segunda-feira, junho 30, 2014

Ultra Trail Serra da Freita 2014

 

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A curiosidade de quem lê estes relatos é a de retirar algo que os faça dar o passo seguinte, de se inscreverem numa destas (aparentes) loucuras. São poucos os que leem relatos de ultra maratonas para sentirem as dores de quem os escreve. Recordo-me da minha primeira participação na Freita, na prova de 17 km, em 2011. Recordo-me de ver chegar os participantes da distância rainha – os até ontem 70 km, e que serão 100 em 2015 – e de pensar por onde raio teriam andado para chegarem sem fala ao final.

Foi assim que cheguei, 16h38 depois da partida às 5h45 – Sem fala. E são poucas as palavras que vou dispensar a este relato. Fartei-me de pensar na analogia a fazer, depois da “Branca de Neve e os 7 anões” do ano passado, mas não há analogia perfeita com o que vivi na Freita e com o que vivo de cada vez que lá vou, seja em treino ou em passeio. Ainda há uma semana torci um pé no PR7, a baixa velocidade. A Freita é como um ninho de cobras, onde somos mordidos e envenenados sem antídoto possível. Fica-nos o veneno no sangue a contaminar-nos a razoabilidade e o bom senso. No início deste mês, quando pedi a um médico um atestado de robustez física para apresentar na partida das 100 milhas, disse-me que dispensava análises complexas ou mais exames, mas que só me voltaria a passar outro quando lhe apresentasse um atestado de sanidade mental. E é isto que todos os que por ali andámos somos – uns seres saudáveis mas completamente loucos por aventura, pelo mergulhar nas entranhas de uma serra que tem tudo o que nos maravilha e nos faz sentir acelerar o sangue nas veias. Subir aos 3 pinheiros e olhar para o imenso verde que transpomos para ali chegar é como tomar um potente ansiolítico. Ou anti-inflamatório, porque depois de ali chegar, apesar de tantas quedas nas pedras do rio que tanto palmilhámos, já nada dói. Aos 3 pinheiros, ou no alto da Besta – uma subida de 1 km em 50 minutos por pedras e queda de água, onde para beber bastava parar e abrir a boca. A serotonina, a dopamina e as outras substâncias que o cérebro vai libertando a cada passo, fazem-nos o favor de nos acalmar a dor que o “Traçador” (Traça a dor) José Moutinho nos proporciona a cada km.

A UTSF não é uma corrida de 70 km. É uma luta intensa contra os nossos medos, contra o limite do aceitável, contra o desgaste físico e mental. Lembrei-me várias vezes de quando jogava Monopólio em miúdo, e naqueles dias de azar, me fartava de sair o “Diretamente para a prisão sem passar pela casa de partida”. Lembram-se? No Monopólio recebíamos dinheiro cada vez que passávamos pela partida para podermos “comprar” as ruas e estações mais caras. Era um jogo de sorte que nos fazia eventualmente virtuais milionários. Não passar na “casa de partida” era um rombo na “Conta”. A UTSF é um manancial de “idas à prisão sem passagens pela partida”, e no entanto sabe tão bem. Provavelmente faz-me mesmo falta uma avaliação psiquiátrica…

Uma certeza trouxe: Voltarei sempre, para esta prova, para treinos, para desfrutar, porque ninguém resiste à Freita. Apesar de todos os treinos, e depois destas 4 participações - finalmente fiz a prova como aconselha o Mestre Moutinho, com mente aberta - por muito que lá vá, há sempre algo novo, uma dor traçada por ele, uma nova subida ainda mais íngreme, uma descida agarrado a cordas, uma transposição de rio agarrado a tipos presos por arneses a uma brutal rocha com vista para uma asfixiante queda de água… Enfim, uma qualquer maravilha que recordamos no dia seguinte sem nos lembrarmos onde nos doía o corpo àquela hora, já com mais de 50 km. E por isso voltamos. Para sentirmos toda aquela mistura de dor e prazer de superação, culminada com o fantástico mergulho nas entranhas da Mizarela e aquela final subida ao paraíso que é a meta, ao fim de 70 quilómetros de trail tão duro quanto belo e puro.

Tudo tão belo. E é quase sempre perfeito estarmos onde gostamos de estar, onde só nos falta quem mais gostávamos de ter ali ao lado. Terei de repetir o campismo no Merujal, para ir desfrutar de toda esta dureza e beleza misturadas numa serra, mas em modo de contemplação.

Obrigado José Moutinho e restante equipa, tão bem co-liderada pela Flor Madureira. A UTSF é um mergulho no mundo da aventura onde nada é o que parece, onde tudo é mais belo e mais duro. É a prova onde passamos por onde ninguém passa. É a prova que inclui passagem por aldeias abandonadas a menos de 1 km de outras, só porque para lá chegar é quase preciso ser atleta. É uma luta contra o cansaço onde cada km é uma bênção da natureza.
Parabéns aos vencedores e alento aos vencidos, uns por quedas, outros por cansaço, outros pelo tempo; insistam e persistam. Cada km na próxima tentativa é uma vitória.

Abençoada Serra. Voltarei cada vez mais vezes, e voltarei seguramente à UTSF.

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terça-feira, junho 10, 2014

100 Milhas na Serra da Estrela

 

“A vida é uma aventura atrevida ou não é nada” – Frase retirada do Facebook da Cristina Carvalho, vencedora da classificação feminina da prova de 70 km do “Oh Meu Deus” – Serra da Estrela.

Estávamos em Agosto de 1997. O último fim de semana coincidiria com o final do mês. Um amigo, apaixonado das corridas, convidara-nos para irmos à Serra da Estrela a uma prova de atletismo. Chegados à Residencial Académica na Covilhã, nesse Sábado 30 ao final do dia, decidimos ir jantar e mais tarde saberíamos pormenores sobre a tal prova de atletismo em que se podia caminhar. Claro está que não voltamos a falar de corridas. Jantamos, fomos a uma discoteca, compramos uma garrafa de whisky e…

De repente era de manhã. Tínhamo-nos esquecido de pedir pormenores sobre a prova – partida, hora, local, enfim, pormenores sem importância – mas sabíamos que havia um almoço para depois da dita corrida. Recordo-me de ter tomado o pequeno almoço já no limite do tempo disponibilizado para a refeição, com imagens repetidas sobre um carro destruído num túnel de Paris, onde viajava a Princesa de Gales, Diana, que faleceu no local juntamente com Doddy Al Fayed. Foi exactamente no mesmo dia em que fui à minha primeira prova de trail, sem sequer ver a prova. Fomos à Torre, onde pensávamos ser a dita corrida, não vimos mais que uns turistas e alguns lojistas, nenhum vestígio de corrida ou sequer caminhada. Era impensável que alguém corresse ali, não havia por onde, só víamos montes e pedras. Talvez descessem rumo ao infinito, mas, e os carros? Não se viam carros, teriam vindo de autocarro? Teriam subido? É tão inclinado e pouco propício a correr... Pouco depois conseguimos falar com o nosso anfitrião que nos indicou o local do repasto. Foi um belo almoço, a minha primeira prova de trail. Daí para a frente foi sempre a somar…,  Almoços. Mal eu sabia que 17 anos mais tarde, regressaria à Torre num dos maiores desafios da minha curta carreira de corredor amador.

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O desafio

O desafio surgiu pouco depois da desilusão na Ultra do Marão. A Susana confiava nas organizações da Horizontes, provas que habitualmente faz e que recomendava. Com a minha inclinação para me atrever nas 100 Milhas, ela nem hesitou e inscreveu-me antes de eu poder concordar ou não.
Claro que me sentia mais do que treinado para um desafio destes, apesar de o passo anterior, o passo natural de fazer uma prova de 100 km não ter sido dado, mas os 93 do Marão tinham tido um “sabor” de Ultra de 100, com os seus mais de 6.000 m de acumulado positivo e as sensações pós prova. O meu principal receio, consistia nos relatos da primeira edição das 100 Milhas do “Oh Meu Deus” – Serra da Estrela, que falavam em marcações deficientes, ausência de segurança e falhas graves na organização. Mas também haviam relatos que relativizavam as falhas, e o facto de a data da prova ter sido adiada para Junho, com a consequente menor probabilidade de condições meteorológicas adversas, ajudavam a relativizar os receios e confiar nos instintos da minha maior apoiante. “Vai tudo correr bem”, dizia. Não me restou outra coisa que preparar-me para o que a serra me destinaria, mais de 16.000 mt de desnível, muitas horas a correr e muitas contrariedades para ultrapassar.

