segunda-feira, junho 27, 2016

Os Filhos da Freita

Muitos como eu iniciaram-se no trail na Serra da Freita. Pelo sexto ano consecutivo regressei à prova mãe de todos os trails, e pela quinta vez à distância maior - 100 km, depois dos 70 das minhas 3 primeiras participações. Iniciei-me nos antigos 17 km da então chamada "Corrida da Freita", já que só atletas experimentados se aventuravam na distância maior, e eu à época "só" tinha 2 maratonas de estrada e meia dúzia de meias maratonas.

Não havia trail em Portugal antes da Ultra da Serra da Freita. Em 2006 fez-se história e trail em 50 km, distância revolucionária à época e que agora é quase banal. Fazem-se ultras em todo o lado, banalizou-se o conceito de ultra resumindo-o à distância percorrida, e deturpando o conceito de, mais do que superação, transformação. 

Houve durante anos provas nas serras portuguesas que percorriam caminhos e estradões - as corridas de montanha, e algumas provas em terreno de difícil progressão - os crosses. O trail chegou cá pela mão de José Moutinho e Sálvio Nora que faziam da Freita um laboratório de busca de percursos onde a dificuldade morfológica dos terrenos atrasava os atletas e onde a destreza e agilidade fariam mais diferença que apenas a condição atlética. Nas primeiras edições do UTSF poucos atletas se aventuraram nos 50 km com inéditos percursos em leitos de rio ou trilhos com mais pedregulhos que terra. O equipamento era pouco evoluído, os atletas usavam sapatilhas normais de corrida, mochilas banais, bebiam água das ribeiras e comiam o pouco que se arranjava para os abastecimentos. Isto sim era ser ultra. Hoje todos querem banquetes nos abastecimentos, tapetes nos trilhos e tratamento vip. O trail tornou-se num SPA misturado com psicanálise de grupo. Vamos todos para o monte equipados com centenas de euros, contámos os km até ao próximo repasto servido por voluntários - reparem, voluntários - e exigimos a perfeição das organizações. Deixou de ser uma loucura para heróis e transformou-se num desporto empresarial acessível a muitos. 

José Moutinho tornou-se assim o pai do trail em Portugal e a Ultra da Serra da Freita a mãe de todos os ultras. Nasceram aqui os ultras e o Trail nacional. É difícil encontrar um apaixonado pelo trail e ultra trail nacional que não tenha passado pela Freita. Todos tentam imitar as famosas moutinhadas e os trilhos que resgata ao que a morfologia única lhe oferece, sejam a "besta", o "portal do inferno", os "aztecas" ou a terrível subida de 400 mt nos mais de 800 degraus das "escadas do martírio", um belíssimo trajeto encastrado entre casas de pedra (moinhos?, não consegui perceber porque passei de noite) invadidas por água. José Moutinho continuou a obra que iniciou com o malogrado Sálvio e entregou à equipa da Confraria de que é Grão Mestre, e que tão bem é dirigida pela Flor Madureira, toda a logística de apoio aos atletas. Nesta prova quem já correu e não pode correr, apoia. E sente-se, são inexcedíveis. A base em Arouca oferece condições que o Parque de Campismo do Merujal já não garantia. Reservamos o Parque para base de fins de semana para treinar.

Correr na Freita nunca é igual. Podes ser experiente, rápido, forte, muito bem treinado ou determinado, nada chega e tudo é importante. Há sempre uma novidade, há sempre laboratório que nos faz insultar alguém, ora o José Moutinho, ora a nós próprios por nos termos inscrito. E há desafio que nos põe nervosos à partida com ansiedade e saudade no dia seguinte. Como é possível... Sofres e sentes saudade. Linda. Uma serra que nos serve água fresca e límpida por todos os lados e nos fustiga com calor. Quente e frio, um "fondue" para corredores. Não há ali meio termo, seja na temperatura ou no terreno. Amansa-nos com uma primeira subida de 9 km à moda "europeia", com caminhos largos e trilhos turísticos. Vem o planalto e a descida pelo "Carteiro" até Rio de Frades e os tradicionais km no Rio Paivô. A partir dali é sempre a "cozer" no forno de verão até ao inferno e o seu "portal". Mergulhos em água refrescante que rapidamente se evapora na canícula e a dureza que ainda nem chegou. Dobrar a tormenta da subida da ribeira de Drave até à Póvoa das Leiras é só o início do que se sabe que vem a seguir. Talvez por isso muitos dos experientes atletas desistem ali, aos 60 km, não arriscando a difícil ascensão da "besta", o "martírio" até à Lomba que está só a meio da ascensão ao alto da Serra e a longa descida até Arouca. A UTSF na versão "Elite" (100 km) é um desafio físico, emocional e essencialmente de gestão de esforço e alimentação, já que nesta prova todos os pormenores contam e são decisivos, seja para ganhar ou só para ser finisher. Ali como em todas as ultras só não se planeiam as fraquezas, sendo fundamental ter uma voz amiga ou um incentivo nesses momentos mais decisivos, porque todos os temos. Se quiserem experimentar "meia" versão comecem pelos 65 km. Já terão uma excelente amostra dos desafios que a serra esconde. Caso não queiram mais que sentir um pouco do ambiente da montanha têm o trail curto (28 km). 

A serra mãe dá-nos a mão e acolhe-nos, ensina-nos e castiga-nos, premeia-nos e corrige-nos. Ensina-nos a saber ler os sinais que nos mandam parar ou andar, correr ou descansar. E voltamos sempre porque é no seu regaço que nos sentimos verdadeiros ultras, totalizemos ou não o percurso da prova. Ser ultra é compreender todo um conceito de respeito pela natureza e da nossa relação com o ambiente e os nossos limites. Ser ultra na Freita é compreender todo o conceito que desenharam Sálvio Nora e José Moutinho. Numa clara mistura entre trail e orientação, a dificuldade de progressão deve ser proporcionada pela morfologia do terreno e a diferença está na maior destreza e condição física dos atletas. Queriam mostrar isto a quem os quisesse perceber e aceitasse o desafio.
Temos que lhes agradecer a semente que fez de todos nós "Filhos da Freita".


Portal do Inferno (Foto Miro Cerqueira/Prozis Trail)

Refrescar sempre. (Foto Bruno Graça, parceiro de prova inexcedível no apoio e companheirismo)

Belíssima Aldeia de Drave (Foto Bruno Graça)

Rio Paivô, um dos muitos com límpidas, irresistíveis e refrescantes águas. 

terça-feira, março 15, 2016

Compromisso eleitoral: Regular, comunicar, apoiar.

No seguimento da apresentação de uma lista candidata ao acto eleitoral que elegerá os Corpos Sociais da Associação de Trail Running de Portugal, apresento-vos o nosso compromisso eleitoral, que servirá como guia de trabalho na Direcção dos destinos do Trail em Portugal.

  1. Regular
  • Implementar regulamentos técnicos.
  • Protocolar com as federações que mantêm provas em montanha a tutela de organização de provas de trail.
  • Fazer cumprir os regulamentos e afirmar a ATRP como entidade reguladora do Trail.
  • Promover formação técnica supervisionadora e certificadora.
  • Enquadrar ATRP nas suas competências no seio da FPA.
  • Propor alterações aos estatutos da ATRP.

      2. Comunicar
  • Comunicar com os diversos players do desporto, desde atletas aos municípios passando pelos organizadores, patrocinadores e equipas.
  • Manter uma activa presença nas redes sociais e web.
  • Intensificar divulgação de provas nos media.
  • Consultas regulares aos membros do Conselho Consultivo.
  • Implementação de gestão  de comunicação com os sócios, com tempos estreitos de resposta.
  • Publicar regularmente relatórios de actividade.
  • Conferência anual sobre trail.

      3. Apoiar
  • Apoiar organizações na divulgação das provas e angariar uma bolsa de patrocinadores.
  • Juízes árbitros em todos os eventos do Circuito e sorteados para outra provas que, tendo sido certificadas pela ATRP, poderão ser (sem aviso prévio) alvo de fiscalização.
  • Promover acções de formação na área de segurança.
  • Promover acções de formação de resgate em montanha.
  • Promover acções de formação de marcação e (re)abertura de trilhos.
  • Promover estágios de Trail para Sub 23.
  • Promover e apoiar internacionalização de provas.
  • Promover controlo anti-doping.
  • Promover e apoiar escolas de trail.
  • Apoiar criação de Centros de Trail que possam integrar sedes distritais da ATRP.

