quinta-feira, julho 18, 2019

Santiago - Finisterra 2019

Já faço "Caminhos" desde 2013.

Quando saí para o primeiro fomos logo avisados pelo mais experiente "Caminheiro" do grupo de que, depois de fazer um "caminho", não há quem não queira voltar.
Esse primeiro, bem como o segundo, foi o Caminho Central Português, caminho mais utilizado por cá, passa por Rates, Barcelos, Ponte de Lima, Valença, Tuy, Pontevedra, Redondela, até "entroncar com todos os que existem, no seu "fim", Santiago de Compostela. Há um ano fiz o Português da Costa, hoje em crescimento dado que utiliza toda a recente estrutura construída à beira mar entre Matosinhos e a Póvoa de Varzim (e que "esvaziou" o original, por Santiago de Custóias), fazendo deste o mais escolhido por quem nos visita com este propósito e que desfruta assim da agradável temperatura das praias do norte. Confesso que foi um dos que mais gostei de fazer, pela envolvente natural - varia entre as bucólicas zonas de campo pouco distantes do mar e os imensos areais minhotos -, e pela pouca afluência na chamada Costa da Morte - a Costa galega, mais de pedra do que de areia. Os momentos de introspecção são muitos, as distâncias percorridas sozinho são também imensas, o que nos faz sentir sempre mais peregrinos que meros caminhantes. Tudo isto sem nunca nos sentirmos fora do "Caminho", cruzando sempre, aqui e ali, peregrinos solitários ou em pequenos grupos. Não se vêem por aqui grupos numerosos de "peregrinação", como vulgarmente se encontram nos mais utilizados.

Em Dezembro de 2014 fui pela primeira vez fazer o Caminho de Santiago a Finisterra. Fomos, eu e a Susana - por sua proposta, fazer o que sobra depois da chegada à (demasiado) urbana Santiago e a sua movimentada e ruidosa Catedral. Surpreendidos pela extraordinária monotonia de verde, aqui e ali rasgado por rios e algumas (poucas) casas, desfrutámos de cada hora daqueles três fantásticos dias de Inverno, e do fim ideal, junto ao mar. Podem ler o relato aqui.

Este ano, num desafio surgido na noite da passada quinta feira, a meio de um churrasco de verão, convenci o Meixedo a fazer o mesmo Caminho. Aliciado pelo facto de não acabar em Santiago, mas sim em Finisterra, e adequado aos 3 dias que tinha disponíveis, aceitou de imediato. No dia seguinte lá fomos, rumo a Compostela. Noite dormida, partimos trilho fora. Não consigo descrever tudo o que por lá fomos vivenciando e experimentando, entre dias de aguaceiros de verão, daqueles de trovoada que deixam no ar o cheiro a terra quente e húmida, outro de sol chato e persistente que nos fez terminar o dia com um mergulho na praia de Muxia, e que precedeu o de clima ideal para quem quer desfrutar sem "derreter" ou tremer de frio um dia de névoa da costa noroeste da península, dos que não dão para ir à praia, mas que também não são de ficar em casa. Não há mais para dizer, seriam incompreensíveis palavras para quem nunca se fez ao "Caminho", e redundâncias para quem já teve o privilégio de os percorrer. Formidável Caminho, manancial de páginas marcadas para a vida.

De todos os que fazemos há sempre histórias para construir uma "tela" na nossa memória, e há sempre palavras, episódios ou pessoas, que nos fazem recordar aqueles dias, que os retratam na perfeição. Neste, como no primeiro, ficou-me na memória uma frase de um rapaz - francês, a julgar pelo sotaque -, 35, não mais de 40 anos, tez morena, cabelo a roçar o louro por baixo do pó que o cobria (ao cabelo e às roupas - escuras, clareadas pela poeira dos dias). Desvendou-nos com alegria no olhar o significado da frase que ilustra uma pequena "loja" (bar?) na rua principal de Finisterra, quase a chegar à cidade velha. "Sabes porque é que o verdadeiro Caminho começa no fim?" (em inglês), num tom moderadamente elevado para fazer notar a pertinência da pergunta; a resposta veio com a mesma rapidez, mas num tom já mais atenuado por já ter cativado a nossa atenção: "porque tens sempre vontade de regressar, como temos sempre vontade de buscar o sol, na vida e na natureza". Não falou mais. O João retomou a marcha com um "vamos ao km 0 e já voltamos", eu segui-o. Não voltamos porque tivemos de apanhar um autocarro, o último que nos dava ainda uma esperança ténue de chegar ao Porto no mesmo dia, necessidade imposta por obrigações profissionais. Podemos calcorrear km, caminhos múltiplos, trajetos sem fim. Nunca se sabe o que começa ou acaba, mesmo que nos pareça o início, o epílogo ou o princípio do fim. O(s) caminho(s) que fazemos são sempre mais do que aquilo que (nos) parecem. O Caminho, como explicava o eloquente "francês"(?), é uma espiral de ida e volta, é um ciclo sem fim, com aparentes pontos extremos.



Fica mais uma excelente experiência, ficam as memórias, ficam as vivências, ficam os laços que sempre se consolidam nestes dias de mochila às costas em que nos parece que viveríamos melhor com muito menos do que achamos precisar. Nada é o que parece ser, e tudo pode ser aquilo que nos parece.



Sigamos (n)o Caminho, vivendo o melhor que pudermos e soubermos.