A aventura

A Serra da Estrela, a que os romanos chamavam Herminius Mons - Montes de Hermes (Deus Greco-Latino dos pastores, também conhecido por Mercúrio) – tem uma longa história ligada ao pastoreio. As lendas sobre a estrela que nascia sobre ela remontam à pré-história, em que pequenas comunidades sobreviviam da caça e recolha de bolota e outros frutos e pastorícia migratória. Viviam nos vales e zonas de mais baixa altitude, e subiam aos pontos mais altos após o surgimento da estrela mais brilhante da constelação de Touro, algures entre o fim de Abril e início de Maio, que anunciava tempo mais ameno, degelo e melhor pastoreio.
Terá sido também esta a primeira data da primeira edição das 100 Milhas do “Oh Meu Deus”, organizada pela Horizontes há pouco mais de 1 ano, data alterada para Junho, para garantir a “colaboração” da meteorologia. Mas nem a meteorologia parecia querer colaborar, quando chegamos a Seia na Sexta-Feira. Chovia, o vento era forte e a ameaça de baixas temperaturas na Torre perigavam a realização da única prova com a distância rainha das ultras em Portugal. Felizmente não aconteceu, apesar da chuva intensa das primeiras horas de prova. Houve frio, vento, chuva e sol, para embelezar na perfeição toda aquela bela envolvente da Serra, que me acolheu durante mais de 38 horas, e em que revivi todo o documentário “Ainda há pastores?”, de Jorge Pelicano. A simpatia e simplicidade dos que ainda por lá resistem, foi-nos servida em forma de abastecimentos acompanhados por ranchos folclóricos, por aplausos saídos de um alpendre escuro, de alguém que, na madrugada, trocou o sono pelo incentivo aos que enfrentam tamanho desafio. Daria um belo documentário esta prova onde se aventuraram menos de 40 atletas. A interrupção da chuva torrencial para a nossa partida foi apenas uma benesse do S. Pedro, que logo a faria voltar, junto com um vento forte que nos impelia para trás nos trilhos mais altos e expostos. Naquelas primeiras 5 horas de prova, que chegaram para percorrer os primeiros 39 km e chegar à bela Loriga, ficamos logo habilitados à muda de roupa que viria 40 km depois, no mesmo exacto ponto. Na primeira noite corremos por levadas escorregadias, onde a mínima distração nos fazia correr dentro de água, para não cairmos no prometido vazio. A escuridão diminuía as vertigens, mas o perigo estava mesmo ali ao lado. Em grupo, com a companhia do Vítor Penetra e do Vítor Rodrigues, lá fomos divertidos com um sexagenário brasileiro que se perdia sempre que se aventurava sozinho nos trilhos. É óptimo fazer provas tão longas com companhia, preferencialmente ocasional. Não sou apologista de esperar ou acelerar alguém, mas entre abastecimentos, de noite, numa prova tão longa, não deixo ninguém sozinho para trás. Até Loriga, já com a aurora, fomos juntos. Em Loriga repousámos, aceitamos uma das imensas sopas oferecidas por um diligente voluntário, e vestimos roupas quentes para a subida de 12 km e 1400 m de desnível positivo até à Torre.
Não vi a tal estrela da lenda dos pastores, mas imaginei o esquilo Scrat, da Idade do Gelo, na sua perseguição à inquieta noz, e onde raio terá ela pousado tantas vezes para nos desvendar aquela bela Garganta de Loriga, um dos 7 Vales glaciares que rodeiam a Serra da Estrela. A subida, linda, por trilhos ainda usados por pastores, como provam as dezenas de mariolas, vai passando por sucessivos “Covões”, alguns com aproveitamento hidroeléctrico, que transpostos, deixam atrás fantásticas imagens de um imenso desordenado desenhado pelo gelo. A subida, tão bela quanto dura, deixou mossa. Reparei-a com um Snickers que a Susana me obrigou a levar, e com tomate com sal e uma sandes de presunto oferecidas por um grupo de escuteiros, e que comi junto à fogueira que lhes acalmava o frio intenso trazido pelo vento cortante dos 1700 m. Faltavam pouco mais de 2 km para chegarmos à Torre, ponto fulcral no percurso, por estar mais ou menos a meio, e por ser a principal dificuldade da prova. Atingida esta primeira meta ainda a meio da manhã, aproveitamos o excelente abastecimento, com apoio médico, para nos aquecermos e recuperarmos forças.
Da Torre a Vale Rossim, percorremos toda a envolvente da Serra, experimentamos os fofos tufos de erva e os duros pedregulhos graníticos sujeitos a fracturação que caracterizam a envolvente. A chegada à Praia Fluvial de Vale Rossim, já com mais de 20 horas de prova e a tocar os 103 km, faziam soar os alarmes nos exclamados palavrões a cada passo dado em cima das pedras redondas que rodeiam a lagoa. Eram os pés a queixarem-se do massacrante piso. Mais caras conhecidas, gente que fazia os 100 e os 70 km, alguns atletas amigos que treinavam por ali, e saímos com alento redobrado rumo ao alto do Malhão, que antecedia o abastecimento reforçado e troca de roupa e calçado de Folgosinho. Quando lá chegássemos estaríamos a apenas uma maratona do sonho. Maratona essa que duraria mais uma longa noite.

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Li imensos relatos de provas longas antes de me aventurar nesta. Não quero massacrar-vos com as dores nos calcanhares ou as bolhas na planta de cada pé. Prefiro dizer-vos que em cada dificuldade que encontramos na montanha, descobrimos mais uma força que julgávamos não ter e descobrimos mais um amigo que nunca mais iremos esquecer. Aquelas longas 38 horas e 53 minutos que passei na Serra da Estrela, deram-me a conhecer seres humanos extraordinários. Dizem que os amigos se conhecem nas dificuldades. Não deixei nenhum para trás sem apoio, recebi apoio de todos, e tenho a certeza que darei um abraço a cada um deles sempre que os encontrar. A cumplicidade da montanha faz-nos sentir parte de um clã, que apesar de não ter rituais secretos ou cumprimentos que nos identifiquem, tem a particularidade de todos sabermos que nunca estaremos sós. Acho que é por isto que sentimos sempre confiança para cada prova que começamos, pela certeza de irmos encontrar outros que como nós se desafiam confiando no apoio dos que connosco se cruzam em cada montanha. Um abraço especial aos que comigo partilharam dores, temores e me apoiaram nos trilhos: Vítor Penetra e Vítor Rodrigues, com quem fui até perto dos 90 km; Carlos Fonseca, Paulo Picão e Rui Rocha, que me acompanharam de Vale Rossim a Folgosinho, e com quem me fui cruzando antes; João Mário Rodrigues, que encontrei no início da segunda noite, e que me acompanhou enquanto pode até à descida para o último PAC. A todos um especial abraço.

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Uma prova de 100 milhas é um desafio extraordinário. É impressionante o quão longo pode ser 1 km numa prova desta natureza. Atrevi-me ao desafio sem pressão, sem noção da distância, sem receios, com “mente aberta” (como aconselha o Mestre Moutinho que enfrentemos as provas de trail) e confiante que a organização rectificaria os erros da primeira edição e tudo correria pelo melhor. Foi o que aconteceu. As marcações estavam irrepreensíveis para quem tivesse um mínimo de experiência em provas de trail, os abastecimentos suficientes e todo o apoio indispensável estava presente. Sempre que vi solicitações de auxílio, apareceu rapidamente um elemento da Horizontes. Os voluntários, bombeiros, equipa médica e população em geral, foram de uma simpatia inexcedível, tudo correu dentro do normal. Só a t-shirt oferecida merecia mais alguma qualidade, e estranhei a ausência de, pelo menos uma refeição de massa ou arroz com proteína.

Resta-me cair na realidade do epílogo desta intensa aventura. Regressando ao filme animado, A Idade do Gelo (a primeira), onde Manny queria seguir o seu caminho ignorando o bebé perdido, tendo sido convencido por Sid a adoptá-lo. Também tive a Sid, na Susana, que me convenceu que eu seria capaz de concluir as 100 milhas, e lá estava, na meta às 7h da manhã para o confirmar, depois de se certificar que eu partia e de me apoiar sempre que pode.
Como sempre, sobram personagens para fazer a analogia com a prova, mas o Diego é bem personificado, pela manha, pelo perigo que espreita, na Serra da Estrela. É o “Oh Meu Deus” de toda esta história com final feliz. A cada dificuldade transposta, vemos a Serra a ceder à nossa força, como o tigre enjoava sempre que abanavam o barco onde seguia com Manny e Sid, e, acossado pela fome sonhava comê-los. A Serra também parece muitas vezes que nos vai levar a melhor, mas com alguma diversão e força de vontade, sem ficção, com treino e juízo, também as provas de 100 Milhas, o “Tigre” na história do trail, se domam. Haja alma!

Mal eu sabia que, 17 anos depois voltaria à Serra da Estrela para fazer aquilo que não cheguei a ver em 1997, uma das primeiras edições da Transestrela, pioneira das corridas de trail em Portugal. A Estrela ficará para sempre marcada na minha vida de corredor amador. Parabéns à organização, que soube corrigir os erros. Temia a prova pelos relatos dos anos anteriores, mas posso confirmar que esteve à altura das melhores organizações. O Road Book com todos os pormenores (altimetria, km entre PAC’s e tipo de track), distribuído a todos os participantes, fossem das 100 Milhas, 100 ou 70 km, é um pormenor de elevada qualidade, bem como a medalha de finisher.

Em 2015 lá estarei, à partida para mais uma aventura. Acompanhem-me. Vale a pena!

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terça-feira, maio 27, 2014

Ser feliz no Faial

A vida é um encadeado de momentos. O momento normalmente determina o encadeado seguinte.