4. Compromisso
Planear, colocar à discussão, decidir e tomar total responsabilidade, explicando opções. Toda a nossa actuação pautar-se-á por total transparência na gestão de uma Associação que se pretende seja farol de um desporto que requer muita responsabilidade e um grau superior de responsibilização dos seus promotores.
Faremos, mal seja viável, um ponto de situação da ATRP, tentaremos melhorar o que houver a melhorar e manteremos o que está bem feito.
Prometemos trabalho intenso, em equipa, com todos os associados da ATRP, e esperamos que todos os que gostam de correr nas montanhas se juntem a nós.

Ana Luísa Xavier
Manuel Maria Correia
Filipa Vilar
Hélder Costa
José Capela
José Brito
Mário Ferreira
Rui Pinho

segunda-feira, março 07, 2016

Regular. Comunicar. Apoiar.

26 de Fevereiro. Num dos dias mais frios e tempestuosos dos últimos anos, enquanto em Condeixa umas centenas de atletas se preparavam para partir para a gelada edição da Ultra de Sicó, em S. Pedro de Moel decorria uma Assembleia Geral Ordinária para apresentação de contas da ATRP. Compareceram 3 elementos dos corpos sociais. Honra seja feita aos Presidentes da Direção e da Assembleia Geral; sempre deram a cara pela equipa e ali estavam, expostos ao escrutínio dos associados presentes (7) na companhia de um dos membros da Direção.
Nesta mesma AG os orgãos sociais da ATRP, em bloco, apresentaram a demissão dos cargos para os quais foram eleitos. Nas palavras do Ex.Mo Presidente da Assembleia Geral, davam lugar aos, e cito de cor, "críticos que se acham capazes de fazer melhor".
Não é por ser criticado que alguém se demite. Faz parte das funções de quem assume lugares de representação associativa, ouvir críticas, sentir o pulsar de quem se dispôs a representar, e agir em coerência com as suas ideias e princípios, que, em princípio (passe o pleonasmo), foram escrutinados na campanha e consequente acto eleitoral. Contudo, não terá sido este o entendimento das pessoas que integraram a anterior direção. Por motivos que só aos próprios cabe esclarecer, foi com este facto consumado que nos deparámos no final da dita AG. 
 
Nesse mesmo dia encetei contactos com várias pessoas com quem vinha a discutir o actual estado do trail em Portugal. Não tinha, nunca tive, intenção de gerir os destinos do trail enquanto dirigente associativo. Tenho tido desde há muito, neste espaço e noutros fóruns de discussão, o atrevimento de "pensar alto". Desde o primeiro dia em que me atrevi a ir a uma montanha correr passei para o blogue as minhas experiências e sensações. As minhas opiniões são públicas e expostas à análise de quem as quiser conhecer. 
Critiquei alguns actos incompreensíveis desta direcção. E acaba como tem actuado, sem ponderar devidamente aquilo que decide. Senão reparem: O acto eleitoral está marcado para Miranda do Corvo, e bem, para o dia a seguir ao UTAX. Faz sentido, já que no mesmo fim de semana decorrerá a gala anual da ATRP de entrega de prémios. Só que a gala foi marcada para as 20h de Sábado. Enquanto alguns atletas ainda estarão em prova, prova esta que faz parte do circuito, a ATRP faz uma gala e pede a participação e presença dos sócios. Não seria melhor fazerem a gala no dia seguinte, dia das eleições? Os sócios que demorarem mais de 20, 21 ou 22 horas a fazer o UTAX (112 km) não podem ir à gala receber o seu prémio. Infelizmente.
Antes de fazer públicas as minhas preocupações com o estado actual do trail em Portugal fiz chegar essas mesmas opiniões a quem de direito - aos orgãos de direção da ATRP. Foi-me solicitada colaboração que não enjeitei. Propus consensos, promovi conversas entre pessoas desavindas, coloquei-me à disposição para reunir pensamentos para um evento com dimensão nacional que servisse para discutir o futuro do trail. Em resposta angariei inexplicáveis inimizades. Nada me move pessoalmente contra quem, bem ou mal, geriu até agora os destinos do trail em Portugal. Acredito que quiseram sempre o melhor, como todos queremos, e que deram o melhor de si mesmos. Mas às vezes o melhor não chega. E quando o melhor de nós invalida que se reúnam consensos (não unaninismos) alargados, numa posição autista e individual, entramos num confronto com os que nos criticam e sentimo-nos menosprezados. Não foi minha intenção desprezar ou menosprezar o trabalho de quem sai. Deram graciosamente o melhor que podiam e sabiam. Terá faltado muita coisa, mas muito foi também feito. Depois de tudo o que aconteceu nestes meses não poderia deixar de apresentar uma solução. É um imperativo de consciência.
 
 
Reuni uma lista que apresentarei a seu tempo, e que irá a escrutínio dos associados da ATRP. Assumirei individualmente todas as responsabilidades dos actos que colegialmente tomaremos. Irei atribuir pelouros de actuação a todos os integrantes dos corpos sociais e proporcionar a liberdade necessária para actuarem. Não haverá lugares simbólicos. Será uma equipa de trabalho, que visa trazer para a ATRP uma dinâmica que envolva todos os actores do panorama do trail nacional. Tentaremos trazer um pouco da nossa experiência, de forma a contribuirmos para o crescimento de um desporto que todos gostamos com base na regulação, comunicação e apoio. Regular o trail, comunicar com os associados, instituições e público, e apoiar quem organiza e quem participa. 
Saudações desportivas.

quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Assembleia Geral Ordinária desordenada

as·sem·blei·a 
substantivo feminino
1. Grupo de pessoas reunidas.
2. Reunião de pessoas convocadas (ex.: assembleia de condóminosassembleia de credores). = PLENÁRIO
3. Corporaçãoassociação.
4. Sociedadeclube.
5. Saraubaile.
6. Comício.
7. Parlamento.

"assembléia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/assembl%C3%A9ia [consultado em 25-02-2016].

Este fim de semana é de assembleias. 
Em Sicó estarão mais de 4.000 corredores. Na Assembleia Geral da ATRP, marcada para a mesma hora em que decorre um dos eventos de trail running mais participados do País, estarão seguramente poucas. A importância que dão (ou querem dar) à dita AG é tanta, que até foi marcada sem os 15 dias (pelo menos, segundo Artº 20º) que mencionam os estatutos, e à qual não comparecerão todos os 4 membros que restam na direcção. Não se compreende. Eu não compreendo e estarei lá, no Plenário que não terá muito de pleno, para o dizer de viva voz a quem sobrar para ouvir. Se a data não era oportuna para todos os membros da direcção, por que não marcar para outra data? Alguém compreende que uma direcção reduzida marque a Assembleia Geral ordinária para uma data em que um dos seus membros, aquele que tem maior visibilidade no trabalho executivo da ATRP, esteja ausente? Isto interessa a quem? Quem tem medo dos sócios? Não havia outra data antes de 31 de Março como obrigam os estatutos? Não teria mais interesse ser marcada para o mesmo fim de semana de entrega de prémios, onde seguramente estariam muitos mais associados?
Vou estar presente na AG e espero que esteja lá alguém com legitimidade para me responder a algumas perguntas. Não vou alimentar polémicas estéreis nem tão pouco levar para o lado pessoal as dúvidas que me assolam. Mas exijo respostas. Podia manter-me calado, mas a cidadania dá-me a liberdade de pensar e a minha consciência obriga-me a falar. É um dos direitos dos (ainda) associados da ATRP. Outro, ainda mais importante é o de poder reunir um número suficiente de associados para a convocação de uma AG extraordinária. Dos pouco menos de 2000 que sobram haverá 1/3 interessado em a convocar, e pelo menos 3/4 dos subscritores estarem presentes? 600 a assinar e 450 presentes? Não sei se haverá assim tanta gente interessada no futuro desta Associação. 

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

Skyrunning

Com origem em Itália na década de 90, o Skyrunning nasceu enquanto circuito de provas em alta montanha, acima dos 2000 m. Mais tarde a ISF (Federação Internacional de Skyrunning), decidiu integrar no seu âmbito todas as provas realizadas em montanha, mesmo naquelas que não atingem tais altitudes.
A Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal foi aceite na ISF e é quem tem a responsabilidade de organizar e regular as corridas em montanha com as características de Skyrunning. 


E que características são essas?

Conforme consta no Regulamento de Competições, o espírito Skyrunning distingue-se pela dificuldade técnica do percurso, pelo desnível acentuado - muitas vezes acima de 30% e que tem como objectivo o cume das montanhas onde as provas se realizam. Os locais de especial beleza nas montanhas onde se realizam estas provas fazem parte do percurso, podendo fazer parte dos acessórios de prova as cordas ou haver inclusive troços de escalada.
"Ao contrário de outras disciplinas de corrida, as competições de Skyrunning representam o desafio supremo, onde as corridas não são apenas medidas pela distância, mas também pela verticalidade e pela dificuldade técnica, num ambiente natural de montanha, onde a terra encontra o céu" - é assim que a ISF descreve as suas provas. 

