muitas horas a preparar o momento de cruzar a 26 milha, ou o km 42, quando olha para o marcador do tempo e vê em quanto se resumiu todo um trabalho de preparação de tão grande e nobre desafio. Conseguir fazer uma maratona é digno de coragem, determinação e paz. Ninguém corre uma maratona com espírito de vingança, com preocupações na mente ou pressa para ir fazer uma outra coisa qualquer. Numa maratona, tudo se potencia. As emoções são redobradas, a força vem de onde menos se espera e a vontade de acabar supera normalmente todas as fraquezas. São inúmeras as imagens de atletas a acabar as provas com crianças ao colo, ou pela mão, abraçados a alguém que os espera na meta, ou a acenar para aquela pessoa especial que, na bancada, aguardou todas aquelas horas, esperando o concretizar de um sonho, de um culminar de tanto treino e sofrimento, com tempo roubado a quem tanto apoia.
Foram estes os momentos que aquelas explosões roubaram.
Roubaram momentos, vidas, pedaços de corpos, sonhos e futuros. A imagem de um jovem com a perna desfeita numa cadeira de rodas é impressionante.
Porquê?
Perdoem-me a pouca vontade de rir com o humor negro de alguns idiotas, e a imensa vontade de lhes dar umas valentes chapadas, mas aquilo é o que de mais vil e cobarde se pode perpetrar.
E quando me dizem que o Mundo é insensível ao sofrimento que se vive na Síria, às guerras no Iraque ou Afeganistão, ou à fome na Índia, eu respondo que, ninguém busca o inferno para entrar num paraíso. Mas numa maratona, muitas vezes se passa um inferno para atingir o paraíso (meta). E foi isso que roubaram ontem.
Hoje continuamos a correr. É essa a lição que damos aos que querem vencer-nos pelo terror.
quarta-feira, abril 03, 2013
Juras de Amor
Tinha ela pouco mais de 20 anos. De cabelos longos, tão longos como mantos de princesa, negros e brilhantes, atraía a atenção de muitos, despertava até a paixão em alguns. Ele, um pouco mais maduro (fazem 4 anos de diferença), rapaz do campo que se ia adaptando à vida da cidade, reparou nela mal a viu. Cortejou-a. Aproveitando o facto de seu pai fazer jardinagem onde ela vivia, um dia, sabendo-a por lá, sorriu-lhe, enquanto trocavam atenções matinais e cuidados de alerta. Buscava seu pai, como desculpa, com a intenção de ver sua amada.
Podia ser uma grande história, cheia de floreados e quadros coloridos. E foi. Ou melhor, é, porque fazem hoje 48 anos de casados. Um dia conto-vos a história completa. Para já, deixo-vos apenas a dedicatória do maior troféu que um homem desejava da mulher amada: A foto da própria com dedicatória que atestava o amor correspondido.
Artur e Maria José, vocês são um belíssimo casal, patriarcas de uma bela família (7 filhos, 7netos e tantos outros que se sentem como tais) onde todos se dão bem, como foi vosso desejo.
Parabéns Pai e Mãe.
quarta-feira, março 27, 2013
Correr por prazer nos Caminhos de Santiago
Como alguns de vocês já sabem, vou em breve aventurar-me no Caminho português de Santiago.
Será uma aventura com mais 4 amigos, em que vamos fazer 5 maratonas em 5 dias, de 24 a 28 de Abril. Chamamos-lhe “Os 5 no caminho”.
Escrevo este texto para que compreendam a enorme honra que foi para mim receber tão grande distinção, entre tantos que podiam ser escolhidos, e para poder partilhar do porquê, embora sendo imensa a vontade, infelizmente irrealizável, de vos poder levar a todos connosco.
A ideia surgiu já há mais de um ano, no seguimento do desejo manifestado por alguns, em fazer o caminho. Logo na altura aflorámos a possibilidade de o fazermos em conjunto, com familiares e amigos, no fundo, a quem quisesse juntar-se à aventura, a caminhar, de bicicleta ou a correr. Rapidamente chegámos à conclusão que seria inviável juntar grupos tão dispares e com ritmos tão distintos, e que a logística inerente à realização de tal empreitada seria muito complicada de gerir. Assim, e por decisão comum dos intervenientes, ficou decidido restringir o grupo aos 5 que vamos correr e a um elemento do apoio logístico. É mais fácil de coadunar vontades e mais fácil o acesso aos albergues dos peregrinos, que como sabem, têm lotação limitada, bem como mais simples o apoio aos atletas.
Foi para mim uma honra enorme, a irrecusável proposta para acompanhar o Luís Pires, Carlos Natividade, João Paulo Meixedo e Vítor Dias em tão nobre e marcante epopeia.
Fui escuteiro e militar, ou melhor, sou as duas coisas, porque, uma vez feita a promessa de escuteiro, torna-se eterna, e porque quando passei à disponibilidade na Força Aérea, parece que ingressei num contingente de reserva até aos 45 anos e tenho alguma experiência em coisas que custam a fazer, mas que nos dão um prazer enorme em conseguir realizar. Tenho um historial de conquistas individuais que seriam inalcançáveis sem o apoio de muitos, mas sei que fazer “o caminho” sozinho seria praticamente impossível. Era um objectivo de há muito, mas queria fazê.lo com um grupo que me proporcionasse um sentimento de partilha muito forte. “O Caminho”, tal como a nossa caminhada na vida, apesar de poder ser penoso, ser propício a percalços, deve ser um caminho de partilha, introspecção, desfruto da natureza envolvente, uma espécie de resumo espiritual em pouco mais de 240 km. Quase todos os que o fazem, fazem-no com uma intenção forte, como os que peregrinam para outros destinos. Será seguramente uma das mais ancestrais peregrinações, oriunda de vários pontos do velho Continente, que desperta em crentes e não crentes, uma atracção que não se explica apenas na fé, mas numa vontade de conseguir chegar onde a humildade tem significado. Fazer tamanho caminho, se não for imbuído de um espírito de partilha, de resumo à condição de errante neste mundo cada vez mais orgulhoso e egoísta, perde significado. Ir a um local com tamanho significado espiritual, com estes quatro inspiradores amigos, é de uma honra e prazer que não vos posso, ou não sou capaz de descrever.
Senão vejam:
Luís Pires - 56 anos, tem quase 100 (!) maratonas, número que deve atingir este ano, tendo começado a correr aos 46.
Conheço o Luís desde que me inscrevi nos Porto Runners, há cerca de 3 anos. Já “fiz” com ele mais de uma dezena de maratonas e ultra maratonas. Por muito mau tempo que alguém faça, é o primeiro a valorizar o esforço, o primeiro a disponibilizar-se para ajudar alguém a fazer melhoria de tempos, a apadrinhar estreias, ou a incentivar para novos desafios. Para o Luís não há impossíveis.
Carlos Natividade – O Carlos quase dispensa apresentações. É um exemplar atleta e uma pessoa inspiradora. Há muitos anos neste mundo das corridas, tem maratonas feitas no tempo em que os que as corriam, não chegavam à meia centena. Tem um historial longo de corridas embrionárias das (imensas) actuais provas de trail. É contemporâneo do malogrado Sálvio Nora, pioneiro, com o José Moutinho, das provas de resistência em montanha.
