Há coisas do caralho! Há coisas boas com’ó caralho, más com’ó caralho, difíceis com’ó caralho, duras com’ó caralho, fáceis p’a caralho, bonitas com’ó caralho…
O dito, que, diz a lenda (?) tem origem na denominação do
cesto do vigia que estava colocado no alto do mastro principal das caravelas e
para onde eram enviados os marinheiros malcomportados, que assim, depois do
enjoo provocado pelo excesso de “abanos” que se manifestavam mais na ponta do
pau, acalmavam e obedeciam com mais vontade. Era mandá-los para o caralho que
eles não mais incomodavam.
Na Madeira, o caralho é o pau que se usa para amassar a mistura de fruta e açúcar de cana da poncha.
Na Madeira, o caralho é o pau que se usa para amassar a mistura de fruta e açúcar de cana da poncha.
Na minha terra – a Invicta, o “caralho” é mais ou menos um
ponto final. É banal rematarmos o nosso estado de espírito com o banal
palavrão. Reconhecemos no entanto o pudor de outras latitudes em utilizar tal
liberdade para exprimir estados de alma. Por cá é um direito adquirido desde os
tempos idos das cortes monárquicas, que, desconfiamos nós, quando se queriam
livrar de alguém mais incómodo os mandavam para o “caralho” geográfico do País
– O Norte. Foi assim facilmente assimilado o direito ao uso do calão para
expressões mais enfáticas.
Sentimo-nos bem? Estamos como ó caralho!
Mal? Estamos assim como ó caralho.
Mais ou menos? Sei lá ou o caralho.
Não entendemos? Não pescamos um caralho.
Ficamos estáticos? Mexe-te caralho!
É bom? É do caralho!
E mau? Não vale um caralho.
É muito? Eishhh!! Caralho!!
E pouco? Foi pouco, caralho!
Um mentiroso? Aldrabão do caralho!
Um gajo porreiro? Um gajo do caralho!
A Ilha da Madeira à primeira vista para quem faz trail, é uma espécie de “foda-se” com uau à mistura, passando rapidamente a um “caralhos para esta merda” até culminar num “puta que pariu acabei!” ou a um “que se foda esta merda, já não aguento mais isto, caralho”!
Mal? Estamos assim como ó caralho.
Mais ou menos? Sei lá ou o caralho.
Não entendemos? Não pescamos um caralho.
Ficamos estáticos? Mexe-te caralho!
É bom? É do caralho!
E mau? Não vale um caralho.
É muito? Eishhh!! Caralho!!
E pouco? Foi pouco, caralho!
Um mentiroso? Aldrabão do caralho!
Um gajo porreiro? Um gajo do caralho!
A Ilha da Madeira à primeira vista para quem faz trail, é uma espécie de “foda-se” com uau à mistura, passando rapidamente a um “caralhos para esta merda” até culminar num “puta que pariu acabei!” ou a um “que se foda esta merda, já não aguento mais isto, caralho”!
Palavrões ouvem-se em várias línguas, já que fazer uma prova
com mais de 14000 metros de desnível é livre conduto para a asneira e
suficiente para um atestado de loucura. Um alemão dizia-me – a meio caminho
entre o Pico Ruivo e o do Areeiro – que esta é a irmã europeia da Diagonal dos
Loucos, semelhante nos milhares de degraus, na geografia, no clima e na
insanidade necessária para quem, como ele ou como eu, pouco mais conseguia
fazer do que andar a fugir à inevitável marretada e ao limite horário de cada
um dos fodidos parciais. Desculpem o calão, mas eu fiz os 115 km do MIUT.
Ganhei o direito a usá-lo. Ao contrário dos marinheiros nas caravelas, quem faz
o MIUT não acalma. Transforma-se numa espécie de domador de feras aparentemente
indomáveis. Fica cheio de cagança. É do caralho. E quanto menor o tempo final,
maior a cagança! O treino de escadas resultou, o nutricionista ajudou, o
treinador treinou bem a dor, o equipamento esteve impecável e afinal a Madeira
é do caralho! Muda a cagança à medida que baixa o tempo final, mas não muda a
exclamação de quem passa por aquelas subidas pirilau intermináveis, por aqueles
degraus que esculpiram pela ilha – os degraus da Madeira deviam ter mais
destaque na prova que a areia no deserto – por aquelas descidas de moer as
melhores cartilagens e as vistas desafiantes para quem naturalmente sofre de
vertigens – o ser humano vive no chão, gosta de gravidade, não foi feito para
voar sem paraquedas, e no trail ninguém usa um. O nível da prova é do caralho.
Estrangeiros como ó caralho, voluntários do caralho, abastecimentos também do
caralho, marcações? I R R E P R E E N S Í V E I S, caralho! “Parecia uma puta
de uma pista!”, era a expressão de um atleta minhoto, que sendo de um pouco
mais a norte, mais carrega no direito ao calão.
Não me parece que queiram saber que caralho de chapéu era
aquele que usava o François D’ Haene (um simples panamá para quem não corre
pouco) nem que caralho diziam os polacos, os checos, ou o japonês enfiado num
fato de sumo - que deixei de ver na subida ao Pico Ruivo, quando começavam a
ficar fodidos de caralho de as subidas não terem fim. Provavelmente diziam algo
tão libertador como “caralho”. Os espanhóis diziam “joder”, os franceses
“putain”, os alemães “scheisse” e os ingleses e todos os que se queriam fazer
entender exclamavam bem alto “fuck”! Pelo menos foi o que me disse a polaca que
vestia uns calções azuis com a inscrição “Go Vegan” no rabo. Nas subidas ficava
sempre com vontade de lhe dizer que eu não sou vegan nem quero ser e que o
melhor era inscrever lá “força nas canetas!”, ou algo mais forte, já que quem
ia atrás ia-se entretendo com a mensagem. Dizia eu que a polaca exclamava,
algures entre o Pico do Areeiro e o Ribeiro Frio – descida de 9 km – que a
“fucking going down hill” era “weird” porque afinal o caminho era “fucking up”.