Mas é uma prova de escalada? 


Não. Ao contrário de outras provas em montanha, a ISF determina que apesar de poder atingir os 30%, não pode exceder o grau II da escala de dificuldade da UIAA (caminho abrupto, em que para subir já poderá ser preciso usar mãos e cordas). 

As provas são homologadas?

Sim, as provas que o requeiram e que reúnam as condições adequadas são homologadas enquanto provas de Skyrunning, e caso façam parte do Calendário nacional são objecto de arbitragem por técnicos especializados (Juiz Árbitro), que supervisionam o cumprimento rigoroso de todas as normas técnicas e de segurança da corrida, inclusive dos participantes.

Quais as distâncias?

Sky - Até 50 km - Média de 13% de inclinação e máximo de 15% de estradas transitáveis:

  • SkyRace - Mínimo de 20 km e que ultrapasse os 1200 metros de desnível positivo.
  • SkyMarathon - Mínimo de 30 km e 2000 metros de desnível positivo.
Ultra - Com mais de 50 km e mais de 5 horas para o vencedor:

  • Ultra SkyMarathon - Corrida que exceda em mais de 5% os parâmetros de uma SkyMarathon, com distância superior a 50 km, que apresente mais de 2500 metros de desnível positivo acumulado e com tempo do vencedor entre 5 e 12 horas.
  • Ultra XL SkyMarathon - Provas que excedem os parâmetros de uma Ultra em mais de 5%, têm no mínimo 5000 metros de desnível positivo acumulado, e em que o vencedor demora mais de 12 horas a concluir. 
Corrida Vertical - Corridas de uma única subida com inclinação média de 25%, e com um desnível mínimo de 650 metros e distância máxima de 10 km. 
Quilómetro vertical - Competição com 1000 metros de desnível positivo (5% de tolerância), num máximo de 5 km. 
SkySpeed - Corrida de 100 metros ou mais de desnível vertical e uma inclinação superior a 33%.

Leonardo Diogo do Clube Aventura da Madeira, 6º do Mundo (Skyrunner World Series 2015) 


Calendário

O calendário de competições está dividido entre Campeonatos Nacionais e Regionais, Taças de Portugal, Regionais e de Clubes. De referir que os escalões de prémios em todas as provas integrantes deste calendário são iguais para os géneros masculino e feminino.
O destaque do calendário vai obviamente para o Ultra SkyMarathon da Madeira em Santana, prova integrante das ISF Skyrunner National Series Spain, Portugal e Andorra que traz até nós alguns dos nomes sonantes do panorama internacional, já que fará parte também do World Series. Deste circuito Ibérico fazem parte ainda a mítica Zegama, prova de superior espectacularidade, a Ultra Pirineo, Andorra Ultra, Transvulcania e a Epic Buff, prova que será também Campeonato do Mundo.
A pérola do Atlântico, com condições únicas para a modalidade, é destino principal para as provas do calendário nacional, mas já há mais provas em território continental e também nos Açores. De Vilar de Perdizes a Sintra, passando por Cinfães, Serra da Estrela, Lousã e Proença a Nova, com incursões a Paredes (Porto), ao Alto Alentejo (Castelo de Vide e Marvão) e às Ilhas do Pico, Faial e Madeira, é uma autêntica viagem por paraísos só acessíveis depois de subidas infernais. O crescimento deste calendário é o reflexo do trabalho de base feito pela Federação e com o importante e não menos determinante trabalho dos clubes e empresas organizadoras de provas. 

Kilian Jornet - Zegama (Foto JCDfotografia)
O calendário e links para os sites das provas está disponível para consulta no site da FCMP.
Todo o regulamento das provas e da organização de campeonatos está disponível aqui, e é uma excelente fonte de aprendizagem para quem está a pensar organizar ou participar numa prova de montanha.






terça-feira, fevereiro 16, 2016

Proteína e BCAA. Tomar ou não?

Quando começamos a prática desportiva regular mais intensiva, caso mais comum nas pessoas que procuram evoluir na corrida e que buscam melhores e maiores performances, devemos tomar especial atenção sobre diversos factores. Um dos mais importantes, para além da vigilância médica, é o aconselhamento nutricional. O nosso organismo necessita de mais ou menos proteína, consoante seja maior ou menor a intensidade com que treinamos e sobrecarregamos os músculos. Enquanto um sedentário, ou alguém com uma actividade física leve pode facilmente equilibrar as necessidades do organismo com uma alimentação regrada, um atleta com actividade mais intensa necessita de um pouco mais.
Ora, o suplemento mais procurado e provavelmente dos mais vendidos é a proteína whey. Não é raro chegarmos ao balneário de um ginásio e vermos alguém a bater uma mistura de um pó com água. Muitos pensam logo em doping, mas o que provavelmente o atleta está a fazer, é aproveitar a melhor janela de oportunidade para fazer com que o treino que acabou há minutos conte e produza resultados. 
Procurei saber então, o que é então a famosa proteína e qual a melhor forma de a tomar. 
A proteína do soro do leite (Whey Protein) é a mais comum e mais vendida, e é indicada para praticantes de qualquer modalidade desportiva ou para as pessoas que procuram equilibrar peso com controlo de ingestão de calorias. É a proteína mais pura encontrada na suplementação, responsável pelo crescimento e pela recuperação muscular. É dividida em 3 formas de filtragem, daí haver uma disparidade de preços; quanto maior a filtragem, maior a pureza e mais caro o produto:
– Concentrada: Com hidratos de carbono, colesterol e gordura (presentes no leite) é a primeira proteína extraída do soro do leite. É mais simples (60 a 70% proteína, embora a whey da Prozis apresente mais de 80%), mas mesmo assim oferece excelentes resultados. 
– Isolada: Sem hidratos de carbono e sem gordura. Na maioria dos casos, também não contém lactose. Tem uma óptima absorção pelo organismo, já que evita o trabalho de digestão e separação de nutrientes (mais de 80% pureza, a                                                da Prozis tem 93%).

– Hidrolisada: O processo de hidrólise faz com que esta seja o "Ferrari" da proteína do leite. Com uma concentração superior a 90% é a escolhida pelos que querem os melhores resultados, já que a absorção é mais rápida e eficaz.
Além da proteína do soro do leite, ainda podemos encontrar outros tipos de proteína, como a albumina (proteína da clara do ovo), a da carne, ou da soja.
Para terem um termo de comparação com a alimentação, saibam que o frango tem cerca de 29% de proteína, a carne de vaca ou o peixe 24% e o ovo 11%. Percebem a importância da suplementação de proteína? Agora, a oferta do mercado é tanta, que devemos procurar sempre a melhor relação preço/qualidade e saber se o que compramos e vamos tomar é mesmo indicado para nós e quais as nossas necessidades.
Quando consumir?
Como já referi, a melhor "janela" para consumir proteína é após o treino, daí os batidos nos balneários dos ginásios. É nessa altura que o organismo está sedento de proteínas para manter e desenvolver músculo. Na ausência de consumo proteico nessa altura, o organismo vai recorrer à energia muscular para recuperar, afectando a recuperação e aumentando o cansaço. Os "fast recovery", com mistura de proteína e de hidratos de carbono permitem que a proteína seja absorvida inteiramente pelos músculos, recuperando melhor os músculos e repondo energia. Mas cada caso é um caso e nada melhor que um nutricionista para melhor aconselhar, já que há produtos em que a janela de ingestão é apenas após 30 minutos do final do treino.
Outro horário adequado para ingestão de proteína é ao acordar, já que o organismo esteve privado de nutrientes durante as horas de sono, tendo passado por processos de regeneração. A diferença nota-se, já que suplementando o organismo passa aquela sensação de "vazio" que muitas vezes sentimos, apesar de comermos sem nada nos saciar. O mais certo é estarmos com défice que não identificamos, e o nosso cérebro "indica-nos" através dos sentidos mais básicos ser facilmente debelado pela ingestão de hidratos de carbono. E aí, lá se vai a linha. Pão, bolos, bolachas e snacks não nos equilibram o organismo.