O Carlos tem já 8 “Caminhos” realizados, ora de bicicleta, ora a pé, tanto no português como no francês e inglês. É escuteiro, mostra-o permanentemente num espírito de constante partilha e entreajuda. Faz a simbiose perfeita com a sua esposa, a quem carinhosamente trata por “Náná” (Fernanda) e que vai fazer o trabalho herculeano de apoio logístico.
João Meixedo – Como ele costuma dizer, um “aprendiz de feiticeiro” nestas coisas das corridas, mas que é já um experimentado maratonista. Com participações em Boston, Paris ou Adelaide, leva as sapatilhas para os sítios mais recônditos para onde vá. Já fez, sozinho, a travessia da Ilha de S Jorge, a meio de umas férias em família. É um apaixonado das corridas. Meu companheiro na mais apaixonante prova que fiz, a Ultra da Freita do ano passado, e que me acompanhou em muitas outras provas. Foi o homem do abraço em Sevilha. E aquele abraço significou muito, tanto quanto ele sabia que significava aquele tempo, apesar de pouco importar.
Ateu, tem mais espiritualidade do que muitos apaixonados crentes. A racionalidade que emprega em tudo o que projecta e faz, é quase sempre traída pelo enorme coração e espírito de entreajuda que revela em cada atitude. Sempre disponível para todos, conseguindo ter, entre os inúmeros compromissos, o tempo que lhe é indispensável para a amizade. Incrível como consegue ter mais do que muitos apregoam, sem ter a necessidade de o mostrar. É a prova que a simplicidade só é possível nos que fazem simples, aquilo que complicadamente conseguem.
Vítor Dias – Padrinho de muitos nas corridas, também é o meu. É o principal responsável pelo que eu consegui fazer nestes últimos anos. Foi no seu site que me inspirei e suportei para dar o “passo seguinte” na corrida. Já sei que há muitos sites de corrida, mas só neste é que me foram incentivando e apoiando. O Vítor, desde o primeiro contacto disponibilizou-se para me acompanhar em treinos, prontificou-se a ajudar no planeamento da minha primeira maratona, levou-me para os Porto Runners (onde conheci tantos outros enormes atletas, enquanto seres humanos), fez questão de me acompanhar em muitos treinos e faz questão de o continuar a fazer. É um dinâmico companheiro, sempre disposto a apoiar o atleta de pelotão. Não há outra homenagem que seja mais justa fazer-lhe, senão dar-lhe este lugar de padrinho. Foi ele o responsável pelo meu salto, ao acreditar e fazer-me crer que tudo era possível com empenho e trabalho.
Como já referi, é uma honra enorme tentar acompanhar tão ilustres companheiros nesta nobre empreitada. Só espero ser digno de tamanha distinção.
Vamos então, ao “Caminho”!
sexta-feira, março 22, 2013
O outro lado dos Trilhos do Paleozoico
Agora, quase uma semana depois do evento, já com as pernas recuperadas de mais um empeno, resta a recordação de 5 dias preenchidos na ultimação dos trilhos que foram percorridos por largas centenas de atletas e caminheiros. Coube-me desta vez experimentar o outro lado das provas, o lado do frenesim constante para que nada falhe, o lado do stress estampado na cara do Director da prova, o lado das reclamações de quem participa e o lado da impotência perante factos consumados que não se conseguiram evitar, como a desagradável notícia de uma atleta que, infelizmente partiu a tíbia.
É digno de louvar o trabalho de quem se decide a montar tamanho “circo” quase sem apoios. Já o disse, volto a referir, o Luis Pereira e o Asdrúbal Freitas fizeram o milagre de, numa Serra que todos pensávamos conhecer, nos surpreender com trilhos fantásticos, abertos por eles, à mão, como pude testemunhar, quase sempre com uma tesoura de podar e uma sachola. Não se limitaram a marcar um percurso em estradões e trilhos existentes. Procuraram beleza que todos pensávamos não existir, e proporcionaram-nos uma nova prova que, esperemos, subsista por muitos anos. E pelo que vi, ainda há muito para mostrar.
Desde há uns meses, quando começaram os preparativos para a prova, organizaram treinos nos trilhos para que, quem se quisesse ir ambientando aos percursos, à dureza de algumas subidas, e também para ajudar a manter limpos e calcorreados os trilhos abertos, o pudesse fazer.
Disse na altura ao Luis Pereira que, ou me inscrevia e fazia a prova, ou lhe dava apoio no que fosse necessário. Claro está que tive de lhe ligar na véspera de começar a marcar os trilhos. O Luis é assim, reservado, sempre disposto a dar, mas pouco disposto a pedir. Andou até à última para apelar por voluntários para os abastecimentos, depois de lhe roerem a corda os que se tinham comprometido a fazê-lo.
Mesmo depois de começarmos a marcar trilhos, teve sempre alguma relutância em colocar nos ombros de outros a árdua tarefa de se certificar que nada falharia. Nada falhou, graças a todos os que colaboraram, e também graças a ele, que quando via um troço mal marcado, desmarcava e marcava sem o referir.
Na véspera da prova, depois de colocarmos marcações nos trilhos mais próximos de zonas habitacionais, eles voltavam a desaparecer. No dia da prova, o Marco Silva, Asdrúbal Freitas e o Miguel Catarino, foram para os três terços da prova para se certificarem que tudo estava marcado em condições. Os diversos voluntários, quase todos ligados à corrida, espalharam-se pelos diversos abastecimentos para assegurar o bom funcionamento de todos no apoio aos atletas. Nada faltou. Quando o Luis se apercebeu que podia faltar abastecimento em Couce, foi a um hipermercado nas redondezas e rematou literalmente tudo o que eram bananas, laranjas, água e coca cola. Rapidamente, e sem que ninguém chegasse a sentir falta de alguma coisa, chegaram os víveres aos abastecimentos.
Houve falhas? Claro que sim. Só não erra quem não trabalha. Mas ficou a sensação de dever cumprido, a sensação de que, tudo o que podia ser antecipado o foi e correu bem.
Na análise à participação de todos, depois de 2 dias a tirar fitas nos trilhos, devo enaltecer o civismo e urbanidade com que todos trataram a natureza. Foram poucos os invólucros de géis e outros lixos habituais que encontrámos.
Houve colaboração de todos com os membros da organização e houve bom senso e paciência de todos os que colaboraram.
Fica a vontade de voltar a participar, seja na organização, limpeza de trilhos, marcação ou a fazer vassoura, como fiz em metade da prova, tendo-a deixado ao Rui Barbosa para dar apoio em Couce.
Parece-me que os Trilhos do Paleozoico são já a prova de referência no Porto para quem se quiser aventurar em provas de trail em distâncias ultra. Uma prova de 43 km que passa por três serras (Sta Justa, Pias e Castiçal), com desnível acumulado de mais de 4000 mt, com passagens por linhas de água, single tracks, enormes paredes e descidas menos íngremes e mais longas. Quem não teve oportunidade de fazer a prova, aproveite e apareça num dos muitos treinos que se organizam ao longo do ano.