quinta-feira, julho 04, 2019

11 anos a correr, 10 anos depois, um Balanço

Faz este mês 11 anos que deixei de fumar, e 10 anos que consegui correr mais de 7 km.
Entretanto, mais de 8 dezenas de maratonas e ultras depois, bem mais de 1/4 acima dos 100 km, somadas a muitos km em "passeios" com amigos, cujo epílogo vai invariavelmente dar ao mesmo lugar - uma mesa -, impõe-se um balanço.
Aqui vai a minha retrospectiva destes anos de "atleta".
Comecei a correr para perder peso. É um excelente motivo, comum a tanta gente e dos mais mencionados em estudos, para além do "para fugir à mulher/marido". Diziam-me que bastava o hábito da corrida e nós íamos ganhando vontade de correr mais e mais e "virávamos" atletas. Ao princípio foi mais ou menos assim. Dos mais de 200 metros diários a correr - sempre depois de longas caminhadas -, até chegar aos 7 km sem parar, foi um pulo. Um ano com treinos curtos de velocidade (corrida) e longos de resistência (caminhadas) levaram-me ao maravilhoso mundo do chamado "endurance", ou em português para desportistas, o meio-fundo e fundo. Fundo seria o buraco onde me enfiaria se tivesse descoberto algum no fim das 2h20 gastas a percorrer a minha primeira meia maratona. Porra, aquilo parece um semáforo verde em hora de ponta, tantas eram as máquinas que saiam prego a fundo, apesar de lhes chamarem corridas de resistência. Isso, ou eu era mesmo muito lento. Vi imediatamente que não era para mim. Fiz sangue nas mamas, assei os tintins, apareceram-me bolhas nos pés e fiquei com um moreno à trolha que nem vos digo. Mas não desisti. Corri sempre que pude durante todo o ano seguinte. Fui até a mais uma meia maratona onde consegui, pasme-se, baixar um minuto ao meu PB - e foi aqui que comecei a entender o léxico que usavam nas transmissões televisivas de atletismo. Ainda nesse ano fiz o meu SB aos 10 km e outro PB na Maratona. Um PB de merda, note-se, já que 4h28 para correr 42 km... Enfim. Aqui também não me safei. Apesar de toda a experiência adquirida entre PB's e SB's, voltei a queimar os ditos, a assar o rabo e a acabar com sangue nos mamilos. Foi também aqui que as minhas unhas passaram a ser negras e com a grossura dos cascos de um camelo, características que não mais foram revertidas, até hoje, 10 anos volvidos.
Tinha entrado num mundo de tontos. Íamos a maratonas e voltávamos sem conseguir descer escadas. Fomos a Milão, Sevilha, Lisboa, depois ao Gerês e a Caminha. Demos com uma prova numa terra ao pé de Coimbra com nome de Miranda do Corvo, onde uns tontos diziam ter uma "Maratona de Montanha" e saiu-nos uma longa caminhada, tal era o medo de cair se nos soltássemos das pedras onde nos agarrávamos, ou se não nos aguentássemos de pé nas ravinas que nos punham a subir ou descer. Dessa trouxemos garrafões de vinho, salpicões e chouriços. Na véspera andamos por lá a comer chanfana, coisa a que os nutricionistas não achava piada nenhuma. E foi aqui que todos começamos uma nova carreira neste maravilhoso e enganador mundo dos "atletas": O Maraturismo. Tanto foi o turismo, que até fomos ao Entroncamento! Correr uma outra maratona de monte. Aí voltei às bolhas e comecei o dilema das sapatilhas. Parecíamos todos uns entendidos, que afinal "as Trabuco XIV já não eram tão boas como as XIII", como se andássemos há séculos naquela vida de caminhar pelos montes que já ninguém cruzava. Éramos tão entendidos na poda que até tínhamos no grupo um tipo que tinha um blogue com nutricionista e tudo. Nessa, saímos do Entroncamento e fomos ao João dos Leitões, beber espumante e comer umas sandes. É que depois do garrafão e do paio que nos deram nos Abutres, a malta habituou-se à carne de porco para recuperar do esforço (dizem que é muito enzimática) e não queríamos mudar de recuperador (recovery, em linguagem de atleta). Não mais deixamos de ir comer depois das provas. Mas as provas eram cada vez mais longe, que os montes também o são, e então começamos a programar as refeições antes das ditas. De cabrito a chanfana, de verde tinto a "papa figos" acompanhado de tábuas de queijos e presunto foi um arraial de experiência. Um dos nossos chegou às 100 maratonas nesse ano. Nós chegávamos então às 10, ou 20. Tipos experimentados. Começamos então a aumentar a nossa larga experiência em... Comida.
O Vítor, do blogue, veio com uma ideia tonta de irmos a Santiago. Não a pé, que isso não desgasta para comer, íamos a correr. E fomos, 5 "atletas" e uma santa no apoio - que é como quem diz, na preparação da comida. Comemos como verdadeiros atletas desta coisa que agora se chama "ultra". Sandes de tudo, especialidades variadas e mais alguma coisa, marchava tudo (menos farinha de pau... em sandes). Aqui começamos uma nova capacidade, digna dos experientes: Comer e correr ao mesmo tempo, seguido de paragens para beber umas cervejas. Saímos daquela semana tão experientes, que decidimos fazê-lo com quem quisesse aprender. Daí até juntarmos dois cozinheiros e duas dezenas de comensais numa casa no Gerês foi um saltinho. Entre os dois treinos diários, marchavam 4 refeições bem regadas a tinto. Como este "Campus" foi no Inverno levamos um presunto "pata negra" para acompanhar o vinho e as tertúlias à lareira. Hoje chamam a estes encontros "Trail Camps", nós em 2013 chamavamos-lhes "tertúlias gastronómicas com treinos a acompanhar" - Treinos e Tertúlias nos Trilhos. Os treinos foram engraçados, os trilhos eram giros, mas duravam 5 horas por dia. Das 11 que sobravam depois de dormirmos 8, eram para treinar a capacidade de enfardar. Ninguém fez bolhas nos pés, nem assou o rabo. Descobrimos então que éramos tão bons a comer e beber, que não deixaríamos nunca de ser ultra maratonistas, vulgos enfardadores desportivos.
Nesse ano saltei para mais longas distâncias, que eu não queria por nada voltar à minha forma rechonchuda. Continuei a assar o rabo, mas aqui já passei a usar uns excelentes adesivos nos mamilos, que evito esquecer. Sabem, é que tudo o que assa, arde que se farta no banho. Os pés passaram então à fase de fazerem parte de um balão cheio de água. A bolha ocupa toda a base, furamos aquilo por todos os lados, mas ela aparece sempre insistentemente, como uma visita indesejada de Domingo à tarde quando estamos descansados na sesta. Começam as agulhas e as linhas nos pés. Reparem que, começando uma carreira desportiva uns anos antes, já somos comensais e costureiros.
Ora para longas distâncias tínhamos de fazer treinos mais longos e em montanha. Começamos os passeios domingueiros, com passagem por tascos emblemáticos, ou a terminar em algum repasto farto. Até "treinos" longos com almoço de cabrito e bacalhau assado a meio fizemos, em treinos mais técnicos e específicos para longas distâncias. No advento do que outros vieram a chamar treinos bravos, fizemos treinos na Serra de Valongo, com "Tripas à moda do Porto" e maduro tinto no final, acompanhados ao acordeão. Acabávamos os treinos sempre felizes (ou alegres) e a cantar. No Porto tínhamos um treino semanal de rampas a que chamávamos de "treino das iscas", porque acabavam irremediavelmente na "Cremilde" - um icónico tasco ao fundo das escadas do Barredo, na Ribeira -, de onde saíamos já aos s"s (para aquecer). Éramos uns atletas de endurance. Admirável mundo das ultras.
Fomos somando experiências, umas atrás das outras. Eu deixei de assar o rabo e de ligar às bolhas. Passei a usar uma pomada que um amigo me aconselhou - "de bum bum de néném" -. e as bolhas aparecem em cima de outras, enquanto as unhas parecem camadas de cartolina, também sobrepostas. Vão saindo e caindo, sem nunca terem voltado à cor do início de carreira.
Continuamos todos a correr. Entretanto, uns casaram, outros descasaram, outros lesionaram-se, outros têm agora programas de TV. Tudo resultado das provas, que o endurance não transforma apenas as unhas dos pés. Entre casamentos, meniscos partidos e condropatias mais ou menos crónicas, juntamo-nos sempre mais para comer e beber do que para treinar. Os filhos destes ultras estão a caminho da faculdade ou mesmo já licenciados; os meus tempos de provas não melhoram grande coisa, mas não perdemos esperança em melhorar o nosso longo curriculo de roteiros gastronómico-desportivos. Já sabemos de cor os caminhos (e restaurantes) de provas por todo o país. Somos agora uma espécie de "Clube dos Atletas Mortos" e dos "Unidos ao garfo", sem esquecer a hidratação, que como sabemos é fundamental para um bom desempenho desportivo, pelo que também nos unimos ao copo.
E pronto. Estamos velhos, não somos os prometidos atletas, mas somos saudáveis. Felizmente somos todos perfeitinhos. E os miúdos também, obrigado.
Numa última tentativa, lá convenci alguns a fazerem provas mais longas. Como não percebemos de mais nada para além de comida e bebida, enfiámos um Viagra a um e mandámos o tipo para uma prova de mais de 100 km. E não é que resultou? O rapaz acabou sem violar ninguém. A preocupação maior é que não bebe tanto como devia, ainda desidrata. Pior, como com a idade está a ficar sem equilíbrio, temos medo que volte a cair. Já aconteceu duas vezes, temos que o manter "de pé", firme e hirto - daí o Viagra.
Resumindo: Comecei a correr para perder peso, passei ao Endurance para virar atleta e acabei num grupo de homens maduros que se transformam recorrentemente num grupo de adolescentes divertidos em busca de experiências inesquecíveis e marcantes.

Isn't that awesome?

sexta-feira, maio 31, 2019

Azores Trail 2018 - Grande Rota dos Baleeiros

Who Knows? But you never know unless you try.
Há histórias incríveis no imenso mundo da corrida.
Cada vez me convenço mais da máxima: Correr o que me apetece, a ritmos baixos, desfrutando do prazer que me proporciona. Philip Maffetone defende mesmo que é a melhor forma de ganhar velocidade, mas isso são contas de um rosário que não quero desfiar.
No passado fim de semana, durante a habitual conferência de apresentação do Azores Trail Run, o João Carvalho Joca apresentou, entre muitos outros, um inspirador Senhor, que do alto dos seus 71 anos contava o segredo que afinal eu já adoptara.
Às perguntas de como conseguir consecutivas maratonas abaixo das 3 horas, com provas de 50 km ou mais entre elas, tudo isto tendo começado a competir aos 58, respondia sorridente:
- I... Just run!



118 Maratonas/Ultras, completadas ao fim de 25 horas, nos 118 Km da Whalers' Great Route Ultra-Trail®, no Faial, no passado fim de semana. Carreira que começou na Maratona de Nova Iorque, com um "modesto" tempo de 3h43.
Em Dezembro último, na Maratona de Jacksonville, fez o melhor tempo de sempre no seu escalão, com uns incríveis 2h54'23". E, pasme-se, não foi a sua primeira abaixo das 3h.
A sua maior façanha, diz, foi concluir em 3 meses consecutivos, 3 provas de mais de 200 milhas.
Gene Dykes, franzino - 63 kg em 178 cm de homem - ligeiramente curvado no sorriso com que parece anunciar a sua presença, é inspirador.
Começou a correr na Faculdade. Tentou o sucesso no atletismo, mas rapidamente percebeu que não tinha técnica ou rapidez, tendo dedicado a sua "carreira" de desportista ao Golfe e Bowling. A corrida foi fazendo parte da sua vida apenas na tentativa de se manter em forma, fazendo jogging com intermitente regularidade.
Em 2006 inscreveu-se na Maratona de Nova Iorque, e durante 7 anos foi correndo maratonas, melhorando o seu tempo desde os 3h43 da estreia até 3h16. Numa tentativa de baixar este já interessante tempo, foi a Toronto e, desilusão, fez 3h29. Decide então contratar um treinador e desde então tem melhorado ano após ano, até ao recorde de Dezembro último - recorde que não será oficial, já que a organização não pagou o licenciamento da prova à Federação, o que o inviabiliza. Nada que incomode Gene. Parece até que tem quase a certeza de o vir a bater.
O trail chegou pelas corridas de aventura, e tal como todos nós, foi tentando diferentes distâncias, até que concluiu 3 provas consecutivas de 200 milhas em 3 meses, também um feito nunca alcançado por nenhum outro atleta da sua idade. Este ano começou com provas de 50, 100 e 200 milhas em Janeiro e Fevereiro, com "descansos" máximos de uma semana, como forma de preparação para a Maratona de Boston que concluiu em 2h58'50, melhor tempo de sempre no escalão 70-74. Seguiu-se uma outra maratona na semana seguinte em 3h18. Tudo isto serviu, claro, como preparação para um evento de 24h para ir em busca de novos máximos. No dia 11 de Maio correu 179,92km, batendo o recorde americano das 24h para maiores de 70 e o recorde das 100 milhas no mesmo escalão por quase uma hora de diferença (21h06 vs 21h54). Conheçam-no na primeira pessoa, no vídeo abaixo.