Outro suplemento cujo fim também desconhecia, apesar de ouvir muita gente falar dele: 
BCAA's


O que são os BCAA?
Os BCAA (Branch Chain Amino Acids, ou aminoácidos de cadeia ramificada) são a Leucina, a Valina e a Isoleucina. Três "manas" com nome feio, mas muito úteis já que estes aminoácidos não são produzidos pelo organismo e só podem ser obtidos através da alimentação ou da suplementação. Para os obtermos na alimentação em quantidade suficiente para o que precisamos - e aqui refiro-me a quem treina intensamente - já vimos que é muito mais difícil e deficitário para o que o nosso corpo gasta. 
Durante o exercício o corpo precisa de energia, e para a gerar precisa de alguns aminoácidos, que se não estiverem disponíveis, vai buscar aos músculos, fazendo-nos perder essa preciosa massa magra. Os BCAA fazem assim com que se recupere melhor do esforço facilitando a reconstrução (e construção) de células musculares e evitando lesões. Os exercícios prolongados com ausência de BCAA resultam na entrada de triptófano no cérebro. O triptófano, responsável pela produção de serotonina, faz com que fiquemos felizes mas também nos transmite sensação de cansaço. Nos exercícios de longa duração devemos evitar a fadiga precoce e suplementar o organismo com BCAA. Já me tinha cruzado com muitos atletas que o faziam, agora percebo por quê. Contudo, quando não em provas longas, a toma deve ser dividida entre o antes e após treino para facilitar a reconstrução muscular. 
E não nos precisamos preocupar com o aumento do peso ou efeitos secundários. Como são aminoácidos essenciais não estão relacionados com o aumento de peso mas sim com o aumento da força muscular (massa magra). São usados pelo organismo para reconstrução muscular e são igualmente importantes para o sistema imunitário. Devem ser usados por atletas que tenham treinos intensivos, mas sempre aconselhados por nutricionistas. Caso não tenham um nutricionista que vos possa aconselhar, consultem a Filipa Vicente ou a Ana Ribeiro, elas oferecem a possibilidade de acompanhamento online. A suplementação deve ser prescrita, e um bom profissional adequará melhor as necessidades de cada um.
Espero ter ajudado um pouquinho à desmistificação do uso de proteína e BCAA. Eu que também só usava presunto e bifanas, já vou sentindo a diferença de um bom equilíbrio entre alimentação e suplementação. Não podemos esquecer nenhum dos factores determinantes na evolução de um atleta: Treino, alimentação, descanso e bom conhecimento da saúde do nosso corpo. 
Boas corridas!

segunda-feira, fevereiro 15, 2016

Queres correr? Precisas mesmo de fitas?

Já ouviram falar do Trip Advisor? Uma aplicação que nos facilita as escolhas de hotéis, restaurantes, bares e outros locais de interesse, através de votações e opiniões de utilizadores da mesma aplicação? É uma óptima ferramenta de viagem, utilizada por milhares de pessoas em todo o mundo, e apreciada pelos proprietários dos locais avaliados, já que lhes permite terem um retorno quase em tempo real do trabalho que desenvolvem, permitindo-lhes melhorar o que há a melhorar e conservar boas práticas.



Um grupo de corredores suecos desenvolveu uma ferramenta parecida para Trail Running - OTrail Advisor. De momento apenas disponível para iPhone, a aplicação pretende reunir o maior número possível de percursos de trail, para que, ao viajar pelo mundo, possamos experimentar trilhos depois de saber a opinião de outros que já os tenham percorrido e deixar também a nossa. Se aplicada a provas, no futuro poderá o atleta escolher as provas mais bem avaliadas. Por enquanto apenas permite seguir trilhos deixados por outros ou percorrer e gravar novos.

De momento as melhores aplicações para partilha de percursos são a Wikiloc ou a Gpsies . Livres, de partilha gratuita têm já uma vasta base de percursos para caminhadas, bicicleta ou corrida, em montanha ou estrada, tendo ainda a vantagem de estarem disponíveis também para Android e de se poder fazer upload e download de percursos para os vulgares relógios e aparelhos GPS. Com cerca de 70000 percursos em território português, oferecem aos internautas a possibilidade de escolher onde correr ou pedalar.



Com o potencial de crescimento do trail é bem possível que a Trail Advisor seja uma ferramenta tão útil quanto outras, e ajude na escolha de percursos ocasionais.

Por enquanto gratuita, a aplicação pode ser descarregada na App Store, tendo os seus criadores apelado a corredores de todo o mundo que a descarreguem e usem para poderem melhorar o seu potencial.


segunda-feira, fevereiro 01, 2016

Trilhos dos Abutres - Uma música de letra ao contrário



Rendido à Serra da Lousã há vários anos, voltei aos Trilhos dos Abutres pelo quinto ano consecutivo. Não vos consigo descrever esta prova. Há muito de mágico nos Abutres, e a magia só pode ser interpretada por cada um, pelo que os olhos vêem, pelo que o corpo sente, pelo que a alma suspira. 



É um ziguezaguear de trilhos pelas encostas de uma serra, aqui e ali despida por madeireiros, que esconde veias de vida derramadas em água por ribeiros mágicos. São subidas e descidas húmidas e sombrias polvilhadas pelo calor que os atletas exalam em cada bafo de esforço a tentar equilibrar um corpo frágil em chão armadilhado de uma lava fria. 
É correr acima e abaixo de um vulcão sem cratera que nos faz explodir todos os sentidos. Exclamamos com a beleza das montanhas acima das nuvens que arrefeciam Miranda do Corvo, abrimos os olhos de espanto em todas as imponentes quedas de água, seguramos os músculos que gritam em cada passo que nos leva ao alto delas, fieis guardiãs de um ecossistema que a água preserva e os corvos povoam. 
Que fantástico ambiente. Prova superiormente organizada, a um nível sem falhas. Atletas felizes, famílias alegres, Vila em festa. Esta prova é mesmo única. Não há um único momento desperdiçado em todo o evento. 
Uma edição épica rematada na manhã de Domingo nos Trilhos para os mais pequenos, com um traçado belíssimo que retrata fielmente o que a Serra esconde. Quem não foi sorteado tem lá todo o traçado sinalizado a partir do Centro de Trail, ou então que faça um treino com a Escola de trail dos Abutres na Quinta da Paiva e fica seguramente com vontade de mergulhar naquele poço de emoções.



Há uma música da Ana Matos Fernandes - Capicua - que retrata o glamour, o encanto, toda a imaginação fértil que preenche a cabeça de quem vai crescendo, sonhando e experimentando as consequências desses mesmos sonhos e as dores de quem cai e sempre se levanta. Adaptando a letra aos Trilhos dos Abutres, num claro abuso que a autora não autorizou, vou transcrever o que fui trauteando enquanto corria, caía, caminhava ou sorria. 


Quando for grande vou ser prof. de "brinc-dance"
E quando corro, rodo e aterro com o pacotanço
Aqui de pé só correm os tipos da frente
Mas nos Abutres a gente diverte-se imenso! (Cantar repetidamente)


A letra é fiel a muito do que fica, porque não é a lama que nos fica na memória.
É toda uma revolução de cores, um misto de sensações, uma alegria na natureza, uma música de letra ao contrário onde nada faz sentido mas não nos larga a pele, a alma e o pensamento. E por tudo isto esgotam inscrições. Se abrissem hoje, esgotavam.



(Créditos das fotos: Fotos do Zé https://www.facebook.com/fotosdoze/?fref=ts)

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Aveia - O melhor aliado do corredor contra o pecado




Um amigo há dias confessava-me que tinha imensa fome e que não resistia à tentação diária, compensando sempre com mais uns quilómetros semanais as incursões pecaminosas. Reconhecia controlo apenas no número de pecados, demorando-se deleitado no consumo de cada um dos alvos atiçados pelo diabinho que salta na nossa cabeça sempre que os olhos atingem a imagem do alvo pecaminoso. Todos temos um alvo a evitar: Doces ou salgados, há sempre alguma delícia para nos atormentar. É uma batalha constante, e para as batalhas complicadas precisamos de aliados. 