Obrigado ao Luís por me proporcionar a oportunidade de viver por dentro o reboliço da organização de uma prova, até ao descomprimir do “arrumar da casa”. Fiquei com a bela sensação que ganhei mais respeito por todos os que se esforçam por pôr uma prova de pé. E ganhei uma admiração especial pelo espírito altruísta de muitos atletas do trail, que abdicam de competir para apoiar. É como na montanha, um amigo que precisa da nossa ajuda, e que a tem antes mesmo de a pedir. Assim é que é bonito. Este é o nosso espírito, dos que fazemos trail. Estamos lá para proveito próprio, mas sem passar por cima de ninguém, e abdicámos do melhor para nós, pelo bem de mais alguns.
Bem hajam!
sexta-feira, março 15, 2013
Trilhos, placas e fitas
“Ninguém te encomendou sermão”, dizia a minha avó, transmontana de palavra fácil e directa e que habitualmente me colocava assim no lugar, quando me atrevia a falar sem que nada me perguntassem.
Vem isto a respeito do que andei a fazer nos últimos dias, com o Luís Pereira, Asdrúbal Freitas e Marco Silva. O Luís, que com o Asdrúbal e ajudas pontuais de algumas pessoas, tem desbravado mato e traçado trilhos nas belas Serras de Pias, Sta. Justa e Castiçal, (que juntas formam a popular Serra de Valongo), para poder proporcionar aos mais de 1000 atletas que se vão aventurar na 1ª Edição dos Trilhos do Paleozoico, excelentes momentos de divertimento e aventura na natureza. Temos aqui um excelente espaço, com potencial para o trail, muito próximo do Porto, com excelente oferta de transportes, que provam que para fazer trail, não é necessário ir para recônditas serras do País, nem gastar muito mais que uma mera viagem de autocarro.
Os trilhos estão a ser marcados desde há alguns dias com placas indicativas, sinalização pintada em estrada, placas de alerta e com as habituais fitas de marcação de percurso.
Todas as provas fazem alertas de segurança sobre os trajectos, (esta também o faz, leiam o regulamento), especialmente as provas de trail, e particularmente as que se desenrolam em ambientes onde os perigos espreitam onde menos se espera. Diz-nos a experiência, que nestas provas junto às grandes cidades, há sempre alguém que se aventura para experimentar uma nova vertente de corrida. Devem ter em atenção que a Serra de Valongo é constituída por escarpas, fragas (com enormes poços) e trilhos com inclinações às vezes superiores a 20%. É muito provável que chova, por isso devem usar calçado adequado e irem munidos de um impermeável, ter uma manta térmica na mochila de hidratação e algumas barras energéticas. Apesar de não fazerem parte do material obrigatório (telemóvel e reservatório de hidratação), estes artigos que referi podem fazer a diferença, caso haja algum imprevisto num trilho onde o acesso dos meios de apoio sejam mais demorados, ou mesmo serem fundamentais no caso de encontrarmos algum participante em dificuldade. Na montanha os cuidados nunca são demais.
Apesar destes meus alertas, fica o meu testemunho de que tudo está a ser acautelado, para que nada falhe.
Assim, e para vos poder passar a imagem do que vão encontrar na prova, deixo-vos algumas imagens da sinalização dos percursos.
Fitas que marcam o percurso
Quando vires esta placa, volta para trás. Indica trilho errado.
Placa que indica trajecto para os 43 km. Existe outra para os 16 km.
Placa indicativa do percurso
Fita na horizontal para alertar para percurso.
Esta sinalização não é da nossa prova.
Setas que ficaram, indicam o mesmo trilho, mas não pertencem à prova.
Não olhem só para o chão, há perigos que espreitam ao nível da cabeça. Apesar do cuidado que o Asdrúbal e o Luís tiveram na limpeza dos trilhos, há sempre obstáculos mais difíceis de transpor, se assim não fosse perdia a piada.
A organização, que embora pareça de muita gente, é uma empreitada digna de louvor do Luís Pereira e do Asdrúbal. São dois enormes campeões, que correm muito e são dos melhores a nível nacional, e que conseguiram transpor para esta organização o nível de excelência que têm como atletas.
Parabéns a todos os que colaboraram com eles, patrocinadores à cabeça. A vossa aposta foi acertada.
Boa prova a todos!
segunda-feira, março 11, 2013
Vontade de correr
sexta-feira, março 01, 2013
Ultra Trail “Ad Hoc”
O termo “ad hoc”, do latim, é normalmente utilizado para justificar uma especificidade que varia do significado normal do acto, ou experiência. Neste caso, será um Ultra Trail, que se distingue dos demais por não ter, nem partida em conjunto, nem chegadas ao sprint, sob pressão de tempos cronometrados para a geral, sem aglomeração de atletas, e sem sequer um trajecto para percorrer. O que a distingue das demais corridas é precisamente o facto de os atletas escolherem além do trajecto, tempos de descanso, paragem e abastecimentos, escolherem também a hora de saída, tendo uma janela para o fazer de 12 horas na Ultra, ou de 3 na distância mais curta, desde que respeitem o tempo limite de prova. Claro está que o tempo de prova só começa a contabilizar a partir da saída.
Estou a falar da Ultra Trail Picos da Europa que se vai realizar no final de Julho, nas distâncias de 120 ou 50 km, e cujo tempo limite será de 50 horas para a distância mais longa, ou de 25 para a mais curta. A corrida é feita em par, em regime de autonomia total, com possibilidade de ter nos pontos de controlo (refúgios de montanha) outros elementos ligados à equipa, que possam fornecer equipamento, abastecimento ou outros apoios que sejam necessários. Podem-se utilizar mapas, gps, bússolas, ou outros elementos de apoio à orientação no terreno da prova.
Será com certeza uma prova de sonho, com imagens e momentos espectaculares, num ambiente único, diria mesmo de sonho, para se fazer uma prova extrema, em que o apoio é o companheiro de equipa.
Arrisco-me desde já a organizar uma equipa de apoio para quem se atrever a inscrever-se na prova.
Quem se atreve?
terça-feira, fevereiro 26, 2013
A melhor Maratona do Mundo
É uma experiência reconfortante, a de cruzar a meta de chegada de uma maratona. Mas mais reconfortante ainda, é cruzar a meta, abraçar um amigo que me espera e que conhece o autêntico caminho de cabras que tenho feito até aqui.
Já se torna um pouco redundante falar da perca de peso com a corrida. Todos perdemos. Há atletas ilustres que saíram do sofá para o topo, que trocaram cigarros por sapatilhas ou lua-de-mel nas areias brancas e águas temperadas por longas corridas nas montanhas, entre bolhas e entorses e hipotermias. Mas estes, já mais de 50 kg, e os pequenos degraus que vou subindo, levam-me ao enorme de desejo de apregoar ao mundo e a todos, que todos podemos ser aquele caso de sucesso. Quando alguém se mete ao caminho, se dedica e se compromete consigo próprio a fazer o que lhe determinará o sucesso, nem sempre terá sucessos, mas quando eles chegarem vão ter um sabor infinitamente superior a todos os obstáculos que teimosamente foram aparecendo.