Há um ano conheci, também no Faial, na Grande Rota dos Baleeiros, uma inspiradora professora americana, atleta National Geographic pela inspiração que é para milhares de pessoas, Mirna Valerio, que este ano regressou aos Açores com um grupo de uma quinzena de mulheres que acreditam no seu lema "se eu consigo correr, todos conseguem". A Mirna é uma grande mulher, que tem feito um caminho de perda de peso, correndo, sem estar obcecada com o seu corpo ou peso. É um processo natural, que a levou já a concluir 10 ultra maratonas e 9 maratonas de estrada, e que mostra que a corrida não tem obstáculos.



A distância rainha do evento foi ganha pelo Leonardo Diogo, madeirense de 51 anos, de quem tenho o prazer de ser amigo, e com quem tenho tido o prazer de partilhar excelentes momentos, antes e depois das corridas, que durante... Foi seguramente outro recorde. Não deve ter havido vencedor noutra prova do Ultra Trail World Tour, outro M50. Excecional!
São estes exemplos que, mais do que nos apresentarem atletas de topo internacional - que também gostam, apresentam-se e voltam às provas do Azores Trail Run - fazem deste um evento diferente num universo diferente, de homens e mulheres que nos fazem acreditar que em cada atleta com que nos cruzamos nos trilhos, está um caminho de vida inspirador.
Obrigado Mário Leal. Obrigado ao Azores Trail Run, imbuído por todos os habitantes que nos fazem sentir em casa, vestindo a camisola de voluntário ou aplaudindo o pelotão que brota, entre o pôr do sol e o crepúsculo, lá do fundo do Porto do Salão na saída de prova mais bonita que conheço. Uma prova que nos engole em simpatia, uma prova onde nos levam ao colo de abastecimento em abastecimento e onde é impossível não voltar. Impossível. Os olhos reluzentes da Marla e do Marco que deixaram o bebé António com os avós, a simpatia dos que vieram de Portalegre para não largar a linha de meta até chegarem os últimos - eu e o Meixedo. A felicidade de uma médica que já há muitos anos adoptou o Faial como regaço e que não prescinde das suas férias para estar neste evento. Os fisioterapeutas que não se cansam. Os escuteiros que ganham 80% do que ganha o chefe, que por sua vez ganha 80% do que ganham os organizadores - sim, que os sorrisos, os "obrigados" e os abraços não são só para quem dirige. Centenas de voluntários, uns mais oficiais, outros menos como o Orlando e a querida Leonor, sempre de máquina em punho prontos a registar momentos eternos. O Joca que veio de Chamonix abraçar os amigos e os desconhecidos. A Renata, que vai que não vai, a Paula que é uma máquina à frente da frente de comida. O Paulo, o Carlos Pedro, o Olindo e a Carla, o Dário que foi mas não sem antes marcar uns largos km de percurso, o Alexandre que liderou os homens das espetadas e acabou o fim de semana a oferecer a casa para férias e a fazer mais uns amigos. O Lúcio que despe o fato e aplaude, a Lina que leva toda a prole do Mário e organizam-se em mais uma equipa empenhada, que a pequena (grande!) Francisca remata sempre com o sorriso que herdou dos pais.
Esta prova foi longa. Hão-de faltar referências a muitos voluntários, algumas injustamente, como os funcionários do parque - liderados pelo João Melo - que vão mantendo os trilhos que nos levam de vulcão em vulcão, sempre por mais uma maravilha a descobrir. E depois há um voluntário que viajou do Porto e fez a sua 50ª maratona nestes 118 km da Grande Rota dos Baleeiros - João Meixedo, meu amigo de há alguns anos, e que me acompanha desde a minha primeira maratona. Dormiu pouco, montou e limpou tendas no dia da prova, dormiu pouco na véspera, e mesmo assim acreditou no que eu lhe fui dizendo, concluindo comigo mais uma grande aventura, que podemos somar às muitas que já fizemos. Também ele não achava possível acabar esta "empreitada" nas condições em que a fez, mas sem tentar, nunca saberia. Nada melhor que fazer com um amigo uma prova que é um desfile de amizade.

Entrega e amizade, são as palavras que melhor definem esta organização. É impossível ir ao Azores Trail Run e sair dali indiferente ao espírito de entrega e partilha.

Obrigado e até 2020!






terça-feira, junho 27, 2017

A curiosidade de quem lê estes relatos é a de retirar algo que os faça dar o passo seguinte, de se inscreverem numa destas (aparentes) loucuras. São poucos os que leem relatos de ultra maratonas para sentirem as dores de quem os escreve. Recordo-me da minha primeira participação na Freita, na prova de 17 km, em 2011. Recordo-me de ver chegar os participantes da distância rainha – os até há 3 anos 70 km, e que são agora 100 – e de pensar por onde raio teriam andado para chegarem sem fala ao final.

Foi assim que cheguei ao Portal do Inferno, algumas horas depois da partida às 7h00 – sem fala! E são poucas as palavras que vou dispensar a este relato. Fartei-me de pensar na analogia a fazer, depois da “Branca de Neve e os 7 anões” de 2013, mas não há analogia possível com o que vivi na Freita e com o que vivo de cada vez que lá vou, seja em treino ou em passeio. Há uns tempos torci um pé no PR7, a baixa velocidade. A Freita é como um ninho de cobras, onde somos mordidos e envenenados sem antídoto possível. Fica-nos o veneno no sangue a contaminar-nos a razoabilidade e o bom senso. Certo dia quando pedi a um médico um atestado de robustez física para apresentar na partida de uma prova de 100 milhas, disse-me que só me voltaria a passar outro quando lhe apresentasse um atestado de sanidade mental. E é isto que todos os que por ali andámos somos – uns seres saudáveis mas completamente loucos por aventura, pelo mergulhar nas entranhas de uma serra que tem tudo o que nos maravilha e nos faz sentir acelerar o sangue nas veias. Subir o trilho do "Morto que matou o vivo" até à Pena e olhar para o imenso verde que transpomos para ali chegar é como tomar um potente ansiolítico. Ou anti-inflamatório, porque depois de ali chegar, apesar de tantos quilómetros que palmilhámos, já nada dói. À Pena, ou no alto de Drave – uma subida de 3 km que nos suga o que restava de energia. A serotonina, a dopamina e as outras substâncias que o cérebro vai libertando a cada passo, fazem-nos o favor de nos acalmar a dor que o “Traçador” (Traça a dor) José Moutinho nos proporciona a cada km.

A UTSF não é uma corrida de 100 km. É uma luta intensa contra os nossos medos, contra o limite do aceitável, contra o desgaste físico e mental. Lembrei-me várias vezes de quando jogava Monopólio em miúdo, e naqueles dias de azar, me fartava de sair o “Diretamente para a prisão sem passar pela casa de partida”. Lembram-se? No Monopólio recebíamos dinheiro cada vez que passávamos pela partida para podermos “comprar” as ruas e estações mais caras. Era um jogo de sorte que nos fazia eventualmente virtuais milionários. Não passar na “casa de partida” era um rombo na “Conta”. A UTSF é um manancial de “idas à prisão sem passagens pela partida”, e no entanto sabe tão bem. Provavelmente faz-me mesmo falta uma avaliação psiquiátrica…

Uma certeza trouxe da Freita: Voltarei sempre, para esta prova, para treinos, para desfrutar, porque ninguém resiste à Freita. Apesar de todos os treinos, e depois destas 6 participações, por muito que vá à Freita, há sempre algo novo, uma dor traçada por ele, uma nova subida ainda mais íngreme, uma descida de cortar a respiração, uma transposição de rios com pequenas praias fluviais que julgamos só existirem no paraíso… Enfim, uma qualquer maravilha que recordamos no dia seguinte sem nos lembrarmos onde nos doía o corpo àquela hora, já com mais de 50 km. E por isso voltamos. Para sentirmos toda aquela mistura de dor e prazer de superação, culminada com  fantásticos mergulhos em infindáveis cursos de água límpida e cristalina. Sempre mais e mais água antes de mais uma subida às profundezas do inferno.