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Chegados à Horta, depois de um calmo e madrugador voo que nos levou a Lisboa primeiro, começou a diversão de qualquer prova de trail. Um americano – Terry Sentinella - oriundo do Alasca e finisher de provas de renome, como a Badwater, que se revelaria puro, divertido e simpático, presenteava o Mário Leal (Diretor da Prova) com o presente mais adequado a um atleta – uma bela garrafa de whiskey do Kentucky. “Tastes like honey”, diria a Amy nessa tarde, amiga que o acompanhou na sua estreia no continente europeu e na terra do avô, deliciada com o toque doce do mel a abafarem os 40º de álcool, quando nos levaram (a mim e ao Miguel) à sua “suite” (tinha wc privativo, logo…) para um rápido “shot”.
Inevitável nesta ilha é a visita ao Peter Café Sport. Não sei bem a história do dono e fundador, mas será alguém que chegou à Horta, e como qualquer um de nós se apaixonou pela paz e beleza envolventes, e que como tantos outros, por ali ficou. O nome do Bar tem “Sport”, fomos então provar o refresco que, como diria o Terry Sentinella, “it’s a funny drink; Tastes like lemonade”. E sim, tem limão e também algum Gin. O resto da tarde foi passada à procura de um restaurante de peixe, que nos levou à conclusão que são raros, à visita a uma exposição brilhantemente dirigida pelo João Melo - que a par do Mário teve a grande responsabilidade de unir todos os organismos de promoção turística e defesa do ambiente da ilha a trabalhar meses a fio para proporcionar um fim de semana de trail inesquecível-, sobre as espécies (mais que muitos milhares) da imensa diversidade que dá cor e vida à ilha (sabiam que a hortênsia, tão característica da ilha a que chamam azul, pela sua cor, é exógena? Curioso como pode vir de longe o que tanto nos virá a caracterizar). A tarde foi  rematada por plantação de árvores numa zona onde até há pouco tempo havia uma lixeira a céu aberto. A ilha está mais verde.
O dia acabou com um repousado e tranquilo jantar entre amigos de longa data e outros recém adquiridos, sendo que os de “longa data” não são de há muitos anos, mas como são do trail assim parecem, como ficam agora estes recém chegados. Somos de uma tribo estranha que se entranha.

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No dia seguinte, à hora que tinham marcado comigo e com o Miguel para irmos verificar percursos e marcações (trabalho que o João Meixedo e o Vítor Dias andavam a fazer há já 2 dias), lá estavam à porta da base de todo o evento – Hotel Horta – o Hélder e o João. O Hélder, Vigilante da Natureza, trabalhou durante mais de 7 meses com os agricultores locais, na recuperação de trilhos que haviam sido completamente engolidos pelos movimentos de terras do terramoto mais recente a atingir o Faial, em 1998, e que teve como Freguesia mais afectada a Ribeirinha, de onde partiria no dia seguinte a nossa prova. Rapidamente nos apresentamos, tomamos um café e bebemos as suas explicações sobre o enorme abalo que a ilha sofreu e que tanto destruiu naquele lugar. Muitas das casas permanecem abandonadas e quase em ruínas. A Igreja e o Farol continuam de pé mas com aspecto de edifício em ruína eminente. Cumprimentamos o “Agostinho, agricultor que melhor conhece os caminhos antigos deste lado da ilha”, disse o Hélder, antes de nos levar ao cimo de um monte que escondia um belíssimo trilho “com mais de 60 degraus”, dizia num sotaque ligeiro, – dizem que os Faialenses que são os que “melhor falam português, a par de Coimbra” – e que se revelariam mais numerosos (171, contei). Admirada a paisagem junto ao Farol da Ribeirinha, onde a Ilha perdeu mais de 40 mt de território, engolido pelo mar depois de sacudido pelo abalo sísmico, seguimos cordilheira fora, mergulhados num denso nevoeiro que nos permitia apenas apreciar até pouco mais de 100 mt. Chegados aos mais de 1000 mt de altitude, na caldeira do vulcão, nem 5 mt de visibilidade; teríamos de esperar um dia perfeito, para no dia seguinte podermos desfrutar de uma paisagem magnífica, de onde avistaríamos “o Pico, São Jorge, a Graciosa e lá em baixo a cidade da Horta”, dizia o nosso guia. O João, Geógrafo do Parque, explicava a formação vulcânica da ilha, e dizia-nos que aquele vulcão era o maior e mais recente, excluindo o dos Capelinhos em 1958, estimando a sua última atividade há uns “recentes (!) 8, 9 mil anos. O primeiro terá sido junto à Ribeirinha, onde começou a formação da Ilha, há provavelmente mais de 500 milhões. Curioso que, a ausência de atividade vulcânica e a continuação de atividade sísmica, já levaram, por exemplo, a que ilha de Sta Maria tenha perdido cerca de 10% do seu território. Assim passamos parte do dia, bebendo história e geografia de dois, já podemos dizer, dos amigos que fizemos no Faial. Como eu e o Miguel somos tanto de correr como de comer, questionamos onde seria o melhor lugar para se comer peixe. A resposta veio rapidamente com um convite para uma pescaria com o Hélder, que logo nos esclareceu a falta de restaurantes de peixe; ele é tão abundante, que “basta” ir ao mar pescá-lo. Seria o que faríamos dali a dois dias. Neste dia andávamos na Serra, na ausência de caça, e como a hora de almoço se aproximava, lá fomos os 4 à Maria Evelina (ou Café Rumo), na Praia do Norte. O João e o Hélder começaram a falar de petiscos e nós não nos fizemos rogados. Gostamos tanto daquilo que fomos lá todos os dias, excepto no dia da prova. Nesse mesmo dia, à tarde, trocamos a viagem de barco para observar as baleias, e repetindo a visita, dedicámo-nos a treinar para sermos uma, comendo deliciados a linguiça, os queijos, os torresmos de carne em vinha de alho, a salada de polvo, o inhame, o pão de massa sovada (tão bom) e a batata doce que o Rui e o Leonel nos puseram na mesa. O João Mota, que tinha chegado nesse dia, e a Susana ainda se deliciaram com uma deliciosa sopa de feijão vermelho. Uma barrigada. À noite, depois do briefing da prova e do jantar buffet servido no Hotel, ainda comentávamos os deliciosos petiscos e fazíamos contas ao tempo para voltar à Praia do Norte. Dois dias depois da prova voltei lá, literalmente a correr, depois de fazer meia volta à Ilha, mais de 29 km por estrada, onde abundam os chafariz e escasseia o trânsito automóvel. Vale a pena, como vale a pena uma descida à Fajã e uma subida à Ribeira das Cabras, onde a vista é deslumbrante.

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O dia da prova estava “de encomenda”, como se diz quando os astros se alinham e tudo é perfeito. Um dia lindo de sol presenteou-nos tudo o que a ilha tem de beleza para oferecer. Pouco mais de 45 km com subidas lindíssimas e duras, cobertas por denso arvoredo, algum estradão, muito verde, muitas vacas (que mugem de quando em vez, admiradas com tamanho burburinho, habituadas que estão ao sossego), um sem fim de voluntários em todos os cruzamentos e abastecimentos, aplaudindo do primeiro ao último (sim fui quase último) e a população toda simpática, sempre a incentivar. A Susana, deliciada pelas paisagens, andava devagar como se não conhecesse a ilha. Eu, que queria desfrutar ao máximo de toda aquela envolvente, recostava-me sempre que me espantava com o que a vista via. Demorámos mais de 2 horas a percorrer os 6 km da cratera do vulcão. Deitei-me, tirei fotografias, procurei (e encontrei) S. Jorge, o Pico e a Graciosa, até ser envolvido de novo pelo nevoeiro e ficar com aquela sensação de quem quer tirar uma foto ao por do sol, mas demora tanto que ele se põe antes de carregar no botão da máquina. É aquilo que nos leva a todos ao trail. Aquela fantástica vontade de ir mais alto para vermos mais além. A vontade de mergulhar na natureza e sermos parte dela. A vontade e capacidade de sermos parte de um mundo que ali está exatamente como deve estar: Como a natureza quer.
Os açorianos podem estar orgulhosos do que conseguiram fazer neste Mundo de ganância, onde se planeia pouco e se tenta ganhar ao máximo, sem pensar em consequências. Ali nota-se que há planeamento. O urbanismo faz-se onde deve ser feito, habitualmente longe de linhas de água e nunca em levadas, a natureza é conservada e bem tratada, o que faz com que, à semelhança de poucas mais zonas do globo, se conserve uma beleza natural imaculada. A ilha tem habitantes, não foi urbanizada nem desvirtuada a favor do humano.
Foram as 8h58 mais bem passadas em provas de trail até hoje. Num ambiente natural fabuloso, com a companhia da Susana, sempre alegre e paciente a escutar as histórias que eu tinha decorado do dia anterior e desbobinava armado em guia turístico, divertindo-se, mas que pouco se importava com a origem da ilha e que cada vez mais desejava era um ribeiro onde enfiar as pernas. Curiosamente a ilha é muito verde, mas apenas corremos numa levada, não tendo cruzado nenhum ribeiro ou queda de água. O final foi duro, muito duro, com duas subidas agressivas, uma em alcatrão, outra por trilhos desenhados com eficientes degraus, entre fajãs e vulcões. A última subida, por degraus muito desnivelados, com uma agressividade daquelas que nos fazem sentir as pulsações algures entre os olhos e os ouvidos, precedia uma descida igualmente por degraus de paus, onde os músculos “tiravam senha” para darem espasmos. Aqui só me dava vontade de rir, ao ver-me a meio de um monte semelhante a uma montanha russa, onde no lugar dos carris havia escadas artesanalmente desenhadas em ramos de faia (a árvore que abunda na Ilha e lhe deu o nome), subir fazia rufar tambores na cabeça, e os músculos  das pernas faziam um  movimento semelhante ao das colunas quando o som é muito alto. Todo o corpo se descoordenava com tanta dureza.
A parte final da prova é semelhante a correr na lua, com cerca de 1 km nas cinzas do Vulcão dos Capelinhos, ainda sem vegetação. Ao fundo ouvíamos o speaker a pedir “barulho para o Rui e Susana”; a Susana desata às gargalhadas em sprint divertido a deslizar em direção à meta com uma alegria contagiante. Não sei se por sermos quase os últimos, brindaram-nos com o melhor final que tive até hoje. Eu, que estou habituado a chegar à meta com a festa já terminada, cheguei com uma simpática moldura humana que aplaudia e gritava. Até nisto esta prova se revelou exemplar. Parabéns ao voador Armando Teixeira (extraordinário atleta e de uma humildade fora do comum) e à já esperada vitoriosa Anna Frost. Parabéns à organização que esteve à altura do desafio de fazer do Azores Trail Run uma prova de referência nacional.
Nessa noite houve jantar de gala, com entrega de prémios, discursos e atuação de um grupo de dança de Pedro Miguel (Freguesia vizinha de Ribeirinha). Tudo impecavelmente planeado.