Já conhecem a minha história, é pública, está aqui relatada. Sou maratonista contra todas as probabilidades. Já fiz 8 maratonas de estrada e 6 ultras de montanha, mas nunca tinha conseguido baixar das 4 horas na maratona. E porquê? Porque nunca (excepto na primeira) preparei a maratona com antecedência e cuidado, obedecendo a um plano de treinos e provas que me levassem a adquirir forma e performance que o proporcionassem. A título de exemplo (a não seguir), há duas semanas fiz 107 km no total dos dias, quilometragem pouco aconselhável totalizada 8 dias antes de uma maratona.
Mas porquê as 4 horas? Porque a grande maioria dos maratonistas amadores, aqueles que não se ficam por apenas uma experiência, tentam baixar da 1/2 hora que normalmente ultrapassam; os que fazem entre 3h30 e 4h, tentam baixar das 3h30 e os que fazem pouco acima das 3h, tentam baixar desta barreira, e entrar num restrito grupo. Tudo isto requer trabalho, disciplina, dedicação e planeamento. Nada aparece ao acaso.
Ora eu, pouco adepto dos “planos de treinos”, pouco disciplinado quanto à obrigatoriedade de seguir dias específicos com treinos específicos e mais virado para o Correr Por Prazer, ia já para a sexta maratona de estrada com a expectativa de baixar das 4 horas, mas, nas 5 anteriores, normalmente por 1, 2 ou 5 minutos, não o tinha conseguido. Há um ano em Sevilha fiquei a um minuto, em Outubro no Porto a 2, por este ou aquele motivo falhava. Nada de grave, não era uma obsessão. Decidi pôr de parte esse pensamento em cada prova que começava, focando-me apenas na capacidade de saber controlar os meus ímpetos quando a prova começa e tudo são forças, e impulsionar as pernas com a cabeça quando os músculos gritassem de cansaço. Foi assim em Lisboa, em Dezembro, onde acabei a Maratona com um atleta que tinha nascido com os pés botos, no meu pior registo, mas a testemunhar um feito heroico e arrepiante, num autêntico desafio à natureza.
Este ano parti para Sevilha sem grande pressão, integrado num grupo de amigos, onde não faltou um repasto no Alentejo, regado com maduro tinto, onde as entradas foram “Pezinhos de coentrada” e o prato principal “Migas com plumas de porco preto”. Nada de massa, peixe grelhado, água ou cola zero. Não é propriamente ementa de atletas, mas porra, na véspera ninguém estraga uma prova, e o convívio e descontração são fundamentais. Claro que tive o cuidado de correr pouco na semana anterior, (fiz 4 treinos de 9 km), hidratar-me bem e descansar melhor. Na véspera, com as emoções à flor da pele, nem o descanso é o ideal, por muito que se deseje, nem a alimentação vai fazer grande diferença (sem exageros, claro). A massa ficou para o jantar.
Fiz uma prova extremamente regular. Sabia que, com tantos km entre provas e treinos, se exagerasse pagaria com mais uma desilusão. A meio da prova, ao chegar aos 21 km, caí na real e retirei toda a pressão da cabeça e disfrutei daquele ambiente único. Não há ninguém que termine uma maratona que não seja digno da minha admiração, acabe com 2h ou com 6h, porque ninguém faz uma maratona sem sofrimento. E ninguém acaba sem determinação.
Ao chegar à Isla Cartuja onde está o Estádio Olímpico de Sevilha, com tempo mais que suficiente para acabar abaixo das 4h, sorri. E foi a sorrir e a resumir mentalmente, com uma sensação de dever cumprido, que fiz aqueles últimos 4 km. Entrei com tanta descontração no Estádio, olhei para o ecrã gigante, vi a meta e desatei a acelerar como se estivesse num imenso campo florido de felicidade. Depois de a cruzar uns longos braços que me apertam em maior êxtase e satisfação que eu. Era o João Meixedo, que depois de fazer uma notável prova, em 3h37, um mês depois do que penara nos Abutres, me esperava junto à meta, fazendo da minha felicidade e do meu objectivo cumprido também o seu. As 4h eram, mais que um objectivo pessoal, uma obrigação para com todos os que, como ele, me apoiam e me acompanham desde há alguns anos.
É este o espírito da corrida e dos maratonistas. Habituados a sofrer, sabem o que todos os outros sofrem e vivem os objectivos e feitos alcançados como se fossem também seus. Também eu fiquei assim e agora corro com a força de muita gente.
A desilusão de não alcançar um objectivo esvai-se com a alegria dos objectivos de outros, porque apesar da maratona ser um individual, sem a força, o incentivo e as palavras e abraços de outros, principalmente daqueles que gostámos, deixa de fazer sentido. Torna-se naquilo que muitos pensam sobre todos nós, os que parecemos correr sem destino como loucos, quando não passam de momentos em que, sozinhos, apuramos a forma que nos leva a cumprir objectivos que agradam a muitos. E é esta força colectiva, esta vontade que nos empurra estrada fora, km a km, que faz de cada maratona que faço com todos vós, a melhor maratona do Mundo.
(Também publicado em www.correrporprazer.com)
terça-feira, fevereiro 19, 2013
Viver o presente!
O Lord, rafeiro para os clubes caninos, mas com um pedigree apurado em dedicação e gratidão, meu companheiro de muitas corridas matinais dos últimos 4 anos e meio, quando sentindo-me desperto, fita-me com o ar ansioso de quem quer apanhar ar. Ali, com o focinho pousado na cama, sentado a meu lado, só lhe faltava ter as sapatilhas na boca. Acedi ao leve bater de rabo. Levantei-me e, os dois em silêncio, numa cumplicidade evidente, lá fomos ver o que a praia da Madalena nos reservava.
O dia estava fresco, ainda num envergonhado despertar, onde os raios de luz furavam as nuvens. Chovia. Não uma chuva intensa, nem tão pouco "molha tolos", era uma chuva constante de gotas que se faziam notar, mas com espaço suficiente entre elas, para não serem demasiado incómodas nem ignoradas.
Ali fomos junto ao mar, ele feliz por poder sentir todos os aromas da manhã, solto à sua vontade, mas sem nunca deixar de me ter no seu horizonte. Nem preciso falar, gritar ou assobiar. Parece que... Melhor, ele sabe o que eu sinto, sabe quando deve vir, só quer sentir se vou para Sul, Norte, se paro, se calcorreio as dunas ou o passadiço, para me poder acompanhar.
Foi um bom treino. Pouco mais de 8 km em pouco mais de 40 minutos.
Passear na praia de manhã, sentir as cores e os aromas da aurora, apreciar o carrossel de barcaças que serpenteiam a costa em busca de pesca, ouvir as gaivotas, ver todo o despertar do mundo que me rodeia. Impagável.
Posso não ter tudo, posso não ter nem um pouco do que muitos têm, mas ter a percepção de que o que tenho é mais do que muitos terão, é meio caminho para viver melhor e tranquilo. Porque nem sempre as melhores coisas são as que menos vemos, porque quase sempre não apreciamos aquilo que temos e ansiámos por coisas que não sabemos se vamos ter, devíamos olhar mais para aquilo que nos rodeia.