Vejo por aí constantes apelos consumistas cujo alvo é naturalmente quem quer perder peso. Dos depuradores aos medicamentos de controlo de apetite, até a fórmulas milagrosas de perder rapidamente muito peso, são muitos os apelos.
Nós corredores temos tendência a comer desalmadamente quando em épocas de treino intensivo, ou a fazer dietas radicais para recuperar o peso que achamos ideal para o calendário a enfrentar. Sabemos que os quilos a mais se vão fazer notar naquela subida mais íngreme, ou impedir o aumento de cadência naquela fase da prova em linha em que queremos fazer a diferença face aos melhores resultados. Somos competitivos com o nosso melhor, mas descuramos a alimentação.
Quando comecei a minha guerra contra o excesso de peso também me fartei de procurar fórmulas de sucesso para enfrentar as tentações, a fome ou o desgaste provocado pelos treinos, e que fazia com que fosse mais difícil controlar o apetite que os muitos quilómetros que corria. É por isso com natural sorriso que encaro as perguntas que me fazem, quando tentam descobrir nos meus hábitos algo saudável que reduza a gula e o impulso para o "pecado". Tenho há muito tempo uma fórmula de sucesso para controlar a fome: Aveia. 
A aveia é o maior aliado que podes ter no controlo do peso e do apetite. Cereal integral de digestão lenta, deixa-nos uma sensação de saciedade durante mais tempo que qualquer outro hidrato de carbono. A libertação prolongada de energia deste hidrato faz com que seja adequado para pré treino, prova, ou mesmo para pequeno almoço do dia-a-dia. 
Ao prevenir a flutuação de glicose por induzir o organismo a uma constante produção de insulina, a aveia torna-se num excelente aliado para controlar desejos "indesejados". Digamos que faz crescer o "anjinho" da nossa consciência sobre os impulsos do "diabinho" que nos desvia o olhar para o croissant, pastel de nata ou qualquer outro pecado saciante, mas que depois pesa nos projectos de peso. Rica em fibra, gorduras saudáveis, minerais - manganésio, fósforo, zinco, selénio e ferro - e vitaminas - tiamina, niacina, riboflavina, vitamina B6, ácido fólico, biotina e vitamina E. Estes micronutrientes, que nos fartamos de ver anunciados em cápsulas milagrosas para o controlo de peso, fortalecem ainda o sistema imunitário (claro!) e aceleram o processo anti-inflamatório da recuperação muscular. É o melhor aliado de qualquer ser humano, quanto mais de um atleta (ou aspirante a tal). Ainda tem 14 g de proteína por cada 100 - 28% da DR para um adulto médio.

Enfim, tanto procuramos o santo graal e ele está sempre tão acessível. Eu compro todos os meses 40 destas doses de 100 g (4 kg)e assim, entre pequeno almoço e mais algumas ceias em noite de maior apetite, por apenas 10 € (sem contar aqui com o leite, já que pode ser misturada com água), tenho um alimento rico, bastante rico, ao preço de 10 croissants que "alimenta" mais e melhor. Encomenda online aqui e recebe em casa. Não há forma mais simples.
Claro que este texto é apenas uma dica, e claro está que deves contactar um nutricionista que te ajude a atingir os teus objectivos. Não bastam os bons aliados para vencer guerras. A estratégia tem de ser bem delineada e bem articuladas todas as armas. 

Boas corridas!

quinta-feira, janeiro 14, 2016

Calendário 2016

É todos os anos assim. Depois do resultado do sorteio das inscrições para as diversas provas no Mont Blanc do último fim de semana de Agosto, começam a definir-se os calendários dos que têm no trail e na corrida de resistência o seu escape para conquistas desportivas, vida saudável e alívio do stress da era moderna. Nós fazemos o mesmo. Apesar dos pontos conquistados e mesmo com o dobro de chances para o sorteio do UTMB por ser o segundo ano de candidatura, não tivemos sorte e não fomos um dos selecionados para a prova rainha do trail mundial. Resta-nos o conforto de saber que à terceira candidatura, rezam as regras que é de vez, e que não dependerá da sorte o salto para a lista de inscritos.

Quem segue com alguma atenção as redes sociais, começa a notar a abertura de inscrições para as restantes provas do calendário internacional, num esforço de cativar os euros que os descontentes tinham reservados para viagem e estadia na Suiça. Vai daí é vê-los - os descontentes como nós - a organizarem o ano com a prova que lhes dará a adrenalina suficiente para uma futura participação na volta ao Monte mais desejado da Europa. Da Ultra Pirinéu à Epic Buff, passando pelo Toubkal, Ehunmilak ou Grande Raide dos Pirinéus, todas as provas acenam com as suas atrações para serem o refúgio dos mais de 10.000 atletas não sorteados em Chamonix.

Por cá afina-se o calendário à medida de todos esses grandes desafios. Todos os fins de semana haverá provas para todos os gostos. O ano começou com a habitualmente elogiada organização alentejana, num concorrido Trail Vicentino da Serra que levou várias centenas de atletas até aos trilhos portalegrenses. No próximo fim de semana começa o Território Circuito Centro, com a etapa de Proença a Nova, que levará os atletas a vários dos paraísos do Pinhal Interior e da Beira Baixa. Na semana seguinte teremos a prometida épica edição dos Trilhos dos Abutres pelas subidas e descidas lamacentas rodeadas por coros celestiais de quedas de água e impropérios dos menos preparados. Em Fevereiro começa o calendário de Ultra Endurance com o inevitável Ultra de Sicó, com distâncias para todos os gostos e abastecimentos com todas as tentações. Nos Açores estreia uma nova prova, a Columbus Trail Ilha de Santa Maria, com distância máxima de 77 km numa volta à primeira ilha onde atracou o navegador na viagem que o levou à descoberta da América.
Março é mês de Paleozóico e do seu carrossel - que inclui um elevador - pelas Serra de Valongo. Este ano coincide com o Ultra Trail Aldeias de Xisto, antecipado por uma boa causa: A realização do Mundial de Trail no Gerês, pela mão do mais mediático ultra corredor português - Carlos Sá - em Outubro. O UTAX, primeira prova do Circuito Ultra Endurance da Associação de Trail Running de Portugal, é também Taça de Portugal. 
Abril será o mês mais internacional do trail português, com o Madeira Island Ultra Trail - agora integrante do circuíto mundial, o Ultra Trail Series - e com o Peneda Gerês Trail Adventure, prova que se realiza pelo terceiro ano consecutivo, e que levará ao Minho muitos dos que em Outubro virão ao Mundial e muitos dos que querem voltar a correr numa região que é um hino de beleza natural. Há muitas alternativas neste mês de Abril: A Ultra Geira Romana, o Arrabida Ultra Trail, Almourol ou Linhas de Torres. A Ultra do Piodão abre o preenchido calendário primaveril.
Em Maio haverá duas provas do circuito Ultra Endurance, a Ultra São Mamede com os seus 100 km de festa garantida e o Estrela Grande Trail, organizado pelo Armando Teixeira na Serra mais alta de Portugal continental. Há ainda o Faial de costa a costa e a novidade ultra que partirá e chegará à cidade da Horta, projetando esta prova para a categoria ultra endurance com os seus mais de 80 km.
Junho é mês de Oh Meu Deus, a exclamação de todos os que se aventuram na até há um ano única prova de 100 milhas (160 km) em território nacional. Também na Serra da Estrela, é uma das provas que mais pontos atribui para o UTMB. Ainda em Junho haverá o Trail dos 4 Caminhos ou o divertido Loucos da Reixida. Para o último fim de semana está já marcado o Ultra Trail Serra da Freita, agora na distância centenária, e palco de alguns dos mais duros e belos cenários de média montanha. Entre "Bestas" e piscinas naturais nos Rios Frades, Paivô ou Teixeira, há percursos desenhados pelo Mestre Moutinho com diversão e empenos garantidos. O Clube de Montanha da Lousã organiza o seu trail com uma quase garantida ausência de lama mas mantendo todo o esplendor da bela Serra; uma forma diferente de abordar a Lousã.
Em Julho, com o calor a apertar, é altura de fazer Ultras em trilhos mais a Ocidente, nas praias. Da das Maçãs parte o Ultra Trail Monte da Lua para percorrer floresta e costa de Sintra, arribas incluídas, num cenário pintado entre o mar e a serra. Exatamente no mesmo dia (!) há um outro Ultra Trail, um pouco mais a norte, também com o mesmo desenho, o Caldas Ultra Trail. Na semana seguinte a tradicional Ultra Maratona Atlântica liga os 43 km que separam Melides de Tróia. 
Agosto é o mês do habitual Trail Noturno de Óbidos, este ano atirado para o segundo fim de semana, coincidindo assim com o Ultra algarvio da Rocha da Pena. Há ainda a Pt281+, a maior Ultramaratona do País, com 281 km, e que liga Belmonte a Proença a Nova. 
O Grande Trail Serra D'Arga marca o calendário de Setembro e atrairá ainda mais gente a Caminha e à Sra do Minho em ano e território de Mundial. Em 2015 houve ainda o Estrela-Açor Ultra Trail, prova que ainda não tem data, com 180 km entre as duas Serras do maciço central. 
Outubro será então o mês de maior visibilidade e projeção do País no panorama internacional do trail, com a realização da prova máxima no Gerês. Na Régua teremos o Réccua Douro, uma prova bem organizada, num cenário bonito embelezado pelas vinhas carregadas. Apesar do mundial é um mês cheio de provas de norte a sul do país. Haverá ainda uma prova aberta ao público no programa do Mundial.
Em Novembro ruma-se a Barcelos para o Ultra dos Amigos da Montanha, uma semana depois da Ultra da Arrábida. 
Para fechar o ano e preparar as festas de Dezembro, há os diversos Christmas Trail e apenas uma ultra, na Ericeira.