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No dia seguinte, vivemos como locais. É assim que se conhece verdadeiramente uma terra, vivendo como eles. Fomos com o Hélder e a Dulce (sua esposa) à pesca. Saímos às 6h30 da manhã, deslumbrados com um magnífico nascer do sol, e às 8h já tínhamos 4 “Peixe Serra”, mais de 20 kg de peixe para um belo repasto em casa do anfitrião que é conhecido por ser exímio pescador e se revelou um extraordinário ser humano. Aturou o nosso barulhento e sequioso grupo até às 11 da noite. Comemos lapas grelhadas, peixe serra, ovas grelhadas, tudo regado com vinho do Pico e rematado (para “desmoer”) com um licor de banana local, que nos afinou as vozes e a disposição.

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Guardo na memória muito que não consigo descrever. Não sei que mais terá sido importante para a divulgação desta prova, se a Anna Frost, se o ultra maratonista anónimo até há uma semana,  Terry Sentinella, ou algum dos outros famosos e anónimos que lá estiveram, se o facto de se ter conseguido realizar uma prova imaculada, atendendo às limitações da ilha, com a presença de mais de duas centenas de corredores que mais não fazem agora que provocar inveja em todos os que não foram. Por mim tenho-vos a dizer, aos que não foram, que, seja para correr, ou apenas como viagem de lazer, vão aos Açores porque vale a pena. Sabem aquelas ilhas paradisíacas do Pacífico, cheias de natureza no seu estado mais belo? Estão aqui ao lado. Chamam-se Açores. Não vejo a hora de voltar. De preferência para correr, e seguramente para conviver com as suas simpáticas gentes. O Faial é um excelente ponto de entrada num paraíso plantado no meio do Atlântico.

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A Ilha do Faial formou-se a partir de um encadeado de erupções vulcânicas, de Este para Oeste, sendo visíveis várias caldeiras a partir da caldeira do vulcão central da Ilha, onde começa o Trilho dos 10 Vulcões. Sim, são mesmo 10. Este fim de semana foi um encadeado de acontecimentos que geraram momentos de plena alegria, satisfação e convívio. Fui feliz em muitos sítios, e fui-o muito no Faial. Obrigado a todos os que me proporcionaram todo os momentos de alegria que produziram tamanha felicidade.

Vivam! Sejam felizes!

quarta-feira, maio 21, 2014

Viver

O bom que tem a leitura - o gosto pela descoberta de autores que nos são completos estranhos, desconhecidos do “bruá” literário, anónimos entre famosos, mas excelentes escritores – é que podemos andar entre filmes diferentes, saltar de realizadores, argumentos e argumentistas deste teatro global que é a vida.

O teatro foi a primeira arte com movimento desenvolvida pelo ser humano, para representar e mostrar vivências. Depois da pintura, o teatro trouxe-nos história, passada de boca em boca, até à escrita e consequente registo, também romantizado, das vidas que nenhum de nós vive.

Os livros fascinam-me. Gosto de mergulhar na escrita e sentir o que sentir  o que sentiria se fizesse parte do “filme” que leio. Gosto especialmente de me sentir um observador da acção, coisa que só conseguimos se o escritor tiver essa capacidade. Como não sou milionário, vou lendo o pouco que me vai chegando às mãos. Tenho tardes inteiras mergulhado em “frames” de livros, entre estantes da Fnac, ou manhãs mergulhado nos livros da Biblioteca Municipal do Porto, em S. Lázaro, para onde gostava de fugir em dias de adolescente, quando me via sem aulas, trocando os chutos na bola pelo silêncio da sala com cheiro a madeira poeirenta. Gosto de mergulhar na história de um local que morreu depois de ter vida preenchida, gosto de romantizar vivências que desconheço. Gosto de viver.

Descobri recentemente (provavelmente será vergonhoso) um “Pessoa” que não é Fernando de nome próprio, mas que me fascina quase tanto como o outro, pela simplicidade utilizada nos pensamentos, e pela escrita, fluente e atraente, pelos pensamentos que passa e pela assertividade do momento. Porque a leitura também é momento. E o momento que vivo levou-me a sentir este texto, que abaixo transcrevo, como um remédio para mim. Porque quero viver a minha vida com (os) outros, e não viver a vida de outros como actor secundário.
Nós somos o actor principal deste filme, desta peça de teatro, neste palco.

Viver é…

Viver é uma peripécia. Um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. Entre o ânimo e o desânimo, um entusiasmo ora doce, ora dinâmico e agressivo.
Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus, que também tem a sua vida. Viver é ter fome. Fome de tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera.
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar a nossa com a de ninguém. De um dia para o outro ela muda, muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem sentíamos antes e, possivelmente, o que não veremos nem sentiremos mais tarde.
Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças. E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre. A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, onde todos somos alunos. Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós para nós mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre uma impressão digital. A vida é um espaço e um tempo maravilhosos mas não se contenta com a contemplação. Ela exige reflexão. E exige soluções.
A vida é exigente porque é generosa. É dura porque é terna. É amarga porque é doce. É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-nos a nós encontrar as respostas. Mas nada disso é um jogo. A vida é a mais séria das coisas divertidas.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

sexta-feira, maio 16, 2014

A bordo do Alfa Pendular

Viajo no lugar 44 da carruagem 6, num Alfa procedente de Braga que já vinha apinhado quando atracou na Estação das Devesas, em Gaia. 
Viajar em linha férrea de alta velocidade ("alta" de vez em quando) tem enormes vantagens. Para além da rapidez do comboio - pouco mais de 2h30 para chegar a Lisboa - o rápido para a Capital está equipado com rádio e é extremamente confortável. Ponho os fones e lamento não vir o moderno trem "equipado" também com educação para os passageiros. 
Estou num daqueles lugares centrais, 2 bancos de frente para outros dois com uma enorme mesa a meio, onde vão duas mulheres, uma certamente sexagenária, - apesar do cabelo negro brilhante, curto, com franja alinhada por cima dos óculos rectangulares -, a outra, loira de cabeleireiro, imensamente gorda, com menos 10 anos, mais 20 cm e sem óculos. As duas no sentido da marcha eu de costas, ao lado de um adolescente que as acompanha. As duas vociferam alto, como se o coitado do moço que aqui vai à janela fosse mouco. Mouco vou ficar eu seguramente, caso apanhe muitas companhias destas nos comboios, já que, para não as aturar, pus o volume do rádio no máximo. Para meu azar, a rádio com melhor "captura" insiste em Bruno Mars (?), Shakira e Beyoncé e outras marteladas modernas nos meus tímpanos. 
O comboio está cheio, não tenho alternativa. 
A gorda, apesar de ainda estarmos em Aveiro, com 30 Mn de viagem, já bebeu dois ice tea de pacote. Agora atira-se a um pacote de gomas enquanto limpa o suor que lhe escorre da testa, mesmo que a temperatura cá dentro não ultrapasse os 22º (27º no exterior). À fome não morrerá. 
A baixa, apesar de minúscula, ocupa mais espaço com as pernas que eu, com 1,87. O puto adormeceu. As gajas agora discutem a vida de figuras públicas (aquele é o Ronaldo) apontando para fotos de uma revista cor-de-rosa. 
Triste sina a minha. Na carruagem 5, que cruzei quando fui tentar-me refugiar no Bar, - repleto com um grupo de turistas bêbedos -, nos mesmos lugares está um grupo idosos que usam aparelho nos ouvidos mas estão calados. Devem ter viajado muito com fones no máximo e danificaram os tímpanos. 
Vou-me refugiar no wc. Afinal, está a ser uma viagem de merda. 

quarta-feira, maio 14, 2014

Eu não quero o presente, quero a realidade


Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.
O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
                         como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.
Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.
Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

Somos seres intemporais.
Pessoa dizia viver sempre no presente, por não ter já o passado e por desconhecer o futuro. E depois brindava-nos com estes textos assinados por um dos seus pseudónimos, que demonstravam a sua enorme confusão relativamente à torrente de sentimentos que o cérebro nos proporciona, toldados pela razão, a que chamamos consciência, ou pelo coração, que mais não é que a vontade inconsciente, despoluída das normas sociais.