Parafraseando Pessoa (Livro do Desassossego), numa frase que era a preferida do jornalista Nuno Felício, que ontem faleceu, aos 38 anos sem que nada o fizesse prever:
"Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho."
domingo, fevereiro 17, 2013
Free Running do Redleh Odeveza
Do avesso quase ficava eu. E as minhas pernas.
Depois de varrer a Sta. Luzia, no último Domingo, a uma baixa velocidade apesar dos 32 km, mantive os treinos desta semana, descansando apenas na Sexta-Feira. Ontem, e porque precisava de fazer alguns km na estrada, para testar o esqueleto, visto ser já no próximo Domingo que me aventuro, mais uma vez, numa maratona, fiz 22 km totalizando assim 95 km na semana.
Entretanto, desafiado para ir a este Free Running, embora relutante, lá acedi. Seriam 27 km. Há sempre estreantes, atletas mais lentos, alguém que se atrasa e eu, esperançado, lá fui. Puro engano. Chegados ao alto do Monte Córdova, junto à Sra. Da Assunção, deparo-me com o pelotão mais rápido que ali podia estar. Além dos dois que foram comigo, João e Vasco, estava lá a fina flor do trail. Alguns dos que ocupam habitualmente os pódios nas provas, femininos incluídos, e muitos dos que não passam do meio das classificações para baixo. Onde me fui meter.
Há um provérbio que diz que "se não queres ser lobo não lhe vistas a pele". Eu, armado em atleta, saio com a pele toda vestida, e feito lobo, faço-me aos km iniciais junto com os rápidos todos, e rapidamente percebi, que rápidos eram mesmo todos, ou eu estava com "carga a mais".
Nas primeiras subidas reparei que afinal, eram os quilómetros que gritavam nas pernas. Faltava-me força para acompanhar aquele comboio. Aos 18 km, no alto do Pilar, junto às instalações da Força Aérea, aceitei boleia (foi mais ele que aceitou a minha companhia) do carro de apoio e do fotógrafo de serviço.
O quintal do Hélder é uma excelente zona para trail. Tenho pena de não ter chegado à nascente do Rio Leça. A julgar pelo restante percurso, seria com certeza a cereja no topo do bolo.
Muito verde, num dia de muita chuva, onde a temperatura não passou dos 8 graus, sendo seguramente mais baixa nos pontos mais altos por onde passamos.
A organização esteve inexcedível, brindando os participantes com um excelente abastecimento, que faria corar muitas provas, banho quente no final, e um repasto que, infelizmente, não pude provar.
Espero voltar, com sol e gente lenta, ou então, como o Hélder marca os treinos com alguma antecedência, faço um plano de treinos específico para acompanhar tanta gente ilustre do trail nacional.
Agora, venha Sevilha.
segunda-feira, fevereiro 11, 2013
A varrer o Monte de Sta Luzia
Por motivos profissionais, calculara impossível participar na prova organizada pela Viana Cycles, o Trail de Santa Luzia, idealizada e dirigida pelo incansável Leandro Freitas, habitué dos trilhos nacionais, e que se lançou numa empreitada digna de aplauso. Com a constatação que afinal podia ir à prova, e curioso em conhecer os famosos trilhos da Serra de Sta Luzia, tentei inscrever-me à última da hora. Com as inscrições há muito esgotadas, (antevendo-se assim um sucesso), experimentei outro “expediente”. Como não sou apologista de correr com dorsais alheios, falei com o André Palhares, colega dos Porto Runners, que ia fazer o sempre nobre trabalho de atleta vassoura, e pedi-lhe para o acompanhar. O vassoura nas provas de trail tem como missão “fechar” os trilhos, certificando-se que ninguém fica atrás de si. Informa os voluntários nos postos de abastecimento e controlo e está em permanente contacto com a organização e equipas de socorro, caso surja alguma eventualidade com algum atleta. Mas a missão mais importante é de incentivar os que andam na cauda do pelotão. Desanimar é meio caminho para a desistência, sendo que a desistência, salvo por motivos de força maior, é a última das opções de um trail-runner. No trail, o último é o maior dos resistentes.
Nuno Silva, vencedor da prova. (Foto de Miro Cerqueira)
A prova, com prometidos 33 km, desenrolou-se por belíssimas paisagens da Serra de Santa Luzia. Com partida e chegada no Estádio da “Princesa do Lima”, epíteto pelo qual é conhecida a bonita e atraente Viana do Castelo, serpenteou o Monte até ao Parque Eólico, por passagens constantes por cursos de água que embelezavam e animavam o percurso. Ali chegados ao ponto mais alto, brindados com um forte nevoeiro e chuva intensa, deu para apreciar os imensos cavalos selvagens, estáticos resistindo à intempérie. Mais pedra e trilhos técnicos levavam-nos planalto fora onde a lama e água serviam de tapete difícil, com progressão acidentada. É o chamado percurso “salta-pocinhas”, a fim de evitar o atolar que nos leve a perder alguma sapatilha.
Mais chuva e vento, alguma bonança, um número infindável de bois com chifres afiados e ar de pouco ou nenhum interesse naqueles estranhos humanos que lhes invadiam por pouco que fosse o habitat onde calmamente pastavam, e finalmente um pouco de descida. Ali os trilhos verdes e quase sempre com cursos de água à mistura, divertiam-nos ainda mais. Chegados perto de S. Mamede da Areosa, um pequeno trilho a subir (Trilho do Mel) e uma intempérie que se abate sobre as nossas cabeças. À nossa espera no abastecimento, um chá quente e nova investida ao trilho. Mais uns quilómetros por belíssimos percursos por entre verde, muito verde e quedas de água, um belo serpenteado minhoto que nos levou até aos famosos “Canos de água da Areosa”, que antigamente abasteciam de água, desde o alto da Serra a cidade. Percurso belo e entretido, onde o equilíbrio se impunha, até a uma última subida que nos levaria à medieval Citânia de Santa Luzia. Dali até à meta trilhos entre a terra e a calçada românica com uma última incursão num ribeiro para lavar as sapatilhas. Resumindo, um belíssimo percurso, nem sempre bem marcado, mas suficientemente divertido e técnico para quem se quiser aventurar em distâncias mais generosas de trail.
Uma excelente forma de divulgar Viana do Castelo. Como me dizia um atleta local, toda a gente conhece o Santuário de Santa Luzia e as bolas do Natário. Há realmente muito mais para descobrir em Viana. Pena foi que as condições meteorológicas nos tivessem impedido de desfrutar das vistas formidáveis do alto da Serra, embora, aqui e ali, em zonas mais baixas, fosse possível ver perfeitamente os imensos areais do Cabedelo e Praia Norte com o beijar constante das gélidas e agitadas águas atlânticas.
Foi uma forma divertida de passar 6 horas de um Domingo. Obrigado ao André e à divertida Susana.