A somar a todo este preenchido calendário há ainda diversas provas na Madeira, ora do calendário de trail, ora do calendário do Sky Running, das quais se destaca a Ultra Skymarathon da Madeira, a realizar em Santana no primeiro fim de semana de Junho, e que fará parte do Circuito Mundial da especialidade - o Sky Runner World Series. Esta prova levou ao Mundo imagens fabulosas da ilha da Madeira, captadas pelo conhecido fotógrafo e corredor Ian Corless. Com condições fantásticas para a prática da modalidade, é já um destino de sucesso para quem gosta de desfrutar das corridas na natureza.

Enfim, um calendário preenchido, onde não faltam opções para fazer provas cá dentro, das mais curtas às maiores do mundo. Se pratica trail tem excelentes opções de conhecer melhor o País a correr.


Portugal visto de cima é ainda mais bonito. Os caminhos que nos levam aos pontos mais altos são duros, selvagens, mas a recompensa é sempre superior ao esforço. São caminhos que vale a pena perCorrer.

Calendário retirado daqui. 

terça-feira, dezembro 29, 2015

Ainda a discutir o trail

Apesar de todos os cuidados e reflexões, parece que discutir seja o que for sobre trail fora da Assembleia Geral da ATRP enferma de legitimidade.
No último texto que escrevi neste cantinho, dizia ter falado com a ATRP sobre o dito encontro de organizadores, convidando-a a participar para discutir tudo o que engloba a competição, sua calendarização e organização. Foi-me comunicado verbalmente por um dos membros da direcção que a ATRP não participaria na dita reunião, por não achar oportuna, e por não achar que deva, a ATRP, discutir tais temas com os organizadores. Num "post scriptum" colocado no texto depois de alertado para o facto de o convite não ter sido dirigido formalmente, referi que o ia fazer. Recebi a resposta poucas horas depois. O Ex.Mo Presidente da Assembleia Geral (onde andará a Direcção?) declinou o convite, em nome de todos os órgãos sociais (?!?). Aparentemente a decisão terá sido "colegial", como refere. Curiosamente, 1 hora antes de me responder por email, respondeu a título pessoal, em forma de comentário ao referido texto, onde apela ao trabalho voluntário e colaboração com a ATRP - repto que aliás já me tinha sido lançado por um dos membros da Direcção e que eu e mais 3 pessoas aceitamos de imediato, mas que não teve consequência. A ATRP não se pode apenas impor por força de Assembleias Gerais nem por força de estatutos, como refere no extenso comentário o actual Presidente da AG da ATRP. Claro que a legalidade, estrutura e modo de funcionamento das organizações é legitimada por estatutos; claro que é na AG que se discutem pontos de interesse dos associados. Mas também me parece claro que há muito mais para ser falado entre as pessoas, principalmente entre organizadores, para que se possa defender um desporto tão recente e que carece claramente de regulação e de criação de pontes entre as várias entidades que o tutelam, promovem ou organizam. As organizações evoluem com debate de ideias. As próprias sociedades evoluem a partir da base e não dos órgãos administrativos que as regulam. Não é só na Assembleia da República que se discute o País. Discute-se todos os dias em iniciativas de grupos de cidadãos, não tendo de se por em causa a legitimidade democrática de quem os representa. A democracia faz-se falando abertamente sobre os problemas, e não creio ser descabido discutir-se o trail e as corridas de montanha num fórum que não seja o da Assembleia Geral da ATRP. Se assim fosse teria de ir também às Assembleias Gerais da Federação de Campismo que regula o Sky Running em Portugal e às da Federação de Montanha que regula outro campeonato. Até pela multiplicação de tutelas é pertinente este encontro de quem tem a força suficiente para liderar todo este processo. Parece que a ATRP prefere o caminho da integração na Federação de Atletismo e não quer de forma alguma discutir o trail enquanto se processa essa integração. Eu não sei se esse é o caminho ou não, mas quero discuti-lo abertamente.

Esta ideia surgiu depois de vários acontecimentos que não adianta voltar a trazer à baila, e que desencadearam reacções extemporâneas entre pessoas que se respeitam, ou respeitavam, e que podiam e deviam ter sido evitadas por quem supostamente tutela os campeonatos. Ao contrário da ATRP, há outras entidades com tutela federativa sobre competições semelhantes que se mostraram abertas a participar no dito encontro e que encaram como válidas todas as discussões que possam melhorar o futuro das corridas em Montanha em Portugal. Não percebo como pode a ATRP colocar-se fora disto.

É importante lançar definitivamente em 2016 um caminho para o trail. Não tenho qualquer interesse de poder, mas tenho interesse em que se discuta o que realmente importa. Tenho falado com muitos organizadores em paralelo, muitos deles com razões diversas sobre pontos de interesse comuns, mas que não discutem entre si o que realmente poderia melhorar as suas organizações. Deviam ter um interlocutor, que infelizmente não existe. Na maioria dos casos chegam uns aos outros pelo FB, ou num ou outro encontro informal quando participam nas provas de uns e outros. Está na hora de se encontrarem para discutirem o que há para discutir. Será então a 31 de Janeiro.


quarta-feira, dezembro 16, 2015

Reflectir o Trail

Agosto de 1997. Há 18 anos, ainda sem correr e sequer pensar fazê-lo, fui convidado por um amigo a ir a um almoço convívio no final de uma prova de corrida em montanha, onde todos se conheciam e partilhavam a paixão de correr na natureza. Uns anos mais tarde, já corredor, "cruzei-me" com fotos dessas provas e soube finalmente o nome da dita aventura: Transestrela, uma prova de duas etapas num fim de semana. À época os nomes que retive foram sendo revividos, agora juntando os nomes às caras. Alguns dos que por lá andaram, ou abandonaram a modalidade, ou então limitam-se a fazê-lo nos moldes que muitos de nós ainda conhecemos, em pequenos grupos, onde quase todos se conhecem, correm pelas montanhas, almoçam ou jantam juntos e regressam à vida do dia a dia de cada um.

O trail deixou de ser um convívio entre gente que corre e passou a fazer parte de um quotidiano empresarial, onde o interesse de organizadores e atletas é muito mais que correr livremente e almoçar entre gargalhadas e projectos futuros. E deve assim ser encarado, como um desporto em crescimento, com cada vez mais adeptos e praticantes, e cada vez mais interesses envolvidos.
Contudo, uma das características que traz tanta gente para o trail, é a de não haver distinções entre ricos e pobres, entre filhos e enteados, havendo um total respeito por todos os atletas por igual, sem separação como acontece na estrada - elite separada do "pelotão" - e onde a capacidade de entreajuda, superação, resiliência, destreza e sacrifício, são muitas vezes determinantes para o aparecimento de novos valores. Há no trail casos de sucesso já bem depois dos 50 anos, com vitórias em importantes provas, casos de vitórias de gente que "aparece" neste desporto com historial mediano noutras modalidades e que consegue sucessos por ter características determinantes para um desporto onde a capacidade atlética não basta para vencer. A atracção pelo trail é determinada igualmente pela oferta de percursos na natureza, onde a recompensa de poder correr livremente por espaços inacessíveis é mais que bastante para libertar do reboliço diário citadino que a maioria dos seus praticantes vive.
Como um desporto com bases amadoras, de convívio e de descoberta de novas formas de viver as montanhas e natureza em geral, o trail nasceu um pouco como a história das primeiras provas, com o intuito de reunir pessoas, correr, fazer uns repastos e pouco mais. Os prémios não são normalmente monetários, o reconhecimento é escasso se comparado com outros desportos, não havia até há pouco selecções que participassem em campeonatos do mundo, e o reconhecimento passava por um ou outro apoio de marcas ou lojas de equipamentos da especialidade. Tudo isto mudou em pouco mais de 3 anos.

Depois de em Setembro de 2012 tomarem parte numa reunião, que viria a ser embrionária da ITRA, foi criada em Portugal a ATRP. Esta associação nasceu por vontade e iniciativa de um grupo de amigos apaixonados por trail. Se está a fazer o trabalho para a qual foi criada ou não, é no mínimo discutível. A ATRP enveredou por um caminho de regulação, de organização de calendário e de organização de campeonatos. Na minha opinião nasceu manca, porque sem a devida colaboração dos organizadores. Eu explico porquê: A ITRA nasce pela necessidade de regular competições existentes. Nasce no sentido de preservar o espírito do trail, da não separação entre elite e pelotão, das mesmas condições para todos os participantes, da tentativa de regular as provas, de as uniformizar, de unir esforços entre todos os que participam no desenho, organização e corrida. A ATRP exclui da sua génese e da sua organização as organizações. Há hipótese de as organizações se candidatarem, algumas serão convidadas, mas não há organizadores - pelo menos assim, enquanto organizadores -, no seio da Associação que regula, ou tenta regular, o desporto que aqueles organizavam muito antes de haver ATRP.
 