Podemos dispensar tudo o que não vemos?
Podemos dispensar tudo o que queremos?
Podemos viver egoisticamente sem olhar a quem ferimos, olhando apenas para o nosso umbigo?
Podemos. É o que fazemos.

Vivemos num presente, às vezes envenenado, outras encantado, consoante o que nos convém. Vivemos com pavor da chuva se precisamos do sol para secar roupa e com pavor do sol se precisamos da água da chuva para não morrermos à sede. Somos seres insaciáveis. Somos o que nos convém. Vivemos inquietudes que mais não são que coisas que não nos dão jeito que se passem ou existam.
Sorte a dos tolos, dos insensíveis sem consciência, que vivem à vontade dos seus sonhos, sem terem juízo suficiente para avaliar da conveniência para o próximo de qualquer dos seus actos.
Somos o que nos dá jeito com imenso jeito para justificarmos aquilo que somos.

Também tenho um “Alberto Caeiro” na minha existência. Também falo enquanto Fernando e dou lugar ao Alberto quando dá jeito esquecer a envolvente, a estrada que me guiou, os cruzamentos que escolhi.
Há uma diferença enorme entre ser o que somos, e sermos aquilo que queremos ser. O que separa estes dois estados? A coragem de assumirmos o que somos, sem pseudónimos, sem máscaras, sem meteorologia que nos condicione. É sermos egoístas o suficiente para sermos o Pessoa. As questões que nos colocarão a seguir cabem sempre numa excelente resposta, lacónica o suficiente para ser entendida: Porque sim. Porque quero. Porque a vida é minha e as consequências também.

Seremos todos felizes? Somos Pessoa com necessidade de um Caeiro? A liberdade é um conceito tão válido para uso de pseudónimos como para sermos abandonados pelo mundo por sermos quem somos. E nós somos o que pensamos.

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terça-feira, maio 06, 2014

Ultra Trail do Marão - O sonho começou de noite


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Porquê os 3 dígitos
 
Quando começamos a correr todos temos objectivos e sonhos. Há quem queira perder peso e ganhar qualidade de vida, quebrar a rotina e combater o stress ou apenas fazer desporto para manter a forma. Depois sonhamos em distâncias sempre superiores ao que estamos habituados a correr. Uns querem correr 10 km, outros 1/2 maratonas ou maratonas.
Quando comecei a correr tinha um sonho, mais simples ainda que todos estes: Correr de dia. Depois de atingido este objectivo, o de poder correr normalmente (não que estivesse proibido, mas persistia a incomodidade de, enquanto obeso, atrever-me a misturar-me no meio dos atletas; admiro os que o fazem), surgiram as provas. Primeiro de 6, 14 e 21 quilómetros.
Mais tarde, depois das maratonas e das ultras, começou a desenhar-se um novo desejo, uma prova de 3 dígitos.
Ponderadas várias hipóteses, surgiu o convite do Bruno para fazer vassoura de um dos três turnos previstos dos 121 km da Ultra do Marão. Aceitei com a condição de fazer o primeiro e assim poder prosseguir em prova, para tentar concluir a minha primeira acima dos 100 km.
Ali estava eu, depois de todas as formalidades cumpridas, alinhado com mais 74 atletas, na partida daquela que seria a minha estreia e do Marão nas ultras de trail, dada junto à belíssima Igreja de S. Gonçalo de Amarante, na margem direita do Tâmega. A chegada seria na outra margem. Muito público a assistir, uma envolvente humana fantástica, com a participação rara dos amarantinos, que aderiram em força e apoiaram todos os que partiram, depois de uma novel cerimónia de benção da
prova pelo Padre local. A mole humana duraria toda a prova, e por todo o percurso.
 
A Prova
 
Sem querer ser muito descritivo - não gosto de ler descrições de provas, nem gosto muito de as fazer - posso apenas dizer-vos que o Marão e serras cercanas, têm das paisagens mais espetaculares para trail, dos trilhos mais bonitos e das subidas mais dolorosas que conheci até hoje. Corri em paisagens de um verde imenso, pontes de madeira suspensas em árvores, densas florestas de castanheiros, levadas intermináveis que serpenteavam aldeias a despertar da bruma da madrugada, na primeira noite, rios selvagens que ladeiam as imponentes encostas do Marão já durante o dia e onde repetidas vezes me refresquei. As suas gentes são do mais hospitaleiro que existe, como comprovam as opiniões sobre os voluntários locais, do mais extremoso e simpático que vi em provas, bem como da população em geral, que nos apoiou à partida, à chegada e por onde íamos passando. O percurso delineado mostra que houve algum exagero após os 50 km, tendo o restante sido bem escolhido; aqui e ali, eventualmente devido ao forte vento de véspera, deficientemente marcado, mas em geral bonito e agradável. Não havia era necessidade de “castigar” os atletas da ultra com descidas em escombreiras de pedra solta, com pendentes superiores aos 30%. Na véspera, ao jantar, encontrei o Luís Duarte, que se classificou brilhantemente em 2º lugar, que me dizia não ser possível descer ali a mais de 3 km/h. Devo ter descido aquilo, enquanto chamava todos os nomes do vernáculo ao Bruno Silva, a 0,3 km/h. E de noite.
Quanto ao resto não me pronuncio, fiquei ali quando o meu GPS marcava 93 km, quase 7.000 mt de desnível positivo acumulado e mais de 21 h de prova. Na informação do PAC constava “Sedielos, km 74”. Ainda ponderamos, eu e o António Morais prosseguir em prova, mas um bombeiro alertou-nos para o que ainda vinha, e que o primeiro classificado tinha concluído em 8h, de dia. Os relatos que nos chegavam da meta eram de 54 km de percurso, que somados aos já feitos, iam dar nuns mais de 145 (!). Não sei hoje se os teria terminado. Sei que no dia seguinte estava quase pronto para mais 90 km com a mesma intensidade.
Dos 74 atletas que partiram, apenas 16 concluíram a prova, o que demonstra que muita coisa não correu bem. Na minha opinião, esta Ultra do Marão merece uma segunda oportunidade, assim os organizadores a saibam conquistar. Há muito para melhorar e algumas coisas não se devem estragar. Amarante merece uma prova destas, o Marão também (e vai ter outras) e Portugal tem tudo a ganhar com a inclusão desta serra no panorama do trail internacional. A par da Estrela, Gerês e da Madeira, têm condições únicas para a prática desta apaixonante modalidade.
 
O Futuro
 
A Associação de Trail Running de Portugal tem de ter um staff de certificação de provas. Tem de acabar em Portugal o hábito de se certificarem provas no “papel”. Não se podem anunciar 121 km e saírem mais de 140. Este foi o principal pecado desta prova, e consequentemente o desfasamento entre o esperado pelos atletas quanto a abastecimentos e o que acontecia na realidade. Não podem haver provas cujo percurso (incluindo tempos limite) não tenham sido aferidos por alguém com experiência comprovada, e cujos km tenham sido aferidos por um comum GPS. O Google Earth falha demasiado.
A segurança destas provas tem que ser pensada para o último dos atletas, para o mais baixo e para o mais lento, sem exageros, claro. Mas não se podem fazer saídas por zonas perigosas apenas para não repetir trajetos. Podíamos ter ido a todos os locais onde fomos no Marão, fazendo como fazem os organizadores do Ehunmilak no Txindoki: Se só há um acesso, faz-se um controlo no alto. Não há que inventar.
Os controlos falharam, houve atletas barrados no km 95 da prova (20 km depois do lugar onde eu estava), que eu tinha passado 20 km antes, no alegado abastecimento dos 60, na Sra da Serra. Como? Fácil. Não desceram à Ermida e foram em frente pelo estradão até Mafómodes. Não deve acontecer.
Tudo isto deve ser aconselhado por um staff especializado da ATRP, que os deve recrutar e formar, para haver um critério uniforme.
Como consideração final, uma palavra de apreço ao Bruno Silva e restante organização do Marão Ultra Trail: Vocês sabem que fui um dos que mais desejou que esta prova se realizasse. Sei que tudo fizeram para que desse certo. Não tomem por perdido o tempo que gastaram a erguer a prova, melhorem o que há a melhorar e peçam ajuda. Onde mais cabeças pensam sai menos asneira. Preservem essa determinação de quererem fazer melhor, mas esqueçam a ideia de fazer mais duro. O Marão e suas cercanias têm dureza suficiente. Mando por vós um especial agradecimento às gentes de Amarante, que tão bem nos receberam, e a toda a equipa de voluntários, foram sem dúvida excepcionais.
Por fim, um especial agradecimento ao Miguel Santos, cuja colaboração foi fundamental para que eu tivesse a oportunidade de continuar o sonho de dia; ao João Marinho, que se fartou de pedalar monte fora para apoiar todos, do primeiro aos últimos; à Susana, pelo fundamental apoio e constante motivação; ao Meixedo, que mesmo de longe não deixou de incentivar, e a todos, todos sem excepção com que me fui cruzando nos trilhos do Marão. Todos os que começaram este desafio foram bravos. O facto de apenas 16 terem concluído a prova demonstra-o na perfeição.
 