Parabéns ao Leandro Freitas e à Viana Cycles. Parabéns a todos os que se aventuraram, desde o vencedor Nuno Silva, até aos que se estrearam em quilometragem superior ao que já haviam experimentado. Sei bem o júbilo que nos vai na alma sempre que damos mais um passo, e por muito que haja quem desvalorize, nós no trail, desde o mais rápido ao mais lento, estamos aqui para felicitar todos os que se atrevem e são capazes.
E tu, atreves-te?
Os famosos canos da Aerosa. Bom trilho, onde o equilíbrio é fundamental.
domingo, fevereiro 03, 2013
O que é o Trail Running?
Há alguns dias alguém perguntava se havia melhor definição para o trail que uma que o descrevia, por poéticas frases, como uma constante tomada de decisões e batalha permanente do corpo vs mente. Numa definição lata, o trail é a vertente de corrida na natureza, em provas que variam em quilometragem mas são constantes no desafio à natureza.
(Serra da Freita, onde são vulgares os encontros com estes “locais”.)
É vulgarmente confundido com corta-mato. Há atletas que se inscrevem em provas de trail e depois se lamentam de haver pouco onde correr. Para quem gosta de correr, se procura desafios de dureza superior às provas de estrada, normalmente planas, deve procurar fazer as provas do circuito de montanha. Essas sim, são provas de corrida em terrenos de desníveis acentuados, onde o estradão florestal, caminhos rurais e os corta-fogos de montanha substituem o habitual alcatrão das estradas. Aí podem desafiar a gravidade e impulsionar o corpo montanha acima, em competição com outros atletas que apreciam a corrida inclinada.
O Trail é “vinho de outra pipa”. Trail não implica obrigatoriamente correr. Trail implica técnica de corrida e muita caminhada em pisos que podem variar entre a lama, água, pedra solta ou penedos lisos e caminhos apenas utilizados por cabras. Implica sempre ser destemido perante os desafiantes desfiladeiros, as assustadoras quedas de água, ou as lamacentas e escorregadias margens de cursos de água, onde normalmente se revela difícil manter o corpo na posição erecta. Aqui, o segredo é deixar o corpo ir, tentado equilibra-lo sem cair, enquanto os pés se precipitam trilho abaixo, firmando o solo apenas por um nano-segundo. E quando pensares que finalmente há uns km para fazer em corrida, provavelmente é apenas um pequeno terreno de transição para outro trilho. Para entender o que é o trail, quando olhares para uma montanha, imagina como seria fazer uma estrada até ao topo com a maior inclinação possível, porque será esse normalmente o trajecto que um “desenhador” de trilhos escolheria.
Quando quiseres fazer um treino de trail, vai à praia, uma bastante rochosa, preferencialmente com a maré vaza, e corre pelas rochas, saltitando entre elas sem parar, tentando o equilíbrio. As quedas aí serão um bom treino.
(Ultra Trail Serra da Freita – Entre penedos e água, muitas vezes escolhe-se a água)
Quanto ao espírito do trail, só me ocorre um pensamento: Introspecção. Somos nós e a montanha.
Nas provas ou treinos de trail, perante as dificuldades, ficamos pequeninos e humildes às mãos do feitio da mãe natureza. Da natureza que nos dificulta a progressão, e da nossa própria natureza, dos nossos receios, da nossa cómoda posição dominante e agressora do meio ambiente onde nascemos e tão mal tratámos. Já fiz algumas provas de trail. Não há uma onde não pare hesitante perante um qualquer obstáculo que transpus e diga baixinho para mim: “Espectáculo!”
São lutas constantes com tudo. O terreno, o trilho que teima em não nos facilitar a corrida, as cãibras, as dores musculares e traumáticas das constantes quedas, o pó ou a lama, os arranhões ou os picos nas mãos… Não há prova que não termine sem trazer um pouco do percurso marcado no corpo.
(O excelente atleta e amigo Miguel Catarino no final dos Trilhos dos Abutres, marcado pela lama)
E depois, o mais importante: A camaradagem.
No pelotão do trail todos se ajudam, todos se incentivam e todos apoiam todos. Porque todos sentem as mesmas dificuldades. É usual e normal estarem os primeiros a apoiar os últimos na meta de uma prova, mesmo que isso signifique uma diferença de 5, 6 ou mais horas. É usual no trail os mais rápidos treinarem com tipos como eu, que toco sempre os tempos limite das provas. E nunca te deixam para trás.
Resumindo, o trail é uma actividade em natureza, ligado à corrida por caminhos normalmente não utilizados por quem se quer deslocar rapidamente entre dois pontos. É uma actividade que se pratica na natureza e que por isso a respeita. No trail deixamos a natureza marcada apenas pelos nossos pés. Trocámos os habituais abastecimentos em passo de corrida, por uma amena cavaqueira com os voluntários que nos servem sopa e sandes. E é acima de tudo isto, uma actividade de sofrimento.
Quem não estiver preparado para sofrer não se dá bem com o Trail Running. É escusado queixarem-se deste ou daquele organizador, porque todas são duras e difíceis. Se forem fáceis, normalmente, quem gosta de trail não as repete.
E depois o que fica são os bons momentos, os que nos fazem sentir grandes, enormes perante os desafios. Aqueles que nos fazem sentir altruístas porque ajudámos um atleta em dificuldades, ou os que nos fazem mais humildes porque nos deram a mão quando mais precisávamos. Os melhores momentos são mesmo os mais humanos, os de deslumbramento perante a força da natureza. E essa força, no trail, somos nós.
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terça-feira, janeiro 29, 2013
III Edição Trilhos dos Abutres
Esta não é uma crónica jornalística, nem pretende de qualquer forma fazer juízos depreciativos acerca da prova que a titula. É a minha crónica, a redação pessoal da prova do passado Sábado.
Era a minha 15ª participação em Maratonas ou Ultra-Maratonas. Das 15, seria a terceira que não terminaria, mas também a primeira onde mais vezes me convidaram a desistir.
Nas duas ocasiões em que tal tinha acontecido, uma foi por a prova ter sido interrompida aos 21 km, no Grande Trail Serra D’Arga de 2011, e a outra devido ao nevoeiro nos últimos 10 km da Ultra da Freita de 2012. Ou seja, nunca por minha iniciativa desisti de sofrer ou lutar. Sim, porque ainda não fiz nenhuma Ultra (e já fiz algumas) em que não tivesse que lutar contra as minhas fraquezas e/ou percalços físicos.
Esta era uma prova especial, era a primeira ultra que repetia, tendo sido a minha estreia em provas deste grau de dificuldade, há um ano, a primeira que fizera e terminara com 9h.
Este ano, devido às vicissitudes da meteorologia, adivinhavam-se dificuldades acrescidas. Sabia de antemão que teria lama, muita lama, água, árvores caídas a obstaculizar os trilhos, enfim, sabia que ia ter de me aplicar a fundo para fazer os prometidos 45 km.