E do inferno, ou voltamos ou nos deixamos ficar, como foi o meu caso, outra vez. Mas sem qualquer ressentimento ou arrependimento. Se há coisa que me dá prazer é andar km a insultar o doido do Moutinho e dar-lhe um abraço no final. Ele anda meses a preparar 10 excelentes traçados de 10 km, para nos proporcionar o inferno, para nos mostrar que não somos nada contra a mãe natureza. A nossa e a da Freita. Conheço-a muito bem. Tenho a certeza que ele ainda me há-de pôr a correr onde eu nunca imaginei que fosse possível.

Tudo tão belo.

Obrigado Jose Moutinho e restante equipa, tão bem co-liderada pela Flor Madureira. A UTSF é um mergulho no mundo da aventura onde nada é o que parece, onde tudo é mais belo e mais duro. É a prova onde passamos por onde ninguém passa. É a prova que inclui passagem por aldeias abandonadas a menos de 1 km de outras, só porque para lá chegar é quase preciso ser-se atleta. É uma luta contra o cansaço onde cada km é uma bênção da natureza. Abençoada Serra. Voltarei cada vez mais vezes, e voltarei seguramente ao UTSF.



P. S. - Foto da Escola de Montanha. Passo mais tempo nos rios que nos trilhos.

P. S. 2 - Texto deste ano adaptado daqui http://tripasenortadas.blogspot.pt/2014/06/ultra-trail-serra-da-freita-2014.html
É que mudou a prova, mas a serra é exactamente a mesma, e as sensações também pouco mudam.

P.S. 3 - Este texto é pessoal. Ide-vos catar.

sexta-feira, maio 19, 2017

Fazer das tripas coração!

A arte popular de transformar o que aparentemente se dispensa é equivalente ao toque de midas, que transformava em ouro tudo o que tocava. A diferença entre as duas está na atualidade da primeira em quase tudo o que se faz voluntariamente. A arte de transformar em forças todas as fraquezas e contrariedades que nos metem à frente do nariz, é uma arte portuguesa que dá frutos. Do Salvador que, aparentemente diminuído pela débil saúde e por ser dos poucos a não cantar em inglês, aos inúmeros vencedores por esse mundo fora que transcendem a dimensão de onde são oriundos, há um sem número de exemplos de gente que transborda energia, resistência, alegria e tenacidade face às adversidades, capacidades em que nós lusitanos somos pródigos. 

Portugal estará representado em Itália no campeonato do mundo de trail running, no próximo dia 10 de Junho, dia de Portugal. Não podia haver maior simbolismo para as 7 mulheres e os 6 homens que defenderão o 6º e 5º lugares conquistados coletivamente em Outubro último na prova disputada no Gerês. O trail, disciplina do atletismo que mais tem crescido nos últimos anos, é um dos maiores motores de desenvolvimento turístico dos países com conhecidas estâncias de desportos de inverno de toda a Europa. Andorra, Alpes - franceses, suíços e italianos, Espanha - Picos da Europa, Serra Nevada e Serra de Madrid, Itália, Croácia, Alemanha e muitos outros, apostam no trail para atrair turistas na época baixa deles - o Verão. 

Portugal tem já apostas seguras que visam atrair os que não conseguem correr por ser demasiado frio nos países de origem. A Madeira é o melhor exemplo de aposta neste segmento turístico que tanto movimento lhes tem trazido, e os Açores trilham já o mesmo caminho, internacionalizando provas, cuidando os percursos e fazendo a respetiva divulgação no exterior. 

A Seleção que nos representará é constituída na sua maioria por homens e mulheres que trabalham, têm família e usam o pouco tempo que lhes resta para treinar arduamente. Muitos deles, a maioria, estão entre os melhores da Europa e ombreiam com quem tem apoios para poder dedicar-se quase em exclusivo ao treino e preparação de provas. Apesar de alguns terem alcançado, por mérito das classificações no último Campeonato do Mundo, o Alto rendimento, não têm licença para representarem o País. Militares, professores ou médicos, têm de abdicar dos seus vencimentos ou gastar dias de férias, férias que dependem de autorizações superiores e que, no caso dos professores - por a competição ser coincidente com época de exames está-lhes vedado. Não basta a escassez de meios de uma seleção que é suportada quase em exclusivo pelos meios da Associação de Trail Running de Portugal - Associação que regula e organiza a modalidade, sócia da Federação Portuguesa de Atletismo, ainda lutam os seus atletas contra a fraca cultura desportiva que ainda é característica do nosso País, apesar de já termos todos em todas as modalidades, provado que sabemos ser tão tenazes e abnegados como os melhores. É que meios nem todos têm, mas a vontade depende de cada um e é uma característica que nos está cravada na identidade. A imagem da chegada da nossa primeira atleta no último Mundial - a Sara Brito, carregando a bandeira, rastejando com o olhar fixo na meta, é a prova que nem o cansaço nos derrota, nem a falta de apoios nos atrasa. É para estes que lutam com garra que temos de olhar e proporcionar forma de melhor se prepararem. Meios, à boa maneira portuguesa, desenrascamos. Só precisamos que nos olhem com mais atenção e deixem os nossos atletas lutar por Portugal. Faremos do impossível realidade.

É que transformar tripas em coração não é para qualquer um!

Foto Paulo Jorge Magalhães - Global Imagem

terça-feira, maio 02, 2017

O fim de semana de Trail em números



Como em qualquer fim de semana, houve várias provas de corrida em Portugal, um pouco por todo o lado.
Sem ter analisado os participantes em provas de estrada ou ter sequer olhado para o que aconteceu nas ilhas, deixo alguns números que me alegram e preocupam ao mesmo tempo.
Portugal é um País de modas, mas ao contrário do que muitos pensam não acho que o trail seja apenas uma moda. O trail, é a exemplo de todas as actividades ao ar livre e que nos levam a procurar as nossas origens nos locais mais recônditos e inóspitos, uma actividade saudável e comum nas economias avançadas. É uma modalidade em que todos podem e devem participar, mas que tem de ser olhada com olhos diferentes, tem de ser encarado com o profissionalismo que uma massificação destas exige. Quanto mais cedo melhor.
Atentem:

Este fim-de-semana houve, pelo menos 13 eventos de trail. Destes, quase todos tiveram duas ou mais distâncias, tendo predominado a quilometragem entre os 15 e os 30 km. O limite máximo foi de 50 km. Não tive acesso aos números de inscritos nas caminhadas, habitualmente também muito concorridas.

Trail Glória do Ribatejo (Santarém) - 650
Cascais Trail Experience (Lisboa) - 450
Mesh Nazareth Trail (Leiria) - 82
Ossónoba (Algarve) - 300
Trilhos do Alecrim (Leiria)- 85
Trail do Anjo (Porto) - 181
Raid Atlético dos Barris Trail (Setúbal) - 200
Trilhos dos Pernetas (Aveiro) - 400
Trail Fisgas do Ermelo (Vila Real) - 936
Ultra Geira Romana (Braga) - 700
Boticas Trail (Vila Real) - 200
Penacova Trail do Centro (Coimbra) - 500
Trail Varzim Lazer - ? (300 pelo menos, mas não consegui ver resultados)

Mais de 5000 pessoas em provas de trail num único fim de semana, números que nos devem fazer todos reflectir. Só a título de curiosidade, o último classificado de um dos trails de 18 km demorou mais de 5 horas, quando o primeiro dos 50 km da Geira demorou 3h50. É com esta disparidade de preparação e aptidão que temos de contar numa prova de trail. E contamos. Mas será que os promotores destas provas contam com isto?

Não falta vitalidade ao trail, falta mais regulação e atenção a um fenómeno que não para de crescer. Felizmente.



quarta-feira, abril 26, 2017

MIUT - Uma prova do caralho!