Pois, disse eu, aqui até as descidas doem. Com’ó caralho! E lá ficou a moça a
penar, lixada da vida.
Nas montanhas da Madeira tudo dói. As subidas, as descidas,
a noite ou o dia, as pedras ou a água. A beleza da prova é transversal. Da partida em Porto Moniz em
zigue zague a subir pelo meio das casas, a primeira descida que “paga o
bilhete” com milhares a apoiar ruidosa e pacientemente os que ainda descem e os
que já mergulharam no breu do alto da Ribeira da Janela em direção ao Fanal,
passando pelas vistas de cortar a respiração dos trilhos da Encumeada, Curral
das Freiras, Rosário, os Picos – Torrinhas, Ruivo, Areeiro, e depois a costa
Norte com a Vereda do Larano e a Boca do Risco. As levadas, a água que chora pelas veredas, os montes de lava transformados em gigantes picos. Lindo. Seja de noite ou de dia.
Faltam-nos os “foda-se!” suficientes para classificar a prova.
É uma prova indomável onde a gestão do esforço, alimentação e hidratação, equipamento e ânimo são o essencial. Mas continuará indomável. Há sempre um ponto para quebrar.
É uma prova indomável onde a gestão do esforço, alimentação e hidratação, equipamento e ânimo são o essencial. Mas continuará indomável. Há sempre um ponto para quebrar.
Não é para atletas, é para malabaristas. O vassoura que ia
sair no horário limite (21h30) do Posto de Apoio e Controlo (PAC) do Pico do
Areeiro disse-me que eu dificilmente chegaria ao PAC da Portela dentro do tempo
limite, apesar de serem só 14 km. 5 horas para 14 km não davam, achava ele.
“Não chego o caralho!” Fui a “voar” e passei 50 atletas até, 15 minutos antes
do limite, lá chegar – soube por SMS que me enviou o Hugo Alexandre, chefe de
posto, no dia seguinte. “Cheguei, caralho!”. São horas de manobras dignas de
mestre de obras a contornar dificuldades. “Estou no meio do pelotão dos
tetraplégicos”, pensava eu. Estávamos todos. Do primeiro ao último, ninguém
escapa. Nas subidas mais “fi-lhas-da-pu-ta” – assim mesmo silaba a silaba, como
passo a passo se fazem – nestas subidas vamos passando por gente agarrada aos
bastões com expressão catatónica a fitar o trilho. Perguntamos se precisa de
ajuda, vemos o balbuciar do “i’m ok” com a baba a sair pelo canto da boca e
fugimos como quem foge da peste que nos há-de inevitavelmente também atingir.
Fraquejar no MIUT é ganhar lanço para continuar. E insiste-se. É obra!
O trail é uma luta do caralho. O MIUT é uma prova única,
numa ilha excecionalmente bonita que se torna num caso de inevitável sucesso.
Mérito de quem organiza, dos voluntários, das entidades que apoiam e dos
atletas. Uma prova que retira do nosso léxico popular adjetivos informais que a
classificam acima de boa. É muito. É “muito” em tudo. Muito boa, muito dura,
muito bem marcada, muito bem controlada e muito compensadora.
Uma prova do caralho!
Uma prova do caralho!
Como escreveu o Paulo Alexandre, só uma cabeça brilhante como a tua poderia tornar o ordinário em extraordinário. Fizeste-me rir. Muito. Fizeste-me ter saudades. Saudades das vivências que aí experimentei, sempre fugindo da marreta e do tempo de corte, mas nos muito menos duros 85 km. Muitos parabéns por tão grande conquista!
ResponderEliminarSó me lembrei de palavrões durante a prova, não fiz mais que ser sincero na análise. A tua prova foi num dia completamente diferente, com um traçado masoquista no final na aproximação a Machico, numa noite de tempestade em que enfrentaste fantasmas, bruxas e intempérie, tudo junto numa luta contra o sono. Lembrei-me bastante dos teus relatos quando passava nos trilhos em que um dia te imaginei. E depois dei corda ao chinelo para poder "discutir" contigo os trilhos da Madeira, que já parecia mal conhecê-los tão bem sem nunca os ter percorrido de lés a lés. Hás-de lá voltar. Deves lá voltar, tu que gostas tanto de passeios por PR's e de água e vistas bonitas. É um belo passeio. ;)
EliminarA três semanas do meu primeiro 100, ler isto foi o capítulo 1 do plano de treinos para o MIUT 2018. Bem hajas, "foda-se"! Um relato do "caralhão"!! (decerto só para não tornar fastidioso aos mais susceptiveis não foste por aí fora nas inúmeras variantes, aumentativas e diminutivas, do "caralho" base) Um Abraço, Carlos Figueiredo (Covilhã/Vila Real)
ResponderEliminarOlá!
ResponderEliminar5 estrelas!
É com uma grande caralhada que digo Obrigado, e assim, vou preparar-me do fundo do meu coração!
Venha lá o MIUT 2018! Vai ser o primeiro… do caralho!
Um abr
Que texto absolutamente fabuloso! Que descrição irrepreensível! Que resistente do caralho! Parabéns por tudo.
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