Cometi alguns erros, sendo o mais grave, e aquele que tenho repetido (Einstein dizia que a maior burrice é repetir um erro à espera de um resultado diferente) o de comer pouco. É um erro que repito de há algumas provas para cá, embora coma o mesmo que comia antes. O problema é que, tendo perdido muita gordura nestes anos, o organismo, quando falta a “gasolina”, não tem muito onde ir buscar. As minhas reservas são já escassas, sendo a alimentação mais importante que nunca. É horrível sentir o que senti aos 13, 14 km dos Abutres, quando subia uma zona de rio, com lama que dificultava a progressão, uma falta de força generalizada, com os olhos turvados pela falta de energia. Tinha ido até ao abastecimento dos 9 km com o grupo do ano passado (João Paulo Meixedo, Joana Leite e Miguel Santos) em amena cavaqueira e permanente galhofa. No dito abastecimento quase não comi. Tostas com mel, marmelada, banana e laranja; nem lhes toquei. Algumas batatas fritas e uns amendoins, enchi os cantis e segui caminho. Ali, meio desfalecido e com o apoio dos atletas vassouras da prova, lá comi um gel e bebi isotónico. Mas, passado pouco tempo tive de parar. Sentei-me numa paragem de autocarro, num cruzamento com uma estrada, e comi uma sande de presunto que trazia na mochila. Reabastecido, lá arrancamos de novo, e ao fim de uns km já os ultrapassava a subir e corríamos a descer e em plano. A energia estava restabelecida. Chegados ao PA (posto de abastecimento) 2, nas Mestrinhas, Km 18, pouco depois de ter passado o controlo junto à Barragem, encontro 2 atletas que ali ultrapasso e que, ora me passaram ou os ultrapassaria dali até ser barrado ao km 38. Revitalizado pela sande de presunto sigo caminho monte acima, corta-fogo inclinadíssimo abaixo, nova subida, descida com muita água e finalmente a descida do downhill. Entre tombos e sku, lá cheguei a mais um PC (posto de controlo), com cerca de 6 horas de prova. Marcam-me o dorsal e dizem-me “pouco mais de um km e tens o abastecimento”. Sigo em passo de corrida, atravesso mais uma estrada, subo para o PA 3, anunciado aos 24 km, mas já com 28. Ali entrado, apenas 10 minutos depois do dito controlo, dizem-me que estou fora de tempo (!!) e que, a querer prosseguir ia à minha responsabilidade. Como é lógico, depois de uma luta intensa, não era ali que ia ficar. O Vasco Batista que ali tinha estado a tirar fotografias o dia todo, prontifica-se a ir comigo. O abastecimento pouco mais tinha que os anteriores: Marmelada, tostas com mel, laranjas e bananas. No ano anterior, antes da segunda dificuldade havia, se bem me recordo, sopa. Foi ali que, um ano antes repus energia para enfrentar a segunda parte da prova. Este ano diziam-me que estava fora de controlo e podia seguir à minha responsabilidade. Tenho 40 anos, idade para ter juízo, mas ninguém tem o perfeito juízo numa altura daquelas. Nem comi. Arranquei trilho fora, com os avisos do Vasco que aquilo ia doer, que eram 6 km sempre a subir. Lá fomos. Tiramos umas fotos junto às monumentais quedas de água, aproveitei para refrescar os músculos, e cerrando os dentes, lá fui trilho acima. 2 km depois novo sentir de pouca força. O Vasco dá-me uma pastilha de isostar, rejuvenesço para enfrentar o resto da subida. No Parque eólico, no meio do nevoeiro, controlo. Marcam-me o dorsal e perguntam-me: “Ficas aqui?”, apontando para uma carrinha com alguns atletas dentro. “Aqui?”, pergunto eu. “Depois de subir isto tudo? Nem pensar”, retorqui. Arranquei em passo de corrida com o Vasco. Ali no cimo da Serra fazia frio, o vento era mais forte e estava nevoeiro. Metemos passo de corrida, iniciando um serpenteado espectacular no meio de um bosque, onde, divertidos corríamos a sorrir. Nova descida técnica, mais rio e lama, mais quedas e eis que começa a anoitecer. Nova subida, agora a temida subida da Póvoa das Leiras (acho eu), onde subíamos agarrados a cabos presos nas rochas. Já com os frontais ligados e comigo a preocupar o Vasco, de tão esgotado me sentir, chegámos a umas placas que indicavam “15 minutos de trilho a subir”. Agarrado à placa, respirei fundo e comi mais uma pastilha. Apesar do Vasco temer que eu ali ficasse, não me sentia assim tão desfalecido. Estava menos mal do que tinha estado aos 14 km. Arranquei lento, passámos por uns bombeiros que nos anunciaram o abastecimento a 1 km. Ao chegar a Gondramaz, já no final da subida, ouço a Lina Batista dizer “Anda lá que agora vais de carro”. Chegado junto do que tinha sido um PA e de controlo, e cujo tempo limite de chegada era de 8 horas, dizem-me que já não me deixavam passar. Resignado, entrei no carro e regressei a Miranda do Corvo. Faltavam pouco mais de 8 km a descer. Terminaria muito provavelmente com mais de 12 horas, sendo o limite 11. Às 18h50, 10 horas depois de partir, acabava a minha prova.
Reconheço que errei. Tenho errado nos dias de provas, por não comer. Não tenho por hábito fazer treinos longos de manhã, prefiro correr ao fim da tarde de Domingo, depois de um almoço mais reforçado. Em dias de prova, mesmo não tendo apetite devemos reforçar o pequeno almoço, coisa que não fiz. O facto de ter já mais de uma dezena de maratonas e ultra maratonas, levou-me a ser menos rigoroso também com a preparação. Reconheço agora que fazer, 9 dias antes de uma prova como esta, um treino bi-diário de 30km + 12km não foi provavelmente muito inteligente. Mas eu gosto imenso de correr. Reconheço que não treino, o treino requer rigor e planeamento. Eu corro à aventura, por isso gosto tanto do trail. E sinto-me imensamente feliz por correr. E chega-me. Já sei que sou capaz, que posso fazer melhor, mas será que me sentirei mais feliz, mais realizado? Não me parece. O que vier é lucro em cima de ganho.
Quanto à prova e à organização em particular, devo referir alguns pontos que me parecem pertinentes referenciar. Não que me sirvam de desculpa em relação ao que se passou no meu caso particular no último Sábado, mas para que sirva como reflexão e para ponderar.
Tempos de Passagem e marcações
Srª Piedade de Tábuas – 5h
Gondramaz – 8h
Espinho – 9h30m
Meta– 11h
Se estavam a contar com dificuldades acrescidas devido ao mau tempo dos dias anteriores, seria aceitável que ampliassem os tempos limite. Contudo, mesmo que não o fizessem, deviam ter marcado os troços finais com sinalização nocturna. Houve imensos atletas a acabar a prova de noite. Todos sabemos que, caso a sinalização não seja adequada, a progressão torna-se mais lenta, atendendo à tecnicidade dos trilhos. No restante percurso, era suficiente e bem marcada, faltando apenas as placas indicativas do km do percurso.