Há coisas do caralho! Há coisas boas com’ó caralho, más com’ó caralho, difíceis com’ó caralho, duras com’ó caralho, fáceis p’a caralho, bonitas com’ó caralho…
O dito, que, diz a lenda (?) tem origem na denominação do cesto do vigia que estava colocado no alto do mastro principal das caravelas e para onde eram enviados os marinheiros malcomportados, que assim, depois do enjoo provocado pelo excesso de “abanos” que se manifestavam mais na ponta do pau, acalmavam e obedeciam com mais vontade. Era mandá-los para o caralho que eles não mais incomodavam.
Na Madeira, o caralho é o pau que se usa para amassar a mistura de fruta e açúcar de cana da poncha.
Na minha terra – a Invicta, o “caralho” é mais ou menos um ponto final. É banal rematarmos o nosso estado de espírito com o banal palavrão. Reconhecemos no entanto o pudor de outras latitudes em utilizar tal liberdade para exprimir estados de alma. Por cá é um direito adquirido desde os tempos idos das cortes monárquicas, que, desconfiamos nós, quando se queriam livrar de alguém mais incómodo os mandavam para o “caralho” geográfico do País – O Norte. Foi assim facilmente assimilado o direito ao uso do calão para expressões mais enfáticas.
Sentimo-nos bem? Estamos como ó caralho!
Mal? Estamos assim como ó caralho.
Mais ou menos? Sei lá ou o caralho.
Não entendemos? Não pescamos um caralho.
Ficamos estáticos? Mexe-te caralho!
É bom? É do caralho!
E mau? Não vale um caralho.
É muito? Eishhh!! Caralho!!
E pouco? Foi pouco, caralho!
Um mentiroso? Aldrabão do caralho!
Um gajo porreiro? Um gajo do caralho!

A Ilha da Madeira à primeira vista para quem faz trail, é uma espécie de “foda-se” com uau à mistura, passando rapidamente a um “caralhos para esta merda” até culminar num “puta que pariu acabei!” ou a um “que se foda esta merda, já não aguento mais isto, caralho”!
Palavrões ouvem-se em várias línguas, já que fazer uma prova com mais de 14000 metros de desnível é livre conduto para a asneira e suficiente para um atestado de loucura. Um alemão dizia-me – a meio caminho entre o Pico Ruivo e o do Areeiro – que esta é a irmã europeia da Diagonal dos Loucos, semelhante nos milhares de degraus, na geografia, no clima e na insanidade necessária para quem, como ele ou como eu, pouco mais conseguia fazer do que andar a fugir à inevitável marretada e ao limite horário de cada um dos fodidos parciais. Desculpem o calão, mas eu fiz os 115 km do MIUT. Ganhei o direito a usá-lo. Ao contrário dos marinheiros nas caravelas, quem faz o MIUT não acalma. Transforma-se numa espécie de domador de feras aparentemente indomáveis. Fica cheio de cagança. É do caralho. E quanto menor o tempo final, maior a cagança! O treino de escadas resultou, o nutricionista ajudou, o treinador treinou bem a dor, o equipamento esteve impecável e afinal a Madeira é do caralho! Muda a cagança à medida que baixa o tempo final, mas não muda a exclamação de quem passa por aquelas subidas pirilau intermináveis, por aqueles degraus que esculpiram pela ilha – os degraus da Madeira deviam ter mais destaque na prova que a areia no deserto – por aquelas descidas de moer as melhores cartilagens e as vistas desafiantes para quem naturalmente sofre de vertigens – o ser humano vive no chão, gosta de gravidade, não foi feito para voar sem paraquedas, e no trail ninguém usa um. O nível da prova é do caralho. Estrangeiros como ó caralho, voluntários do caralho, abastecimentos também do caralho, marcações? I R R E P R E E N S Í V E I S, caralho! “Parecia uma puta de uma pista!”, era a expressão de um atleta minhoto, que sendo de um pouco mais a norte, mais carrega no direito ao calão.
Não me parece que queiram saber que caralho de chapéu era aquele que usava o François D’ Haene (um simples panamá para quem não corre pouco) nem que caralho diziam os polacos, os checos, ou o japonês enfiado num fato de sumo - que deixei de ver na subida ao Pico Ruivo, quando começavam a ficar fodidos de caralho de as subidas não terem fim. Provavelmente diziam algo tão libertador como “caralho”. Os espanhóis diziam “joder”, os franceses “putain”, os alemães “scheisse” e os ingleses e todos os que se queriam fazer entender exclamavam bem alto “fuck”! Pelo menos foi o que me disse a polaca que vestia uns calções azuis com a inscrição “Go Vegan” no rabo. Nas subidas ficava sempre com vontade de lhe dizer que eu não sou vegan nem quero ser e que o melhor era inscrever lá “força nas canetas!”, ou algo mais forte, já que quem ia atrás ia-se entretendo com a mensagem. Dizia eu que a polaca exclamava, algures entre o Pico do Areeiro e o Ribeiro Frio – descida de 9 km – que a “fucking going down hill” era “weird” porque afinal o caminho era “fucking up”. Pois, disse eu, aqui até as descidas doem. Com’ó caralho! E lá ficou a moça a penar, lixada da vida.
Nas montanhas da Madeira tudo dói. As subidas, as descidas, a noite ou o dia, as pedras ou a água. A beleza da prova é transversal. Da partida em Porto Moniz em zigue zague a subir pelo meio das casas, a primeira descida que “paga o bilhete” com milhares a apoiar ruidosa e pacientemente os que ainda descem e os que já mergulharam no breu do alto da Ribeira da Janela em direção ao Fanal, passando pelas vistas de cortar a respiração dos trilhos da Encumeada, Curral das Freiras, Rosário, os Picos – Torrinhas, Ruivo, Areeiro, e depois a costa Norte com a Vereda do Larano e a Boca do Risco. As levadas, a água que chora pelas veredas, os montes de lava transformados em gigantes picos. Lindo. Seja de noite ou de dia. Faltam-nos os “foda-se!” suficientes para classificar a prova.
É uma prova indomável onde a gestão do esforço, alimentação e hidratação, equipamento e ânimo são o essencial. Mas continuará indomável. Há sempre um ponto para quebrar.
Não é para atletas, é para malabaristas. O vassoura que ia sair no horário limite (21h30) do Posto de Apoio e Controlo (PAC) do Pico do Areeiro disse-me que eu dificilmente chegaria ao PAC da Portela dentro do tempo limite, apesar de serem só 14 km. 5 horas para 14 km não davam, achava ele. “Não chego o caralho!” Fui a “voar” e passei 50 atletas até, 15 minutos antes do limite, lá chegar – soube por SMS que me enviou o Hugo Alexandre, chefe de posto, no dia seguinte. “Cheguei, caralho!”. São horas de manobras dignas de mestre de obras a contornar dificuldades. “Estou no meio do pelotão dos tetraplégicos”, pensava eu. Estávamos todos. Do primeiro ao último, ninguém escapa. Nas subidas mais “fi-lhas-da-pu-ta” – assim mesmo silaba a silaba, como passo a passo se fazem – nestas subidas vamos passando por gente agarrada aos bastões com expressão catatónica a fitar o trilho. Perguntamos se precisa de ajuda, vemos o balbuciar do “i’m ok” com a baba a sair pelo canto da boca e fugimos como quem foge da peste que nos há-de inevitavelmente também atingir. Fraquejar no MIUT é ganhar lanço para continuar. E insiste-se. É obra!

O trail é uma luta do caralho. O MIUT é uma prova única, numa ilha excecionalmente bonita que se torna num caso de inevitável sucesso. Mérito de quem organiza, dos voluntários, das entidades que apoiam e dos atletas. Uma prova que retira do nosso léxico popular adjetivos informais que a classificam acima de boa. É muito. É “muito” em tudo. Muito boa, muito dura, muito bem marcada, muito bem controlada e muito compensadora.

Uma prova do caralho!

segunda-feira, junho 27, 2016

Os Filhos da Freita

Muitos como eu iniciaram-se no trail na Serra da Freita. Pelo sexto ano consecutivo regressei à prova mãe de todos os trails, e pela quinta vez à distância maior - 100 km, depois dos 70 das minhas 3 primeiras participações. Iniciei-me nos antigos 17 km da então chamada "Corrida da Freita", já que só atletas experimentados se aventuravam na distância maior, e eu à época "só" tinha 2 maratonas de estrada e meia dúzia de meias maratonas.

Não havia trail em Portugal antes da Ultra da Serra da Freita. Em 2006 fez-se história e trail em 50 km, distância revolucionária à época e que agora é quase banal. Fazem-se ultras em todo o lado, banalizou-se o conceito de ultra resumindo-o à distância percorrida, e deturpando o conceito de, mais do que superação, transformação. 

Houve durante anos provas nas serras portuguesas que percorriam caminhos e estradões - as corridas de montanha, e algumas provas em terreno de difícil progressão - os crosses. O trail chegou cá pela mão de José Moutinho e Sálvio Nora que faziam da Freita um laboratório de busca de percursos onde a dificuldade morfológica dos terrenos atrasava os atletas e onde a destreza e agilidade fariam mais diferença que apenas a condição atlética. Nas primeiras edições do UTSF poucos atletas se aventuraram nos 50 km com inéditos percursos em leitos de rio ou trilhos com mais pedregulhos que terra. O equipamento era pouco evoluído, os atletas usavam sapatilhas normais de corrida, mochilas banais, bebiam água das ribeiras e comiam o pouco que se arranjava para os abastecimentos. Isto sim era ser ultra. Hoje todos querem banquetes nos abastecimentos, tapetes nos trilhos e tratamento vip. O trail tornou-se num SPA misturado com psicanálise de grupo. Vamos todos para o monte equipados com centenas de euros, contámos os km até ao próximo repasto servido por voluntários - reparem, voluntários - e exigimos a perfeição das organizações. Deixou de ser uma loucura para heróis e transformou-se num desporto empresarial acessível a muitos. 