O aumento de provas entre 2012 e 2013, após o reconhecimento trazido pelos excelentes resultados internacionais de alguns atletas, trouxe muitas coisas novas e diferentes para o trail nacional. Até 2010 eram poucas as provas no calendário nacional. Quem queria ir a uma prova de 100 km tinha que se aventurar em Ronda ou nos Peregrinos, provas ganhas várias vezes por atletas nacionais. Por cá havia um calendário modesto. A Ultra da Freita só em 2010 passou a ter 70 km. Os Abutres só na segunda edição (2011) passou a ter mais de 42 km. Apenas o MIUT e mais tarde o Oh Meu Deus se atreveram a desenhar e proporcionar provas acima de 100 km em Portugal. Hoje, poucos anos depois, são muitas as provas com 100 ou mais km em Portugal. As provas de trail multiplicam-se e há fins de semana com 3, 4 ou mais provas em diferentes pontos do País. Há, felizmente, muito por onde escolher.

Assim, e sem muito mais explicações ou debates, decidi, com o apoio e incentivo de várias pessoas interessadas pelo futuro deste desporto, organizar com o apoio de algumas entidades, um encontro nacional de organizadores de provas. Será em Miranda do Corvo, no próximo dia 31 de Janeiro. Muitos dos que organizam provas em Portugal são dos mais experientes atletas nacionais. Exclui-los de decisões que os afectam não é justo, normal, nem aconselhável.
O Trail não pode é continuar pouco regulado, sem homologação de provas e/ou percursos, sem fiscalização, sem obrigatoriedade de cumprir requisitos mínimos. Não acabarão más organizações, mas havendo regulação e homologação os atletas poderão escolher em consciência e exigir de quem os deve defender. Não sei quem o deve fazer, nem quero afirmar se deve ser no seio da Federação de Atletismo ou na de Campismo e Montanhismo de Portugal. O que acho é que não pode nem deve continuar assim, com campeonatos distintos e regras diferentes. Urge discutir e alinhar o futuro com a exigência que os atletas merecem.

Poderemos discutir muita coisa por telefone, facebook, jornais, ou mesmo em tertúlias em separado. Mas urge reunir quem se interessa pela efectiva regulação de um desporto que começa a estar demasiado exposto. Não o fazer será colocar em causa tudo aquilo que defendemos e queremos para o trail.
A ATRP foi convidada a participar mas declinou o convite. Acha a direcção actual que não deve participar em tal debate. Respeito. Não concordo, mas respeito.
Em breve divulgarei o programa e temas abordados durante este encontro. O número de participantes vai variar consoante o local onde se realizará, que ainda não está definido.

P.S. - A ATRP será formalmente convidada a participar no encontro. Chama-me a atenção o João Mota, e com razão, que não existiu um convite formal, não sendo por isso legitimo afirmar que a direcção declinou o convite. O convite original foi feito verbalmente a um dos elementos da direcção. Agora segue um formal, por email.


Saudações desportivas a todos.

quinta-feira, novembro 05, 2015

Perdido em Nova Iorque

O que será pior que fazer uma maratona depois de uma longa recuperação, de um longo caminho de luta contra a dependência, de luta contra a adversidade? 

Gianclaudio Marengo, italiano de 30 anos, voou até Nova Iorque para participar na Maratona daquela cidade, integrado num grupo de pessoas que, como ele, faziam parte de um centro de recuperação de toxicodependentes. 
4h44 foi o tempo final do esforçado italiano. Chegado à meta, como acontece com muitos dos que fazem maratonas, desorientado no meio de uma multidão, a sua timidez e olhar vazio passaram seguramente como normais num maratonista. Depois da linha de chegada, um maratonista é sempre mais parecido com um zombie, cambaleando, esticando as pernas e contraindo involuntariamente todos os músculos em espasmos de dor. O comportamento normal de um maratonista é realmente estranho, não sendo por isso de estranhar um desorientado atleta por Central Park.
Portador do dorsal 23781, de Gianclaudio sobrava a informação de chegada à meta e uma imagem a prová-lo, quando os serviços consulares italianos a pedido da instituição que o levou aos Estados Unidos, começaram a procurá-lo. Daí até ser encontrado, dois dias depois, sabe-se agora que o italiano tentou voltar ao Hotel, mas com medo de perder a referência do último lugar onde estava, voltara à zona de chegada da prova. Sem o mapa que o ajudaria a encontrar o caminho, sem documentos e sem saber falar inglês, manteve-se por ali, à espera que o fossem buscar. Os membros do grupo foram lá mas não o encontraram. Comeu pizza, dormiu ao relento na noite fria de Manhatan, sempre com o equipamento com que correra a maratona. Segunda Feira, sabendo que tinha voo de regresso, foi para o aeroporto, de onde o expulsaram, por parecer sem abrigo e não possuir qualquer documento. Voltou para a cidade e refugiou-se no metro, já na madrugada de Terça Feira. Um polícia reconheceu-o por haver já uma notícia do seu desaparecimento



A história é contada pelo New York Post, e parece tirada de um filme.
"Os passageiros habituais, às 6h45 da manhã, são trabalhadores das obras, portanto aquela figura pareceu-me fora do contexto", conta Man Yam. "Reparei no seu ar cansado, lábios secos de desidratação, e principalmente na sua evidente ansiedade, olhando para todos os lados e fitando o mapa, tentando decifrar algo". 
O agente identificou-se e ao aperceber-se de que não entendia inglês, perguntou a Giancarlo em espanhol se estava perdido, ao que este respondeu afirmativamente e com ar aliviado. À boa maneira americana, o bom polícia levou-o a beber um café e comer um donut. Terá sido seguramente o melhor pequeno almoço da sua vida.



O agora maratonista foi levado a um hospital para assegurarem que estava bem de saúde, e onde o médico da instituição que o acolhe o foi buscar para viajarem de volta para Itália.
E assim uma história de libertação de um heroínómano transforma-se numa história de um maratonista, que depois de cruzar a linha de meta, começava uma aventura ainda maior que aquela de 42,195 metros que deixara para trás. 

A maratona é um duro caminho, mas nunca tão duro como muitos caminhos tortuosos que a vida nos proporciona.



Fontes e fotos:
http://www.nytimes.com/2015/11/04/nyregion/missing-italian-marathoner-found-on-new-york-subway-still-in-his-running-gear.html

http://nypost.com/2015/11/03/runner-found-after-going-missing-at-finish-line-of-nyc-marathon/

terça-feira, outubro 27, 2015

O homem branco naquela foto



As fotografias às vezes enganam.



Esta, por exemplo, retrata o ato rebelde de Tommie Smith e John Carlos no dia da cerimónia de pódio dos 200 metros nos Jogos Olímpicos da Cidade do México, e enganou-me um monte de vezes.
Sempre a vi retratando dois homens negros descalços, de cabeças inclinadas e punho com luvas pretas erguidas para o céu, enquanto tocava o hino americano. Um gesto simbólico muito forte, para reivindicar a protecção dos direitos da população afro-americana num ano de tragédias como a morte de Martin Luther King e Bobby Kennedy.
É uma imagem do gesto histórico de dois homens negros. Talvez por isso nunca reparara verdadeiramente naquele homem, também branco como eu, imóvel no segundo patamar do pódio.

Achei essa presença casual, uma espécie de intruso. Na verdade, acreditava que aquele tipo fosse um qualquer rival inglês, que numa postura glacial, representava a vontade de resistência à mudança que Smith e Carlos invocavam com aquele grito silencioso.
Como estava enganado. Graças a um antigo artigo de Gianni Mura, descobri a verdade: o homem branco na imagem é, talvez, o maior herói que surgiu naquela noite em 1968.


Chama-se Peter Norman, australiano, qualificara-se para a final dos 200 metros com um fantástico tempo de 20,22 nas semifinais. Apenas dois americanos Tommie "The Jet" Smith e John Carlos tinham feito melhor: 20,14 e 20,12, respectivamente.
Todos esperavam que a vitória se decidisse entre os dois, Norman era um estranho que tinha corrido a corrida da sua vida e ficar-se-ia por aí. John Carlos, anos mais tarde, confessou ter-se interrogado de onde saíra aquele branco que com 1,68 m era capaz de correr à mesma velocidade que dois calmeirões com perto de 1,90 m.
Chegado à final, Peter Norman fez mais uma corrida de sonho, uma performance de outro mundo, melhorando o que era já um tempo fenomenal. Correu em 20,06 recorde australiano ainda hoje, 47 anos depois.
Um registo fantástico, contudo insuficiente, porque Tommie Smith fez justiça à sua alcunha e foi "The Jet", batendo o recorde mundial à velocidade de jacto humano. Derrubou o muro de vinte segundos, tendo sido o primeiro homem na história a fazê-lo, cortando a meta em 19,82 e levando o merecido ouro.
John Carlos terminou em terceiro lugar, perdendo a prata por um fio de cabelo, por trás da surpresa Norman, único homem branco entre as estrelas de cor.
Foi uma corrida memorável, do mais espectacular na história das Olimpíadas.