O que fica…
 
Emocionei-me algumas vezes ao olhar a beleza daquela serra. Não só pelas deslumbrantes paisagens, mas principalmente porque comecei a escrever esta crónica um dia antes da prova, começando pelo título, e lembrei-me em cada metro que subia naquelas encostas, de um Rui com excesso de peso, vestido de negro dos pés à cabeça, a sair de casa às 10 da noite para ir correr 3, 4 km, os que conseguisse. Lembrei-me dos mais de 50 kg que já ficaram pelo caminho, pelos milhares de km que entretanto percorri e me trouxeram até ali, ao sonho de ir sempre um pouco mais longe. Lembrei-me muitas vezes do Rui que os outros viam, porque, como alguém me disse hoje, “o Rui já lá estava, só que escondido”.
O meu sonho começou de noite, mas já viu o dia. Que o Ultra Trail do Marão saia também do breu onde se meteu. A prova merece.

sexta-feira, abril 25, 2014

Liberdade

 

liberdade

Foi há 40 anos.
Era miúdo, sou um dos da geração chamada de “Abril”, mesmo tendo nascido dois anos antes, em Outubro. Somos da geração “baby boom” à portuguesa. Portugal, apesar de direccionar grandes recursos para a guerra colonial, estava em franco crescimento económico desde a recente criação do EEE, espaço livre económico que precedeu a UE, e que juntara em 1973 os membros da EFTA aos da CEE. A década de 60, com a indústria a impor-se ao sector primário, caracterizou-se pela deslocalização das populações para as grandes cidades do litoral, concentrando-se quase 1/3 nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Apesar de todas as excelentes condições para o crescimento económico, o regime insistia num modelo caduco, que não deixava que o País crescesse ainda mais, e que nos levou a uma revolução com muitos méritos, mas cujo PREC levou à quase total destruição de um tecido industrial que nunca mais se revigorou. O crescimento económico não impediu contudo, a emigração, que atingiu o seu máximo nas décadas de 60 e 70, nem impediu que o analfabetismo mantivesse taxas acima dos 25%, ou que o regime mantivesse um controlo quase total da imprensa, nem que Portugal figurasse entre os poucos que mantinham colónias ultramarinas. Éramos um País retrógrado e amarrado.

Em 1974, com a revolução dos cravos e consequente queda da ditadura, o “pássaro fugiu da gaiola”. Ora, um pássaro que passa anos enfiado numa gaiola, quando libertado, raramente consegue voar muito e em perfeitas condições. Vejam os inúmeros animais criados em cativeiro que, quando soltos no seu meio natural, em liberdade, não conseguem sobreviver aos desafios que a luta pela sobrevivência impõe. O País, como um pássaro trôpego, andou a cambalear até estabilizar a meio da década de 80. 

A liberdade é um processo de aprendizagem. Todos nós fizemos imensas asneiras nos primeiros passos que demos em liberdade, enquanto adolescentes, quando os nossos pais acharam que nos podiam soltar um pouco as rédeas que nos mantinham junto a eles. Todos nós fomos aprendendo a sobreviver neste mundo, nesta sociedade que nos coloca permanentemente em desafio, que nos amarra permanentemente a um estigma social que nos tolhe a aparente liberdade.

40 anos são mais que suficientes para amadurecer. Já podemos em liberdade escolher caminhos, escolher destinos e escolher os nossos erros.
É isto que significa a liberdade: A capacidade de podermos escolher livremente o nosso destino, reconhecermos nós próprios as nossas fraquezas, sem estereótipos, e podermos liderar o nosso caminho rumo à felicidade.

Soltemo-nos de gaiolas e amarras.

Vivamos a liberdade!

Oração do corredor

 

Endorfinas nossas que estais no cérebro
Fazendo-nos sorrir depois de cada empeno
Duplicais a vontade de correr
Esteja o céu azul ou carregado de negro

Força para a corrida de cada dia nos dai hoje
Perdoai-nos as nossas preguiças
Assim como nós perdoamos a quem nos ultrapassa

Dá-nos forças correr nos trilhos ou na estrada, mas livrai-nos de lesões.

 

Amen

quinta-feira, abril 17, 2014

Grupo que não está a $oldo

Existem vários grupos no Facebook. O fenómeno das redes sociais é exponencial e um excelente meio de divulgação de produtos, eventos, trocas de ideias, textos (eu próprio me farto de o usar para divulgar as coisas que aqui vou escrevendo) e muitas mais coisas que se vão lembrando de partilhar com amigos e seguidores desta enorme comunidade de internautas, que já não dispensam a consulta mais ou menos regular, para acompanhar as tendências e acontecimentos mediáticos.

Criei há algum tempo um Grupo (Trail Running Tuga), no sentido de partilharmos, os que o praticamos e os que o querem praticar, algumas ideias de treinos, especifidades técnicas, treinos conjuntos, produtos aliciantes (como prova a compra por parte do Mauro Gonçalves, sem qualquer vantagem pessoal de umas dezenas de GPS a preço mais competitivo, pela quantidade negociada) e divulgação de provas.

Inevitavelmente, e com o crescimento do desporto, começaram a haver partilhas de páginas de lojas on-line, de espaços físicos de venda de produtos, sem prejuízo dos habituais posts de divulgação de saldos em lojas da especialidade sempre que descobertos por algum membro mais atento e com sentido altruísta de partilha de informação que todos apreciamos. É para isto que este grupo existe, e foi para isto que ele foi criado.

Há algumas semanas apareceu uma publicação de um membro, com um anunciado excelente negócio, promovido pelo próprio, de frontais a um preço irrisório quando confrontado com as centenas de “lumens” anunciados e durabilidade do produto. Entretanto foi contestado por outro membro, o Luis Leite, “velho” conhecido dos trilhos, que, atentamente criticou o oportunismo e divulgou um site (http://www.dx.com/pt/p/zooming-cree-q5-200lm-2-mode-1-led-white-light-headlamp-3-x-aaa-3-6-4-5v-117193, aproveitem) onde os ditos frontais são vendidos a menos de metade do preço pedido pelo utilizador que utilizou o grupo como “banca de venda”, portes incluídos, e atestados em prova pelo próprio. Também eu lhe ia, repito, ia(!), (já não vou) comprar o dito frontal, mas como me sinto usado e enganado (o espírito do grupo está descrito e não serve para oportunistas), já contactei o dito atleta e declinei a oferta. Tudo isto porque o membro do grupo, confrontado com as questões do Luis, decidiu ignorar e abancar o post com comentários típicos dos grupos que servem (esses sim) para a venda de produtos. Vou eliminar o post, se o utilizador insistir na sua publicação será banido, como todos os que já tentaram vender óculos, barracas, créditos, bugigangas ou outros produtos que não respeitem o espírito altruísta do grupo.

Este grupo não foi criado com objectivos comerciais. Serve apenas e só para partilhas que possam valorizar o conhecimento de todos, serve para partilhar experiência, serve para servir.

terça-feira, abril 08, 2014

Juízos e liberdades

O Juízo da Perturbação

Se estás aflito por alguma coisa externa, não é ela que te perturba, mas o juízo que dela fazes. E está em teu poder dissipar esse juízo. Mas se a dor provém da tua disposição interior, quem te impede de a corrigir? E se sofres particularmente por não estares a fazer algo que te parece certo, por que não ages, em vez de te lamentares? Um obstáculo insuperável te o impede? Não te aflijas, então, pois a causa de não o estares a fazer não depende de ti. Não vale a pena viver se não o puderes fazer? Parte, então, desta vida satisfeito, como partirias se tivesses logrado êxito no que pretendias fazer, mas sem cólera contra o que se te opôs.

Marco Aurélio (Imperador Romano)

Se já era assim no tempo de Marco Aurélio, assim continua nos nossos dias. Andamos preocupados com o que a sociedade pensa de nós, ajuizando permanentemente o que ela sentenciará de cada passo, cada atitude, cada vontade demonstrada em fazermos o que quer que seja, abdicando de viver o que desejamos. Perturbamo-nos depois por não fazermos o que queremos ou queríamos fazer, abdicando do livre arbítrio que todos temos e de que quase todos abdicámos. Os loucos, esses, ficam com o bom da vida, a despreocupação. A consciência, essa guilhotina que vem acoplada ao ser humano e que os nossos educadores tanto trabalham, leva-nos os sonhos como as enxurradas levam a água. Felizmente, depois de toda a intempérie surge nova vida, e muitas vezes, onde havia flores, voltam a nascer flores.
Temos que fazer uma permanente avaliação de tudo o que se passa nas nossas vidas? Não obrigatoriamente. Mas devemos seguramente avaliar se estamos a ser capazes de fazer tudo aquilo que nós, e apenas nós, esperamos da nossa vida. Egoísmo? Não me parece.
Devemos procurar as nossas meias laranjas, os testos das nossas panelas, os legos que encaixam nas nossas peças, porque é isso seguramente que todos os outros fazem.
Afinal, procurar o que é melhor para nós, apesar de um acto individualista, faz-nos ser, em primeiro lugar, leais para com nós próprios, não abdicando dos nossos projectos, e isso, quer queiramos ou não, é o que faz com que os outros possam encaixar nas nossas vidas. Se não encaixam é porque as peças não são compatíveis.
Vamos ser felizes e deixarmo-nos de merdas? Vamos lá!

sexta-feira, abril 04, 2014

Atestado de virgindade

Cruzei-me com este texto há alguns dias. 
É um certificado requisitado durante séculos e que, como os certificados de bons costumes exigidos para cargos públicos, passados pelos párocos a troco de umas moedas, ou pelo chefe da polícia a troco de uns copos de três, eram exigidos às mulheres antes de casarem, e normalmente atestados por parteiras experimentadas. 
É digno de ser lido. 
Perdoem o vernáculo, mas a senhora não tinha formação académica.