José Moutinho tornou-se assim o pai do trail em Portugal e a Ultra da Serra da Freita a mãe de todos os ultras. Nasceram aqui os ultras e o Trail nacional. É difícil encontrar um apaixonado pelo trail e ultra trail nacional que não tenha passado pela Freita. Todos tentam imitar as famosas moutinhadas e os trilhos que resgata ao que a morfologia única lhe oferece, sejam a "besta", o "portal do inferno", os "aztecas" ou a terrível subida de 400 mt nos mais de 800 degraus das "escadas do martírio", um belíssimo trajeto encastrado entre casas de pedra (moinhos?, não consegui perceber porque passei de noite) invadidas por água. José Moutinho continuou a obra que iniciou com o malogrado Sálvio e entregou à equipa da Confraria de que é Grão Mestre, e que tão bem é dirigida pela Flor Madureira, toda a logística de apoio aos atletas. Nesta prova quem já correu e não pode correr, apoia. E sente-se, são inexcedíveis. A base em Arouca oferece condições que o Parque de Campismo do Merujal já não garantia. Reservamos o Parque para base de fins de semana para treinar.

Correr na Freita nunca é igual. Podes ser experiente, rápido, forte, muito bem treinado ou determinado, nada chega e tudo é importante. Há sempre uma novidade, há sempre laboratório que nos faz insultar alguém, ora o José Moutinho, ora a nós próprios por nos termos inscrito. E há desafio que nos põe nervosos à partida com ansiedade e saudade no dia seguinte. Como é possível... Sofres e sentes saudade. Linda. Uma serra que nos serve água fresca e límpida por todos os lados e nos fustiga com calor. Quente e frio, um "fondue" para corredores. Não há ali meio termo, seja na temperatura ou no terreno. Amansa-nos com uma primeira subida de 9 km à moda "europeia", com caminhos largos e trilhos turísticos. Vem o planalto e a descida pelo "Carteiro" até Rio de Frades e os tradicionais km no Rio Paivô. A partir dali é sempre a "cozer" no forno de verão até ao inferno e o seu "portal". Mergulhos em água refrescante que rapidamente se evapora na canícula e a dureza que ainda nem chegou. Dobrar a tormenta da subida da ribeira de Drave até à Póvoa das Leiras é só o início do que se sabe que vem a seguir. Talvez por isso muitos dos experientes atletas desistem ali, aos 60 km, não arriscando a difícil ascensão da "besta", o "martírio" até à Lomba que está só a meio da ascensão ao alto da Serra e a longa descida até Arouca. A UTSF na versão "Elite" (100 km) é um desafio físico, emocional e essencialmente de gestão de esforço e alimentação, já que nesta prova todos os pormenores contam e são decisivos, seja para ganhar ou só para ser finisher. Ali como em todas as ultras só não se planeiam as fraquezas, sendo fundamental ter uma voz amiga ou um incentivo nesses momentos mais decisivos, porque todos os temos. Se quiserem experimentar "meia" versão comecem pelos 65 km. Já terão uma excelente amostra dos desafios que a serra esconde. Caso não queiram mais que sentir um pouco do ambiente da montanha têm o trail curto (28 km). 

A serra mãe dá-nos a mão e acolhe-nos, ensina-nos e castiga-nos, premeia-nos e corrige-nos. Ensina-nos a saber ler os sinais que nos mandam parar ou andar, correr ou descansar. E voltamos sempre porque é no seu regaço que nos sentimos verdadeiros ultras, totalizemos ou não o percurso da prova. Ser ultra é compreender todo um conceito de respeito pela natureza e da nossa relação com o ambiente e os nossos limites. Ser ultra na Freita é compreender todo o conceito que desenharam Sálvio Nora e José Moutinho. Numa clara mistura entre trail e orientação, a dificuldade de progressão deve ser proporcionada pela morfologia do terreno e a diferença está na maior destreza e condição física dos atletas. Queriam mostrar isto a quem os quisesse perceber e aceitasse o desafio.
Temos que lhes agradecer a semente que fez de todos nós "Filhos da Freita".


Portal do Inferno (Foto Miro Cerqueira/Prozis Trail)

Refrescar sempre. (Foto Bruno Graça, parceiro de prova inexcedível no apoio e companheirismo)

Belíssima Aldeia de Drave (Foto Bruno Graça)

Rio Paivô, um dos muitos com límpidas, irresistíveis e refrescantes águas. 

terça-feira, março 15, 2016

Compromisso eleitoral: Regular, comunicar, apoiar.

No seguimento da apresentação de uma lista candidata ao acto eleitoral que elegerá os Corpos Sociais da Associação de Trail Running de Portugal, apresento-vos o nosso compromisso eleitoral, que servirá como guia de trabalho na Direcção dos destinos do Trail em Portugal.

  1. Regular
  • Implementar regulamentos técnicos.
  • Protocolar com as federações que mantêm provas em montanha a tutela de organização de provas de trail.
  • Fazer cumprir os regulamentos e afirmar a ATRP como entidade reguladora do Trail.
  • Promover formação técnica supervisionadora e certificadora.
  • Enquadrar ATRP nas suas competências no seio da FPA.
  • Propor alterações aos estatutos da ATRP.

      2. Comunicar
  • Comunicar com os diversos players do desporto, desde atletas aos municípios passando pelos organizadores, patrocinadores e equipas.
  • Manter uma activa presença nas redes sociais e web.
  • Intensificar divulgação de provas nos media.
  • Consultas regulares aos membros do Conselho Consultivo.
  • Implementação de gestão  de comunicação com os sócios, com tempos estreitos de resposta.
  • Publicar regularmente relatórios de actividade.
  • Conferência anual sobre trail.

      3. Apoiar
  • Apoiar organizações na divulgação das provas e angariar uma bolsa de patrocinadores.
  • Juízes árbitros em todos os eventos do Circuito e sorteados para outra provas que, tendo sido certificadas pela ATRP, poderão ser (sem aviso prévio) alvo de fiscalização.
  • Promover acções de formação na área de segurança.
  • Promover acções de formação de resgate em montanha.
  • Promover acções de formação de marcação e (re)abertura de trilhos.
  • Promover estágios de Trail para Sub 23.
  • Promover e apoiar internacionalização de provas.
  • Promover controlo anti-doping.
  • Promover e apoiar escolas de trail.
  • Apoiar criação de Centros de Trail que possam integrar sedes distritais da ATRP.

4. Compromisso
Planear, colocar à discussão, decidir e tomar total responsabilidade, explicando opções. Toda a nossa actuação pautar-se-á por total transparência na gestão de uma Associação que se pretende seja farol de um desporto que requer muita responsabilidade e um grau superior de responsibilização dos seus promotores.
Faremos, mal seja viável, um ponto de situação da ATRP, tentaremos melhorar o que houver a melhorar e manteremos o que está bem feito.
Prometemos trabalho intenso, em equipa, com todos os associados da ATRP, e esperamos que todos os que gostam de correr nas montanhas se juntem a nós.

Ana Luísa Xavier
Manuel Maria Correia
Filipa Vilar
Hélder Costa
José Capela
José Brito
Mário Ferreira
Rui Pinho

segunda-feira, março 07, 2016

Regular. Comunicar. Apoiar.

26 de Fevereiro. Num dos dias mais frios e tempestuosos dos últimos anos, enquanto em Condeixa umas centenas de atletas se preparavam para partir para a gelada edição da Ultra de Sicó, em S. Pedro de Moel decorria uma Assembleia Geral Ordinária para apresentação de contas da ATRP. Compareceram 3 elementos dos corpos sociais. Honra seja feita aos Presidentes da Direção e da Assembleia Geral; sempre deram a cara pela equipa e ali estavam, expostos ao escrutínio dos associados presentes (7) na companhia de um dos membros da Direção.
Nesta mesma AG os orgãos sociais da ATRP, em bloco, apresentaram a demissão dos cargos para os quais foram eleitos. Nas palavras do Ex.Mo Presidente da Assembleia Geral, davam lugar aos, e cito de cor, "críticos que se acham capazes de fazer melhor".
Não é por ser criticado que alguém se demite. Faz parte das funções de quem assume lugares de representação associativa, ouvir críticas, sentir o pulsar de quem se dispôs a representar, e agir em coerência com as suas ideias e princípios, que, em princípio (passe o pleonasmo), foram escrutinados na campanha e consequente acto eleitoral. Contudo, não terá sido este o entendimento das pessoas que integraram a anterior direção. Por motivos que só aos próprios cabe esclarecer, foi com este facto consumado que nos deparámos no final da dita AG. 
 