Memorável, mas os momentos mais marcantes desta final prolongar-se-iam até à cerimónia protocolar.
Smith e Carlos tinham decidido mostrar ao mundo inteiro a sua luta pelos direitos humanos e a intenção deles ecoou entre os demais atletas.
Norman era branco e vinha da Austrália, que tinha leis de apartheid muito rigorosas, semelhantes às da África do Sul. A Austrália vivia tensões, com manifestações de rua, como resultado de restrições de imigração a não-brancos ​​e leis discriminatórias contra os aborígenes, incluindo as terríveis adoções forçadas de crianças nativas para benefício de famílias brancas. Mas o atleta australiano, surpreendentemente, queria fazer parte do protesto, mesmo afrontando o poder instituído no seu país.
Os dois americanos perguntaram a Norman se ele acreditava em direitos humanos.
Norman disse que sim.
Perguntaram-lhe se ele acreditava em Deus e ele, com um passado no exército de salvação, respondeu sim novamente.
"Sabíamos que íamos fazer algo muito além de qualquer feito competitivo, mas surpreendentemente ele disse: "Eu estarei convosco"- recorda John Carlos - Esperava ver medo nos olhos de Norman, em vez disso, vi amor." 
Smith e Carlos decidiram ir ao pódio ostentando no peito um brasão de armas do projeto olímpico para os Direitos Humanos, um movimento de atletas em solidariedade com as lutas de igualdade.

Iam receber as medalhas com os pés descalços, que representava a pobreza dos homens negros. E iam usar as famosas luvas de couro preto, símbolo da luta dos Panteras Negras.
Mas antes de irem ao pódio perceberam que tinham apenas um par de luvas negras.
"Usem uma cada um", sugeriu o corredor branco e eles aceitaram o conselho.
Em seguida, Norman fez outro pedido.
"Eu acredito no que vocês acreditam. Têm um desses para mim?", perguntou, apontando para o emblema do Projecto para os Direitos Humanos no peito dos outros dois. "Assim posso afirmar a minha solidariedade com a vossa causa."
Smith admitiu que, surpreendido, pensou: "Mas que quer este branco australiano? Ganhou a medalha de prata, que a receba e pronto!".
Respondeu-lhe que não, que só tinha aquele e não queria deixar de o usar. Mas com eles estava um remador americano, branco, Paul Hoffman, ativista do Projeto Olímpico para os Direitos Humanos. Ouvindo a conversa, pensou que, "se um branco australiano quer usar um destes emblemas, por Deus, deve ter!". Hoffman não hesitou: "Dei-lhe o único que tinha: O meu".
Os três avançaram pelo campo rumo ao pódio: o resto entrou para a história com o poder daquela imagem.
"Eu não vi o que estava a acontecer atrás de mim - disse Norman - Mas percebi que estava a correr como planeado quando uma voz na multidão começou a cantar o hino americano, mas depois parou. O estádio ficou em silêncio. "


O chefe da delegação americana jurou aos seus atletas que iriam pagar para a vida aquele gesto que não tinha nada a ver com o desporto. Smith e Carlos foram imediatamente excluídos da equipa americana e expulsos da Aldeia Olímpica, tendo o remador Hoffman sido acusado de conspiração.
De volta a casa os dois velocistas tiveram consequências pesadas nas suas vidas, ostracizados, discriminados, recebendo inclusive várias ameaças de morte. A América racista não lhes perdoava o atrevimento.
Mas o tempo viria a dar-lhes razão e tornaram-se campeões da luta pelos direitos humanos. Já com a imagem justamente restabelecida, trabalharam com a equipa americana de atletismo e foi-lhes erigida uma estátua na Universidade de San José.


Na estátua construída foi ignorado Peter Norman.
O lugar parece esvaziar o epitáfio de um herói que ninguém reconhece. Um atleta esquecido de facto, excluído, logo à partida no seu país natal, a Austrália.
Quatro anos depois do México 68, para os Jogos Olímpicos de Munique, Norman não foi chamado para a equipa de velocistas australianos, apesar de ter corrido mais de 13 vezes abaixo do tempo de qualificação para os 200 metros e cinco para os 100.
Desiludido, deixou o atletismo competitivo, continuando a correr como amador.
O seu País, a branca Austrália queria resistir à mudança, e tratou-o como um pária, com consequências para a sua família e para si próprio. Desacreditado, arranjar trabalho foi permanentemente difícil. Deu aulas de ginástica, trabalhou ocasionalmente como talhante, e continuou as suas lutas como activista sindical. Mais tarde uma lesão grave que gangrenou levou-o a abandonar qualquer prática desportiva, levando-o à depressão e ao alcoolismo
"Se nós dois levamos um chuto no rabo, Peter enfrentou um país inteiro e sofreu sozinho", disse John Carlos.
Durante toda a sua vida, Norman teve apenas à disposição uma chance de se salvar e retomar honras de campeão: Foi instado a condenar o acto dos seus colegas Tommie Smith e John Carlos, em troca de um perdão do sistema que o tinha condenado ao esquecimento. Um perdão que lhe permitiria encontrar um lugar permanente no Comité Olímpico Australiano e fazer parte da organização dos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000.
Mas Peter Norman não se deixou ir pela ambição e nunca condenou a escolha dos dois americanos, ficando assim longe de qualquer lugar ou tarefa de honra nos Jogos organizados pelo seu País.
Foi o maior velocista australiano de todos os tempos, ainda detentor do recorde nacional nos 200 m, mas não teve sequer um convite para as Olimpíadas de Sydney. Foi o Comité Olímpico americano, uma vez divulgada a circunstância em que o colocaram os australianos, a convidá-lo a juntar-se ao seu grupo, tendo sido figura de destaque na festa de aniversário do campeão Michael Johnson que considerava Peter Norman um modelo e um herói.
Norman morreu repentinamente, de ataque cardíaco, em 2006, sem o reconhecimento do seu País.
No funeral, Tommie Smith e John Carlos, amigos de Norman desde 1968, levaram o caixão aos ombros, homenageando-o como um herói.



"Peter era um soldado solitário. Conscientemente escolheu sacrificar-se em nome dos direitos humanos. Não há ninguém mais do que ele que a Austrália deva honrar, reconhecer e apreciar", disse John Carlos.
"Ele pagou o preço da sua escolha - explicou Tommie Smith - Não foi apenas um gesto para nos ajudar, foi uma batalha que escolheu travar. Era um branco, um homem branco entre dois homens negros, de pé no momento da vitória, tudo em nome da mesma causa".
Só 6 anos depois, em 2012, o Parlamento australiano aprovou uma declaração para pedir desculpas a Peter Norman e reabilitar a história com estas palavras: 
"Este Parlamento reconhece a conquista extraordinária de Peter Norman, que ganhou a medalha de prata nos 200 metros nos Jogos Olímpicos da Cidade do México, com um tempo de 20,06, ainda hoje o recorde australiano.
Reconhece a coragem de Peter Norman em usar o símbolo da Projecto Olímpico para os Direitos Humanos no pódio, em solidariedade com Tommie Smith e John Carlos, que fizeram a saudação do "black power".
O Parlamento pede ainda desculpa por, mais tarde, o Comité Olímpico ter cometido o erro de não o ter levado às Olimpíadas de 1972 em Munique, apesar de repetidamente se ter qualificado, e reconhece o papel preponderante de Peter Norman na luta pela igualdade racial." Reconhecimento justo, mas tardio, que o visado não pode testemunhar. 
Talvez as melhores de todas as palavras que lembram Peter Norman sejam as suas, no documentário "Salute" realizado pelo seu sobrinho Matt, em que explicou as razões para o seu gesto:
"Eu não entendia por que um homem negro não podia beber água da mesma fonte, apanhar o mesmo autocarro ou frequentar a mesma escola que um homem branco.
Era uma injustiça social para alguns contra a qual eu nada podia fazer, mas que odiava.
Tem sido dito que o facto de partilhar a minha prata com tudo o que aconteceu naquela noite na cerimónia de pódio tem ofuscado o meu desempenho.
Acho que foi precisamente o contrário.
Confesso que sinto um orgulho enorme em ter feito parte daquele momento".





Traduzido do original (com autorização do autor) "L'uomo bianco in quella foto" de Riccardo Gazzaniga, publicado aqui. 
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