Atestado de Birgindade

 

Eu, Bárbara Emília, parteira que sou de Coyra, atesto e certufico pela minha onra que Maria de Jesus tem as partes fodengas talinqual como veyo ao mundo insceto umas pequenas noidas negras junto ao alto do monte da crica que a não seren de nacenssa sarão porvenientes de marradas de piça.

Por ser verdade pasei o prezente atestado de virgindade.

Bárbara Emília das Dores

sexta-feira, março 28, 2014

Transpiração, superação e inspiração

Faz amanhã precisamente 20 dias que cheguei, pela segunda vez em menos de um ano, a Santiago de Compostela depois de 5 dias de corrida. Foi o meu segundo “Caminho”.

Este introito serve apenas para justificar a vontade que me tem dado de correr. Muito. Tenho feito quilómetros e quilómetros a correr a ritmo de Santiago, com mais vontade de desfrutar do prazer da corrida do que propriamente treinar. Ontem repeti o treino de anteontem, que imitarei hoje. 22 km essencialmente pelas marginais de Gaia e Porto, depois de uma incursão ao Parque da Cidade. Durante o percurso, sozinho, pensava na grande mudança que um bom hábito pode trazer às nossas vidas. Não vou especificar pormenores que todos conhecemos, da melhoria da saúde à inevitável euforia da evolução, superação e permanente desafio, vou-me cingir ao quanto mudei nos últimos anos. A corrida molda-nos. Não vivemos a correr, passamos a ser corredores na vida. Deixámos paixões que não compreendam esta nossa paixão, a que chamam obsessão, descobrimos ligações a, até aí, perfeitos estranhos, descobrimos pontos em comum com uma série de gente que partilha do gosto de liberdade, crescemos enquanto seres humanos e transformamo-nos enquanto membros de uma sociedade que não nos compreende até provar do mesmo prazer.

Dizem-me que a corrida me mudou. Sei que já não sou o mesmo que era há 6 anos. Mas gosto desta mudança permanente, incompreensivelmente atraente, para quem, como a maioria de nós nos dias de hoje, tanto apreciava a estabilidade. Aprendi a ser inconformado, a lutar por sonhos, por objectivos, nunca desistir de sonhar e usar o sonho como motor da busca do que nos traz felicidade.

Há 20 dias, os que à saída do Porto enfrentavam um Caminho que tempos antes julgavam impossível, sabem agora que podem continuar a sonhar. É isto que tanto gosto de transmitir a quem começa a correr, ou a quem quer evoluir na corrida enquanto meio de prazer, de transformação.

Não é apenas a corrida que nos molda, somos nós que encontramos na corrida o verdadeiro banco de ensaios para o que, até um ponto da nossa vida julgamos impossível. Por isso sorrimos quando devíamos conscientemente praguejar, enquanto o nosso subconsciente nos transmite a satisfação da vitória, a satisfação de sabermos que é mais uma vitória em cima da vitória que é começar.

E é este o resultado de toda a nossa transformação: De repente voltamos a ser imortais, tudo é possível; o céu, esse imenso infinito, é o limite. 

segunda-feira, março 24, 2014

Correr, desporto ou paixão?

Azáfama, rotina, trânsito, emprego, contas, compras... Tudo contribui para irritar o dia-a-dia de quem quer que seja. 
Agora, experimentem apaixonar-se. Pela corrida, pelos filhos, pela família, pela vida, por alguém...
A paixão satisfaz pela intensidade, pelo desfruto completo, por se beber tudo sem deixar pingar gota, na paixão tudo se sorve sofregamente. 
Acontece-nos isto com tudo. Apaixonamo-nos e tudo corre melhor. O trânsito flui, as contas pagam-se, a vida flui, enfrentam-se as dificuldades com um sorriso nos lábios. Até os lugares para estacionar aparecem. Não é sorte, é o cosmos que se alinha para nos agradar. 
Apaixonem-se. Vivam apaixonadamente. Corram com paixão, descomprometidos, apenas virados para o prazer. Num fim de um momento de paixão, tudo flui. Os astros alinham-se, ou aninham-se perante a força que daí surge. 
Digam lá, não vos acontece o mesmo? Sempre que acabam um daqueles treinos intensos mas recompensadores de endorfinas, não corre tudo melhor? O trânsito deixa de chatear, cedemos lugar na fila, temos paciência para tudo e mais alguma coisa... Até o lugar para estacionar naquela rua difícil aparece. 
É a paixão. Viver sem paixão é horrível. Apaixonem-se! 

quinta-feira, março 20, 2014

A vida continua

Apesar de às vezes não parecer, apesar de, de quando em vez, o universo parecer parar, apesar de termos projectos, vidas em comum, ideias, compromissos, há que saber quebrar elos das cadeias que nos ligam. Muitas vezes quebram-se os elos, saímos e voltámos a fechar, mantendo quem lá quis ou teve que ficar.

Podemos até saltar, fechar ciclos, terminar projectos, começar outros e ir abrindo portas e fechando janelas pelo labirinto em que transformamos as nossas vidas, mas a vida há-de sempre continuar e persistir. E todos os elos que fechámos e mais tarde acabámos por quebrar, não hão-de deixar de ter a marca de abrir e fechar. Vamos soldando e solidificando relações nesta cadeia chamada vida e que no final será um enrodelado novelo de cadeias com elos cortados e que pesarão sobre nós enquanto vida que fomos vivendo e alterando como um desenho animado. No final restarão as experiências e as relações que fomos capazes de alimentar, fazer crescer e romper.

Tudo na vida tem um fim. Nas nossas vidas seguramente. Mas a vida continua. 

sábado, março 15, 2014

Caminho de Santiago 2014 - Crónica final

 

O que sobra do sonho ou da loucura, e o que vivemos nos 5 dias do Caminho?

 
Há um ano, quando me falaram em correr em 5 dias consecutivos 5 ultra maratonas, imaginei-me a arrastar-me algures entre Barcelos e Ponte de Lima, com o desespero de saber que ainda estaria em Portugal, a meio caminho de Santiago, e com 4 pessoas que corriam muito, à minha espera, arrependidos de me terem levado. Nada disto aconteceu. O que aconteceu foi a fantástica revelação no Caminho de que eu seria capaz.
Este Caminho, com este grupo, começou há poucos meses quando lançámos o desafio de repetir a façanha, agora enquanto guias e com apoio logístico, a quem quisesse desafiar os seus limites e testar a capacidade de superar medos, limites físicos e mentais que todos julgamos conhecer em nós próprios, mas cujo limite ignoramos até o testarmos. Foi isso que eu vi neste Caminho, superação. E introspecção, como mostra a foto abaixo.

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Primeiro dia

O grupo formou-se aleatoriamente. Dos 8 que aceitaram o desafio, só a Paula e a Patrícia se conheciam, todos os outros eram perfeitos desconhecidos, excepto para nós, organização. E é aqui que começa o encanto do Caminho.
No primeiro dia, depois das despedidas na Sé e da imensa estrada, chegados a Barcelos, depois de 55 km a correr, todos tinham a sensação que eram capazes de dobrar o Mundo, depois de passarem pelo muro que julgavam conhecer. Dos 8, apenas o Mário Leal e o Renato tinham alguma vez feito tantos quilómetros, e só a Susana tinha feito mais que os 64 com que acabámos o dia. E foi fantástico percebermos que, os até aí 8 desconhecidos, em grupo, foram sem se deterem desafiar os medos e partir, quase no breu, rumo a Tamel, como se o corpo se fosse aperceber que já tinham mais que a conta e colapsasse. Não colapsou nenhum corpo, mas as mentes abanaram. Já mergulhados na noite, experimentámos pela primeira vez aquilo que viria a ser uma constante, a divisão do grupo, onde uns aceleravam, outros se atrasavam, e nós, os que devíamos e queríamos todos acompanhar, aprendíamos logo ali como gerir todos os sentimentos e vontades. Uma aprendizagem, este primeiro dia. Para todos. Para todos menos para a Naná, que se não é, parece incansável. E eu diria perfeita guardiã, como puderam todos constatar e testemunhar logo no primeiro dia.
 
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Segundo Dia
 
O segundo dia roçou a perfeição. Todos acordaram com disposição de continuar, sem grandes maleitas, e com o Minho brindado com um excelente dia primaveril. A decisão da véspera reservou-nos para este segundo dia um belo carrossel por entre campos verdejantes, aldeias milenares, a mais antiga Vila de Portugal e a bela Serra da Labruja. Já adaptados aos diferentes ritmos, ninguém reclamou andamentos rápidos ou lentos, ninguém se inibiu de parar para um ou outro mergulho, houve pares que se adiantaram, outros que atrasaram, houve até a oportunidade do Mário se perder na Labruja, correr desalmadamente e fazer mais 5 quilómetros serra acima, serra abaixo. Foi dia de cada um sentir o seu Caminho. Uns celebravam 100 km em 2 dias, outros o desejo de encontrar um qualquer "Eu", exterior ou interior, enervando-se com a possibilidade de estar ali ao lado da seta amarela. Todos sentimos o Caminho em grupo, mas todos o sentimos de forma diferente. O Caminho tomado foi aparentemente o mesmo, mas só seguimos as mesmas setas. Cá dentro, de onde tirámos motivação para o fazer, seguimos caminhos mais ou menos tortuosos, mais ou menos floridos, carregados de gerberas ou de rosas com espinhos, mas todos seguimos em busca do altar espiritual. O do corpo já todos o tinham. O meu um ano antes, o dos 8 na véspera, o dos outros guias também já tinha sido descoberto, sentiam agora as dores do grupo como deles, e viam o altar em Santiago, mas o Calvário ia continuar.
 