Nesse mesmo dia encetei contactos com várias pessoas com quem vinha a discutir o actual estado do trail em Portugal. Não tinha, nunca tive, intenção de gerir os destinos do trail enquanto dirigente associativo. Tenho tido desde há muito, neste espaço e noutros fóruns de discussão, o atrevimento de "pensar alto". Desde o primeiro dia em que me atrevi a ir a uma montanha correr passei para o blogue as minhas experiências e sensações. As minhas opiniões são públicas e expostas à análise de quem as quiser conhecer. 
Critiquei alguns actos incompreensíveis desta direcção. E acaba como tem actuado, sem ponderar devidamente aquilo que decide. Senão reparem: O acto eleitoral está marcado para Miranda do Corvo, e bem, para o dia a seguir ao UTAX. Faz sentido, já que no mesmo fim de semana decorrerá a gala anual da ATRP de entrega de prémios. Só que a gala foi marcada para as 20h de Sábado. Enquanto alguns atletas ainda estarão em prova, prova esta que faz parte do circuito, a ATRP faz uma gala e pede a participação e presença dos sócios. Não seria melhor fazerem a gala no dia seguinte, dia das eleições? Os sócios que demorarem mais de 20, 21 ou 22 horas a fazer o UTAX (112 km) não podem ir à gala receber o seu prémio. Infelizmente.
Antes de fazer públicas as minhas preocupações com o estado actual do trail em Portugal fiz chegar essas mesmas opiniões a quem de direito - aos orgãos de direção da ATRP. Foi-me solicitada colaboração que não enjeitei. Propus consensos, promovi conversas entre pessoas desavindas, coloquei-me à disposição para reunir pensamentos para um evento com dimensão nacional que servisse para discutir o futuro do trail. Em resposta angariei inexplicáveis inimizades. Nada me move pessoalmente contra quem, bem ou mal, geriu até agora os destinos do trail em Portugal. Acredito que quiseram sempre o melhor, como todos queremos, e que deram o melhor de si mesmos. Mas às vezes o melhor não chega. E quando o melhor de nós invalida que se reúnam consensos (não unaninismos) alargados, numa posição autista e individual, entramos num confronto com os que nos criticam e sentimo-nos menosprezados. Não foi minha intenção desprezar ou menosprezar o trabalho de quem sai. Deram graciosamente o melhor que podiam e sabiam. Terá faltado muita coisa, mas muito foi também feito. Depois de tudo o que aconteceu nestes meses não poderia deixar de apresentar uma solução. É um imperativo de consciência.
 
 
Reuni uma lista que apresentarei a seu tempo, e que irá a escrutínio dos associados da ATRP. Assumirei individualmente todas as responsabilidades dos actos que colegialmente tomaremos. Irei atribuir pelouros de actuação a todos os integrantes dos corpos sociais e proporcionar a liberdade necessária para actuarem. Não haverá lugares simbólicos. Será uma equipa de trabalho, que visa trazer para a ATRP uma dinâmica que envolva todos os actores do panorama do trail nacional. Tentaremos trazer um pouco da nossa experiência, de forma a contribuirmos para o crescimento de um desporto que todos gostamos com base na regulação, comunicação e apoio. Regular o trail, comunicar com os associados, instituições e público, e apoiar quem organiza e quem participa. 
Saudações desportivas.

quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Assembleia Geral Ordinária desordenada

as·sem·blei·a 
substantivo feminino
1. Grupo de pessoas reunidas.
2. Reunião de pessoas convocadas (ex.: assembleia de condóminosassembleia de credores). = PLENÁRIO
3. Corporaçãoassociação.
4. Sociedadeclube.
5. Saraubaile.
6. Comício.
7. Parlamento.

"assembléia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/assembl%C3%A9ia [consultado em 25-02-2016].

Este fim de semana é de assembleias. 
Em Sicó estarão mais de 4.000 corredores. Na Assembleia Geral da ATRP, marcada para a mesma hora em que decorre um dos eventos de trail running mais participados do País, estarão seguramente poucas. A importância que dão (ou querem dar) à dita AG é tanta, que até foi marcada sem os 15 dias (pelo menos, segundo Artº 20º) que mencionam os estatutos, e à qual não comparecerão todos os 4 membros que restam na direcção. Não se compreende. Eu não compreendo e estarei lá, no Plenário que não terá muito de pleno, para o dizer de viva voz a quem sobrar para ouvir. Se a data não era oportuna para todos os membros da direcção, por que não marcar para outra data? Alguém compreende que uma direcção reduzida marque a Assembleia Geral ordinária para uma data em que um dos seus membros, aquele que tem maior visibilidade no trabalho executivo da ATRP, esteja ausente? Isto interessa a quem? Quem tem medo dos sócios? Não havia outra data antes de 31 de Março como obrigam os estatutos? Não teria mais interesse ser marcada para o mesmo fim de semana de entrega de prémios, onde seguramente estariam muitos mais associados?
Vou estar presente na AG e espero que esteja lá alguém com legitimidade para me responder a algumas perguntas. Não vou alimentar polémicas estéreis nem tão pouco levar para o lado pessoal as dúvidas que me assolam. Mas exijo respostas. Podia manter-me calado, mas a cidadania dá-me a liberdade de pensar e a minha consciência obriga-me a falar. É um dos direitos dos (ainda) associados da ATRP. Outro, ainda mais importante é o de poder reunir um número suficiente de associados para a convocação de uma AG extraordinária. Dos pouco menos de 2000 que sobram haverá 1/3 interessado em a convocar, e pelo menos 3/4 dos subscritores estarem presentes? 600 a assinar e 450 presentes? Não sei se haverá assim tanta gente interessada no futuro desta Associação. 

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

Skyrunning

Com origem em Itália na década de 90, o Skyrunning nasceu enquanto circuito de provas em alta montanha, acima dos 2000 m. Mais tarde a ISF (Federação Internacional de Skyrunning), decidiu integrar no seu âmbito todas as provas realizadas em montanha, mesmo naquelas que não atingem tais altitudes.
A Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal foi aceite na ISF e é quem tem a responsabilidade de organizar e regular as corridas em montanha com as características de Skyrunning. 


E que características são essas?

Conforme consta no Regulamento de Competições, o espírito Skyrunning distingue-se pela dificuldade técnica do percurso, pelo desnível acentuado - muitas vezes acima de 30% e que tem como objectivo o cume das montanhas onde as provas se realizam. Os locais de especial beleza nas montanhas onde se realizam estas provas fazem parte do percurso, podendo fazer parte dos acessórios de prova as cordas ou haver inclusive troços de escalada.
"Ao contrário de outras disciplinas de corrida, as competições de Skyrunning representam o desafio supremo, onde as corridas não são apenas medidas pela distância, mas também pela verticalidade e pela dificuldade técnica, num ambiente natural de montanha, onde a terra encontra o céu" - é assim que a ISF descreve as suas provas. 

Mas é uma prova de escalada? 


Não. Ao contrário de outras provas em montanha, a ISF determina que apesar de poder atingir os 30%, não pode exceder o grau II da escala de dificuldade da UIAA (caminho abrupto, em que para subir já poderá ser preciso usar mãos e cordas). 

As provas são homologadas?

Sim, as provas que o requeiram e que reúnam as condições adequadas são homologadas enquanto provas de Skyrunning, e caso façam parte do Calendário nacional são objecto de arbitragem por técnicos especializados (Juiz Árbitro), que supervisionam o cumprimento rigoroso de todas as normas técnicas e de segurança da corrida, inclusive dos participantes.

Quais as distâncias?

Sky - Até 50 km - Média de 13% de inclinação e máximo de 15% de estradas transitáveis:

  • SkyRace - Mínimo de 20 km e que ultrapasse os 1200 metros de desnível positivo.
  • SkyMarathon - Mínimo de 30 km e 2000 metros de desnível positivo.
Ultra - Com mais de 50 km e mais de 5 horas para o vencedor:

  • Ultra SkyMarathon - Corrida que exceda em mais de 5% os parâmetros de uma SkyMarathon, com distância superior a 50 km, que apresente mais de 2500 metros de desnível positivo acumulado e com tempo do vencedor entre 5 e 12 horas.
  • Ultra XL SkyMarathon - Provas que excedem os parâmetros de uma Ultra em mais de 5%, têm no mínimo 5000 metros de desnível positivo acumulado, e em que o vencedor demora mais de 12 horas a concluir. 
Corrida Vertical - Corridas de uma única subida com inclinação média de 25%, e com um desnível mínimo de 650 metros e distância máxima de 10 km. 
Quilómetro vertical - Competição com 1000 metros de desnível positivo (5% de tolerância), num máximo de 5 km. 
SkySpeed - Corrida de 100 metros ou mais de desnível vertical e uma inclinação superior a 33%.