Os tempos apresentados como limite deviam ter sido aferidos por alguém que fizesse o percurso por completo. Dar 8h para fazer o mais difícil do percurso, onde se concentra a quase totalidade do desnível positivo, 38 km, e depois permitir fazer pouco mais de 8km, a descer, em 3 horas, não me parece nada apropriado. Em relação ao tempo limite de prova, as 11h, mais uma que na edição de 2012, pareceu-me pouco, visto que, a maioria dos atletas demoraram mais que no ano anterior a percorrer todo o percurso. Atente-se como exemplo a quantidade de atletas a terminarem com mais de 9 horas relativamente ao ano passado. Se em 2012 houve quem terminasse com 11 e mais horas, seria prudente e expectável, com as alterações introduzidas, que mais houvesse este ano. Foi provavelmente por isso que obrigaram a que os atletas tivessem frontal.
Abastecimentos e Condições logísticas
Todos os voluntários, bombeiros, organizadores e população estão de parabéns. Pessoalmente, sabem receber, são simpáticos e prestáveis.
Quanto aos abastecimentos, não me parecem adequados à dureza da prova. Já aprendi que não nos podemos fiar numa organização; mas tostas com mel, marmelada, bananas e laranjas, não são suficientes numa prova deste calibre. O ano passado houve sopa e sandes, este ano nada. Pelo menos, para quem vinha no fim do pelotão.
No Pavilhão, a exemplo do ano anterior, não havia água quente. Imperdoável. Depois de um esforço daqueles é o mínimo que se pode exigir.
O jantar era adequado.
Resumindo, numa conjugação infeliz de percalços e erros, acabei por falhar a meta pela primeira vez, por responsabilidade minha. Parece-me contudo que, mesmo que tivesse chegado a Gondramaz 1 hora antes, teria de enfrentar igualmente no breu, a descida até Espinho e os trilhos até Miranda. Houve uma conjugação de falhas, ou de imprevistos, que não deviam acontecer. No limite, e prevenindo desde já futuras edições, com a mais que possível abundância de chuva, seria prudente terem um percurso alternativo por estradões, à semelhança do ano transacto. Seria também útil começar a prova mais cedo. Os dias são demasiado curtos em Janeiro para tanta dureza.
Fica a vontade de voltar aos Trilhos dos Abutres. São trilhos lindos, com quedas de água espectaculares e algumas paisagens de cortar a respiração.
Parabéns aos vencedores e a todos os que terminaram. Honra seja feita aos demais, que mesmo não tendo terminado, se fartaram de lutar naquele imenso rinque de lama e água.
A corrida por montanha está em crescimento, e também estes episódios contribuem para que este crescimento aconteça. As dificuldades são o sal destas provas.
Até ao próximo empeno!
sexta-feira, dezembro 14, 2012
Os Quatro na capital
Talvez a engenharia nunca o venha a determinar, mas na altura pareceu-me premonitório um qualquer fanhoso ter azar na vida, mesmo depois de a vida lhe ter sorrido.
Esta introdução apenas pode ser compreendida na sua essência pelos meus três companheiros de viagem do último fim‑de‑semana.
Tinha corrido tudo dentro de uma aparente normalidade até àquele momento em que o motor do carro, como as minhas pernas ao km 30 da maratona, se recusou a trabalhar. Não era muita a velocidade, 120, 130 no máximo, como tinha sido regular o meu ritmo até "gripar". A animação estava em alta, numa espécie de desafio com o Vitor Dias, que desgarradamente debitava anedotas sempre em resposta a alguma desafiante da minha parte. De repente, como um "muro", o motor calou-se. Ficámos ali, algures na Serrania de Fátima, até os pés da Marlene enregelarem por completo, fora do carro, atrás do rail de protecção, que os que passavam não abrandavam. Como na prova dessa manhã, lá veio um reboque, com pior aspecto que o carro (apesar de avariado) mas que o levou. Nós regressámos sãos e salvos num belo topo de gama, conduzido pelo Sr. Armando, homem dos seus 56, que depois de por o aquecimento nos 21 graus, avisou a patroa da inesperada incursão ao Norte, e da consequente ausência para jantar.
Animação foi coisa que não faltou. Nem no Sábado na viagem para Lisboa, nem na estadia. Tínhamos planeado ir de comboio, fomos de carro devido à greve dos maquinistas da CP ao trabalho em dias feriados; pedi para alterarem a reserva do hotel, de quarto quadruplo para duplo, quando chegámos tínhamos 4 camas. Planeamos deitarmo-nos cedo, deitamo-nos quase às 2 da manhã, depois de um animado jantar. Planeara fazer a maratona na ordem das 4 horas, saiu-me uma prova de 4h32. Imprevistos atrás de imprevistos tinha que haver mais algum. Foi a avaria.
A minha prova resume-se por um ritmo cuidadoso, agradável, com 1h57 à 1/2 maratona, na tentativa de o manter até à Almirante Reis. Com alguns minutos de avanço sobre as 4 horas, mesmo que vacilasse naquela subida, daria para controlar. Mas as pernas não queriam. Não era dia. Depois dos 23 kms comecei a sentir alguma fraqueza. Até aos 28 mantive o ritmo, à espera que passasse. Nada. Quando fiz o retorno pensei em desistir, tantas eram as cãibras. Faltavam-me 14 kms e parecia que correr era impossível. Encontro o José Guimarães, que animava por fora, diz-me para beber água, muita. Foi o que fiz, no abastecimento dos 30. Depois disso, aguentei-me com ele e uma amiga que ele então acompanhava num ritmo lento, mas que as minhas pernas não reclamavam. Aparece então, cerca do km 36, o Miguel Lopes, que acompanhei até final. O Miguel nasceu com pés botos. Depois de muitas operações e fisioterapia corrigiu minimamente o desvio ósseo, o que lhe permite caminhar quase normalmente. Quase. Depois de algumas aventuras na corrida, decidiu estrear-se na maratona. Eu ali a pensar desistir porque não ia fazer o objectivo, e aquele homem a superar a própria natureza. É disto que são feitos os maratonistas, de superação. Mesmo contra a adversidade lutámos. Com a impossibilidade de o Miguel correr em subida devido ao atrofiamento dos gémeos, lá fomos Almirante Reis acima, ele dentes cerrados e vontade imensa e eu pasmado com a garra daquele homem, que não mais larguei mesmo contra a sua vontade e com quem tive a honra de cruzar a meta. É de surpresas que a vida é feita. As maratonas são sempre uma incógnita. Nunca sabemos o que esperar delas. Confesso que não acabei muito animado, mas não é mais que um sentimento egoísta de quem quer sempre superar-se. Mas há alturas em que o motor para. Não há mais nada a fazer que não seja prepara-lo para outras viagens.
De surpresa em surpresa, com maior ou menor dificuldade, lá fomos a mais uma aventura. O Vitor Dias fez uma excelente prova, terminando mais uma maratona de forma brilhante, com 3h10. O Luis Pires, concluiu em 3h19, no top 20 do seu escalão, a sua 84! participação em maratonas e ultra maratonas. A Marlene não correu, dançou. E coloriu-nos a viagem. Foi um fim‑de‑semana agradável, com gente agradável, saudavelmente insana, que levou sorrisos à capital. Assim até as avarias passam despercebidas e compreendemos que o 13 é apenas um número (foi a minha décima terceira maratona) e tudo, mas mesmo tudo, é motivo para nos rirmos da vida, senão ela vai seguramente rir-se de nós.