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Terceiro dia
 
Um dia de dúvidas, de incertezas quanto à capacidade de todos chegarem ao destino, o da dita revelação, onde todos se chatearam com o Caminho, naquele que foi o primeiro "arrufo" numa relação que até aí só tinha melhorado. Não que o Caminho tenha mudado muito, só porque havia mais lama, mais civilização e os seus agressores, os carros e o progresso, o empedrado que massacrava os pés, depois de um spa de mais de 40 km da véspera, onde os pisos em terra e os cursos de água imperaram e amenizaram as dores da carga física. Depois de entrarmos em Espanha, mais estrada, mais km, uma longa etapa matinal que nos fez recalibrar as restantes e adaptar os encontros com a Naná, que tão bem repousa os mais cansados e os menos crentes.
Mas não deixou de ser dia de surpresas agradáveis. Do bom senso de alguns, à entrada do Miguel no grupo e animação correspondente, do crescer da paixão com o Caminho, do encontro de todos com o muro dos 5 dias, físico e psicológico. Foi um dia que custou a passar, mas não tanto como os 5 ou 6 km da reta da zona industrial que antecede Porriño, e que tem agora uma agradável alternativa, abrigada por um arvoredo denso e a calma do campo.
À noite, já depois de instalados, o jantar, os brindes, as trocas de olhares aliviados, as brincadeiras, os sentidos já adaptados às queixas do corpo, mas a alma mais perto de encontrar o que todos buscaram no Caminho. Foi um dia parecido com aqueles bolos que demoramos muito tempo a fazer, queimamos a base, mas a cobertura sai excelente. Não foi a cereja no topo do bolo, mas foi seguramente uma massagem num ego que já estava em défice.
 
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Quarto dia
 
Com tantos quilómetros já perCorridos, o cansaço acumulado, e em mais um dia de sol e calor, o Caminho nas zonas mais rurais estava despido de peregrinos. Não me recordo de nos cruzarmos com algum nos trilhos entre Redondela e Pontevedra, onde há quase um ano se multiplicavam os “bicigrinos”, desta vez reservaram-os só para nós. Os sons da natureza, um rio que corre, um corvejar de um corvo em busca de parceira. Os percursos por entre a natureza só foram interrompidos pela passagem em Pontevedra, onde o Mário nos obrigou a dar a volta para apanharmos uma Escola de Samba que, ao som de rufos de tambores, dançava e nos pôs a dançar animadamente. De novo mergulhados nos campos e acompanhados pela beleza daquelas bandas, voltávamos à habitual dança entre o trilho e as águas das imensas fontes, ribeiros, quedas de água, onde inevitavelmente a Susana mergulhava. A certa altura, temendo maiores atrasos, a Patrícia pedia-lhe que evitasse olhar para a água. Impossível foi evitar um magnífico cenário que rodeava um antigo Mosteiro com uma estátua de um clérigo na entrada, sentado num banco à imagem de Pessoa. Inevitável foto e seguir caminho. 100 mt à frente, o João Casal e a Patrícia comiam kiwis. O Caminho dá imenso. Claro está que fomos os últimos a chegar ao local de almoço onde nos esperava a Naná; mas como dizia num quadro de um café próximo do local onde almoçamos, “a tartaruga conhece melhor o caminho que a lebre”.
À tarde, comemorámos os 200 km de Caminho, já muito perto de Caldas de Reys, onde pernoitámos a sonhar com Santiago, ali tão perto.
 
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Quinto e último dia

Finalmente Santiago. O último dia, mais uma vez cheio de serpenteados belíssimos entre campos verdejantes e aldeias que respiram Caminho e acarinham os peregrinos, foi de alegria e ansiedade. Fomos fazendo os quilómetros até Padron com espanto pela beleza do Caminho e do estado dos corpos dos corregrinos, ajudados por uma temperatura mais baixa e com uma leve cortina de nuvens, que não escondendo completamente o sol, atenuava a sua força. Um corregrino tinha dado baixa, (teremos de voltar a Caldas de Reys e fazer com ele o que resta até à Praça do Obradoiro), e um ou outro que já "rangia" com o excesso de carga, mas que no geral continuavam a responder às cabeças que os balanceavam na direcção de Santiago de Compostela.
A chegada à Catedral, em grupo, foi o culminar de sonhos, vontades e muita superação.
Ainda estou a ver a emoção de uns, o espanto de outros por terem conseguido, a certeza de outros que sabem que ali não era o final, mas o início de outro Caminho, e o sentimento geral de satisfação pelas conquistas de todos. Foi, enquanto grupo um Caminho de sucesso.
Quanto aos "Eus" interiores, não sei se alguém encontrou respostas para algumas questões que trazia. Venham os nossos caminhos, as nossas vidas, que apesar de parecerem inacabáveis, ou mesmo perfeitas, são como o Caminho de Santiago, sinuosas, às vezes penosas, mas seguramente transitáveis.
E agora? Agora sei que tenho setas para seguir. Como o Mário na Labruja, por muitas setas que perca, por muitas voltas que dê, pese o cansaço dos km acumulados, hei-de encontrar o Caminho que me leve. Assim tenha sabedoria e coragem para os seguir.
 
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Agradecimentos
Carlos Natividade, Mestre inspirador, com a incansável Naná a seu par, são um exemplo de harmonia. Há pouco tempo alguém me dizia que acredita nos amores verdadeiros. Está aqui, à vista de todos. No Caminho, o Carlos sempre a liderar, e a Naná a apoiar-nos a todos, sempre com um mimo para dispensar.
João Meixedo e Miguel Santos, o primeiro a liderar ou a fechar o grupo, sempre atento às necessidades de todos. O Miguel, no terceiro e quarto dias, a apoiar e animar todos, quando a cabeça tinha de comandar o corpo.
Paula Quintela, enorme Senhora, de uma simpatia e cordialidade extrema, que nunca tinha corrido tantos km. Mostrou a todos do que é capaz e deu-nos o privilégio de testemunharmos o prazer que retira da corrida. É uma excelente atleta, mas é mais uma feliz corredora.
Rui Martins, que tenazmente transformou todas as probabilidades em pó e se levou a Santiago. Apesar de nunca ter corrido mais que 1/2 maratona, com a ajuda de todos conseguiu o inimaginável.
Ângela Lopez, psicóloga do grupo, sempre a incentivar, que logo deu mostras que nenhuma contrariedade a demoveria de fazer todo o Caminho. Com bolhas arreliadoras nos pés desde o primeiro dia, poucos a viram a queixar-se. Dobrou o Caminho como quem dobra ferro com os braços, com garra e resiliência. Também uma estreante em distâncias superiores a 21 km.
Renato Cardoso, companheiro de muitos km, paciente e com um espírito fantástico de partilha. Experimentado explorador de outras montanhas, tri-atleta e ultra-maratonista, abraçou o grupo desde o primeiro dia e pacientemente usufruiu do Caminho.
Patrícia Pereira, a nossa incansável enfermeira, que cuidou de si e de todos, não deixando ninguém sem apoio médico, fosse tratamento de bolhas ou torcicolos. Inexperiente na corrida, confiou na amiga Paula e depois no grupo, e foi cilindrando etapas e batendo recordes de distância. Uma maratona para esta "dura" será como comer regueifa.
Mário Leal, a quem prometi voltar a Caldas de Reys para a última etapa, maratonista, corredor de trail, açoriano que nos trouxe a calma de quem vive a um ritmo mais lento. Não o sendo na corrida, nunca demonstrou vontade de chegar muito rápido ao destino, usufruindo sim de tudo o que o Caminho proporciona, como os mergulhos nos tanques e ribeiros e os km a mais na Labruja.
João Casal, altruísta maratonista, que se prepara para dar a volta a Portugal com objectivos meramente solidários, e que no Caminho encontrou seguramente um ritmo adequado às 53 etapas de 50 km do próximo verão. Para baixar o ritmo de corrida e poder acompanhar e motivar os mais lentos, fez o Caminho em direcção a Santiago, e seguramente 1/3 mais do Caminho de regresso, tantos foram os vai-vem.
E por fim, Susana Brás Santos. Não é bonito deixar para o fim uma menina, mas ficou para personificar o agradecimento pela confiança que depositou em nós, equipa Desafios. A Susana aceitou o desafio sem se preparar para tal. Apesar de ser uma ultra-maratonista com provas dadas, nunca tinha corrido tantos dias seguidos. Pôs-se ao Caminho e deu-nos o prazer da sua excelente companhia. Os dias não seriam os mesmos sem as suas vibrantes gargalhadas e resplandecente sorriso, que todos cativa. Ora desata a correr por "onduladinhos", como chama aos trilhos em sobe e desce (eu chamo parte-pernas, ela diverte-se), ora mergulha em tudo o que é reservatório ou curso de água. Bem disposta, animada e cheia de bom humor, uma agradável companhia.
Obrigado a todos por estes fantásticos 5 dias, onde tive de tudo, menos cansaço.
Os Caminhos de Santiago são assim, únicos, mesmo quando revisitados.