Leonardo Diogo do Clube Aventura da Madeira, 6º do Mundo (Skyrunner World Series 2015) 


Calendário

O calendário de competições está dividido entre Campeonatos Nacionais e Regionais, Taças de Portugal, Regionais e de Clubes. De referir que os escalões de prémios em todas as provas integrantes deste calendário são iguais para os géneros masculino e feminino.
O destaque do calendário vai obviamente para o Ultra SkyMarathon da Madeira em Santana, prova integrante das ISF Skyrunner National Series Spain, Portugal e Andorra que traz até nós alguns dos nomes sonantes do panorama internacional, já que fará parte também do World Series. Deste circuito Ibérico fazem parte ainda a mítica Zegama, prova de superior espectacularidade, a Ultra Pirineo, Andorra Ultra, Transvulcania e a Epic Buff, prova que será também Campeonato do Mundo.
A pérola do Atlântico, com condições únicas para a modalidade, é destino principal para as provas do calendário nacional, mas já há mais provas em território continental e também nos Açores. De Vilar de Perdizes a Sintra, passando por Cinfães, Serra da Estrela, Lousã e Proença a Nova, com incursões a Paredes (Porto), ao Alto Alentejo (Castelo de Vide e Marvão) e às Ilhas do Pico, Faial e Madeira, é uma autêntica viagem por paraísos só acessíveis depois de subidas infernais. O crescimento deste calendário é o reflexo do trabalho de base feito pela Federação e com o importante e não menos determinante trabalho dos clubes e empresas organizadoras de provas. 

Kilian Jornet - Zegama (Foto JCDfotografia)
O calendário e links para os sites das provas está disponível para consulta no site da FCMP.
Todo o regulamento das provas e da organização de campeonatos está disponível aqui, e é uma excelente fonte de aprendizagem para quem está a pensar organizar ou participar numa prova de montanha.






terça-feira, fevereiro 16, 2016

Proteína e BCAA. Tomar ou não?

Quando começamos a prática desportiva regular mais intensiva, caso mais comum nas pessoas que procuram evoluir na corrida e que buscam melhores e maiores performances, devemos tomar especial atenção sobre diversos factores. Um dos mais importantes, para além da vigilância médica, é o aconselhamento nutricional. O nosso organismo necessita de mais ou menos proteína, consoante seja maior ou menor a intensidade com que treinamos e sobrecarregamos os músculos. Enquanto um sedentário, ou alguém com uma actividade física leve pode facilmente equilibrar as necessidades do organismo com uma alimentação regrada, um atleta com actividade mais intensa necessita de um pouco mais.
Ora, o suplemento mais procurado e provavelmente dos mais vendidos é a proteína whey. Não é raro chegarmos ao balneário de um ginásio e vermos alguém a bater uma mistura de um pó com água. Muitos pensam logo em doping, mas o que provavelmente o atleta está a fazer, é aproveitar a melhor janela de oportunidade para fazer com que o treino que acabou há minutos conte e produza resultados. 
Procurei saber então, o que é então a famosa proteína e qual a melhor forma de a tomar. 
A proteína do soro do leite (Whey Protein) é a mais comum e mais vendida, e é indicada para praticantes de qualquer modalidade desportiva ou para as pessoas que procuram equilibrar peso com controlo de ingestão de calorias. É a proteína mais pura encontrada na suplementação, responsável pelo crescimento e pela recuperação muscular. É dividida em 3 formas de filtragem, daí haver uma disparidade de preços; quanto maior a filtragem, maior a pureza e mais caro o produto:
– Concentrada: Com hidratos de carbono, colesterol e gordura (presentes no leite) é a primeira proteína extraída do soro do leite. É mais simples (60 a 70% proteína, embora a whey da Prozis apresente mais de 80%), mas mesmo assim oferece excelentes resultados. 
– Isolada: Sem hidratos de carbono e sem gordura. Na maioria dos casos, também não contém lactose. Tem uma óptima absorção pelo organismo, já que evita o trabalho de digestão e separação de nutrientes (mais de 80% pureza, a                                                da Prozis tem 93%).

– Hidrolisada: O processo de hidrólise faz com que esta seja o "Ferrari" da proteína do leite. Com uma concentração superior a 90% é a escolhida pelos que querem os melhores resultados, já que a absorção é mais rápida e eficaz.
Além da proteína do soro do leite, ainda podemos encontrar outros tipos de proteína, como a albumina (proteína da clara do ovo), a da carne, ou da soja.
Para terem um termo de comparação com a alimentação, saibam que o frango tem cerca de 29% de proteína, a carne de vaca ou o peixe 24% e o ovo 11%. Percebem a importância da suplementação de proteína? Agora, a oferta do mercado é tanta, que devemos procurar sempre a melhor relação preço/qualidade e saber se o que compramos e vamos tomar é mesmo indicado para nós e quais as nossas necessidades.
Quando consumir?
Como já referi, a melhor "janela" para consumir proteína é após o treino, daí os batidos nos balneários dos ginásios. É nessa altura que o organismo está sedento de proteínas para manter e desenvolver músculo. Na ausência de consumo proteico nessa altura, o organismo vai recorrer à energia muscular para recuperar, afectando a recuperação e aumentando o cansaço. Os "fast recovery", com mistura de proteína e de hidratos de carbono permitem que a proteína seja absorvida inteiramente pelos músculos, recuperando melhor os músculos e repondo energia. Mas cada caso é um caso e nada melhor que um nutricionista para melhor aconselhar, já que há produtos em que a janela de ingestão é apenas após 30 minutos do final do treino.
Outro horário adequado para ingestão de proteína é ao acordar, já que o organismo esteve privado de nutrientes durante as horas de sono, tendo passado por processos de regeneração. A diferença nota-se, já que suplementando o organismo passa aquela sensação de "vazio" que muitas vezes sentimos, apesar de comermos sem nada nos saciar. O mais certo é estarmos com défice que não identificamos, e o nosso cérebro "indica-nos" através dos sentidos mais básicos ser facilmente debelado pela ingestão de hidratos de carbono. E aí, lá se vai a linha. Pão, bolos, bolachas e snacks não nos equilibram o organismo.

Outro suplemento cujo fim também desconhecia, apesar de ouvir muita gente falar dele: 
BCAA's


O que são os BCAA?
Os BCAA (Branch Chain Amino Acids, ou aminoácidos de cadeia ramificada) são a Leucina, a Valina e a Isoleucina. Três "manas" com nome feio, mas muito úteis já que estes aminoácidos não são produzidos pelo organismo e só podem ser obtidos através da alimentação ou da suplementação. Para os obtermos na alimentação em quantidade suficiente para o que precisamos - e aqui refiro-me a quem treina intensamente - já vimos que é muito mais difícil e deficitário para o que o nosso corpo gasta. 
Durante o exercício o corpo precisa de energia, e para a gerar precisa de alguns aminoácidos, que se não estiverem disponíveis, vai buscar aos músculos, fazendo-nos perder essa preciosa massa magra. Os BCAA fazem assim com que se recupere melhor do esforço facilitando a reconstrução (e construção) de células musculares e evitando lesões. Os exercícios prolongados com ausência de BCAA resultam na entrada de triptófano no cérebro. O triptófano, responsável pela produção de serotonina, faz com que fiquemos felizes mas também nos transmite sensação de cansaço. Nos exercícios de longa duração devemos evitar a fadiga precoce e suplementar o organismo com BCAA. Já me tinha cruzado com muitos atletas que o faziam, agora percebo por quê. Contudo, quando não em provas longas, a toma deve ser dividida entre o antes e após treino para facilitar a reconstrução muscular. 
E não nos precisamos preocupar com o aumento do peso ou efeitos secundários. Como são aminoácidos essenciais não estão relacionados com o aumento de peso mas sim com o aumento da força muscular (massa magra). São usados pelo organismo para reconstrução muscular e são igualmente importantes para o sistema imunitário. Devem ser usados por atletas que tenham treinos intensivos, mas sempre aconselhados por nutricionistas. Caso não tenham um nutricionista que vos possa aconselhar, consultem a Filipa Vicente ou a Ana Ribeiro, elas oferecem a possibilidade de acompanhamento online. A suplementação deve ser prescrita, e um bom profissional adequará melhor as necessidades de cada um.
Espero ter ajudado um pouquinho à desmistificação do uso de proteína e BCAA. Eu que também só usava presunto e bifanas, já vou sentindo a diferença de um bom equilíbrio entre alimentação e suplementação. Não podemos esquecer nenhum dos factores determinantes na evolução de um atleta: Treino, alimentação, descanso e bom conhecimento da saúde do nosso corpo. 
Boas corridas!